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O Patrimônio Cultural como Ato Social

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 1, n. 6, 2020 – Ana Carolina Lewer Delage Lemos | O Patrimônio Cultural como Ato Social


Tenho certeza que ao falarmos em Casa D’Itália, grande parte da população que habita ou já habitou Juiz de Fora, nativa ou naturalizada, terá alguma lembrança, algum vínculo com este lugar e com tudo que ele representa. Seja pela sua arquitetura singular, seja pela sua simples presença no percurso cotidiano, pela sua história ou por alguma experiência vivida neste espaço, o fato é que, independentemente do tipo e intensidade de relação, a Casa D’Itália certamente habita a memória da comunidade juiz-forana, e, não à toa, foi um dos primeiros bens reconhecidos como patrimônio cultural em 1984, praticamente contíguo à primeira lei de patrimônio municipal, ato vanguardista para época.

A representatividade da Casa D’Itália para a história de Juiz de Fora e para as famílias italianas, a relevância arquitetônica de sua sede e sua patrimonialização, são aspectos muito bem tratados e acredito que muito bem assimilados. Sem inferir em qualquer juízo de valor, gostaria de aproveitar esta singular oportunidade, para destacar um outro viés deste patrimônio cultural, que me é tão caro, relativo ao seu aspecto intangível, a sua capacidade simbólica, ou seja, àquilo que é relativo às pessoas, aos seus fruidores.

Foto: Acervo Márcio Arcuri

Recorro a um grande pensador e estudioso da área, Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, que coloca o patrimônio, antes de mais nada, como um fato social, já que uma edificação como a Casa D’Itália só se torna patrimônio devido a todo um sistema de valores e pessoas que a legitimam como tal. E estes valores e significados atribuídos perpassam a materialidade tectônica de sua construção, e, de certo, a transcende – pois falar de um bem cultural, não é falar de significados imanentes ao próprio objeto em si, obedientemente embutidos em sua arquitetura, mas é, antes de tudo, falar de práticas e relações “cujas propriedades, derivadas de sua natureza material, são seletivamente mobilizadas (…) por grupos sociais para socializar, operar e fazer agir suas crenças, afetos, seus significados, expectativas, juízos, critérios, normas… em suma, seus valores”. [1]

Nesse sentido, conseguimos entender o porquê não podemos separar o sujeito do objeto, a dimensão tangível da intangível dos bens patrimonializados. A Casa D’Itália, enquanto uma imagem corporificada – que percorre o tempo e se faz presente – dá o suporte necessário para que as práticas e apropriações possam se realizar, como podemos ver através do grupo de Tarantolato, da prática da Bocha, do curso do idioma italiano, da gastronomia e de tantas outras manifestações culturais que ali ocorrem. São estes laços os responsáveis por criar o que chamamos de sentimento de pertencimento, sendo que cada laço é singular, pois varia de pessoa para pessoa, fazendo com que a Casa D’Itália possua um simbolismo polissêmico, assumindo relevância, não apenas para a comunidade italiana, mas também, para todos aqueles que se permitem envolver por este lugar, pelas pessoas que ali habitam, pelos sentimentos que ali afloram.

Foto: Acervo Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato

Falar de Casa D’Itália, então, é falar de patrimônio, sim, mas sobretudo, é falar de gente! É falar de nossa história, de nossa cultura, de nossas origens. É dar o devido mérito à sua representatividade no passado, mas também evidenciar sua capacidade enquanto símbolo, de ressignificar, de assumir novos valores. Por isso, falar de Casa D’Itália é falar do momento presente, do nosso agora. E preservar pode ser (como acredito) trabalhar uma maneira para que, no futuro, não se tenha sacrificado todas as possibilidades semânticas e comunicativas da Casa D’Itália. Afinal, “(…)a cidade que não consegue narrar sua história de forma visível é uma cidade esvaziada de conteúdo, indiferenciada das demais e pobre de vida coletiva.”.[2]

[1] MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. In: SUTTI, Weber (Coord.). I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural: sistema nacional de patrimônio cultural – desafios, estratégias e experiências para uma nova gestão. Brasília, DF: Iphan, p. 32, 2012.

[1] CHRISTO, Maraliz de C. Vieira e SOUZA, Maria Julieta Nunes de. Art Déco e Patrimônio Histórico. Nota prévia de pesuisa. Juiz de Fora: ClioEdel, 1998. p. 23.


Fontes:

CARSALADE, Flávio Lemos. A Ética das Intervenções. IPHAN, Mestrado Profissional do Patrimônio Cultural, 2013. Disponível em: <a href=”http://<http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Mestrado%20Profissional%20do%20Patrim%C3%B4nio%20Cultural%202013%20%20-%20CARSALADE.pdf&gt;. Acesso em: 15/12/2020.

CHRISTO, Maraliz de C. Vieira e SOUZA, Maria Julieta Nunes de. Art Déco e Patrimônio Histórico. Nota prévia de pesuisa. Juiz de Fora: ClioEdel, 1998. 25 p. (História de Juiz de Fora, 1). Disponível em: <a href=”http://<https://www.ufjf.br/clioedel/files/2009/10/COD98002.pdf&gt;. Acesso em: 15/12/2020.

MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. In: SUTTI, Weber (Coord.). I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural: sistema nacional de patrimônio cultural – desafios, estratégias e experiências para uma nova gestão. Brasília, DF: Iphan, p.25-39, 2012.


Ana Carolina Lewer Delage Lemos

Arquiteta urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, pós-graduanda em gestão e conservação do patrimônio cultural pelo IFMG – Campus Ouro Preto, vice-diretora da comissão de patrimônio cultural do IAB – Núcleo JF e vice-presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Juiz de Fora. Atualmente também atua na Divisão de Patrimônio Cultural- Funalfa/PJF.


ENTREVISTA: A Ponte

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Departamento de Cultura | ENTREVISTA: A Ponte


1

Achamos muito interessante como se deu a formação do grupo, que se desenvolveu a partir de uma iniciativa e foi se ressignificando até a conformação atual. Vocês poderiam falar um pouco mais sobre esse processo e como as pessoas interessadas podem fazer para integrar ao grupo?

A junção dos integrantes se deu de forma muito natural. Alguns dos artistas já se conheciam por fazerem parte de dois outros coletivos de arte: o Pulsartes e o Urban Sketchers de Juiz de Fora. E, numa atividade acadêmica de Tarsila Palmieri que consistia em desenhar pontes sobre o rio Paraibuna numa manhã de sábado ocorreu o convite dela para outros amigos artistas participarem também. Essa nova forma de desenho ao ar livre foi prazerosa e deixou um gostinho de quero mais aos que foram desenhar neste primeiro dia. Então, aos poucos, novos artistas se juntaram ao grupo e, todos com o mesmo desejo do desafio de desenhar na rua. Pessoas que desejarem se juntar ao grupo, devem também possuir este desejo de estarem ao ar livre para desenhar a cidade. Essa atividade acontece sempre aos sábados pela manhã. Basta seguirem o Instagram do grupo que é @grupo.a.ponte e enviarem mensagem.


2

O nome “A Ponte” traz um simbolismo muito importante para a definição do grupo, o que levou a escolha desse nome?

O nome foi sugerido por um ex-integrante e foi aceito por todos porque além de remeter ao primeiro desenho feito, também representa o elo que o grupo deseja fazer entre a arte e o público.


3

A proposta de vivenciar a cidade e capturá-la por meio de um olhar muito atento e íntimo através da arte reproduzida nos desenhos é uma experiência singular. Vocês poderiam compartilhar um pouco dessa experiência, dessa sensação de ir a campo, e de como ela influencia na percepção do artista?

A experiência é fascinante. O contato com a cidade que está ali funcionando de forma pulsante, com o ir e vir de pessoas e carros, faz com que ao desenharmos, tenhamos uma integração com a cidade. Há também, uma introspecção necessária do artista no ato de desenhar. Essa dicotomia da urbe efervescente versus concentração do artista torna a atividade de certa forma mais enriquecedora e plena, pois traz o desafio da escolha, dentro da efervescência há a necessidade da seleção, daquilo que vai para o papel e o que se vai deixar ir. Sem falarmos ainda também do contato com as pessoas, o público que para e assiste, que faz pergunta e interage conosco .


4

Como o grupo enxerga a importância dessas ações artísticas nesse momento delicado em que estamos passando devido a pandemia da Covis-19? Como isso tem afetado as atividades do coletivo?

Com certeza termos essas manhãs de sábado para desenharmos, nos faz sentir uma certa normalidade em meio a todo o caos que vivemos da pandemia, pois ainda assim podemos fazer arte e levar para o público. Acreditamos que nosso ato de ir para as ruas e desenhar pode ajudar as pessoas a terem mais esperança em dias melhores. A arte é transformadora e por isto, importante que continue acontecendo e chegando a todos que dela precisarem.


5

Como foi a experiência e qual a percepção dos artistas que fizeram os sketches da Casa D’Itália? Teve algum detalhe que não havia sido notado anteriormente? Ou algo mais específico que chamou atenção? Sua relação com o entorno da Av. Rio Branco, etc?

A experiência do Sketch da Casa D’ Itália foi significativa porque foi feita como apoio ao movimento da comunidade contra o fechamento da instituição. Conhecermos a Capela de São Francisco de Paola fez percebemos que a instituição também é guardiã de uma importante parte da história da fé e devoção dos primeiros imigrantes italianos que vieram pra cidade.


6

Há 6 anos a Casa D’Italia de Juiz de Fora e seu Departamento de Cultura, vem desenvolvendo iniciativas em prol da cultura e suas manifestações artísticas, buscando a valorização dos coletivos e artistas da cidade e região. Como se deu esta conexão entre o grupo A Ponte, a arte e a instituição?

O convite para a exposição virtual se deu através do ato de termos feito o Sketch da Casa D’Itália durante o movimento contra o fechamento da instituição. Desta forma, o grupo se fez conhecido e foi convidado para participar na Galeria Virtual que estava sendo implantada devido a pandemia.


7 Um dos objetivos da Galeria Online é incentivar as pessoas a acreditarem e investirem na arte e nos artistas juiz-foranos, principalmente o público jovem. Vocês poderiam deixar algum recado para esses jovens e para todos os leitores da Revista Casa D’Italia?

Como já foi dito, a arte é transformadora e é também democrática e transcendental, de forma que qualquer pessoa, de qualquer cor, sexo, idade, raça ou credo, pode fazer arte, então, nosso recado aos jovens seria: experimente! A possibilidade de se expressar e se comunicar através deste processo do fazer, do criar é de fato como a construção de uma ponte para acessar outros universos individuais e outros pontos de vista.
Obrigada/ Paola Sayão


A Ponte

“A Ponte” é um grupo formado com profissionais das artes visuais que tem o objetivo de fomentar a conexão das pessoas com o universo das artes.


Juiz de Fora, Los Angeles, Itália

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Baixo Centro – François Havana | Juiz de Fora, Los Angeles, Itália


Inverno de 2010, visita técnica à Casa D’Italia, com propósito de filmar parte do meu curta de conclusão de curso em Comunicação Social, o Cachorro Morto, adaptação freestyle do conto Vida e Morte na Enfermaria dos Indigentes, do romancista apelão Charles Bukowski. 

Imigrante do Sul de Minas, com roteiro inseguro e escatológico em mãos, consegui, após algumas carteiradas da produtora — que pediu à mãe que ligasse para alguém que conhecia outrem que poderia pedir por mim — o edifício emprestado por um fim de semana. 

E lá estava eu, Francisco Franco (triste coincidência, aka Generalíssimo), cineasta virgem, assinando um filme de baixo orçamento com premissa baseada num conto sarcástico, sacana e machista de um escritor nascido na Alemanha, crescido em Los Angeles, gritando ação num prédio dos anos 1930, construído (também) com 50 contos de réis cedidos por Benito Mussolini e, sim, parece mentira.

Foto: Amanda Dias 

Construí, no salão da Casa D’Italia, uma enfermaria com três camas hospitalares alugadas e objetos garimpados na feira da Avenida Brasil. Ali, rodamos os diálogos principais. No corredor e no banheiro, um plano sequência onírico. Me permiti, como principiante, colocar nas mãos do padre as tatuagens de Febrônio Índio do Brasil, serial killer mineiro, de Jequitinhonha, e, ri, orgulhoso por homenagear dessa forma Minas Gerais, sem pão de queijo. Debochei, também, como no texto original, de Florence Nightingale, enfermeira fundadora da enfermagem moderna, nascida na Itália, morta na Inglaterra e, sinceramente, não sei o porquê disso, mas hoje, 11 anos depois, chamo de babaquice. 

Foto: Amanda Dias 

Cachorro Morto me abriu portas, me levou a festivais e, premiado, permitiu que eu rodasse um segundo curta com maior dignidade. Não o renego, tampouco subestimo. Cachorro Morto reuniu na Casa D’Italia (e locações adjacentes) um elenco com nomes que carrego para o resto da vida: Juliano, Lívia, Patrícia, Samir, Marcos, Eliseu, Didi, Mari, Maycon, Dudu, Dedé, Josie, Nava, Mari, Santo, João, Nanda, Ken, Daniel e meu amor, Fernanda. Na Casa D’Italia, Dona Marlene, Terezinha e Consolare Pietro. Só tenho a agradecer. Vida eterna à Casa D’Italia.


Baixo Centro
François Havana

Redação de conteúdo e produtora de entretenimento.


Tudo/Nada/Tudo

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Zezinho Mancini | Tudo/Nada/Tudo


Quando, honrado, recebi o convite para redigir este texto, em princípio duvidei da minha capacidade de produzir algo com a profundidade e acuidade que digna revista e tão nobre rol de colaboradores, a meu ver, estabeleciam como parâmetro sobre um assunto que, em tese, seria esperado que eu dominasse — a cultura de Juiz de Fora.

As linhas abaixo comprovam que minha intuição estava certa. Se não, vejamos:

Paço Municipal – Intervenção sobre foto do Magenta Studio

Penso que não devo cometer o equívoco de tecer comentários sobre a nossa caríssima Funalfa, instituição à qual tive a graça de dirigir por um período de dois anos, pois entendo que ela, a Fundação, é maior que qualquer gestão, que qualquer gestor. Há mais de 40 anos ela é a protagonista absoluta do fazer cultural local. E isso já diz tudo.

Do mesmo modo, creio ser prudente evitar como temática os valiosos equipamentos públicos municipais, estaduais e federais, sua existência fundamental para a produção e fruição cultural e nosso eterno processo de formação de público. Ainda que hoje, prudente e infelizmente, estejam fechados, há quem responda formalmente por eles. Funcionários — muitos de carreira — que sobre eles detêm vasto conhecimento que eu nunca arrisquei e não seria hoje que arriscaria fingir ter.

Theatro Central – Intervenção sobre foto de André Berlinck

Outro assunto que com certeza não me cabe tocar é o esplendoroso patrimônio material e imaterial da cidade. A riqueza daqueles que constam nessa seleta lista não está ao alcance de meus dedos e o melhor seria deixar para discorrer a seu respeito aqueles que com propriedade, cotidianamente, lutam para proteger essa quota única da nossa história.

Também jamais deveria ousar me aprofundar aqui sobre algum dos grandes baluartes da nossa cultura, como Alfredo Ferreira Lage e Mariano Procópio, ou tampouco Murilo, Dnar e os Bracher. Reverencio seus feitos porque enormes, mas conjuntamente, porque pessoas muito mais gabaritadas que eu já fizeram e continuarão perpetrando a gloriosa tarefa de homenagear suas trajetórias e estendê-las rumo ao infinito.

E se eu tentasse falar de artistas mais próximos, da minha área, o teatro, com quem convivi? Grupo TIA, Grupo Divulgação, Teatro de Quintal… Ou daqueles com os quais aprendi sobre o ofício do ator e, mais do que isso, sobre a vida, como Toninho Dutra, Marcos Marinho, Henrique Simões, Samir Hauaji… Putz! A admiração e o respeito desestabilizam meu coração, pernas e mãos, fazendo com que eu não me sinta à altura.

Eu poderia, pois, falar dos jovens talentos que vêm reinventando o jeito de se fazer e consumir cultura, migrando ao território digital para sobreviver à pandemia. Porém, a apatia do governo federal já esgotou minha paciência. Este deveria ser um texto festivo e não acredito que alcançarei seu objetivo fazendo uso de xingamentos e palavrões.

As Quatro Estações – Intervenção sobre foto retirada do site ABC Experience

Bem… Acho que só o que me resta é falar um pouco de mim mesmo. Ninguém (nem mesmo eu) pode dizer que este não é meu lugar de fala. Sou um agente cultural local há 25 anos. Me sinto cá bem feliz por ter realizado uma pá de espetáculos, filmes, exposições, shows e eventos ao longo desse tempo. Minha história foi cunhada pela arte, pelos artistas e pela cultura de Juiz de Fora. Em paralelo, orgulho-me por ter dado minha parcela de contribuição, junto a todos os ilustres citados nos parágrafos acima, ao movimento dessa engrenagem bela e incrível que modifica as pessoas, a cidade, o mundo.

E é por isso que é difícil falar sobre a cultura. Ela está sempre mudando tudo, dois passos à nossa frente. Trazendo ar fresco, mesmo sob as piores condições. Modernizando sem deixar o passado para trás. Abrindo caminho ao novo que agora mesmo já virou memória. Ela afirma negando, nega afirmando. Não dá para defini-la, delimitá-la. Não dá pra esquecê-la. A cultura é tudo. A cultura é nada. E tudo.


Zezinho Mancini

Especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona (ESP), começou sua trajetória na cultura ainda adolescente, no Teatro Academia, de onde saiu com amigos para fundar a Cia. Putz!. Ator profissional, formou-se em Comunicação e dedicou-se por alguns anos à produção e à direção teatral e audiovisual. Foi ainda diretor do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, gerente de cultura e diretor-geral da Funalfa. Hoje está desempregado. Mas logo-logo tudo melhora.


Uma pitada italiana na imigração tirolesa em Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Rita Couto | Uma pitada italiana na imigração tirolesa em Juiz de Fora


Ao observarmos a trajetória de formação de Juiz de Fora, encontramos a presença marcante de estrangeiros, como ocorre em grande parte do Brasil. Tradicionalmente, a historiografia local considera que nossa cidade foi formada especialmente por cinco grupos étnicos: africano, árabe, italiano, português e germânico, sobre o qual abordaremos alguns aspectos.

No ano de 1858, chegaram a Juiz de Fora 1.193 imigrantes alemães contratados por Mariano Procópio para constituírem a Colônia Alemã Dom Pedro II. Era mais uma iniciativa da Companhia União e Indústria, que havia sido fundada em 1853 e empregava esforços para a abertura da estrada de mesmo nome, ligando Juiz de Fora a Petrópolis.

Apesar de serem genericamente identificados como “alemães” pela população juiz-forana, por causa da língua que falavam, nem todos os integrantes desse grupo de estrangeiros eram, de fato, originários das regiões que seriam unificadas por Bismarck e formariam a Alemanha algumas décadas depois.

Passaporte bilíngue do imigrante tirolês David Larcher, natural de Haiming, distrito de Imst, na atual Áustria. Expedido em 1858 e escrito em alemão e italiano, idiomas oficiais da província do Tirol e do Império Austríaco. ACERVO: Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly

Dentre os imigrantes contratados por Mariano Procópio, 277 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, eram nascidas no Tirol, condado localizado nos Alpes Centrais que pertencia ao Império Austríaco e que tinha, como línguas principais, o alemão e o italiano.

Após a Primeira Guerra Mundial, com a assinatura do Tratado de Saint-Germain em 1919, esse território foi dividido em três regiões: Tirol do Norte (Nordtirol em alemão/ Nordtirolo em italiano), Tirol do Leste (Osttirol/ Tirolo dell’Este) e Tirol do Sul (Südtirol/ Sudtirolo). Com predominância da língua alemã, as porções norte e leste tirolesas passaram a integrar a Áustria. Já o Tirol do Sul, com falantes de alemão, italiano e ladino, foi anexado à Itália, constituindo as províncias autônomas de Bolzano e de Trento. Ainda hoje, mais de 60% da população dessa região tem o alemão como língua principal.

Dos 277 tiroleses que vieram para Juiz de Fora, a maioria era originária de cinco dos atuais oito distritos que compõe o Tirol austríaco: Landeck, Reutte, Imst, Innsbruck-Land e Schwaz, além da cidade de Innsbruck. Uma pequena parte desse grupo de imigrantes, 11 pessoas, era da região hoje italiana denominada Südtirol:

  • Johann Beindrechsler: nascido em Innichen (em italiano, Comuna de San Candido, província de Bolzano);
  • Johann Müller, Maria Schrotz Ravensteiner e Johann Telfner: naturais de Lajen (em italiano, Comuna de Laion, província de Bolzano);
  • Joseph Ravensteiner: natural de Villanders (em italiano, Comuna de Villandro, província de Bolzano);
  • Anna Egger Bock: nascida em Mals (em italiano, Comuna de Malles Venosta, província de Bolzano);
  • Peter Mitterhofer: natural de Sand in Taufers (em italiano, Comuna de Campo Tures, província de Bolzano);
  • Peter Nitz: nascido em Tschötsch, distrito de Brixen (em italiano, Scezze, Comuna de Bressanone, província de Bolzano);
  • Joseph Barth: natural de Untermais (em italiano, Maia Bassa, Comuna de Merano, província de Bolzano);
  • Elias Hofer: natural de Walten (em italiano, Valtina, Comuna de San Leonardo in Passiria, província de Bolzano) e
  • Antonio Antoniazzi: nascido em Cavalese (em italiano, Comuna de Cavalese, Província de Trento).

Todos os tiroleses que imigraram para Juiz de Fora tinham em comum um forte contexto cultural, com seu folclore, seus trajes típicos, os costumes, a culinária, as músicas, a arte popular e a marcante fé católica.

Registro do tirolês Antonio Antoniazzi (nº 75) feito pela Companhia União e Indústria. Nascido em Cavalese, na atual Província de Bolzano[T1] , Itália, ele era casado com Therese Einkemmer (nº 76), natural de Thaur, Tirol, na atual Áustria. ACERVO: Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly

Conviviam em harmonia com os colonos de origem alemã e com os habitantes de Juiz de Fora. Na Colônia Alemã Dom Pedro II, adquiriram terrenos vizinhos, formando uma sólida comunidade tirolesa. Criaram uma banda de música e construíram a primeira capela católica da região, que dedicaram a Sant’Ana (ainda existente e tombada como patrimônio cultural municipal) e deixaram sólidas contribuições às gerações seguintes.

A divisão geográfica (e política) do Tirol entre a Áustria e a Itália aconteceu 60 anos após a vinda dos imigrantes para Juiz de Fora, mas, por mais de cinco séculos, o território tirolês esteve unido. Ainda hoje a autêntica cultura alpina, além do idioma alemão, mantém coesa a identidade desse povo.


Referências bibliográficas:

ALTMAYER, Everton; BONATTI, Mário (Org.). O Dialeto Trentino no Brasil. Blumenau: Ed. Nova Letra, 2016, 385 p.

COUTO, Rita. São Pedro: o coração da colônia alemã de Juiz de Fora. Juiz de Fora: Editar Editora, 2018, 300 p.

Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly (arquivo documental) – Pequeno guia da história da imigração alemã e tirolesa em Juiz de Fora:  https://view.publitas.com/b5a1ccce-a0c9-4dc8-94a5-d7a6b7b83df6/pequeno-guia-da-historia-da-imigracao-alema-e-tirolesa-em-jf/page/1


Rita Couto

Jornalista formada pela UFJF, desde 2005 dedica-se à pesquisa sobre a história da imigração germânica e da Colônia Alemã D. Pedro II em Juiz de Fora. Atual presidente do Instituto Teuto-Brasileiro William Dilly, é autora de dois livros: “Santana: uma capela tirolesa na colônia alemã de Juiz de Fora” e “São Pedro: o coração da colônia alemã de Juiz de Fora”. Integra a Comissão de Bens Culturais da Arquidiocese de Juiz de Fora e o Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora.


Resgatando histórias, reverenciando nossos antepassados: memórias das famílias Altomar e Scanapieco

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Lucínia Altomar Scanapieco | Resgatando histórias, reverenciando nossos antepassados: memórias das famílias Altomar e Scanapieco


Juiz de Fora, como tantas outras cidades do Brasil, teve a contribuição de imigrantes italianos na sua formação.

Passeando pela cidade, e com um olhar pesquisador e curioso, podem-se perceber vários indícios dessa contribuição, como no nome de ruas, nas placas de comércio, nas construções e também nas artes.

Esses imigrantes chegaram ao Brasil e a Juiz de Fora trazendo em suas bagagens seus poucos pertences e seus misteres. Alfaiates, mecânicos, pintores artísticos, músicos e sapateiros — os chamados “calzolaio”. A essa profissão pertenciam meus dois avôs, o Francisco Altomar, calabrês de Luzzi, Cosenza, e o Antonio Scanapieco, de Caselle in Pittari, Salerno.

Francisco começou com uma fábrica de calçados, nos fundos de sua casa na Av. XV de Novembro, atual Av. Getúlio Vargas, e aposentou-se como proprietário da conhecida loja “Calçados Altomar”, na Av. Barão do Rio Branco, 2.145, em frente ao Parque Halfeld.

Etiqueta das caixas de sapato fabricadas por Francisco.

Já Antonio tornou-se aprendiz de seu sogro Giuseppe Lettieri e, como sócio de seu cunhado Giovanni Lettieri, montou a Fábrica de Calçados Lettieri & Scanapieco, na Av. dos Andradas, onde atualmente é o Instituto Vianna Júnior. Mas, por problemas de saúde, não pode continuar na profissão e voltou-se para a área têxtil, com o comércio de resíduos de tecidos. Teve loja na parte baixa da Rua Marechal Deodoro, mudando-se  depois para a Av. dos Andradas. Com a enchente de 1940, perdeu muito de sua mercadoria e com isso, desistiu do comércio. Em 1937, criou a primeira usina de beneficiamento de algodão na Zona da Mata mineira, a “Usina Ypê”, situada na Av. Sete de Setembro, 1.496. Dotada de maquinário moderno, empregava muitos operários, sob orientação de criteriosos técnicos no assunto. A Usina Ypê chegou a produzir 10 mil quilos de algodão beneficiado por dia. Sua produção era escoada pelas companhias ferroviárias Leopoldina e Central do Brasil. O prédio existe em parte até hoje e, há pouco tempo, tive a oportunidade de visitá-lo e registrar algumas fotos para meu arquivo pessoal. Foi uma emoção adentrar aquele espaço e deixar o pensamento viajar no tempo, imaginando como deveria ter sido em seus momentos de glória.

Portão na lateral direita do prédio, que dava acesso aos pavilhões internos.
O telhado mantém a forma original.

Preservar essas memórias é um tributo especial aos nossos ancestrais, além de contribuir para contar, muitas das vezes, uma parte da história de nossa cidade. Acredito que cabe à família coletar e registrar esses dados e, quando possível, compartilhá-los. É a melhor maneira de manter viva em nossa memória e nossos corações a imagem de nossos avós e pais, que deixaram sua terra natal para criar um novo lugar para se viver, com o suor de seu trabalho e o amor às suas tradições.

Por falar em tradições, nossas famílias conservam algumas até hoje.

Dentre muitas, os Scanapiecos mantiveram o hábito do cafezinho, servido em canequinhas de esmalte verde, e os Altomares o delicioso macarrão com sardinha, que teve sua receita adaptada às condições locais, mas não perdeu sua essência nem o sabor.

Resgatar, preservar histórias e tradições familiares é algo maravilhoso. Para mim, é uma visita ao passado, de onde volto revigorada e feliz a cada vez que revolvo meus guardados.

Juiz de Fora está encontrando, junto à Casa D’Italia, uma oportunidade fantástica de preservação da memória dos imigrantes italianos, através do projeto Raízes Italianas, onde recebem e digitalizam fotos e documentos que fazem a identificação de famílias, os quais ficam arquivados para quem por eles se interessar.

Fachada da casa na Av. XV de Novembro, onde funcionou a primeira oficina de calçados de Francisco Altomar, tendo à frente parte de família: Francisco com o filho Jurandy ao colo; ao seu lado, o filho Elpídio Ramos (o Raminho); à sua frente, o filho Dâmaso, tendo ao lado o irmão Dirceu e a irmã Dirce. Os dois homens são amigos da família.

Então! Que tal fazer uma busca nos guardados de família e, quem sabe, trazer para nossa apreciação mais algumas histórias e com isso enriquecer esse arquivo?


Lucínia Altomar Scanapieco

Formada no Curso Técnico de Contabilidade pela Fundação Educacional Machado Sobrinho. Exerceu a profissão por pouco tempo, pois se casou e, depois do nascimento do primeiro filho, decidiu que artes, criação e artesanato eram suas aptidões maiores. Sempre curiosa, se permitiu executar algumas técnicas de artesanato e trabalhos manuais, sendo o crochê o seu favorito. Aos poucos, se encantou pela pesquisa de suas origens italianas e se tornou a guardiã das memórias familiares. Uma eterna apaixonada por minha ancestralidade, foi convidada a participar do grupo de etnia italiana para a realização da Festa das Etnias, promovida pela Funalfa, e hoje está com a função de Diretora Cultural do Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato, com o qual compartilha a caminhada há mais de oito anos.


Os imigrantes portugueses e a Sociedade Auxiliadora Portuguesa em Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Antonio Gasparetto Júnior | Os imigrantes portugueses e a Sociedade Auxiliadora Portuguesa em Juiz de Fora


Foi com o vínculo entre a exportação do café e os investimentos em atividades industriais que a região da Zona da Mata incrementou sua vida urbana na década de 1880. Muitos incentivos contribuíram para a chegada de imigrantes, como a construção da rodovia União & Indústria, a construção da Hospedaria de Imigrantes Horta Barbosa e os benefícios concedidos pela província para plantação do café.

Ao se emancipar de Barbacena, em 1850, Juiz de Fora já nasceu como um dos principais municípios cafeicultores de Minas Gerais. A construção da rodovia União & Indústria permitiu a integração econômica e a expansão das sociabilidades, elementos que ajudaram a cidade a desempenhar um papel típico de polo urbano e de capital regional no seio de uma economia agroexportadora. Mas o que consolidou definitivamente a posição de Juiz de Fora foi a introdução da malha ferroviária, a qual causou um impacto muito maior no mercado do que a rodovia União & Indústria. A dinamização econômica dinamizou também a mão-de-obra[1].

A abertura da estrada, a cargo da Companhia União & Indústria, foi acompanhada pela introdução de imigrantes, contratados por Mariano Procópio Ferreira Lage, para suprir a falta de técnicos e artífices na região. Os alemães constituíam a grande maioria dos trabalhadores estrangeiros contratados para construção da estrada, a qual teve início no ano de 1856. A construção da rodovia União & Indústria facilitaria o escoamento do produto gerado nas lavouras de café, mas trouxe consigo também o grupo pioneiro de imigrantes em Juiz de Fora. Assim, foi fundada na cidade a colônia Dom Pedro II para abrigar esses trabalhadores estrangeiros envolvidos com a construção da estrada.

Com o fim das obras da rodovia, a maioria dos colonos contratados para as obras já tinha se radicado em Juiz de Fora. Alguns aproveitaram as poupanças conquistadas ao longo dos anos para se associarem montando pequenas fábricas, ou estabelecerem-se no ramo comercial e de serviços, mas são casos bem específicos. Alguns fazendeiros tentaram ainda cooptar esses ex-colonos para suas lavouras, aproveitando a dispensa dos custos de imigração. Era um momento de crescimento do incentivo à imigração. Em 1883, uma Circular do Palácio da Presidência estimulava os fazendeiros de Juiz de Fora a contratar imigrantes oriundos das Ilhas Canárias e Açores para substituir o trabalho escravo[2]. Da mesma forma, os jornais também tentavam convencer os fazendeiros das qualidades do imigrante, ressaltando a necessidade de realização de contratos[3].

Juiz de Fora elaborou uma nova política de introdução de imigrantes que se iniciou com a fundação da Associação Promotora de Imigração, em 1888, formada por indivíduos representativos da economia da Zona da Mata. Abriu-se um novo panorama para entrada de imigrantes em Minas Gerais e na Zona da Mata. No mesmo ano o Governo Provincial promulgou a Lei nº 3.417, determinando a criação de uma hospedaria de imigrantes em Juiz de Fora[4], a qual suprimiria as outras da província.

Os alemães e os italianos ocuparam posições centrais nos debates sobre o desenvolvimento econômico de Juiz de Fora. A historiografia tradicional repetiu a imagem do imigrante germânico como agente do progresso e da ordem, além de iniciadores do processo industrial da cidade. Entretanto, foi uma seleta minoria que alcançou desenvolvimento econômico. Por sua vez, os portugueses também marcaram presença na vida social de Juiz de Fora através de suas atuações no mercado de trabalho. De acordo com o levantamento feito por Cláudia Maria Ribeiro Viscardi, eles eram provenientes principalmente das regiões de Douro Litoral, Beira Alta e Beira Litoral. Em Juiz de Fora, desenvolviam atividades de pedreiros, caixeiros, comerciários e trabalhadores de pouca qualificação que recebiam a alcunha de galegos[5]. Alguns deles se destacaram como empreendedores proeminentes na vida econômica da cidade.

Como grupo majoritário em Juiz de Fora, foram os imigrantes portugueses que sofreram maior preconceito. Todos os grupos étnicos ou nacionais residentes na cidade mineira conviviam com uma sociedade excludente, que se manifestava através do preconceito e da rejeição aos imigrantes. Mas os portugueses falavam a mesma língua e tinham ligações históricas com o Brasil de longa data, gerando uma imagem diferente dos grupos que constituíam colônias em separado. Eram majoritários no mercado de trabalho e disputavam cada posto intensamente com trabalhadores nacionais e outros estrangeiros, o que aumentava a hostilidade sobre o grupo. Embora vários fossem os pontos de similitude com os nacionais, também constituíam uma colônia em separado, celebrando suas próprias datas e cultivando a cultura natal, pois, de acordo com Fredrik Barth, “as distinções étnicas não dependem da ausência de interação e aceitação sociais, mas, ao contrário, são frequentemente a própria base sobre a qual sistemas sociais abrangentes são construídos” [6].

Nesse contexto, a cidade de Juiz de Fora contou com um aumento da população urbana que esteve ligado ao desenvolvimento do setor de serviços e comércio na cidade. Surgiram novas indústrias que atraíram o trabalhador livre e imigrante, dando impulso a um mercado consumidor amplo e diversificado. Mas as condições de trabalho não eram adequadas no município mineiro, o proletariado enfrentava condições que ofereciam dificuldades até mesmo para sobreviver, muito por causa dos baixos salários que eram praticados na região. Essas carências que excluíam a seguridade do trabalhador levaram a participações em sociedades de mútuo socorro, tanto os nacionais como os imigrantes.

Desde sua emancipação, em 1850, até o ano de 1934, houve em Juiz de Fora 63 associações de ofício, 54 filantrópicas, 36 seguradoras, 25 étnicas, 24 literárias e de lazer, 15 patronais, 12 científicas e seis mistas e regionais. Nesse panorama, as associações de ofício eram as mais numerosas, representando 26,8% do total, em função do agregado de manufaturas e pequenas fábricas que reunia grande volume de trabalhadores na cidade. Enquanto isso, as mutuais de imigrantes representavam 10,63% do total e eram locais utilizados pelos trabalhadores estrangeiros para reforço da identidade, proteção mútua e promoção de atividades de lazer. A primeira mutual em Juiz de Fora foi exatamente de imigrantes, a Sociedade Alemã de Beneficência, fundada em 1872[7].

A união entre indivíduos de uma mesma origem étnica ou nacional ganha destaque em casos de associativismo. Formam-se representações de grupos específicos não por ofício, mas por naturalidade. Essas representações mantêm seus laços com suas tradições históricas e culturais, reforçando identidades, em primeiro lugar, e também oferecendo recursos de seguridade. As associações de imigrantes não eram restritas a ofícios determinados, mas destinadas a pessoas que comungassem de uma mesma origem nacional ou étnica.

Em Juiz de Fora, o quadro das mutuais de imigrantes refletiu o contingente populacional de imigrantes. Ou seja, italianos, portugueses e alemães possuíam as associações mais expressivas. A comunidade portuguesa foi representada pelo Clube União Luso-Brasileira, fundado em 1882, com o objetivo de oferecer serviços consulares gratuitos aos portugueses pobres e criar espaços de lazer para os associados[8]; e pela Sociedade Auxiliadora Portuguesa.

Entre as mutuais portuguesas, a Sociedade Auxiliadora Portuguesa, fundada no dia primeiro de dezembro de 1891 por iniciativa de Joaquim Dias da Silva, Antônio Gomes Schmith, Daniel Pinto Corrêa, José Joaquim Pinheiro Machado, Joaquim Gonçalves Coelho e Joaquim Pinto Corrêa, tornou-se a principal entidade de organização dos portugueses em Juiz de Fora e foi agraciada com o título de Real pelo próprio rei português Dom Carlos I, em 1898. Tinha como objetivo prestar auxílio a seus associados em caso de doenças e, em caso de falecimento, arcar com os custos do funeral. Além disso, a Sociedade Auxiliadora Portuguesa oferecia aulas noturnas para os sócios e seus filhos com menos de 18 anos, tornava disponível uma biblioteca erguida através de doações das obras e também custeava a passagem de retorno a Portugal a todos os portugueses que necessitassem tratar graves doenças fora do Brasil, atendendo associados ou não.

A organização lusitana passou por carências estruturais durante a Segunda Guerra Mundial, no entanto, as atividades mutualistas já apresentavam nítido declínio no decorrer da década de 1940, muito em função do aparato previdenciário que o Estado brasileiro havia implementado. Na década seguinte, a associação passou a se dedicar mais enfaticamente à cultura e à instrução. Por iniciativa de Cleonice Rainho Thomaz Ribeiro e de seu marido Jacy Thomaz Ribeiro, fundou-se o Departamento de Cultura Luso-Brasileira, em 1955, no interior da Sociedade Auxiliadora Portuguesa. A sede social fora vendida no ano anterior e o viés cultural daria o tom de uma nova associação. A mutual permaneceu ativa até 1958, quando passou por uma reformulação e se tornou um clube recreativo denominado Sociedade Portuguesa, que se mantém ativo até hoje. Conta, em seu quadro social, com membros de qualquer nacionalidade. Já o Departamento assumiu rumo próprio e emancipou-se como Associação de Cultura Luso-Brasileira. Funciona como associação independente desde 1961[9].


[1] PIRES, Anderson. Café, Finanças e Indústria: Juiz de Fora, 1889-1930. Juiz de Fora: FUNALFA, 2009. (P. 60)

[2] Circular do Palácio da Presidência de Minas Gerais de 1883. Fundo Câmara Municipal no Período Imperial do Arquivo Histórico da Cidade de Juiz de Fora.

[3] OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Imigração e Industrialização: os italianos em Juiz de Fora – Minas Gerais (1888-1920). In: A Presença Italiana no Brasil, Vol. III. BONI, Luis A. de. (Org.). Porto Alegre: Fondazione Giovanni Agnelli, 1990. (P. 173)

[4] MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e Colonização em Minas Gerais (1889-1930).Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1994. (P. 26)

[5] VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. O cotidiano dos portugueses de Juiz de Fora (1840-1940). In: Solidariedades e Conflitos: História de vida e trajetória de grupos em Juiz de Fora. BORGES, Célia Maia (Org.). Juiz de Fora: EDUFJF, 2000. (P. 22-24)

[6] BARTH, Fredrik. O Guru, O Iniciador e Outras Variações Antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000. (P. 27)

[7] VISCARDI, Cláudia M. R. & GASPARETTO JÚNIOR, Antonio. O Mutualismo em Juiz de Fora: as experiências da Associação Beneficente dos Irmãos Artistas. In: À Margem do Caminho Novo. VISCARDI, Cláudia M. R. & OLIVEIRA, Mônica R. de. (Orgs). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011. (P. 218-220)

[8] VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. Op. Cit.. (P. 34-35)

[9] OLIVEIRA, Wanderley Luiz de. “Por Mares Nunca d’Antes Navegados”.Juiz de Fora: FUNALFA Edições, 2006.


Referências bibliográficas:

BARTH, Fredrik. O Guru, O Iniciador e Outras Variações Antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.

MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e Colonização em Minas Gerais (1889-1930).Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1994.

OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Imigração e Industrialização: os italianos em Juiz de Fora – Minas Gerais (1888-1920). In: A Presença Italiana no Brasil, Vol. III. BONI, Luis A. de. (Org.). Porto Alegre: Fondazione Giovanni Agnelli, 1990.

PIRES, Anderson. Café, Finanças e Indústria: Juiz de Fora, 1889-1930. Juiz de Fora: FUNALFA, 2009.

OLIVEIRA, Wanderley Luiz de. “Por Mares Nunca d’Antes Navegados”.Juiz de Fora: FUNALFA Edições, 2006.

VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. O cotidiano dos portugueses de Juiz de Fora (1840-1940). In: Solidariedades e Conflitos: História de vida e trajetória de grupos em Juiz de Fora. BORGES, Célia Maia (Org.). Juiz de Fora: EDUFJF, 2000.

VISCARDI, Cláudia M. R. & GASPARETTO JÚNIOR, Antonio. O Mutualismo em Juiz de Fora: as experiências da Associação Beneficente dos Irmãos Artistas. In: À Margem do Caminho Novo. VISCARDI, Cláudia M. R. & OLIVEIRA, Mônica R. de. (Orgs). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011.


Antonio Gasparetto Júnior

Pós-doutorando em História pela Universidade de São Paulo (USP), doutor (2018), mestre (2014), bacharel e licenciado (2010) em História e bacharel em Administração Pública (2017) pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com estágio de doutoramento (Chercheur Invité) na École Doctorale d’Histoire Moderne et Contemporaine da Université Paris IV — Sorbonne (2015-2016). Professor permanente do Mestrado Profissional em Administração Pública (PROFIAP) da UFJF. É autor, dentre outros livros, de Direitos Sociais em Perspectiva: seguridade, sociabilidade e identidade nas mutuais de imigrantes em Juiz de Fora (1872-1930) (Fino Traço/Funalfa, 2014).


A Cultura vista do rio

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Eridan Leão | A Cultura vista do rio


“Um rio não divide
duas margens.
O que se planta nos lados
é o que o separa.”

Edimilson de Almeida Pereira[i]

Foto: À margem do rio – Eridan Leão

Falar de Cultura é falar de nossas vidas, é aquilo que é sem ser uma unanimidade; é desvelar o que ainda está velado; é o que conhecemos sem ser a totalidade. Ao dar destaque às informações culturais geradas ao longo de dezenas de anos em um lugar, é importante ter uma visão holística e/ou uma visão fotográfica a partir de uma lente grande angular, para que se veja não somente o que é unanimemente vivenciado, mas também o que não é visível aos olhos de boa parte da população.

Já sabemos que a Cultura não é uma, são dezenas de culturas que brotam em diversos territórios, bairros, cidades e grupos originados por um processo histórico multifacetado, poliédrico, narrado por diferentes almas, guardiãs de suas múltiplas origens materiais, imateriais e cósmicas. Presente, passado e futuro se revezam, se cruzam e se perpetuam através dos meios de comunicação, tangíveis e intangíveis, como são os monumentos, as edificações, os documentos históricos, as artes, as fotografias, as narrativas orais, a ciência e, mais recentemente, as mídias digitais, que criam e disparam informações a um só tempo. É justo dizer que, para se entender a cultura de uma sociedade, é necessário identificar o que é a narrativa oficial e o que é “não oficial”, o que foi esquecido, o que ficou fora dos grandes pilares do saber local. O reconhecimento do conflito permanente entre uma narrativa histórica oficial e as histórias identitárias de grupos constituídos por tradição e consanguinidade resulta em um saudável exercício democrático de cidadania, que amplia a percepção de todos sobre a prática verdadeiramente cultural compartilhada em qualquer cidade.

Juiz de Fora tem uma origem peculiar em sua formação, já que não participou do ciclo barroco do ouro[ii], mas do riquíssimo ciclo do café da Zona da Mata mineira. Uma situação peculiar que rendeu, em quantidades expressivas, centenas de escravos e alguns barões. No entanto, a história oficial omitiu de sua narrativa a presença da população negra na formação do ethos social, político e cultural, preferindo exaltar, com inegável justiça, a participação do trabalho imigrante. Atualmente, a cultura negra resiste, em Juiz de Fora, pela oralidade e por extensa produção acadêmica e práticas de ações coletivas, literárias e musicais[iii].

Com a mão de obra escrava, o capital cafeeiro e a imigração, a cidade se inscreve no ineditismo[iv] da industrialização, do comércio, das artes, das letras, do ensino e da construção civil, onde a arquitetura floresce a partir de meados do século XIX. A industrialização criou centenas de empregos para homens, mulheres e crianças, em um tempo em que ainda não havia a proteção das leis trabalhistas. O poeta Yacyr Anderson Freitas é um perspicaz observador desse tempo. Ele diz que uma parte de qualquer cidade fica sempre submersa, sempre à margem da história. Se referindo às empresas, Cia. Têxtil Bernardo Mascarenhas e à Cia. Pantaleone Arcuri, diz que restam alguns sobrados suntuosos, um ou outro prédio velho comercial do velho conjunto da Praça da Estação, mas que nada resta da vilagem da Colônia Pedro II e das demais vilagens, nenhum registro físico. Que pouco restou do percurso operário, do trabalho infantil. Por velhas fotografias ele conclui que, implacável, o patrimônio industrial demite da história, por fim — e sem justa causa —, seus empregados”[v].


Essas ausências, a importância da mão de obra escrava e o trabalho operário assalariado na história oficial, criaram um discurso incompleto sobre a identidade da cidade. Muito há para se contar e se ouvir ainda sobre esses temas, que iluminarão sobremaneira a narrativa do processo cultural de Juiz de Fora.

A aquisição de novas culturas através da imigração foi, ao contrário, notória e celebrada. No caso específico da cultura italiana, tema de interesse desta publicação, a construção de edificações, belas e artisticamente planejadas, deu ares cosmopolitas para os esforços de urbanização, onde os estilos neogótico, eclético, art déco e art nouveau são estudados e preservados até hoje. Pantaleone Arcuri e Rafael Arcuri deixaram registradas na pedra e no cal suas assinaturas, que caracterizam o mobiliário urbano de grande parte do centro — arquitetura e arte imponentes, como o Cine-Theatro Central e a Casa D’Itália[vi].

A Cultura de Juiz de Fora é extremamente rica em obras e autores. Os inúmeros fazeres culturais definem, e redefinem continuamente, as artes e as manifestações culturais da cidade. Do passado, a história cumpre sua missão ao deixar resíduos, tangíveis ou intangíveis: “(…) as fotografias de bairros hoje demolidos, de localidades rurais hoje desfiguradas e desoladas compensam a ligação precária que temos do passado”[vii]. No presente, só para usar um exemplo, as cervejarias[viii] são um legado da imigração alemã, que hoje identificam a cidade como um importante polo mineiro produtor de cervejas artesanais.[ix]

As artes são criações humanas que resultam em peças únicas, o fazer artístico nunca se repete. A cidade possui uma grande diversidade de manifestações tradicionais e artísticas, presentes no universo afetivo familiar e comunitário, que são representadas, em sua maioria, pelas folias de reis, carnaval, danças, rituais, festas religiosas, benzeções e pela oralidade. Da mesma forma, outros grupos culturais também se destacam, como os centros literários e de memória, as bandas sinfônicas (poucas), as bandas de rock, os grupos de percussão, os clubes de músicas etc. Juiz de Fora é pródiga em gerar infinidade de artistas — de teatro, de televisão, cinema —, literatos, músicos, dançarinos, cantores, artistas plásticos, fotógrafos, artesãos e, também, de ser original, como na gastronomia (pão alemão, torresmos e cervejas, quem resiste?). Longe de pretender esgotar o tema e os exemplos, sugere-se uma visita a páginas que tratam da cultura de Juiz de Fora: fotografia[x], bens materiais e imateriais[xi] e música[xii], que nos trazem a dimensão da importância da cultura local, que existe para que a memória não se esqueça. Procurem outras páginas semelhantes.

Foto: Folia de Reis – Sérgio Neumann

O processo cultural, que antes do vírus da Covid-19 estava em franca expressividade, se mantém vivo, a despeito da pandemia, da falta de recursos e do isolamento que assola o país. Contra todas as orientações perversas do governo federal, muitas expressões culturais de Juiz de Fora resistem e, o mais importante, com plateias virtuais incentivadoras, financiamentos coletivos e aquisição de obras de autores locais. As manifestações culturais de rua, os poetas dos slams, os artistas do grafite, as apresentações teatrais, as salas de samba, as exposições de fotografias, as vendas de objetos de design, plantas ornamentais, roupas, lançamento de livros etc. utilizam hoje os meios virtuais para que a cadeia produtiva da cultura local não se rompa definitivamente.

O exposto aqui é apenas uma provocação para que os interessados sigam adiante em busca de mais informações sobre o processo histórico-cultural da cidade. O passado forjou o que todos sabem, o reconhecimento da vocação cultural da cidade, e o presente está repleto de iniciativas públicas e privadas que, ao longo de dezenas de anos, dão conta de sustentar essa qualificação através dos fazeres culturais tradicionais, das artes contemporâneas e das artes de resistência.

A definição do que é Cultura em Juiz de Fora está no coração e na mentalidade de cada um, segundo suas origens familiares, suas crenças, suas vivências, suas predileções artísticas e, sobretudo, seu respeito ao passado e comprometimento com o presente e o futuro.


[i] PEREIRA, Edimilson de Almeida. ‘Família Lugar’. In NEVES. José Alberto Pinho (Org.). Baú de Letras, antologia poética de Juiz de Fora. Funalfa. 2000, 281p.

[ii] MUSSE, Christina Ferraz. Imprensa, Cultura e Imaginário Urbano: exercício de memória sobre os anos 60/70 em Juiz de Fora. São Paulo: Nankin; Juiz de fora, MG, Funalfa. 2008, p.61.

[iii] Sobre esse tema, sugere-se conhecer o repertório do grupo Batuque Afro-brasileiro de Nelson Silva (Bem imaterial da cidade) e, também, o livro: NASCIMENTO, Márcia dos Santos. Duas margens: Brasil e Angola. Juiz de Fora: Funalfa. 2013, 179p.

[iv] ESTEVES, Albino; BARBOSA, Oscar Vidal Barbosa (Org.). Álbum do município de Juiz de Fora. 3ª edição. Juiz de Fora: Funalfa Edições. Reedição da 1ª edição de 1915 por Sérgio Murilo de Almeida Neumann. 2008, 536p.

[v] FREITAS, Yacyr Anderson. In BARBOSA, Leila Maria Fonseca Barbosa; RODRIGUES, Marisa Timponi Pereira. CRISTÓFARO, Valéria de Faria (Ilustração). Um olhar poético sobre Juiz de Fora. Juiz de Fora: Funalfa. 2013, p.40.

[vi] A esse respeito, consultar: OLENDER, Marcos. Ornamento, ponto e nó: da urdidura pantaleônica às tramas arquitetônicas de Rafael Arcuri. Juiz de Fora: Ed. UJFJ. 2011, 321p.

[vii] SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Tradução Joaquim Paiva. 2ª edição. Rio de Janeiro: Arbor. 1983, p. 16.

[viii] https://visitejuizdefora.com/cidade/cervejarias-artesanais

[ix] https://www.pjf.mg.gov.br/noticias/view.php?modo=link2&idnoticia2=60684

[x] https://www.mariadoresguardo.com.br/p/contato.html

[xi] http://www.pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/patrimonio/index.php

[xii] https://www.facebook.com/watch/?v=3622079641219052


Eridan Leão

Formação: História/UFJF (1978) e Especialização em História do Brasil/UFF (1982).
É servidora da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage /Prefeitura de Juiz de Fora, desde 1983. Foi curadora e co-produtora dos festivais anuais de fotografia: Foto 12, Foto 13, Foto14, JF Foto 15, JF Foto 16, JF Foto 17 (https://issuu.com/jffoto). Em 1986, a Funalfa alugou o espaço do antigo Cinema Paraíso, onde foi responsável pela reforma e programação como um cineclube. Elaborou e coordenou o projeto Juiz de Fora, 90 anos de fotografia 1860-1950, preservação do acervo fotográfico do Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora (1983-1985), dentre outras atividades. Foi Consultora para a Área de Economia Criativa do SEBRAE-RJ, (2009 – 2011). Na Fundação Nacional de Arte (Funarte), foi Diretora-Adjunta do Instituto Nacional da Fotografia – INFoto (1988-1990) e Coordenadora do Centro de Conservação e Preservação Fotográfica – CCPF (1994 a 2002). É participante do Coletivo JF Fotográfico, que realizou o Festival de Fotografia de Juiz de Fora (edições 2018 e 2019). É colaboradora do Instituto Kreatori, Rio de Janeiro, desde 2007, onde participou de curadorias de exposições e ministrou cursos de elaboração de projetos culturais e, atualmente, é Diretora Executiva do Canal virtual O Cubo. Em 2020, foi Coordenadora e Produtora Executiva do evento virtual, VII Festival Internacional de Cinema Independente em Língua Portuguesa (www.canalocubo.com).

Foto: Sérgio Neumann


Casa D’Italia e Grupo Divulgação

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – José Luiz Ribeiro | Casa D’Italia e Grupo Divulgação


Os anos 1960 marcam a importância da Casa D’Italia para o teatro em Juiz de Fora. O salão de festas tinha um uso múltiplo para bailes e outros eventos, mas o palco marcou um encontro com as encenações de profissionais e amadores da cidade e de outros centros.

Até os anos 70 podíamos assistir a espetáculos vindos do Rio de Janeiro. Eva Tudor, Dercy Gonçalves, Jayme Barcelos e Agildo Ribeiro foram aplaudidos naquele salão. As escolas promoviam bailes de formatura e renomados cantores se apresentavam.

O palco é em espaço italiano, uma forma de apresentação frontal aos espectadores. O espetáculo era desenhado em forma concebida pelo Renascimento, dando margem à perspectiva. O espetáculo poderia ser usufruído como um quadro com a presença viva em deslocamento pelos atores.

Dois enormes telões guarneciam o palco. Um representando Veneza, a cidade de meu coração, e outro, o Vesúvio. Os quatro camarins eram pequenos e havia, em um deles, a instalação de um aparelho de toca-discos que servia para a sonoplastia.

A iluminação era a de uso dos palcos tradicionais até a revolução dos anos 1950. O palco era guarnecido por uma sequência de gambiarras — canaletas com luzes em séries azul, vermelha e branca. E, na parte frontal, encontrávamos luzes na ribalta.

Foi no ano de 1963, poucos anos antes de ser criado o Grupo Divulgação, que apresentei um espetáculo intitulado “Brasil, espaço 63”, um trabalho juvenil que recortava, com cenas de danças e textos, a influência da imigração na cultura brasileira. Os dias 15 e 16 de novembro marcaram esse encontro.

Nesse espetáculo, atrevidamente, adaptei e encenei um trecho do “Inferno”, de Dante Alighieri, com atores operários da Industrial Mineira. Era uma das cenas que referenciava a Itália. A cultura italiana sempre marcou minha vida, embora minha genealogia fosse a da pátria de Camões. A ópera sempre me encantou desde a adolescência e o cinema nos contava a história do grande Caruso.

Foi uma jornada insana para vender ingressos, alugar o salão e apresentar no palco onde o lendário Natálio Luz já dirigia o Teatro Universitário. O entusiasmo juvenil nos propõe tarefas arrojadas. E o palco era um sonho.

Animados, em 1964, voltamos ao palco da Casa D’Italia com “Sinfonia de uma favela”, ensaiado durante o ano inteiro e apresentado nos dias 14 e 15 de novembro pelo “Grupo Jovem do Contato”, sediado no Salão São Geraldo da Igreja da Glória. Um elenco de cem componentes, entre corpo de baile, atores e músicos. Usamos as varandas dos fundos do palco com barracas de lona como camarins.

Adaptar ao regulamento do aluguel de, em 24 horas, ocupar o espaço, montar cenografia e dar um ensaio geral com um elenco numeroso era um desafio enorme. Cumprimos a tarefa, fizemos sucesso e voltamos para mais uma apresentação. Desejo e paixão são como água na laje, nada os detém. O grupo de jovens desapareceu. Jovens crescem e buscam seus rumos.

Em 1966 criamos o Centro de Estudos Teatrais — Grupo Divulgação, na Faculdade de Filosofia e Letras. O palco da Casa D’Italia apresentava uma programação constante e chegou mesmo a criar uma companhia de teatro, o TECI — Teatro da Casa D’Italia, capitaneado por Natálio Luz. Mais tarde, tornou-se o Teatro de Comédia Independente.

Em 1967, durante a “Semana do Folclore”, promovida pelo professor Wilson de Lima Bastos, voltamos a nos apresentar no espaço com “Cancioneiro de Lampião”, de Nerthan Macedo, musicado por Sueli Costa. Começa aí uma série de espetáculos que vão se estender até 1971. Com a criação do Forum da Cultura, a companhia se muda para lá.

Estreitamos o laço com a administração da Casa D’Italia e Otávio Carello se tornou um grande amigo. Já tínhamos atingido um certo reconhecimento e nossos espetáculos já eram dignos de notas e premiações. Ocupamos, por um tempo, uma das salas da Umberto I, onde ensaiávamos também.

Em 1968, durante os anos de chumbo, criamos espetáculos com textos de grandes dramaturgos internacionais e, em dezembro, encenamos “Electra”, do tragediógrafo grego Sófocles. O início dessa parceria nos deu oportunidade de aprimorar nosso trabalho. Estudávamos muito e crescemos no palco da Casa.

Inventar em cima da pobreza sempre foi uma forma de sobrevivência. Ainda não tínhamos uma tecnologia apurada, embora Ziembinski tivesse feito isso em 1943, com o “Vestido de noiva”. Descer uma gambiarra, usar filtros de papel celofane em direção a um fundo cinza, nos deu o primeiro ciclorama. Uma profundidade de um céu azul onde a personagem se debatia. Uma rampa descia até a plateia, por onde o coro descia e evoluía. O palco italiano se tornou também espaço de arena. O palco estava sem a cortina. Por uma proposta de Carello, não pagaríamos o aluguel em troca de uma cortina. Aceitamos o trato e estreamos com uma cortina de damasco verde, metros e metros comprados na Casa Chic, com Dona Munira. O espaço avançou com o novo feito.

Dezembro de 1968 marcou a chegada do Ato Institucional nº 5. O ano que começará a ter policiais federais, com textos nas mãos, acompanhando a fala dos atores. De repente, um público diferente: o censor. E foi neste centro cultural que aprendemos os sinais do Apocalipse. Mas, felizmente, aprendemos a falar com vozes de autores ancestrais; nosso protesto era um álibi perfeito para não termos caladas nossas vozes. Voltamos aos clássicos. A fala do coro que encerrava “Electra”, falava por nós:

“Bravos filhos de Agamenon
Quantos males suportastes
Por amor à liberdade
Ei-la, enfim, recuperada
Graças à bravura vossa”.

Ali também iniciamos um costume que, por longo tempo, oferecemos ao público. Uma exposição alusiva ao teatro grego que ocupou o saguão da Casa D’Italia com fotos, citações e máscaras. O público recebia, além de um programa repleto de informações sobre o autor a peça e equipe, uma aclimatação antes do espetáculo que lhe seria oferecido.

A avant-première de “O Diário de um louco”, de Nicolai Gogol, em adaptação de Rubem Rocha Filho, seria apresentada em espetáculo vendido ao DCE, dentro da Semana dos Calouros. A chegada da Polícia Federal, na hora do espetáculo, proibia a apresentação, que mais tarde poderia ser liberada com cortes, graças à interferência do Major Felix, um amigo da arte. Nessa noite a apresentação se fez como “ensaio geral”.

Diário de um louco

De 23 a 29 de abril de 1969, apresentamos o espetáculo com cortes. O personagem que enlouquecia, nas falas cortadas, colocava um lenço na boca enquanto durasse o tempo textual. O silêncio era eloquente. Falava muito sobre os tempos de censura em que vivia o país naquela época.

O porão do palco guardava tesouros aos nossos olhos. Madeiras corroídas pelo tempo. Usando os bastidores, que sempre forrávamos a cada espetáculo, como suporte para aquele mundo de caibros corroídos, criamos um universo expressionista para os delírios de Antonino Barnabé, o bedel que enlouquecia diante da burocracia. A cenografia suspensa por cordas, que se movimentava projetando sombras, mostrava o acerto da direção de Maria Lúcia Campanha da Rocha, hoje, Ribeiro.

De 16 a 26 de agosto de 1969, “Pequenos Burgueses”, de Máximo Gorki, foi levado à cena. Uma sala da casa, no melhor estilo de cenário gabinete, cuidadosamente criada por Lucas Marques do Amaral, ambientava o mundo da família russa às vésperas da revolução. Um jogo de ideias e ideais, luta de classe em busca de justiça social.

Cenário de Pequenos Burgueses

Rubem Rocha Filho falou sobre a montagem: “O espetáculo é cuidado em seus mínimos detalhes e as criações dos personagens atingem um bom nível, chegando mesmo a ter pontos atingindo a perfeição”. Para um grupo amador de teatro universitário, o encontro com grandes nomes do teatro nacional era um ponto importante. Nomes como Luiz Linhares, dentre outros, estiveram no salão para ver nossos espetáculos.

Prosseguindo a política dos grandes textos mundiais, em 1970 mostramos “A visita da velha senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, no primeiro semestre e “Escola de Mulheres”, de Molière, que cumpriu temporada de 20 a 26 de novembro. Uma grande exposição sobre “Vida e obra de Molière”, foi realizada no hall da Casa. Um ano com muitas premiações. O palco, por suas dimensões, nos permitiu montar cenários de dois andares, em criações cenográficas de Lucas Marques do Amaral. Foram anos gloriosos.

A visita da Velha Senhora. 
Escola de Mulheres. Grupo Divulgação

O ano de 1971 assinala um grande encontro com Paschoal Carlos Magno, descendente de imigrantes italianos e nome de grande significado para o teatro de estudante brasileiro. Ele veio para conhecer nosso trabalho, que já tinha saltado os caminhos de Minas. A montagem de “Maria Stuart”, de Schiller, foi um grande desafio. Quatro horas de espetáculo, numa tradução primorosa de Manuel Bandeira, mostrou nosso arroubo juvenil e fomos abençoados com laços de amizade ao grande “Estudante Perpétuo do Brasil”.

A partir daí, colecionamos prêmios em vários festivais nacionais. Foi com uma remontagem de “Cancioneiro de Lampião”, de Nerthan Macedo, que voltamos ao palco dessa Casa que nos deu oportunidade de aprender um pouco mais sobre teatro como instrumento de paixão. Voltamos do Rio de Janeiro com uma vasta premiação. E, em dezembro, nos despedimos desse palco que marcou nossa história.

Grandes dramaturgos italianos foram encenados pelo Grupo: “Arlequim, servidor de dois amos” e “Il teatro comico”, de Goldoni; “Seis personagens em busca de um autor” e “Esta noite se improvisa”, de Pirandello, nos premiaram nacionalmente. “Sementes de paixão” falou do imigrante apaixonado pela Duse, o pai de Paschoal. Esse espetáculo foi comemorativo pelo Grupo Divulgação ter se tornado Patrimônio Imaterial do Município.


José Luiz Ribeiro

Doutor em Comunicação e Cultura/ UFRJ. Mestre em Teatro/UNIRIO.
Dramaturgo, diretor e ator em teatro.
Coordenador Geral do Centro de Estudos Teatrais – Grupo Divulgação


ENTREVISTA: Wesley Monteiro

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 10, 2020 – Departamento de Cultura | ENTREVISTA: Wesley Monteiro


1 Como artista atuante, como vê a importância das manifestações artísticas nesse momento de pandemia?

Estamos passando por um período de grandes mudanças em todo mundo, todos os seguimentos que envolvem o ser humano estão sendo adaptados com uma nova leitura e questionamentos diversos. A crise da Cultura no país e algo que vem sendo questionado a muito tempo, os setores de Cultura e economia criativa estão entre os mais prejudicados pela pandemia da Covid-19. Tivemos a necessidade de nos isolarmos socialmente, locais como, museus, teatros, galerias, casas de espetáculos e demais seguimentos foram suspensos, acarretando desta forma, um enorme impacto financeiro para os profissionais que atuam nessas áreas. Diante deste cenário que nós artistas fomos inseridos, reinventar foi a alavanca para a sobrevivência e fortalecimento de equilíbrio emocional para muitos artistas. Novos formatos de trabalhos e criações foram adaptados onde o artista mostrou sua força, criatividade e sensibilidade diante das crises. Os movimentos de incentivos culturais e manifestações artísticas foram primordiais para não cairmos no abismo; a união da classe fortaleceu essa corrente e aos poucos descobrimos um poder de superação e consciência de grupo que há tempos não se via.


2 A exposição em exibição na Galeria Virtual da casa D´Itália “Do Cubismo ao Abstrato” tem como inspiração os grandes artistas do movimento modernista brasileiro do século XX. Você acredita que suas inspirações com esse movimento podem tocar de alguma maneira os juizforanos para apreciação da arte?

Acreditando no poder de transformação e na força de um grupo, foi o que me levou a grande admiração e respeito pelo Movimento Modernista Brasileiro, que diante de um formato de resistências pré-estabelecido da época, conseguiu diante de muita luta e perseverança rupturas diante desses modelos. Desta admiração peguei forças e inspirações para meu processo de trabalho que fluiu em identificação pela linha cubista, e Abstracionismo, onde abre um universo de possibilidades para o processo de criação que a técnica permite. Pintar e criar sem amarras é o que todo artista almeja, é uma forma de mostrar suas ideias e digital. O formato cubista, assim como sua história, trás o conceito do figurativo, que é meu carro chefe, onde posso entrar no universo de qualquer linha de pensamento e cultura. É isso que me seduz, mostrar pessoas em seu processo de trabalho, seu cotidiano, movimentos culturais e religiosos. Mostrar o Brasil para os juizforanos, cores, suas faces e especificidades.


3 Há 6 anos a casa D’Itália de Juiz de Fora e seu Departamento de Cultura, vem desenvolvendo iniciativas em prol da cultura e suas manifestações artísticas, buscando a valorização dos artistas da cidade e região. Como se deu esta conexão entre você, sua arte e a instituição?

Os meus trabalhos e projetos sempre são voltados para um estudo de valorização e sensibilização através da arte, fiquei muito feliz em conhecer o projeto cultural da casa D’`Itália e tudo que a Instituição representa para a cidade e para o país. A instituição é um fortalecimento e resgate da cultura Italiana da cidade de Juiz de Fora, onde funciona um centro de cultura ativo com atividades diversas. É muito importante para nós artistas termos o apoio e incentivo de instituições como a Casa D’Itália, que não medem esforços para a promoção e interação com o público, fomentando assim a cultura local. As ferramentas de comunicação que o Departamento de Cultura utiliza conversam muito bem com o cenário de Pandemia que nos encontramos, gerando dessa forma, confiança para os participantes e envolvidos nos projetos.


4 Qual sua memória mais remota com a Casa D’Itália de Juiz de Fora? Qual a importância do prédio e suas associações para a cidade de juiz de Fora na sua opinião?

O Brasil passa por uma crise que vem se arrastando durante anos, diversos setores da economia e cultura sofrem interferências há décadas. Com a crise oriunda da pandemia este cenário ficou mais prejudicado. O foco emergencial ficou voltado para a saúde e economia, onde houve um desgaste considerável e lamentável, e outros setores como a cultura, ficaram desamparados. Contar só com o poder público para fins de projetos e incentivos culturais, tornou algo difícil neste momento. Os Centros de cultura tornaram-se importantes ferramentas e polos de produção e disseminação da cultura. “Voltando na história- As manifestações culturais no Brasil aconteceram desde a sua descoberta graças aos padres Jesuítas na sua tarefa de catequizar os índios que ali viviam, onde elementos como as cantigas, teatros e livros foram grandes aliados nessa tarefa (MILANESI, 1997)”. Houve um aumento muito grande na construção de centros culturais, para promover as cidades e integrar a sociedade nesses espaços de forma que não obtenham apenas informações e conhecimentos, mas também lazer e integração entre as classes presentes naquele ciclo social. Essa integração em fomentar a cultura, foi o que mais me chamou atenção na Casa D´Itália. Em uma ação como um dos integrantes do Grupo “A ponte – Conexão com a Arte” (Um grupo formado por artistas visuais que tem como objetivo fomentar a arte local e conectar com o cotidiano de todos…enaltecer os patrimônios, ligar a história aos olhares da atualidade…e registrar a vida da cidade, para ligar o hoje ao futuro./Tarsila Palmiere). O departamento de Cultura, através da Assessoria de Comunicação, mostrou-se interessados pelo projeto e solícitos a ação, onde gerou a oportunidade de uma Exposição on-line e também individual para os artistas participantes do Grupo.


5 Você acredita que a Casa D’Itália de Juiz de Fora e os artistas da cidade podem ajudar as pessoas neste momento difícil de pandemia com suas produções? De que forma?

Acredito no poder de transformação da arte na vida das pessoas, pensamentos tomam forma e ideais de culturas e etnias têm a oportunidade de serem apreciados pela sociedade no seu todo. Assim, o conceito de arte está ligado à história da humanidade, embora não seja presa a determinado contexto, período ou época, e por esse ângulo é essencialmente mutável. Como será que nossos bisavôs definiriam a arte? Possivelmente nesta época fosse impossível pensar em uma arte digital, ou no desenvolvimento de um projeto de instalações contemporâneas, mas hoje esse fator é determinante para compreendermos a arte num sentido mais amplo e completo. Tudo passa pelas tecnologias e a humanidade está marcada pelos desafios políticos, econômicos e sociais decorrentes de uma nova configuração da realidade. Hoje as instituições, tem o poder de alcance da população através desses veículos de comunicação, Todos estão se adequando devido a pandemia, onde gera o momento perfeito ao acesso e repasse desses conteúdos.. Com a bagagem de informações que a Casa D’Itália tem, torna-se uma mina de ouro para quem está a procura de crescer culturalmente e ter uma melhor qualidade de vida. Através de uma mostra de arte, uma boa poesia, dança, música e outros entretenimentos, podemos inserir conceitos, emoções positivas existentes na vida humana, e dentre elas, uma que mais se destaca são as emoções geradas pelas manifestações artísticas em suas mais variadas formas de expressão; sua energia é muito grande. A arte talvez seja a mais bela manifestação de contato entre o ser humano e sua essência, independentemente deste ser humano ser o criador ou apreciador. Nós eleva pois nos aproxima do sagrado e o profano que habitam dentro de nós.

6 Um dos objetivos da galeria On-line é incentivar as pessoas a acreditarem e investirem na arte e nos artistas juizforanos, principalmente o público jovem. Você poderia deixar algum recado para esses jovens e para todos os leitores da Revista Casa D’Itália.

Nós artista temos uma ferramenta muito preciosa nas mãos, podemos juntos mostrar para os demais a importância de ter uma boa cultura; o artista vê aquilo que as outras pessoas não veem, ele cria aquilo que está além do cotidiano, torna intensa a sensibilidade e a capacidade de promover uma visão crítica sobre determinado tema, ou até propor uma reflexão, seja com pintura, música, um pequeno poema ou um livro… Estamos na hora de arregaçar as mangas e ir à luta por nossos ideais. Mostrar para o mundo essa força e riqueza de conteúdos. etc.. O Brasil é admirado por sua diversidade cultural e produção artística. No entanto, o que é produzido em território nacional é inacessível para uma grande parcela da população. Pequenas ações de fortalecimento e resgate cultural, integradas com o poder público ou privado, podem ajudar aqueles que não têm acesso. Referente aos investimentos em projetos e nos artistas, um canal aberto seriam as empresas. Visto pela ótica corporativa, as empresas querem usar os patrocínios como parte de estratégias na construção de suas marcas. Ao Investir em um projeto, são beneficiados: o produtor, o público e o investidor. Um dos benefícios para as empresas em seu papel de investidor Cultural é o posicionamento da marca e a valorização da imagem corporativa.
Ninguém pode dizer que o caminho até seus sonhos será fácil, provavelmente muitos obstáculos encontrará e milhões de razões para desistir. Mas uma coisa fato! Somos guerreiros…somos artistas, e artistas são fortes, com poderes diferenciados e com conexão ao divino. Acredite no seu poder de transformação e de fazer o diferencial na vida das pessoas. Acredite em você!


Wesley Rocher Monteiro

Artista Plástico Brasileiro Contemporâneo, atua principalmente com pintura em telas, gravuras e desenhos. Amante do Movimento Modernista Brasileiro, fomentou seu trabalho na área do cubismo e abstrato com cores fortes e traços mercantes. Autodidata, optou em não ter influências de academias, preservando assim o aprendizado de forma natural e singular. “Rocher Monteiro”, como é conhecido no mundo artístico, acredita na legitimidade do seu trabalho e no processo criativo em fazer desses fatores um diferencial no mercado das artes.


Imigrantes Italianos, devoção e epidemias

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 10, 2020 – Valéria Leão Ferenzini | Imigrantes Italianos, devoção e epidemias


Em tempos de pandemia e seus desdobramentos — insegurança, fragilidade, medo, problemas sanitários e mortes —, é oportuno relembrar como a humanidade lidou com episódios similares do passado, como as epidemias do século XIX. Para isso, retomaremos os primórdios do fenômeno imigratório, entre os anos de 1880 e a Primeira Guerra Mundial, quando o Brasil recebeu um fluxo incessante de imigrantes italianos e Minas Gerais se tornou a terceira área em termos de importância, como afirma Trento.

Foi em função de um desses períodos de extrema insegurança que a devoção a São Roque se tornou uma das primeiras manifestações culturais da imigração italiana em Juiz de Fora. Conforme registramos em nosso livro, A “Questão São Roque”: devoção e conflito, uma carta da Irmandade de São Roque1 informava que, em 1878, teve início o culto a São Roque — santo protetor contra a peste — entre os italianos de Juiz de Fora, comemorado no dia 16 de agosto.

O culto a São Roque, ou San Rocco, foi uma das tradições trazidas da Europa, sendo o santo cultuado na França e na Itália desde o início do Século XV.  Segundo sua hagiografia, apresentada por Thurston, ele, filho de uma família abastada, abandonou todas as posses e saiu em peregrinação para Roma. Encontrando a Itália assolada pela peste, curou doentes, mas acabou contraindo o mal. Estando entre a vida e a morte e abandonado em um bosque, passou a receber a visita diária de um cachorro, que lhe levava sempre um pão. Assim, pôde não só se manter, como se curar milagrosamente. De acordo com Vauchez, a partir do século XVII, o santo passou a ser invocado contra a cólera; moléstias dos rebanhos e das vinhas; e, contemporaneamente, como patrono dos trabalhadores do campo.

Igreja de São Roque – JF

Em Juiz de Fora, a devoção a São Roque foi motivada pelo temor às epidemias que assolavam a cidade. Um documento eclesiástico — transcrito em minha pesquisa — informa que existiam muitos italianos em Juiz de Fora e, que devido à ameaça da febre amarela, fizeram promessa a São Roque e passaram a homenageá-lo, com festa e missa, no dia 16 de agosto. Alguns anos depois, compraram uma imagem do santo, que era guardada em um quartinho de uma padaria2.

No século XIX, Juiz de Fora apresentava muitos pontos atrativos para diversos grupos de imigrantes, devido ao seu desenvolvimento econômico, associado à concentração de diversas atividades ligadas à produção cafeeira. Por outro lado, a cidade também apresentava diversos fatores que favoreciam surtos periódicos de epidemias como tifo, febre amarela, varíola e cólera. Em seu estudo sobre as epidemias na cidade, Zambelli relaciona os seguintes períodos como os de maior gravidade: cólera em 1855 e 1856; tifo em 1871; varíola em 1874; e cólera em dezembro de 1894 e janeiro de 1895.    

A epidemia de cólera de 1855 encontrou a cidade totalmente despreparada, já que, para combater a doença, havia apenas um médico e o prédio da Câmara Municipal foi usado como hospital de emergência, como esclarece Christo em sua análise sobre a cidade no século XIX. Como informa Zambelli, anos depois, em dezembro de 1894 e janeiro de 1895, a cólera se espalhou pela cidade e pela hospedaria de imigrantes Horta Barbosa. Na ocasião, o intérprete da hospedaria informou a situação ao cônsul italiano em Ouro Preto e ressaltou que o estabelecimento apresentava várias precariedades e não possuía local apropriado para o isolamento dos doentes. 

Segundo Oliveira, a hospedaria Horta Barbosa, criada em 1888, tinha a função de abrigar os imigrantes por cerca de dez dias e depois redistribuí-los por outras regiões. Durante seu funcionamento, a hospedaria esteve vinculada a graves problemas: denúncias de corrupção, péssimas condições de higiene e constante superlotação. Essas circunstâncias eram agravadas em períodos de epidemias, como por exemplo uma de varíola em 1889, que resultou em um cordão sanitário, evitando o contato do bairro com o restante da cidade.

A epidemia de cólera de 1894-95 resultou na morte de 94 imigrantes italianos, cujos restos mortais encontram-se em um túmulo coletivo no Cemitério Municipal Nossa Senhora Aparecida. Em 2012 e 2014, a partir da abertura de dois processos de tombamento de diversos túmulos, surgiu a possibilidade de seu tombamento como mais um bem cultural da imigração italiana em Juiz de Fora.

Imagem 1: Túmulo coletivo dos imigrantes italianos
Fonte: Valéria Leão Ferenzini
Imagem 2: Placa do túmulo coletivo.
Fonte: Valéria Leão Ferenzini

Os problemas que esboçamos até aqui não foram exclusividade de Juiz de Fora, pois, como analisou Hutter, durante o século XIX e início do século XX, na maioria dos países, as condições de saúde, higiene e saneamento eram muito precárias, favorecendo doenças e epidemias, que aterrorizavam e dizimavam grande número de pessoas. Portanto, ao longo do percurso, o imigrante enfrentava inúmeros problemas, que podiam dificultar ou inviabilizar seu processo de adaptação. Nesse sentido, dois fatores atuavam de maneira positiva ou negativa: de um lado, a religiosidade trazida por eles agiu como condutor da cultura, contribuindo para a integridade psíquica. Por outro lado, a doença — trazida ou adquirida — muitas vezes desintegrou física e psiquicamente o imigrante.

Quanto ao fenômeno da santidade, Vauchez nos esclarece que, em meio a situações de impotência, dores e incertezas, o santo é um mediador entre o humano e o divino. Os devotos recorrem a ele em busca de alento e libertação dos males que os afligem. Dentre as diversas  funções do santo, estão não somente o ato de curar e propiciar a paz, mas os fiéis também procuram nele um remédio para suas angústias, dúvidas e remorsos. O pedido dirigido a ele tem um caráter libertador, pois se transfere um pesado fardo ao intercessor de sua própria escolha.   

A escolha de um padroeiro atende a problemas específicos, pois cada santo tem sua especialidade. Portanto, as opções devocionais esclarecem muito sobre os indivíduos e os grupos sociais. No cenário desolador da cidade insalubre, no mês de agosto São Roque também era festa, momento de devoção, diversão e prazer, que colocava a colônia em evidência na sociedade local.

1 ACRCG — JF. Carta da Irmandade de São Roque à Sua Eminência Monsignore Scapardini Ambasciatore de  Sua  Santità  Il  Papa Benedetto XV. Juiz de Fora, 23/06/1919.  São Roque, p.1 (documentos não catalogados).

2 AEAM — CARTA do Pe. Augusto Beukers (Cura de N.S. da Glória) ao Cônego José Maria Rodrigues de Moraes (Vigário Geral de Marianna). Juiz de Fora. 05 de julho de 1904.


Referências bibliográficas:

CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Europa dos Pobres:  Juiz de Fora na Belle-Époque Mineira. Juiz de Fora: EDUFJF, 1994.

FERENZINI, Valéria Leão. A “Questão São Roque”: Devoção e Conflito — Imigrantes Italianos e Igreja Católica em Juiz de Fora. São Paulo: Annablume; Juiz de Fora: Prefeitura de Juiz de Fora/Funalfa Edições, 2010.

HUTTER, Lucy Maffei. O Imigrante e a questão da Saúde. In: BONI, Luis Alberto DE. (org.) A presença italiana no Brasil. v.III. Porto Alegre: Torino: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes; Fondazione Giovanni Agnelli, 1996.

OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Imigração e Industrialização: os Italianos em Juiz de Fora – Minas Gerais   (1888 – 1920). In:  BONI, Luis Alberto de. (org.)  A Presença italiana no Brasil. v. III.  Porto Alegre: Torino, Escola Superior de Teologia São Lourenço de  Brindes; Fondazione Giovanni Agnelli, 1996.

THURSTON, Herbert, ATTWATER, Donald (org.). Vida dos Santos de Butler. Vozes: Petrópolis. V.VIII, Agosto. 1992.

TRENTO, Ângelo. Do Outro Lado do Atlântico: Um Século de Imigração Italiana no Brasil. Instituto Italiano di Cultura di San Paolo-Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro. 574p. s.ed. São Paulo:Nobel,1989.

VAUCHEZ, A.  Rocco. In: Il Grande Libro dei Santi. Dizionario Enciclopédico. Torino:Edizioni San Paolo. 1998.

ZAMBELLI, Rita de Cássia Lima. A ideologia do higienismo e as epidemias de cólera em Juiz de Fora – Um breve estudo. (Trabalho do curso de história; ICHL-UFJF, 2º semestre, 1996.


Valéria Leão Ferenzini

Graduada em História pela UFJF. Mestre em História Social em História Social pela UFRJ. Doutora em História Social em História Social pela UFRJ. Professora de História – Rede Municipal de Educação de Juiz de Fora – SE/PJF. Entre 2009 e 2016, atuou como historiadora e diretora da Divisão de Patrimônio Cultural da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage – PJF. Publicou o livro: A “Questão São Roque”: Devoção e Conflito – Imigrantes Italianos e Igreja Católica em Juiz de Fora, através da Lei Murilo Mendes, Lei Municipal de Incentivo à Cultura – PJF. Publicou dentre outros, o artigo: Os italianos e a Casa d’ Italia de Juiz de Fora Dossiê Imigração Italiana – na Locus – Revista de História da UFJF. Pesquisadora da imigração italiana e alemã em Juiz de Fora, com trabalhos voltados para a análise da religiosidade dos imigrantes; conflitos envolvendo imigrantes na Primeira Guerra Mundial e durante o Estado Novo; patrimônio cultural dos imigrantes italianos. Estas temáticas têm resultado em organização de exposições, apresentações em congressos e artigos publicados. Participa do Coletivo musical autoral “Ou Sim!”, CD “Ou Sim – Poesia, Música e outras Esquinas.”