Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 29, 2022 – Ariadne Bedim Rezende | Cuidado ancestral entre mulheres no partejar.
A potência feminina se revelou de forma prematura para mim. E para muitas outras pessoas, tenho certeza. Fui parida – em uma cesárea – e criada por uma mãe solo que se ancorava em outra mulher como única rede de apoio. Ambas dividiam o cuidado uma com a outra, com o mundo e comigo.
Mulheres que servem mulheres.
Dentro do universo de cuidado entre mulheres, nasce a doulagem. Doula é um termo de origem grega que significa “mulher que serve”. Mulheres que servem e cuidam de outras mulheres no período gestacional, parto e pós-parto com apoio físico, espiritual, emocional e informativo, independente do tipo de parto. Sempre digo que, quando acompanho um trabalho de parto, não sou eu ali. Quem será? Meu cuidado é ancestral e se torna uma entidade que percorre minhas mãos e minhas palavras feito uma seiva.
Nesse mesmo lugar de zelo e cura, as parteiras tradicionais fazem presença.
O ato de partejar foi e ainda é importante em algumas regiões que enfrentam dificuldades financeiras e de acesso à saúde, contribuindo em vários âmbitos na vida da gestante, desde o processo de gestação, até o parto e pós-parto. O parto e nascimento domiciliar, assistidos por parteiras tradicionais, ainda é muito comum, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, sobretudo nas áreas rurais, ribeirinhas e em populações tradicionais quilombolas e indígenas. As parteiras, em grande maioria, aprenderam o partejar com mulheres mais velhas. Sabedoria e conhecimentos práticos transmitidos de forma natural.
Essas mulheres, parteiras e doulas, representam a primeira linha de cuidado para muitas gestantes e puérperas.
Rio de passagem
O parto é rio de passagem que deságua. Rito. Lugar de transporte. Dor ao alívio. Andarilho que caminha ao encontro do desconhecido. Mistério.
No artigo “Gestação, Parto e Pós-parto entre os Munduruku do Amazonas: confrontos e articulações entre o modelo médico hegemônico e as práticas indígenas de autoatenção”, Raquel Dias-Scopel compartilha que, do ponto de vista Munduruku, o parto é um produto das relações sociais cotidianas e cosmológicas efetivadas durante a gestação e não somente um evento de ordem fisiológica e individual centrado na biologia do corpo feminino, ditada pela ideologia biomédica do modelo de saúde hegemônico.
O portal Geledés compartilhou uma fala de Suelly Carvalho, parteira tradicional que atua no nordeste brasileiro: “O parto tradicional, herança ancestral, permite a interação social, conta a história de um povo; reforça suas crenças, expõe suas emoções, define suas relações sociais e reafirma a identidade sociocultural coletiva; este sistema de pertinências e significados se manifesta no parto. Assim o modo como se nasce, o local onde se nasce, a prática na forma de dar à luz e nascer e quem atende o parto é tão importante quanto o próprio ato de nascer, passando a integrar a memória sociocultural de uma família e de uma comunidade”.
Naoli Vinaver, parteira mexicana que combina a sabedoria tradicional mexicana da parteria com o conhecimento baseado em evidências científicas contemporâneas, diz que o parto humanizado deve ser sentido pelo coração. Dessa forma, a mulher que for escolhida pela gestante para acompanhá-la durante esse processo carrega sabedoria para fortalecer a estrada, cuidar do caminho e conectar o sentir. De coração.
Referências bibliográficas:
https://periodicos.claec.org/index.php/relacult/article/view/1099/1069
SCOPEL, Raquel. Gestação, Parto e Pós-parto entre os Munduruku do Amazonas: confrontos e articulações entre o modelo médico hegemônico e as práticas indígenas de autoatenção. 2017.
https://www.naolivinaver.com/arte-do-parto-online.html
https://apublica.org/2019/07/para-as-parteiras-indigenas-da-amazonia-o-parto-natural-e-um-ato-comunitario/

Ariadne Bedim Rezende
Doula, jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora, redatora e encantada pelos encantados.