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O Patrimônio Cultural como Ato Social

Tenho certeza que ao falarmos em Casa D’Itália, grande parte da população que habita ou já habitou Juiz de Fora, nativa ou naturalizada, terá alguma lembrança, algum vínculo com este lugar e com tudo que ele representa. Seja pela sua arquitetura singular, seja pela sua simples presença no percurso cotidiano, pela sua história ou por alguma experiência vivida neste espaço, o fato é que, independentemente do tipo e intensidade de relação, a Casa D’Itália certamente habita a memória da comunidade juiz-forana, e, não à toa, foi um dos primeiros bens reconhecidos como patrimônio cultural em 1984, praticamente contíguo à primeira lei de patrimônio municipal, ato vanguardista para época.

A representatividade da Casa D’Itália para a história de Juiz de Fora e para as famílias italianas, a relevância arquitetônica de sua sede e sua patrimonialização, são aspectos muito bem tratados e acredito que muito bem assimilados. Sem inferir em qualquer juízo de valor, gostaria de aproveitar esta singular oportunidade, para destacar um outro viés deste patrimônio cultural, que me é tão caro, relativo ao seu aspecto intangível, a sua capacidade simbólica, ou seja, àquilo que é relativo às pessoas, aos seus fruidores.

Foto: Acervo Márcio Arcuri

Recorro a um grande pensador e estudioso da área, Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, que coloca o patrimônio, antes de mais nada, como um fato social, já que uma edificação como a Casa D’Itália só se torna patrimônio devido a todo um sistema de valores e pessoas que a legitimam como tal. E estes valores e significados atribuídos perpassam a materialidade tectônica de sua construção, e, de certo, a transcende – pois falar de um bem cultural, não é falar de significados imanentes ao próprio objeto em si, obedientemente embutidos em sua arquitetura, mas é, antes de tudo, falar de práticas e relações “cujas propriedades, derivadas de sua natureza material, são seletivamente mobilizadas (…) por grupos sociais para socializar, operar e fazer agir suas crenças, afetos, seus significados, expectativas, juízos, critérios, normas… em suma, seus valores”. [1]

Nesse sentido, conseguimos entender o porquê não podemos separar o sujeito do objeto, a dimensão tangível da intangível dos bens patrimonializados. A Casa D’Itália, enquanto uma imagem corporificada – que percorre o tempo e se faz presente – dá o suporte necessário para que as práticas e apropriações possam se realizar, como podemos ver através do grupo de Tarantolato, da prática da Bocha, do curso do idioma italiano, da gastronomia e de tantas outras manifestações culturais que ali ocorrem. São estes laços os responsáveis por criar o que chamamos de sentimento de pertencimento, sendo que cada laço é singular, pois varia de pessoa para pessoa, fazendo com que a Casa D’Itália possua um simbolismo polissêmico, assumindo relevância, não apenas para a comunidade italiana, mas também, para todos aqueles que se permitem envolver por este lugar, pelas pessoas que ali habitam, pelos sentimentos que ali afloram.

Foto: Acervo Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato

Falar de Casa D’Itália, então, é falar de patrimônio, sim, mas sobretudo, é falar de gente! É falar de nossa história, de nossa cultura, de nossas origens. É dar o devido mérito à sua representatividade no passado, mas também evidenciar sua capacidade enquanto símbolo, de ressignificar, de assumir novos valores. Por isso, falar de Casa D’Itália é falar do momento presente, do nosso agora. E preservar pode ser (como acredito) trabalhar uma maneira para que, no futuro, não se tenha sacrificado todas as possibilidades semânticas e comunicativas da Casa D’Itália. Afinal, “(…)a cidade que não consegue narrar sua história de forma visível é uma cidade esvaziada de conteúdo, indiferenciada das demais e pobre de vida coletiva.”.[2]

[1] MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. In: SUTTI, Weber (Coord.). I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural: sistema nacional de patrimônio cultural – desafios, estratégias e experiências para uma nova gestão. Brasília, DF: Iphan, p. 32, 2012.

[1] CHRISTO, Maraliz de C. Vieira e SOUZA, Maria Julieta Nunes de. Art Déco e Patrimônio Histórico. Nota prévia de pesuisa. Juiz de Fora: ClioEdel, 1998. p. 23.


Fontes:

CARSALADE, Flávio Lemos. A Ética das Intervenções. IPHAN, Mestrado Profissional do Patrimônio Cultural, 2013. Disponível em: <a href=”http://<http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Mestrado%20Profissional%20do%20Patrim%C3%B4nio%20Cultural%202013%20%20-%20CARSALADE.pdf&gt;. Acesso em: 15/12/2020.

CHRISTO, Maraliz de C. Vieira e SOUZA, Maria Julieta Nunes de. Art Déco e Patrimônio Histórico. Nota prévia de pesuisa. Juiz de Fora: ClioEdel, 1998. 25 p. (História de Juiz de Fora, 1). Disponível em: <a href=”http://<https://www.ufjf.br/clioedel/files/2009/10/COD98002.pdf&gt;. Acesso em: 15/12/2020.

MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. In: SUTTI, Weber (Coord.). I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural: sistema nacional de patrimônio cultural – desafios, estratégias e experiências para uma nova gestão. Brasília, DF: Iphan, p.25-39, 2012.


Ana Carolina Lewer Delage Lemos

Arquiteta urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, pós-graduanda em gestão e conservação do patrimônio cultural pelo IFMG – Campus Ouro Preto, vice-diretora da comissão de patrimônio cultural do IAB – Núcleo JF e vice-presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Juiz de Fora. Atualmente também atua na Divisão de Patrimônio Cultural- Funalfa/PJF.


O Projeto de Extensão Universitária da UFJF junto à Casa D’Itália e seus caminhos para interação com a sociedade pós pandemia

Primeiramente como arquiteta e urbanista, reconheço na Casa D’Itália, um importante ícone histórico da nossa cidade. Reconheço sua importância enquanto exemplar arquitetônico tombado, de significativa presença por suas linhas retas que atravessaram o tempo no centro da cidade de Juiz de Fora, contando histórias e marcando épocas. O Laboratório de Estudos em Conforto Ambiental e Sustentabilidade (ECOS) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora, desenvolveu o Projeto Aplicação de Instrumentos de Avaliação Pós Ocupação em projetos de edificações tombadas, em parceria com a Casa D’Itália (JF-MG) com a finalidade de, através deste projeto, os alunos graduandos de Arquitetura e Urbanismo poderem exercitar as técnicas aprendidas nas Disciplinas da graduação além de aprimorar seus conhecimentos na aplicação das técnicas de avaliação pós ocupação e no uso dos equipamentos de medição térmica, lumínica e acústica.

Este projeto conta com uma equipe multidisciplinar que atuará no mapeamento de danos, para os devidos cuidados à uma edificação que é tombada pela Prefeitura de Juiz de Fora como Patrimônio Cultural da cidade. A análise completa da edificação dará diretrizes para viabilizar uma futura reforma do espaço tanto no que diz respeito à acessibilidade e conforto térmico, lumínico e acústico, quanto no que diz respeito às instalações complementares como elétricas, hidrossanitárias e de prevenção e combate ao incêndio e ao pânico. Uma parte da equipe está responsável por mapear as necessidades e traçar as diretrizes de restauro, revitalização e retrofit de patrimônio cultural. A proposta inicial deste projeto envolvia todos os usuários do espaço, afim de apresentar para a cidade esse espaço revitalizado, com a proposta de ser melhor utilizado atendendo às mais diversas classes sociais além de se solidificar enquanto espaço de pesquisa.

Através da técnica de avaliação pós ocupação (APO), buscamos mapear os impactos do adensamento urbano em torno da edificação, que podem ser sentidos na redução da insolação e da ventilação e, à partir dessa identificação, buscar quais as estratégias necessárias para amenizar ou solucionar esses problemas. A principal proposta deste projeto de extensão universitária é a adequação do espaço para seu uso mais incisivo como espaço cultural não apenas para a população ítalo-brasileira mas também para ensinar sobre a cultura italiana e o quanto ela foi importante para o desenvolvimento da cidade de Juiz de Fora.

Este projeto está fazendo o mapeamento de danos ocasionados pelo tempo, das condições de acessibilidade e de conforto térmico, acústico e lumínico. Também está sendo avaliada as formas de preservação como patrimônio cultural e histórico e a sua relação paisagística com o entorno. Por fim, considerando o momento de pandemia e as novas formas de interação visando o distanciamento social, este projeto também está propondo um passeio virtual, que possibilite a visitação através da tecnologia digital. Enquanto extensão universitária, esperamos envolver e dar acesso às mais diversas camadas da sociedade,  valorizando e dando visibilidade aos projetos culturais oferecidos pela Casa D’Itália.

O Laboratório ECOS atualmente dispõe de equipamentos variados de medição de conforto e os bolsistas de extensão universitária podem aprimorar os seus conhecimentos no uso destes equipamentos e técnicas aplicadas. O reconhecimento legal do valor histórico-cultural de um imóvel tombado implica em acatar posturas técnicas de preservação que são regidas por documentos internacionais conhecidos por “Cartas Patrimoniais”, cuja finalidade é a de normatizar mundialmente conceitos e critérios de conservação/ restauração de bens culturais. Dessa maneira, os procedimentos e projetos deverão estar fundamentados nesses documentos, a fim de informar os parâmetros que devem ser observados para o desenvolvimento de um projeto de restauração sem degradar ainda mais o material original e sem mascarar a sua história.

Quando pensamos em restaurar o conforto térmico nessa edificação, buscamos fazer uso dos estudos da geometria solar, do fluxo dos ventos e dos dados climáticos da região. Precisamos, para isso, usar como estratégias a adequação da arquitetura e seus elementos de acordo com os estudos aplicados e o estabelecimento do posicionamento dos ambientes, elementos de fachadas, e matérias que permitem a troca gasosa e térmica dos ambientes. Entendemos que empregar diretrizes de conforto térmico pode contribuir muito para a saúde dos usuários do espaço e a salubridade dos ambientes. Sob a ótica da saúde, um ambiente termicamente confortável previne doenças respiratórias, dermatológicas e cognitivas. Através dos recursos arquitetônicos utilizados para a termorregulação do ambiente pode-se obter uma maior qualidade do ar e temperaturas que evitam a proliferação de fungos. É de extrema importância pensarmos nos impactos da saúde pública quando tratamos de espaços públicos e de eventos como é o caso de um Centro Cultural. Vários estudos comprovam a importância de um ambiente termicamente confortável para o desempenho cognitivo, contribuindo para a aprendizagem em ambientes escolares e produção em ambientes profissionais.

Este projeto visa também a adequação acústica da edificação, que possui um belíssimo auditório, que foi palco de grandes apresentações musicais e cênicas e que precisa de ajustes para ser utilizado com todo o seu potencial. Longe de ser um privilégio de poucos, a arquitetura acústica é um requisito tanto em projetos residenciais quanto corporativos ou comerciais. Nas moradas, o moderno modo de vida das pessoas exige uma relação pacífica entre som e ambiente. Afinal, o cinema entrou em casa, a área gourmet reúne cada vez mais um número de familiares e amigos, e as paredes precisam conter a reverberação sonora, poupando perturbações à vizinhança. Este projeto acústico é estudado possíveis variações do layout de acordo com o uso, avaliando as qualidades e fraquezas do espaço em relação à acústica. Além disso, são analisados individualmente os sistemas construtivos: pisos, paredes internas e externas, hidrossanitário e o desempenho acústico dos demais ambientes de uso coletivo como o saguão de exposição e a área externa.

Apesar da pandemia por COVID-19 ter imposto o isolamento social, trazendo uma série de consequências para o setor de ensino e pesquisa, esta experiência permaneceu promovendo, para todos os estudantes envolvidos, uma importante oportunidade de aplicação prática dos conhecimentos básicos adquiridos em sala de aula, nas diversas áreas de conhecimento envolvidas para busca de soluções de utilização e visitação da Casa D’Itália enquanto espaço cultural aberto ao público. A atuação do projeto extensionista representou um aporte fundamental para a busca de novos parceiros que possibilitariam alcançar esse objetivo. Através da pesquisa, chegou-se à Google Cultural Institute, que tem por objetivo tornar acessível o patrimônio cultural, digitalizando-o e transformando em um passeio virtual.

Entende-se que o compartilhamento com a sociedade deste acervo de forma virtual neste momento de pandemia, representa uma das maneiras mais eficientes de se atingir o público esperado e muito mais além, reabilitar o valor histórico deste patrimônio para toda a sociedade. No caso da Casa D’Itália, já se criará um olhar diferenciado de planejamento das intervenções em edificações tombadas, uma vez que a pesquisa e os projetos de reconfiguração funcional da edificação permanecem sendo feitos, ainda que à distância. O interesse social – com atenção ao patrimônio cultural da cidade – é alvo especial deste projeto, buscando soluções que sejam simples, eficazes e facilmente replicáveis.


Fontes:

Batiz, E. C.; Goedert, J.; Morsch, J. J.; Kasmirski-Jr, P.; Venske, R. AVALIAÇÃO DO CONFORTO TÉRMICO NO APRENDIZADO: Estudo de Caso Sobre Influência na Atenção e Memória. Produção, v. 19, n. 3, set./dez. 2009, p. 477-488

Sorgato, M.J. DESEMPENHO TÉRMICO DE EDIFICAÇÕES RESIDENCIAIS E UNIFAMILIARES VENTILADAS NATURALMENTE. Florianópolis, 2009.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14645 Elaboração do “como construído” (as built) para edificações. Parte 1: Levantamento planialtimétrico e cadastral de imóvel urbanizado com área até 25 000 m², para fins de estudos, projetos e edificação – Procedimento. Rio de Janeiro, 2001.

ASTRO, Jorge; LACERDA, Leonardo; PENNA, Ana Cláudia. Avaliação Pós-Ocupação – APO: saúde nas edificações da FIOCRUZ. Rio de Janeiro. FIOCRUZ, 2004, 116p.

RHEINGANTZ, P. A.; AZEVEDO, G.; BRASILEIRO, A.; ALCANTARA, D.; QUEIROZ, M.. Observando a Qualidade do Lugar: procedimentos para a avaliação pós-ocupação. Rio de Janeiro: FAU-UFRJ (Coleção PROARQ), 2009. Disponível em: http://www.fau.ufrj.br/prolugar acesso em novembro de 2019.

FERNANDES, J. C. (2002) O ruído ambiental: Seus efeitos e seu controle. Faculdade de Engenharia Mecânica da UNESP. Campus de Bauru, São Paulo.

TEIXEIRA, S. C. (2000) Impactos Ambientais Sonoros: Um Modelo de Gestão Sustentável. COPPE/UFRJ. Tese de D.Sc., Rio de Janeiro.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (1987) Níveis de ruído para conforto acústico: NBR 10152. Rio de Janeiro.


Miriam Carla do Nascimento Dias

Arquiteta e Urbanista, pós graduada em Comunicação Empresarial e em Arquitetura de Interiores, Mestra em Ambiente Construído pela UFJF. Atua como pesquisadora no Laboratório de Estudos em Conforto Ambiental e Sustentabilidade da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF.


Giovana Castro, Luis Roberto Silva Cruz e Vanessa Lopes pelo Centro da Memória Negra Virtual de Juiz de Fora


CONSIDERANDO a importância que tem a colônia italiana da formação histórica de nossa cidade consubstanciada na cultura e trabalho de sua gente cujo símbolo concreto é a Casa D’Italia[1]

Escrever um texto sobre a cidade em que a gente nasceu é sempre um exercício de equilíbrio entre os ditos, os esquecidos e as construções de narrativas feitas na brecha entre os anteriores. Quando recebemos o convite para produzir um material a ser publicado pela revista da Casa de Itália nossa primeira reação veio na pergunta: o que o Centro Virtual da Memória Negra tem a dizer numa revista produzida por um espaço que nasceu para louvar a presença italiana na cidade sem relaciona-la ao passado escravocrata? E, confessamos, nossa primeira resposta era uma recusa. Mas, seduzidos pela proposta de ressignificação do espaço, acabamos nos rendendo e cá estamos para uma conversa com vocês.

Me lembro de ter estado na Casa de Itália umas cinco vezes nesses meus 46 anos de vida. Uma delas foi profundamente significativa: minha festa de formatura em História foi lá, fato que pesou profundamente para dar vida a esse texto que vocês leem agora. Me lembro que a época procuramos diversos espaços que coubessem em nossos parcos recursos e, dos mais centrais, a Casa de Itália tornou-se o mais viável. Quando contei pros meus pais minha mãe perguntou: mas eles vão deixar a gente entrar lá? Curiosa, deve ser lindo lá dentro…. Meus pais nasceram em 1940 e nunca haviam posto os pés dentro da Casa de Itália.

Todo esse circunlóquio é para marcar quantas questões estão envolvidas na gestão e conservação de espaços de memória urbana e como, mesmo em sua centralidade visual e territorial, essa memória se faz numa perspectiva do que decide lembrar e de como essas histórias são narradas a partir de um olhar particular sobre cultura. A Casa de Itália foi um dos primeiros imóveis tombados em Juiz de Fora e um dos argumentos utilizados para sua preservação foi seu papel na preservação da cultura juiz-forana. Essa Juiz de Fora que passa todo século XIX como uma das maiores cidades escravistas da Zona da Mata e que, no pós abolição, recebeu levas sucessivas de libertos vindos de cidades próximas em busca de uma vida menos áspera.

Assim, chegamos no que poderia ser considerado um paradoxo. Como uma das maiores cidades escravistas do Brasil no XIX, que já contava com uma grande população de pessoas negras libertas e nascidas livres aqui fincando raízes, mesmo antes do 13 de maio, pode ter sua cultura representada de forma “concreta” na Casa D’ Itália? E aqui é fundamental frisar que não se trata de questionar a legitimidade do tombamento do garboso edifício do n° 2585 da Av. Rio Branco, nem tampouco colocar em xeque a imigração italiana para a região. Nossa provocação é um chamado à reflexão que nos permita pensar uma solução para esse paradoxo: quais os signos recebem a chancela de traduzir a cultura e as memorias de uma cidade direta e visceralmente ligada à ancestralidade negra?

E então? Pensaram? Se sim, o convidamos a ler nossa resposta, que por fim, é bem simples. Não existe um paradoxo! A Casa D’ Itália, bem como a cultura juiz-forana que ela representa e abriga, historicamente, não fazem parte da mesma cidade em que vive o povo negro. A questão levantada pela mãe da formanda (e hoje doutoranda) Giovana, é imperativa para essa conclusão. Quando ela questiona se a família poderá de fato entrar no local escolhido para a festa de formatura, não o faz de forma ingênua. É muito mais uma pista para refletirmos como Juiz de Fora tem gerido os seus espaços ao longo do tempo e como essa gestão é permanentemente atravessada pela lógica segregacionista.

Essa geografia da exclusão, herdada de uma lógica de estruturação racializada pelo viés escravocrata, parece se dar de maneira especialmente natural nessa Manchester Mineira que em 2018 aparece rankeada com a terceira cidade brasileira com maior desigualdade entre negros e brancos[2]. Essa desigualdade também se expressa na memória do município, que via de regra, sempre procura elevar de forma ufanista as “raízes” europeias da cidade moderna, numa narrativa que se perpetua no imaginário, mas também nas construções e imagens que ratificam como os desejos de preservação, representação e significação se constituíram silenciando e ocultando a presença negra na cidade. Assim, locais como a Casa D’ Itália, onde a “boa sociedade” reunia-se para fortalecer seus vínculos e marcar a presença de determinados sujeitos na espacialidade urbana acabaram por se transformar em modelos basilares de histórias parciais, que pouco a pouco, foram se confundindo com uma história única promovida pela ação prática e discursiva de invisibilização de tudo aquilo que não era entendido como digno de narrativas, atravessados por uma perspectiva que dizia que ali não era seu lugar.

Dilui-se assim nosso aparente paradoxo, solucionado pelo desenho da face de Juiz de Fora como uma cidade partida: distinta em suas duas faces. Uma que se proclamou central e que se firmou como signo da modernidade a partir da negação de seu passado escravista, e outra, fruto vivo desse passado, marginalizada, esquecida, alijada das histórias das efemérides e das construções cujo trabalho erigiu.  Essas dinâmicas que marcaram a formação histórica dessa “cidade partida” têm impacto direto nas relações sociais, econômicas e políticas da atualidade e urge que sejam revistas através de um comprometimento coletivo na construção de uma sociedade que não mais silencie ou hierarquize memórias.

É com base nessa urgência, misto de resgate memorialístico e reparação histórica, que o LABHOI/AFRIKAS UFJF vem procurando reunir os resultados das pesquisas bem como registros de toda natureza que contribuam para a reversão da invisibilidade da experiência negra que ainda persiste na memória pública da cidade. É também nesse espírito que foi criado em O “Centro Virtual da Memória Negra de Juiz de Fora”, projeto empreendido pela rede de pesquisa LABHOI/Afrikas UFJF e que tem como cerne a defesa permanente da necessidade dialógica e colaborativa que nos permita construir um compromisso público de ressignificar uma história da cidade e seus espaços efetivamente comprometida com TODAS as memórias, de forma a que possamos, em breve, traçar uma linha discursiva que coloque essas duas cidades num mesmo plano.   


[1] Processo de tombamento da Casa D’Italia de Juiz de Fora, pg 04.

[2] https://globoplay.globo.com/v/7177920/ . Juiz de Fora é a terceira cidade do país com maior desigualdade racial. 7 min. Exibição em 21 nov 2018


Referências bibliográficas:

BATISTA, Rita de Cássia Souza Félix. O negro Trabalho, sobrevivência e conquistas em Juiz de Fora de 1888 a 1930. Juiz de Fora – MG: Funalfa Edições: 2006.

FRANCISCO, Raquel Pereira. Pequenos Desvalidos: a infância pobre, abandonada e operária de Juiz de Fora (1888-1930). 2015. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense.

GUIMARÃES, E. S.. Múltiplos Viveres de Afrodescendentes na Escravidão ao e no Pós-Emancipação: família, trabalho, terra e conflito (Juiz de Fora – MG, 1828-1928). 1ª. ed. São Paulo, Juiz de Fora: Annablume, FUNALFA Edições, 2006. v. 1000. 348p .


LABHOI/Afrikas UFJF

Foi criado em 2018, como extensão da linha de pesquisa Memória, Áfricas, Escravidão do LABHOI – REDE DE PESQUISA, com sede na Universidade Federal Fluminense. Fundado na UFF, em 1982, desde então o LABHOI se consolidou como um centro de referência, nacional e internacional, na produção, arquivamento e análise de fontes orais e visuais, na construção de arquivos digitais, discussão sobre história pública, memória e educação.  Ver mais em: https://www.ufjf.br/labhoi/


Rosa e Momo


Desde a década de 1950, o cinema italiano se tornou parte da cultura popular, trazendo aos amantes da sétima arte grandes produções no gênero da comédia, que cresceu ainda mais na década de 70. Nos dias atuais, os cinemas continuam se fortalecendo na Itália, principalmente nos gêneros da comédia e romance, além de ter destacado grandes nomes de referência para o cinema mundial, como por exemplo os diretores, Bernardo Bertolucci, Federico Fellini, Roberto Benigni e também grandes nomes na atuação como Alida Valli, Gina Lollobrigida e Alberto Sordi.
Nos últimos anos, a Casa D’Italia de Juiz de Fora tem trazido ao público muitas destas obras através do Festival CineItáliaJF e hoje temos o prazer de anunciar a nova coluna sobre Cinema Italiano que irá compor a Revista Casa D’Italia, escrita pelo colunista cinematográfico Victor Bitarello. A cada edição da Revista, traremos uma crítica de um filme, convidando o público leitor a se envolver e se emocionar com as grandes obras produzidas pela Itália.


“Rosa e Momo” (“La Vita Davanti a Sé”) conta a história de um improvável encontro e entrelaçamento de tragédias humanitárias e pessoais.

Rosa é uma senhora já bem idosa, judia, sobrevivente do holocausto judeu da Europa das décadas de 30 e 40 do século passado. Quem brilhantemente nos traz essa personagem é o rosto do cinema italiano, Sophia Loren.

Momo, Ibrahima Gueye, é um menino senegalês, muçulmano, que se tornou órfão após seu pai assassinar sua mãe, que havia decidido a não mais se prostituir.

Após levar a vida como prostituta, Rosa, a fim de auferir renda, passa a cuidar dos filhos das demais mulheres que viviam do sexo.

Seu encontro com Momo se dá a pedido do amigo Cohen, seu médico, que se dispunha a dar cuidados básicos para o menino até então, mas que não estava mais conseguindo lidar com ele, e via em Rosa uma pessoa mais enérgica, que talvez conseguisse aquietar um pouco o garoto.

Apesar do dificílimo primeiro momento de convivência, já que Momo era uma criança bastante desgostosa da vida, e sem interesses em seguir normas, pouco a pouco um sentimento de empatia surge entre os dois, que se observam tão sós e tão parecidos, mesmo com tantas diferenças.

“Rosa e Momo” não é um filme sobre as belezas de Florença, Veneza ou Roma. É um filme que fala de uma Itália que também abriga misérias e tristezas humanas, misérias estas que estão em todas as partes do mundo.

O filme tem roteiro e direção do filho de Sophia, Edoardo Ponti. Direção e roteiro transcorrem de forma simples, sem grandes idas e vindas, ou ideias implícitas. O conteúdo nos é transmitido com bastante clareza, porque o foco não é o roteiro, e sim os personagens. Há um esforço em gerar em nós uma empatia pelo imenso sofrimento que duas pessoas como aquelas já experimentaram em suas vidas.

O filme conseguiu. E isso é lindo.


Victor Bitarello

Tem formação em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF – e atualmente encontra-se cursando o quarto ano da Faculdade de Psicologia do Centro Universitário Estácio Juiz de Fora. Atua na área jurídica desde sua formação, em 2006. Foi ator de teatro desde 1998 nos grupos GATTU e Mise en scène, tendo encerrado essa fase de sua vida em 2012. É dançarino no grupo folclórico italiano Tarantolato. Há 7 anos atua em parceria com o portal ACESSA.com, no qual é colunista cinematográfico. Apresenta lives semanais no perfil do Instagram do referido portal, bem como em seu perfil pessoal, o @bitarellovictor.


Do carnaval veneziano ao baile de máscaras do Tarantolato

Chegamos ao mês de fevereiro e como Jorge Ben Jor, disse em “País Tropical”,  “em fevereiro, tem carnaval”! Certamente esse não foi o carnaval que esperávamos, já que ainda estamos sofrendo os efeitos causados pelo Covid-19. Apesar disso, vamos aproveitar a ocasião para ler e conhecer sobre o carnaval de Veneza e também, um pouco mais sobre o Grupo de Danças Folclóricas Italianas Tarantolato.

O Carnaval é considerado uma das comemorações mais populares e representativas do mundo. O modo como conhecemos a festa hoje, teve origem na Idade Média e, ainda que tenha uma aparência fortemente secular, está relacionada ao catolicismo. Seguindo o calendário cristão, o carnaval antecede o período da Quaresma. Poderíamos compreender com um período de festejos e até mesmo excessos, que precedem o jejum quaresmal.

No Brasil, o carnaval chegou durante o período colonial com os portugueses. Desde aquela época, acontecia uma série de  jogos e brincadeiras populares e, sobretudo, prevalecia a ideia de liberdade, algo ainda percebido nos dias de hoje. Essa festividade também acontecia em outras partes da Europa. Na Itália, por exemplo, viam-se o uso de fantasias e desfiles urbanos. Neste ponto, o carnaval italiano e o brasileiro, compartilham hoje, algumas semelhanças. Mas para esse texto, optamos por ressaltar algumas particularidades e curiosidades.

A primeira diferença se mostra pelo clima. Enquanto no Brasil os foliões se deparam com altas temperaturas, na Itália a festa acontece ainda no final do inverno e por isso, as temperaturas são mais baixas, induzindo as pessoas a usarem fantasias mais aquecidas. Para além das diferenças climáticas, é mais comum vermos entre os brasileiros as folias dos bloquinhos, os trios elétricos, as escolas de samba e o frevo. Entre os italianos é possível se deparar com o luxo das fantasias, os desfiles de carros alegóricos, as comidas típicas e até uma batalha de laranjas.

O carnaval na Itália tem uma origem bem antiga, remetendo ao período medieval. Para se ter uma ideia, em Veneza há menções sobre a festa desde o final do século XI, cujo intuito era desfrutar um período de brincadeiras, diversão e jogos em âmbito público antes do início da quaresma. Entretanto, isso se tornou mais claro posteriormente. Na região da Veneza, no ano de 1296, o Senado decretou que o último dia antes da quaresma fosse festa, formalizando assim o Carnaval.

Em Veneza, o Carnaval se destacou de tal modo, que tornou-se um dos mais famosos do mundo. Desde o século XVI, virou tradição o uso de máscaras, muitas vezes por parte da nobreza, que usava como uma brecha para se disfarçar e sair junto ao povo. Os trajes como vemos hoje remetem ao século XVII, sempre com muita pompa explicitam apetrechos, seda, penas e chapéus bem trabalhados.

Durante um longo período o Carnaval de Veneza ficou, digamos, apagado de seu esplendor, alcançado nos séculos XVII. Foi somente em 1980, que o Carnaval resgatou suas raízes históricas, permanecendo assim até à contemporaneidade. Desde então, a Praça São Marcos vira palco desta festa, que acontece ao longo de 10 dias, sendo a abertura oficial dada a partir do Voo do Anjo, seguido pelos desfiles, concursos de fantasias e toda a exuberância da festa!

Em Juiz de Fora, o Grupo de Danças Folclóricas Italianas Tarantolato trouxe elementos do carnaval veneziano para as festas municipais. Em conversa com a presidente do grupo, Mariza Fernandes Pinto Gomes, nos foi dito que o grupo leva, em suas apresentações, uma coreografia chamada Valsa de Veneza. Nesta, os dançarinos portam máscaras e os movimentos vão demonstrando referências sobre o carnaval de Veneza. No ano de 2014 o Tarantolato manifestou esse seu lado carnavalesco na avenida, quando participou do desfile da Escola de Samba Real Grandeza. Por fim, o grupo também foi responsável por promover, no Salão da Casa d’Italia, um Ballo in Maschera, que contou com um retorno positivo da população em todas as suas edições.

Infelizmente, estas comemorações e festejos foram pausados. Em Veneza, o Carnaval foi silenciado pelo segundo ano consecutivo. Agora, por conta dos protocolos de segurança sanitária, exigidos pelo risco de propagação da Covid-19. Esperamos, sinceramente, que este mal passe logo e que o Carnaval retome a sua magnificência!


Referências:

https://www.acessa.com/carnaval/2007/materias/mascara/

GOMES, Mariza Fernandes Pinto. Grupo de Danças Folclóricas Italianas Tarantolato. Rafael Bertante. Juiz de Fora, 2021.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/02/07/em-veneza-grupo-de-folioes-faz-silencio-em-praca-vazia-durante-carnaval-cancelado.ghtml

MARANI, Vitor Hugo; LARA, Larissa Michelle. Relações entre Corpo e Máscara no Carnaval de Veneza. In LICERE, Belo Horizonte, v.17, n.4, dez/2014.


Rafael Bertante

Graduado e mestre em História pela UFJF, com ênfase em sociabilidade e cultura italiana, atou em atividades patrimoniais no Laboratório de Patrimônios Culturais. Pós-graduado em Ciência da Religião. Cursa atualmente doutorado em Ciência da Religião pela UFJF e atua com pesquisa em arquivos.


ENTREVISTA: Ramón Brandão


1 Atuante na comunidade artística de Juiz de Fora com diversas exposições, livros lançados e projetos, como você vê a importância dos espaços de cultura para a produção artística da cidade?

Os espaços culturais são os espaços onde a produção cultural chega ao público através de exposições de artes visuais, espetáculos, lançamentos literários e outras manifestações. São lugares destinados também à discussão sobre o papel da arte na sociedade, e isto é fundamental para que a cultura permaneça viva e aberta a múltiplas visões, interpretações e críticas. Inclusive, com mostras virtuais que podem ampliar mais ainda sua abrangência com a chancela de instituições culturais; nós estamos assistindo isto agora, com o isolamento social.


2 A exposição em exibição na Galeria Online da Casa D’Italia “Semplicemente Disegno” é uma viagem por trabalhos ao longo de sua carreira, trazendo obras que datam de 1984 a 2020. Em 36 anos, como você avalia o cenário artístico em Juiz de Fora?

Penso que, no que tange às artes visuais, a cidade viveu as últimas décadas do século XX numa efervescência cultural, especialmente com surgimento do Espaço Mascarenhas, conquistado com muita luta e visto como esperança de novos tempos na arte, além da realização de várias mostras coletivas e individuais ocupando galerias e qualquer espaço que se abrisse a novas experimentações. Foi um momento especial! Contudo, acompanhando o que ocorreu no panorama artístico nacional, e mundial, toda aquela efervescência parece ter emanado mais luz do que calor, seguindo-se á um período, talvez mais difuso nas propostas; o multiculturalismo, cuja assimilação ainda é um desafio, quase como uma esfinge! Não vejo isto com desânimo, ao contrário: períodos assim são bons para reflexões e experimentações. Às vezes é preciso sair da pista de dança para ver como toca a banda, não é?


3 A Casa D’Italia de Juiz de Fora desde 2015, com a criação do Departamento de Cultura, vem desenvolvendo suas iniciativas em prol da cultura e suas manifestações artísticas buscando a valorização dos artistas da cidade e região. Como se deu a aproximação entre você e a instituição?

Foi numa exposição do Grupo Pulsartes realizada no final de 2019 que se deu minha primeira aproximação oficial com o Departamento de Cultura da Casa D’Itália. Depois com a notícia da possibilidade de seu desaparecimento, veio a necessidade de tentar fazer algo no sentido de uma mobilização em torno da Casa. Porém, anteriormente já conhecia o ateliê do artista Rogério de Deus, que funciona na Casa e também utilizei serviços digitais oferecidos por um escritório que ocupava uma das salas, e tinha conhecimento dos cursos do idioma italiano e gastronomia. Hoje, imagino seus corredores, salas e recantos serviriam de forma esplêndida como cenários para produções em cinema e vídeo. Lugares ainda a serem descobertos!


4 Qual sua memória mais remota com a Casa D’Italia de Juiz de Fora? Qual a importância do prédio e suas associações para você?

Quando não havia o prédio na esquina da Avenida Rio Branco com Rua Espírito Santo, a Casa D’Italia era mais visível, e talvez minhas caminhadas subindo a Avenida rumo ao Senac – onde fiz curso de desenhista de propaganda em 1980 – fez-me reparar aquele prédio anguloso com aparência severa escrito “DOMUS ITALICA” na fachada. Mais tarde entendi o que significava. Então através de jornaleiros italianos, descobri que era uma espécie de embaixada italiana em Juiz de Fora. Tempos depois descobri o estilo arquitetônico Art Deco, que imediatamente me fez lembrar o “prédio da Itália”. Assim, juntando impressões e memórias alheias, fui descobrindo-o aos poucos. Lembrando que frequentei os bailes populares que aconteciam  no seu salão. Ah se suas paredes falassem!!!!


5 Agradecemos a atenção e pedimos que deixe um recado para os leitores da Revista Casa D’Italia.

Eu é que agradeço, e deixo a seguinte mensagem: A Casa não é apenas da Itália, é nossa! Vamos olhá-la como um patrimônio único que Juiz de Fora guarda; é nossa história que está ali, vamos abraçá-la!


Ramón Brandão

Artes pelo antigo Curso de Artes Visuais (Atual Instituto de Artes e Design, IAD) com Licenciatura plena em Educação Artística. UFJF; 1991
Especialização em História Cultural pelo Programa de Pós-graduação em História da UFJF, 2003.
Mestre em História pelo Programa de Pós-graduação em História. UFJF, 2013.


Roberta Stroppa, a musa de uma história que não deu certo

Aquela que a glória tornou famosa

Para quem não sabe, este é um dos significados do nome Roberta. De origem normanda, a versão masculina chegou à Inglaterra e, de lá, caiu no gosto dos países latinos.

Eu sou uma das 693 Robertas de Juiz de Fora, uma das 14.353 mineiras e uma das 142.504 brasileiras, baseado em dados do censo demográfico de 2010. 

Conforme o site Nomes do Brasil do IBGE, o aumento na escolha do nome começou nos anos 1960, explodiu entre 1970 e 1980 e, depois, entrou em queda. 

Como há quase 60 anos, houve a explosão da Jovem Guarda, é possível supor que Roberto Carlos inspirou fãs a batizarem as filhas. No meu caso, o motivo foi a música italiana de 1963, uma das favoritas dos meus pais. E o nome foi meu primeiro vínculo com a Itália. Entre minhas primeiras lembranças está ouvir a versão de “Roberta” gravada no compacto de 1976. E eu sempre quis entender a letra e quem era a mulher que, sem me conhecer, determinou um ponto fundamental na minha vida.

Compacto Peppino di Capri de 1976 da minha família

Roberta Stoppa, a musa de uma história que não deu certo

Roberta Stoppa tinha 19 anos quando se casou com Giuseppe Faiella, de 21, em 3 de maio de 1961. A cerimônia teve ampla cobertura na imprensa e multidão cercando a igreja para acompanhar o enlace do astro do grupo Peppino di Capri ei suoi rockers e da jovem de Turim, uma das modelos mais bem pagas da Itália.

Site Parachoque de caminhão 1961 – Casamento de Peppino e Roberta Stoppa

De acordo com a pesquisa de Gustavo Gossen, para o site Le Canzoni, Peppino contou que, uma noite, teve a inspiração de uma letra sobre um homem que implora o perdão da amada. Ele disse que acordou Roberta e pediu para usar o nome dela. No entanto, também despertou especulações sobre traições e crises na relação, nada confirmadas.

Foi sucesso imediato. “Roberta” ficou por quatro semanas nas paradas de sucesso em 1963 e o grupo vendeu cinco milhões de discos.

Photo by Mondadori via Getty Images

O casamento terminou em 1970. A essa altura, Roberta e ele viviam separados por motivos profissionais: ela em Milão, ele em Capri. “Eu estava cheio de dívidas e o humor não permitia que eu fosse brilhante como ela queria. Bastava de festas, de vida mundana, mas ela não aceitou. Era feita para aparecer e ser admirada”, disse em uma entrevista citada pelo Le Canzoni.

Mas há outro lado nessa história. Após uma entrevista onde Peppino disse que o filho Igor foi “o resultado de uma tentativa de reconciliação, quase um erro de percurso”, Roberta Stoppa falou em 2010 ao Corriere del Mezzogiorno, 40 anos depois da separação.

“Soube de sua história com Giuliana da pior maneira possível: quando descobri que estava grávida. Abraçando-o, eu te disse que finalmente esperava um bebê, seu filho. E você, seco, me respondeu: ‘Que pena, agora estou apaixonado por outra’. O mundo desabou em cima de mim e me refugiei em Milão, onde passei toda a minha gestação sem te ver: você deixou uma esposa grávida em 1970 quando não havia nem divórcio na Itália”.

Oficialmente, Peppino conheceu a bióloga Giuliana Gagliardi em 1970. Em 1973, lançou “Champagne” e ressurgiu na carreira. Eles se casaram em 1978 e tiveram dois filhos: Edoardo e Dario. Giuliana morreu em julho de 2019, aos 68 anos. Peppino afirmou ao Corriere della Sera ter perdido “o meu ponto de referência, a satisfação para criar uma música nova”.

Tudo passa, menos os clássicos

Sempre que Peppino vem ao Brasil, “Roberta” é música obrigatória no repertório, ao lado de “Champagne”. E também em apresentações televisivas, como duas vezes no Domingão do Faustão em maio de 2017 e em março de 2019.

Na minha vida, abriu a porta para eu conhecer e me interessar por outras vozes italianas como Nico Fidenco, Eros Ramazzotti, Laura Pausini, Tiziano Ferro, Andrea Bocelli, Il Volo. Uma jornada que me levou a subir os degraus da Casa D’Italia há alguns anos para estudar o idioma. Para mim, era uma necessidade que superava qualquer rótulo básico de utilidade.

E ser uma garota com nome de música me rendeu alguns momentos inesperados. Como a vez em que um professor na faculdade falou durante a aula, em um tom não muito elogioso sobre a música italiana, que “Roberta” era música de elevador. Eu perguntei em qual prédio, porque eu iria passear lá. Ele não me respondeu.

A mais incrível, disparado, foi quando entrevistei o coordenador do comitê intertribal, Marcos Terena, que estava em Juiz de Fora para a realização do 1º Campeonato Nacional de Nações Indígenas, em 2007. Quando me apresentei, ele começou a cantar:

– Lo sai, non è vero che non ti voglio più. Lo so, non mi credi, non hai fiducia in me… Roberta. 

Quando a música tem o caminho para o sentimento das pessoas, não há fronteiras.


Referências:

BARRACO, Morgan K. ‘Roberta Stoppa ex moglie di Peppino di Capri/ Il figlio Igor ‘quasi un errore di percorso…'”. In: Il Sussidiário. 25/07/2019. Disponível em <https://www.ilsussidiario.net/news/roberta-stoppa-ex-moglie-di-peppino-di-capri-il-figlio-igor-quasi-un-errore-di-percorso/1908946/&gt;. Acesso em 12/01/2021

BRANCACCIO, Filomena. “Peppino di Capri e i suoi Rockers”, il libro che celebra la carriera dell’artista partenopeo. In: Mydreams.it. Publicado em 24/02/2019. Disponível em <https://www.mydreams.it/peppino-capri-suoi-rockers-libro-celebra-la-carriera-dellartista-partenopeo/&gt;. Acesso em 19/01/2021

GOSSEN, Gustavo. Saiba quem é a Roberta, da música de Peppino di Capri. In: Le Canzoni – Música Italiana. Publicado em 16/10/2020. Disponível em <https://lecanzoni.com.br/saiba-quem-e-a-roberta-da-musica-de-peppino-di-capri/&gt;. Acesso em 12/01/2021

IBGE. Nomes do Brasil. Disponível em <https://censo2010.ibge.gov.br/nomes/#/search&gt; Acesso em 12/01/2021.

“Peppino di Capri Roberta non ascolta piu ‘Mi lasciasti incinta nostro figlio Igor”. In Corriere del Mezzogiorno, publicado em 16/04/2010. Disponível em <https://corrieredelmezzogiorno.corriere.it/napoli/notizie/ore_piccole/2010/16-aprile-2010/peppino-capri-roberta-non-ascolta-piumi-lasciasti-incinta-nostro-figlio-igor-1602845855486.shtml&gt;. Acesso em 12/01/2021.

Peppino ha detto si. Istituto Luce Cinecittà. Publicado em 25/06/2021. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=vcmDcJLc-AM&feature=emb_logo (La settimana Incom 02070 del 03/05/1961 Il matrimonio tra Peppino di Capri e Roberta Stoppa)

ROBERTA. In: Dicionário de Nomes Próprios. Disponível em <https://www.dicionariodenomesproprios.com.br/roberta/&gt;. Acesso em 12/01/2021.


Roberta Oliveira

Jornalista graduada e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Com experiência em rádio, TV,
internet, atualmente atuando com marketing de conteúdo, na Experta Media e como
repórter do portal Toque de Bola. Criadora e responsável pelo blog Literatura de Mulherzinha (https://livroaguacomacucar.blogspot.com/) desde 2005.


Espaços culturais e a fruição cultural de nossa sociedade

Ao longo dos tempos, vários são os lugares que atendem à classe artística, e contribuem para o desenvolvimento da cultura em Juiz de Fora. Esses lugares recebem oficinas de música, canto, artes visuais, além de diversas manifestações da cultura popular, e para além do espaço físico, também proporcionam valorização e conscientização sobre a cultura, que é um direito de todos nós.

O engajamento das classes artísticas em Juiz de Fora foi responsável pela criação de um importante espaço público da cidade nos anos 1980. O movimento intitulado Mascarenhas meu Amor é um exemplo nítido do papel da sociedade na reivindicação por locais destinados à cultura. O resultado foi a transformação da antiga Fábrica Têxtil Bernardo Mascarenhas, fechada e abandonada, em um centro cultural multiuso que desde 1987 tornou-se referência como espaço destinado às expressões da cultura.

Para além de locais geridos pelo poder público, os artistas de Juiz de Fora sempre contaram com importantes espaços culturais privados, que ao longo dos anos sediaram grandes eventos no município. São centros culturais, cinemas, galerias de arte, com um anseio comum de dar voz ao efervescer da cultura. Esses espaços proporcionam momentos de prazer e, ao mesmo tempo, conscientizam a população de que indiferentemente da classe socioeconômica, a cultura e o lazer é um direito de todos.

Para além do contexto mais recente, no qual grande maioria dos espaços culturais tiveram suas atividades suspensas em razão da pandemia do COVID-19, vários lugares de Juiz de Fora já enfrentaram problemas que prejudicaram sua continuidade. Questões muitas vezes evidenciadas somente quando esses espaços manifestam preocupação em relação a continuidade de suas atividades. É o que vimos com a demolição do Cine Excelsior, com o encerramento das atividades do Cine Palace, além do quase despejo do Museu do Crédito Real, Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora, Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly e Associação Cultural Luso-Brasileira, do prédio do antigo Banco de Crédito Real de Minas Gerais, cujo Estado de Minas na época, solicitou sua desocupação visando utilizar o espaço para alocar secretarias administrativas. Situação que após várias negociações, culminou na permanência das instituições, que continuam no local custeando suas despesas (como sempre ocorreu) e desenvolvendo suas atividades de extrema importância para o município.

Recentemente foi a vez da Casa D’Itália nos despertar as mesmas angústias, quando foi anunciado o leilão do imóvel e consequentemente o fim das atividades culturais no local. Situada em endereço nobre no centro da cidade, além de auxiliar as famílias de imigrantes e representar a agência consular da Itália em Juiz de Fora, a instituição através de sua mantenedora, a Associação Ítalo Brasileira San Francesco Di Paola, abriga diversas atividades culturais, como coral, orquestra de cordas, aulas de música, escola de pizzaiolo, grupo de bordadeiras, atelier de artes, cancha de bocha, aulas de artes marciais e yoga.

O recente contexto desperta preocupação, e situações como essa expõem incertezas, mas também nos desperta a possibilidade de novos diálogos e a busca por soluções, que permitam a continuidade de espaços que contribuem a fruição cultural necessária para nossa sociedade. O cenário demonstra que as políticas públicas de proteção do patrimônio cultural são instrumentos jurídicos de extrema importância, porém, para serem eficazes, devem ser aliados a ações de promoção que incentivem a continuidade de seus trabalhos através de ações de fomento, educação e divulgação.

Para isso, é fundamental perceber que a Casa D’Itália além de um importante espaço de celebração da cultura italiana, oferece uma série de serviços a seus frequentadores, e atende toda a cidade de Juiz de Fora não só pela dinâmica de suas atividades, mas pelo simples fato de existir enquanto lugar, fazendo parte de uma paisagem urbana dotada de diversas expressões arquitetônicas, capaz de fomentar o turismo cultural, motivando o turista a conhecer a cidade e sua história, atraindo visitantes e desenvolvendo economicamente toda a região.

Sabemos que é dever do poder público estimular a continuidade de espaços que contribuem para uma vivência mais prazerosa de nossa cidade. Entretanto, cabe a toda a sociedade refletir até que ponto valorizamos e participamos da vida desses locais, entendendo que sua continuidade deve ser defendida imediatamente por todos nós, entendendo que estes locais guardam nossa memória, e fazem parte de nossas vidas.


Fabricio Fernandes

Especialista em Gestão do Patrimônio Histórico e Cultural, Membro do Conselho Municipal de Cultura e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural.


O educar para o patrimônio: um desafio de todos

O caminhar pelo centro da cidade pode assumir novos aspectos quando nos abrimos a sons, cores e cheiros do cotidiano urbano. Quem nunca se guiou pelo Apito do meio dia no calçadão da Halfeld e marcou um encontro no pirulito do Parque Halfeld? E quem nunca se referiu à pipoca do Cine Palace mesmo que o cinema nem exista mais? O patrimônio cultural se faz nessa percepção do cotidiano, dos símbolos que figuram nossa identidade e através da forma em que nos conectamos com o espaço em que habitamos.

A diversidade de sentidos que uma imersão pelo simples caminhar atento pela cidade pode provocar e a percepção dos elementos culturais que fazem parte do contexto urbano – sejam elas positivas ou não – podem configurar projetos diversos. Esse processo educativo faz parte do reconhecimento do repertório de cada indivíduo, formado por suas vivências e percepções do meio. Quando pensamos em eventos de educação para o patrimônio, normalmente relacionamos a produções de entidades ligadas ao poder público. Porém, é preciso que a sociedade assuma cada vez mais o papel de agentes do patrimônio cultural, numa relação de participação ativa dos processos de patrimonialização de bens culturais.

Folia de Reis no bairro Ipiranga em 6 de janeiro de 2020. Autoria: Carine Muguet

Nos espaços de gestão percebemos, ainda que a passos lentos, um movimento positivo de rompimento com as práticas naturalizadas de educação formal – da mera exposição de fatos históricos e caracterização de estilos das construções tombadas. Ainda que sejam recentes os debates em torno da necessidade de ressignificar elementos patrimonializados pelo Estado e ratificados por muitos centros culturais, museus e afins, se faz necessário mais do que acompanhar. A ação passa pelo envolvimento com a sociedade.

A educação para o patrimônio requer o caminhar no roteiro da “memória exemplar”, nos termos de Todorov (2000), para transformar o “lugar de memória” num espaço de reflexão crítica, que tem o indivíduo como agente ativo no processo de ressignificação. A partir disso, ao pensar nos espaços públicos edificados e no processo histórico de formação deles, devemos levar em consideração os sujeitos, numa construção coletiva e democrática do conhecimento. 

É comum a crítica a espaços culturais como museus, bibliotecas e prédios públicos em geral, como locais pouco atrativos, seja pela arquitetura rebuscada, pelo tipo de uso ou por não representar o sentimento de pertencimento, ou seja, distantes do repertório do sujeito. Nessa perspectiva, Pierre Nora (1993) identificou que quando a sociedade passou a considerar um elemento material ou imaterial, como significativo elo, parte da identidade coletiva, foi possível compreender os sentidos de preservação de determinados elementos.

Em recente publicação local, a professora do Centro Cultural Brasil Angola (CCBA), historiadora Ana Paula Bôscaro analisou os lugares de memória na cidade de Juiz de Fora, sobretudo, ruas com nomes de grandes escravocratas que, por décadas, estamparam placas de homenagens, bustos e denominaram edifícios. (TRIBUNA DE MINAS, 12 de julho de 2020) Na análise, ela verificou a cristalização de memórias da elite juiz-forana, reforçada pelos escritos tradicionais sobre a cidade e replicada não apenas pelos gestores públicos, mas por muitos proprietários e administradores de bens tombados, centros culturais e até na educação formal, sem que haja o devido olhar crítico.

O processo de reconhecimento de todos os indivíduos que fizeram parte da formação da cidade é um direito à memória. Nesse sentido, a ocupação dos espaços culturais preservados deve ser incentivada e potencializada. Na proposta de educação “para” o patrimônio, o objetivo é romper com os modelos tradicionais, buscando aproximar o público do objeto. O cidadão deve ser visto, portanto, como sujeito ativo, produtores e protagonistas da cultura. Embora seja comum o relato de moradores que nunca visitaram um prédio tombado ou já passaram por praças e monumentos sem notar ou refletir sobre seus significados, o desafio é fomentar diferentes meios de contato com os bens culturais.

Assim, é fundamental não perder de vista que a construção de novos sentidos aos bens culturais é um movimento coletivo e multifacetado. E isso requer atenção aos interesses do presente, buscando a compreensão de como esses bens foram tomados como de interesse de preservação no passado. A integração dos centros de ensino, comunidade, gestores desses bens culturais e dos espaços públicos é fundamental, devendo buscar ampliar os meios de diálogo e estabelecer políticas públicas de preservação consonantes com o interesse social.

Nesse sentido, toda a comunidade pode compreender o seu papel de mediador na educação para o patrimônio, atuando em conjunto ao poder público, na busca por instrumentos mais cidadãos de diálogo, em prol da construção coletiva de estratégias de ressignificação dos bens culturais. Ao estimular a participação ativa das comunidades nesse processo de apropriação dos patrimônios, estaremos potencializando o interesse das comunidades na preservação e salvaguarda.


Fontes:

TODOROV, Tzvetan. Los abusos de la memoria.  Barcelona: Paidós, 2000

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo: PUC-SP. N° 10. 1993

OLIVEIRA, Ana Amélia R.; GOMES, Alexandre O. A construção social da memória e o processo de ressignificação dos objetos no espaço museológico. Revista Museologia e Patrimônio. V. 3, N.2, jul-dez.2010

BÔSCARO, Ana Paula Dutra. Lugares de memória. Juiz de Fora: Tribuna de Minas. Caderno Tribuna Livre. Edição 12 de julho de 2020. Acesso em 10 de janeiro de 2021 <https://tribunademinas.com.br/opiniao/tribuna-livre/12-07-2020/lugares-de-memoria.html>


Carine Silva Muguet

Mestre em História Social pela UFRJ, Licenciada e Bacharela em História com ênfase em Patrimônio pela UFJF. Atualmente é servidora pública da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), onde desempenha trabalhos de pesquisa para reconhecimento e salvaguarda de bens culturais no município de Juiz de Fora. Atuando como historiadora na gestão e conservação de acervos da Fundação, é ainda supervisora de Pesquisa, Memória e Educação, desenvolvendo projetos educativos e atendimento a pesquisadores.


O “Eremita da Caridade” e seus passos em Juiz de Fora: reminiscências da Capela San Francesco di Paola na Casa d’Italia

Há quase trinta anos se oficializou em Juiz de Fora, mais precisamente nas dependências da Casa d’Italia, a capela San Francesco di Paola. Era o início de uma caminhada, que ainda resiste ao passar dos anos e mantém viva a devoção ao santo eremita Francesco di Paola. Tanto a trajetória do santo, como a da capela, são instigantes, nos remetem a fé e persistência. Esta foi a sensação que tivemos após passar uma manhã conversando com as atuais coordenadoras da capela, Nicolina Riccio Rovisi e Mary Zanelatto. 

Foto: Rafael Moreira

A história começa no ano de 1416, quando o pequeno Francesco nasceu em Paola – na época, o local pertencia à Calábria, reino de Nápoles. A escolha de seu nome foi motivada pela devoção de sua mãe a San Francesco d’Assisi. Com apenas um mês de vida, o bebê desenvolveu uma séria doença em seu olho esquerdo. Para salvá-lo, sua mãe pediu pela intercessão a San Francesco d’Assisi, com a promessa de que se o curasse, o entregaria a um convento franciscano. Assim aconteceu, o menino melhorou, cresceu e logo após sua primeira comunhão, entrou para o convento dos franciscanos de São Marcos Argentano. Desde esta época, já se ouvia falar sobre os milagres proferidos pelo jovem Francesco, que passou a  se dedicar aos mais necessitados e também fundou a Ordem dos Mínimos. 

O modo como agiu em vida, o fez conhecido como o Eremita da Caridade. Viveu até os 91 anos, foi canonizado em 1519 e posteriormente, tornou-se o padroeiro da Calábria. A veneração ao então, San Francesco di Paola, logo cresceu e se espalhou, junto com a sua ordem. Em Juiz de Fora, percebemos que a devoção ao santo esteve ligada aos imigrantes italianos, sobretudo, entre aqueles que possuíam origem na Calábria. Um indício disso foi a criação, no final dos anos de 1980, da Associação Ítalo-brasileira San Francesco di Paola, responsável por manter e cuidar da Casa d’Italia de Juiz de Fora. Nesta época, membros da associação montavam grupos e seguiam até a Igreja São Francisco de Paula, no Rio de Janeiro.   

Foto: Angelo Savastano

Aos poucos, sentiu-se a necessidade de estabelecer uma capela dedicada a San Francesco di Paola na Casa d’Italia. Para poder concretizar este projeto, os sócios organizaram diversos almoços, que chegaram a reunir de 150 a 200 pessoas. Fazia-se lasanhas e doces que eram servidos no salão da Casa d’Italia. O dinheiro arrecadado com os eventos era convertido na compra dos bancos e objetos indispensáveis para a capela. Uma grande aquisição, que orgulha aos que frequentam a capela, é a bela imagem de San Francesco di Paola, que se encontra ao lado do altar principal. Esta imagem saiu de um navio da Itália e aportou no Rio de Janeiro. Quando chegou, lá estavam os sócios da Casa, ansiosos para levá-la até Juiz de Fora.

Diversas famílias de sócios da Casa d’Italia se dedicaram arduamente para concretizar a Capela dedicada a San Francesco di Paula. E após todos os trâmites necessários, aconteceu a inauguração oficial da capela no ano de 1992. Na parte de trás da capela, encontra-se uma placa, onde consta o nome das famílias que estiveram envolvidos nesta empreitada e o nome do Monsenhor Falabella, sacerdote de Juiz de Fora, que atuou de modo significativo para o funcionamento do local.

Durante algum tempo, a capela recebia missas esporádicas, mas nunca deixou de funcionar. Nela, acontecem batizados, casamentos, primeira comunhão, oficina de oração e também é o local de ensaio de grupos de coral ligados à Casa d’Italia. Nos últimos anos, em parceria com a Catedral de Juiz de Fora, passaram a ocorrer missas em toda primeira sexta feira do mês, fato descontinuado por conta da pandemia provocada pelo COVID-19. Algo que não podemos deixar de mencionar sobre a Capela San Francesco di Paola, é sua acessibilidade. Localizada no centro da cidade, a capela conta com apenas um degrau para seu acesso, o que a torna ideal para todos que desejam conhecer.

O trabalho das coordenadoras Nicolina Riccio Rovisi e Mary Zanelatto é exemplar.  Sempre preocupadas com a conservação e a boa utilização do local. Dedicam horas para arrumar e conseguir o necessário para que as celebrações aconteçam. Durante todo o tempo que conversamos, a única queixa apresentada, foi a falta de comprometimento das gerações posteriores às suas. Disseram sobre a importância dos sucessores mostrarem empenho, para manter manter vivo o labor daqueles italianos do passado. Esse compromisso foi ampliado nos últimos anos, mas é preciso ainda mais dedicação, para que a Casa d’Italia possa continuar abrigando a cultura italiana em Juiz de Fora. Para concluir, esperamos que os problemas causados por esta nova doença sejam superados e que a capela volte a funcionar com todo o seu esplendor.


Fontes:

IMBROISE, Concetta Chianello. Vida e milagres de São Francisco de Paola. S/d.ROVISI, Nicolina Riccio; ZANELATTO, Mary. Capela San Francesco di Paola. Rafael Bertante. Juiz de Fora, 2021.


Rafael Bertante

Graduado e mestre em História pela UFJF, com ênfase em sociabilidade e cultura italiana, atou em atividades patrimoniais no Laboratório de Patrimônios Culturais. Pós-graduado em Ciência da Religião. Cursa atualmente doutorado em Ciência da Religião pela UFJF e atua com pesquisa em arquivos.


ENTREVISTA: Angelo Savastano


1 Com uma carreira consolidada na fotografia incluindo  a de ‘esporte motor’, cobrindo eventos por todo o Brasil, como é a experiência de fotografar um imóvel histórico como a Casa D’Italia de Juiz de Fora?

A satisfação foi muito grande. Primeiramente por fazer imagens originais e inéditas de um local fantástico com muita história. É uma  viagem pelo túnel do tempo.


2 O fato de ser ítalo-descendente influenciou na sua aproximação com a Casa D’Italia de Juiz de Fora?

Com certeza.  Na Casa D’Italia de Juiz de Fora sinto-me em casa. 


3 Qual sua memória mais remota da Casa D’Italia?

Por volta de 1986 quando visitei pela primeira vez a convite do Salvatore Caruso. E ao passar pelo teatro havia uma jovem cantando uma musica em italiano, aquilo me chamou à atenção. Poderia ficar o dia inteiro ouvindo, pois a musica me transportou para nossa querida Italia.


4 Como avalia as alternativas de promoção e valorização da cultura italiana no atual cenário da pandemia? (Ex.: Exposições, cursos, oficinas online)?

Extremamente validas, pois em época de pandemia, iniciativas culturais mesmo por meio digitais  são bastante interessantes.  


5 “DOMUS ITALICA Através dos tempos” desperta o olhar sobre os detalhes da Casa D’Italia em belíssimas fotos preto e branco, ressaltando a beleza da edificação. Podemos esperar uma nova exposição em cores para o futuro?

Com certeza. Fico à disposição de vocês, caros amigos. É sempre um prazer poder colaborar  e interagir com a Casa D’Italia de Juiz de Fora


6 Deixe seu recado para os leitores da Revista Casa D’Italia.

Caros leitores devemos prestigiar as manifestações culturais de nossa cidade/região.E nesse sentido a Casa D’Italia de Juiz de Fora tem se dedicado sobremaneira para divulgação da arte. Um abraço a todos e convido para que vocês acessem  o site www.casaditaliajf.com.br e vejam  a nossa exposição virtual.


Angelo Savastano

Jornalista Repórter Fotográfico MTe 15.621/mg- TVE e Diário Regional; Editor do Caderno Conta Giros, suplemento jornal Diário Regional – até 2014; Jornalista e fotografo colaborador das Revistas Planeta Off Road (Belo Horizonte MG) e Revista Crossnaveia (São Paulo SP); Fotografo credenciado – Folha de São Paulo/ Folhapress; Fotografo colaborador – Site Terra, Globo.com, Portal R7, Portal G1, Band News e diversas publicações em revistas e jornais do Brasil e exterior.