Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 29, 2022 – Fernanda Castilho | Sobre casas e suas ruínas: Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado
As metáforas sobre a escrita e sobre o modo como as escritoras e escritores a criam e produzem me são irresistíveis. A escrita como arquitetura e construção, a escrita como costura, a escrita como caminhar e como travessia. Ou então, como a escrita ensaística, por exemplo, como cavar fundo, montar um quebra-cabeça com diferentes peças, ligar os pontos. Metáforas que me tomaram durante a leitura de Na casa dos sonhos, de Carmen Maria Machado — que se refere à feitura do livro, seu jeito de mergulhar e escrever sua história, como tendo sido um ato de “emendar uma ideia na outra”.
Nessa tentativa, fazendo um experimento de costurar memórias, vivências, reflexões sobre filmes e séries da cultura pop, de pesquisas e de leituras, Carmen conta sobre um relacionamento abusivo que viveu com uma mulher. O cenário habitado por aquele casal — intensamente apaixonado, cheio de desejo, planos e vontade de escrever histórias —, denominado como Casa dos Sonhos, parecia estar cercado contra as opressões heterossexistas e violentas, mas aos poucos vai se desmanchando no decorrer dos dias.
Carmen desconstrói a Casa dos Sonhos, tijolo por tijolo, pedaço por pedaço, a cada cômodo, cada capítulo. No entanto, para esse ato de desconstrução, precisa reconstituir tanto as cenas que a ergueram quanto as de seu desmoronamento, para então, ver e entender através das ruínas, dos fantasmas, o que fora uma fantasia.
Em suas reflexões, também destrói a ideia de que os relacionamentos homossexuais são sempre respeitosos e sem casos de abusos e violência. Como ela conta, uma história construída pela comunidade LGBTQIA+ para se defender contra os ataques e a homofobia. Porém, esconder a sujeira para debaixo do tapete, ou as marcas roxas na pele com corretivo, não deixa o vale mais colorido, não o fortalece.
Antes disso, em seu capítulo inicial, “Casa dos sonhos como prólogo”, declara sua escrita uma investida contra o apagamento dos arquivos, das histórias e, principalmente, das experiências queer. “Decidir o que entra ou fica de fora do arquivo é um ato político, ditado pela arquivista e pelo contexto político no qual ela vive”. A decisão, como sabemos, sempre foi tomada a partir de moldes heteronormativos. Pois, o outro, o diferente, não se encaixa nas narrativas. Ou mesmo suas partes desagradáveis.
Ler Carmen Maria Machado me levou a outros lugares, e emendou pensamentos trazidos pelo livro a outros. Me recordei de A dançarina (La Danseuse, 2016), filme sobre Loie Fuller, a dançarina francesa criadora da serpentine dancer e encantadora figura presente nos curtas do primeiro cinema. No filme, a artista, uma mulher lésbica, é representada como uma mulher heterossexual.
No artigo “Crônica da lesbofobia ordinária”, Aude Fonvieille critica a escolha da diretora do filme, que se acoberta através de uma dita “liberdade artística” de criação, por invisibilizar a homossexualidade de Loie como algo desonesto e desonroso à sua memória.
A invisibilidade lésbica, o apagamento de suas vivências e narrativas, assim como de mulheres, negros e travestis na literatura, cinema e demais artes, é algo violento. Ao ocultar suas existências, seus direitos, tiram sua humanidade e suas complexidades. Não há história de horror mais assustadora do que um mundo branco, masculino e hétero — o mundo como conhecemos. Nada mais aterrorizante do que esconder as histórias.

Fernanda Castilho
Formada em Jornalismo e estudante de Letras. Foi bolsista de comunicação do Cineclube Lumière e Cia, Cine-Theatro Central e Coral da UFJF. Ama fotografia, os livros, os filmes, as músicas, as ruas e as janelas da cidade.