Escrita Criativa

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 29, 2022 – Yasmin Yung Costa Gomes | Escrita Criativa


Antes de mergulhar em um tema tão diverso como a escrita criativa, gostaria de tecer algumas reflexões que realizei acerca da maneira como interpreto a escrita e suas muitas ramificações, especificações, formatos e gêneros. Primeiro, acredito que a escrita é parte da vida de toda a sociedade, em diferentes âmbitos. Tudo perpassa a escrita, desde a própria linguagem e a fala, os livros, a internet e as redes sociais, e até mesmo coisas mais simples como listas de mercado e receitas culinárias. Somos seres que vivem a escrita, seja consciente ou inconscientemente, mas poucas vezes lhe damos a devida importância e protagonismo.

Uma outra consideração que faço sobre a escrita é acerca do termo “escrita criativa”. Na minha visão, toda escrita é criativa, uma vez que mesmo para escrever um simples bilhete com os dizeres “Fui à padaria. Volto logo.” é necessário pensar e exercitar a linguagem para adequá-la ao contexto e necessidades das pessoas envolvidas no processo comunicativo. Óbvio que não acredito que copiar dizeres ou resumos da internet seja escrita criativa, mas até para adaptar uma cópia para nossas próprias palavras, é necessário criatividade.

Dito isso, acho importante destacar a maneira como a escrita se tornou tão presente na minha vida. Aprendi a ler com aproximadamente 4 anos, e sempre fui muito incentivada pela minha avó, que lia os livros didáticos da escola comigo para me ajudar a estudar. Minha mãe tinha um diário com longos textos preenchendo páginas, meu bisavô escrevia canções e poemas belíssimos, minha avó não ficava atrás, e minha bisavó era uma assídua fazedora de palavras cruzadas. Com isso, aos 6 anos já era aspiradora a poeta, fazendo versinhos nas cartas e bilhetes que escrevia nos aniversários dos meus parentes e outras datas comemorativas, aos 10 já competia com minha bisa para finalizar suas palavras cruzadas e, nesse mesmo período, lia os dicionários da língua portuguesa para aprender “palavras difíceis”.

Posso dizer com orgulho que tive sempre muito incentivo dentro de casa no que diz respeito à leitura, arte e cultura no geral, mas foi durante a adolescência, em meio aos conflitos típicos que esse período traz, e mais alguns conflitos adicionais, como o fato de minha mãe ter sido vítima de violência doméstica quando eu tinha 14 anos, e os desdobramentos do meu longo relacionamento com os transtornos alimentares entre os 12 e 16 anos, que eu me encontrei na escrita. Mergulhada em todas essas questões somadas à pressão dos estudos, eu senti que precisava de um meio de extravasar o que eu sentia, todos aqueles pensamentos que borbulhavam em milhares de palavras que eu não conseguia dizer.

Assim, voltei a regar a pequena poeta que havia adormecida em mim, porém sempre em particular, como se o mundo não pudesse vê-la ou tudo daria errado. As palavras que antes enchiam a minha cabeça, agora se derramavam sobre as páginas junto a uma imensidão de sentimentos, reflexões, observações e impressões que eu fazia sobre diversos assuntos e acontecimentos sem um tema ou critério fixo: escrevia sobre o que me desse na telha. Acredito que toda pessoa que se dispõe a escrever sobre a vida e seus pormenores, acaba se tornando uma grande observadora, ou pelo menos passa a reparar muito mais nas miudezas que a cercam.

Já escrevi poemas inteiros inspirados por uma simples xícara de café, em estranhos que vi e ouvi pelas ruas e até mesmo na própria vastidão das ruas. Me considero um tipo de poeta urbana, se é que isso existe de fato. Gosto de me aventurar nos mistérios que permeiam os arredores, as vielas, as esquinas e as encruzilhadas, as vidas cruzadas das pessoas e os mundos particulares que se misturam na dança do cotidiano. A cidade sempre me trouxe um “quê” de musa inspiradora, cigana ardilosa e mulher livre. Acho que me identifico com ela de alguma forma.

Aos dezenove anos decidi que era hora de parar de me esconder do mundo. Criei a coragem que um dia ocorreu a todos os poetas e despi minha alma ao mundo, baixando a minha guarda espalhando meus versos íntimos e vulneráveis para quem os quisesse ouvir. A coragem do poeta é algo certamente inspirador. Ao publicar o vil, o romântico, quase servil, o trauma, a dor, o medo, os anseios, o erótico, o proibido, o cruel, mordaz e feio, o poeta mostra do que é feito por dentro, em um mundo onde todos utilizam das mais diversas armaduras para se esconder.

Não me considero uma grande poeta, mas acredito que nenhum dos grandes poetas algum dia chegaram a cogitar o tamanho de seu legado. Eu sou só mais uma pessoa no mundo, que gosta de observar as coisas e que tem um senso de imaginação aguçado, além de um jeito especial com as palavras. Acredito que a vida de quem se dedica a sentir com tanta devoção é certamente uma montanha russa emocional, uma vez que a alegria e inspiração do artista são capazes de mover o mundo, ao mesmo passo que sua tristeza, desolação e desamparo têm a força de naufragar a humanidade sem pestanejar.

É preciso um certo equilíbrio, talvez, para escrever e expressar os sentimentos mais vis e dolorosos sem deixar que eles corrompam o seu íntimo, de forma a externá-los e não internalizá-los. Não sei ao certo se possuo tal equilíbrio, ou se qualquer outro poeta já o possuiu, talvez seja apenas uma idealização da minha cabeça. De certa forma, é uma tarefa muito difícil, especialmente no que diz respeito aos poetas, separar a obra do artista ou o artista da obra, porque no caso da prosa e da poesia, creio que a obra é o artista e vice versa.

O poeta é indissociável de sua obra, uma vez que a poesia é algo que nasce das dores, impressões e da vivência humana; é impossível escrever um texto sem deixar nele a sua opinião, sentimentos, crenças ou qualquer marca pessoal. Para mim, seria mais fácil tirar a roupa em público do que deixar que alguém lesse meus textos mais íntimos sem permissão, porque neles estão escancaradas as portas do meu interior, talvez eles digam mais sobre mim do que eu jamais serei capaz de demonstrar. É aí que mora a beleza e a coragem que se escondem na vulnerabilidade dos poetas.

Ser poeta é estar sempre imerso, sempre atento e, acima de tudo, sempre receptivo. As ideias e sentimentos borbulham, e você precisa saber como lidar com isso. Veja bem, uma vez acordei às 3h50 da manhã para beber água e quando me deitei novamente, simplesmente pipocaram ideias em mim, e não tive outra opção senão me levantar, colocar essas ideias no papel e somente depois de me sentir satisfeita, voltar a dormir. Essas coisas são comuns para mim e muitos outros que se dispõem a escrever. Tudo pode ser o combustível de uma nova composição, até mesmo a frustração em não conseguir concebê-la. Quantos textos magníficos já li sobre bloqueio criativo, que eram na verdade desabafos de pessoas imersas no ciclo vicioso de encarar o papel por horas, sem respostas.

Algo que me fascina nos poetas é a maneira como eles são capazes de, em suas palavras, ecoar as vozes de tantos outros seres, outros lugares, pessoas e realidades. Quem nunca se emocionou ou se sentiu reflexivo, até perturbado, após ler um texto específico? A beleza de exprimir em palavras os sentimentos do mundo nunca falha em me fascinar. É impossível encontrar alguém que, nunca na vida, leu um manuscrito e não ouviu a sua própria voz sussurrar de volta para as páginas “eu também…”.

Talvez seja por isso que muitos poetas tiveram vidas difíceis e mortes ainda mais difíceis. O peso de sentir as dores do mundo, falar as palavras dele e carregar seus anseios é certamente um fardo em diversos momentos.

Mas também a simplicidade do poeta é encantadora. Quando se passa a observar a vida em tantos detalhes, a gente percebe algumas belezas ocultas, fragmentos de luz em meio às rachaduras nas calçadas do cotidiano. É aí que mora o extraordinário: nas páginas de um velho livro, nas palavras gastas em um muro antigo, nos folhetins amontoados na calçada, o aroma do café fresco, o doce som das chuvas, o sol, etc. Se fecho os olhos, enxergo a beleza que somente a minha alma é capaz de ver. Essa é a beleza de ser poeta: a beleza de fechar os olhos para ver.

Em sua vulnerabilidade, o poeta interpreta os mais diversos papéis do imaginário coletivo, pintado em todas as cores e facetas. Vai de mocinho a carrasco, rei a bufão, de zero a um, e de um a um milhão. O poeta é todas as pessoas do mundo em uma só. Vive anônimo na multidão, e dentro de cada um de nós. Vemos poetas e conversamos com eles todos os dias, sem sequer nos darmos conta, porque ele é um de nós, ele vive em nós. Em alguns casos, nós somos os poetas, ou eles se inspiram em nós.

A vida cotidiana é uma mágica fonte de inspiração se você a observa com cuidado, e isso vale para qualquer expressão de arte ou cultura. Faça um teste simples: ande pelas ruas com os olhos bem abertos e a mente receptiva ao que lhe aparecer no caminho, observe os detalhes do trajeto que você realiza todos os dias. Tenho certeza que notará coisas novas, ou até mesmo coisas surpreendentes que sempre estiveram bem debaixo do seu nariz.

Talvez observar com tanta admiração as coisas simples da vida seja a chave para escrever com as vozes do mundo, tocar os corações das pessoas, e criar com elas uma identificação. Talvez seja esse o grande trunfo dos poetas: as pessoas os veem observando e jamais imaginam o que se passa na mente deles, que observam a todos e sabem exatamente o que se passa dentro de cada um de nós.


Yasmin Yung

Ensino Médio Completo Colégio Cristo Redentor – Academia de Comércio, Graduação em Jornalismo Universidade Estácio de Sá – UNESA/FES


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