Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 29, 2022 – Raphaela Corrêa | Roteiros para a liberdade
Estamos superando um longo período de confinamento e distanciamento social devido à pandemia do covid-19, durante o qual tivemos nossa mobilidade reprimida e com ela nosso direito de ir e vir. De modo que poderíamos ousar em parafrasear Clarice Lispector para tentar expressar o que sentem, nesse momento, todos aqueles que amam viajar: “Liberdade é pouco. O que desejamos ainda não tem nome”! Contudo, como ainda não temos outro termo que dê conta desse sentimento que nos domina nesse contexto de um “novo normal”, não há de fato outro melhor que essa palavra que, tal como escreveu Cecília Meireles, “o sonho alimenta e não há quem explique e ninguém que não entenda” e por que não dizer, que não deseje.
Logo, parece muito acertada a escolha do título “Via Liberdade” para o projeto de uma nova rota turística que pretende se firmar como a maior do Brasil. Através de um acordo de cooperação técnica assinado pelos governos de Minas, do Rio de Janeiro, de Goiás e do Distrito Federal em outubro de 2021, a Via Liberdade conta com ações e programas estratégicos que serão desenvolvidos ao longo da BR-040 e imediações , interligando as belezas históricas, culturais e artísticas entre os quatro territórios.
Vale ressaltar, entretanto, que para além do desejo latente que vem ressignificar tal título no referido contexto pandêmico, a rota foi criada em comemoração ao Bicentenário da Independência do Brasil e aos cem anos da Semana de Arte Moderna, visto que percorre as cidades que tiveram protagonismo nesses momentos históricos, desde a fase do Brasil Império no Rio de Janeiro, passando pelos movimentos libertários em Minas, a conquista do interior, em Goiás, e o apogeu da Independência do Brasil, sintetizado na criação modernista de Brasília. São mais de 300 cidades nesse percurso, que apresentam sete Patrimônios da Humanidade e 80 Patrimônios Memória do Mundo. O percurso de 1.179 quilômetros da BR-040 envolve mais de 300 cidades1.
Não cabe neste breve artigo apresentar esse projeto, já que isso foi feito diretamente pelos idealizadores em seus canais de divulgação. O objetivo aqui é aproveitar a oportunidade deste espaço para destacar a importância dos roteiros para o turismo e, principalmente, para “a expansão das liberdades humanas e constitutivas que são “o fim e o meio” do desenvolvimento”, tal como defende Amartya Sen (2018), economista indiano, Professor de Harvard (EUA), um dos idealizadores do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH e fundador do Instituto Mundial de Pesquisa em Economia do Desenvolvimento da ONU2. Afinal, nesse movimento expansivo, não cabem privações nem tampouco “invólucros”, “rolos”, “envelopes”, “embrulhos”, que possam impedir potencialidades nelas contidas, como expressam os significados da própria palavra “desenvolvimento” em várias línguas: “dé- (en)veloppment”; “des- arrollo”; “s – (in)viluppo”; “ent –wicklung”.
Com tal objetivo, é preciso lançar um olhar crítico sobre todas as etapas e princípios básicos da roteirização, alertando também para os diversos desafios que esse processo envolve, entre os quais eu destaco a integração e a gestão compartilhada tão aclamadas no turismo e que indiscutivelmente são as principais estratégias de operacionalização de roteiros e ao mesmo tempo são as maiores dificuldades, principalmente quando envolve diferentes municípios e estados, que quase sempre possuem não somente realidades estruturais, econômicas, sociais e culturais distintas, como também possuem posicionamentos políticos e ideológicos distintos. Não raro, a descontinuidade política também compromete significativamente a continuidade de projetos dessa natureza.
Da mesma forma, ocorre com as prioridades a serem definidas, que são diferentes dependendo da lente de cada instituição envolvida nas tomadas de decisões, por exemplo, o que é prioritário para o poder público pode não ser o mesmo para uma organização que visa fomentar negócios em prol da classe empresarial. Para equacionar e tentar afinar essas dissonâncias é consenso que as decisões sejam tomadas pela via comunitária, ou seja, que a comunidade seja protagonista em todo o processo e, para tanto, é preciso atuar em diversas frentes de mobilização. O que igualmente não é tarefa fácil, haja vista a enorme expectativa dos envolvidos por retorno financeiro imediato, a qual projetos de longo prazo, como são os de roteirização, muitas vezes não conseguem atender.
É preciso, entretanto, que essa via se torne uma busca permanente porque, de fato, não há outro caminho para a roteirização. Sem integração e gestão participativa não é possível conceber roteiros, sejam eles de qual dimensão for – local, regional, nacional, continental – sejam eles voltados para o público em geral ou para um segmento específico. Podem criar produtos ou atrativos turísticos isolados, mas não um roteiro.
É também esse o percurso inescapável quando se pretende fomentar a economia criativa, com bens e serviços baseados no capital intelectual e cultural que buscam melhorar e inovar a indústria do consumo promovendo outras formas de desenvolvimento, diferentes de muitas que estão em curso e que nitidamente já se mostram incompatíveis com os ideais de sustentabilidade, em todas as dimensões que a ONU tenta promover articulando os países de todo o mundo, em âmbito econômico, mas sobretudo, ambiental, cultural, social. A tomar como exemplo destinos e/ou atrativos turísticos cuja liderança é monopolizada por empreendedores do ramo imobiliário, mineração e pecuária ou pelo sistema de concessão pública.
A liberdade que aqui prezamos também é fundamental para conquistar os mais variados públicos, para que a criatividade, principal insumo da economia criativa que move o turismo, se manifeste e que alcance a representatividade cultural em toda sua diversidade e todo seu potencial de inovação, seja com mídias, tecnologia ou com as diversas linguagens artísticas, como audiovisual, música, literatura, fotografia, arquitetura, artes plásticas, artes cênicas, gastronomia.
E ao disseminar essa ideia, multiplica-se também o potencial da mesma para recriar, ressignificar, reinventar. Vale se inspirar na sabedoria popular através da canção “da abóbora faz melão, do melão faz melancia, faz doce, Sinhá, faz doce, Sinhá Maria”! Criam-se, assim, ações estratégicas para atrair visitantes durante todo o ano, para ampliar a visibilidade dos destinos envolvidos e com ela a valorização de artistas e pequenos empreendedores como forma também de resistência à hegemonia e aos padrões de mega indústrias culturais, sobretudo norte-americanas e chinesas. Para tanto, se faz igualmente necessário compreender a importância do planejamento, governança e estratégias inteligentes para a captação de recursos, bem como dos impactos econômicos significativos gerados sob toda a cadeia produtiva enquanto evidencia a cultura como direito e a importância da democratização de acesso.
Nesse sentido, os roteiros também são estrategicamente muito interessantes para criar, organizar, descentralizar e direcionar os fluxos de viajantes, na medida que contribuem para ampliar, segmentar, diversificar, qualificar e agregar valor à oferta turística. Consequentemente, podem otimizar e melhor distribuir a renda gerada e as oportunidades de trabalho que são geradas pela cadeia produtiva envolvida. É esse movimento que o processo de roteirização jamais deve perder de vista, na busca para transformar ou ao menos aproximar o tão repetido discurso do turismo como indutor de desenvolvimento sustentável de uma realidade, porém, não de forma utópica, e sim efetiva.
Ao incorporar a diversidade da produção criativa, tão potente, é possível ir ainda mais além, enriquecendo as narrativas de guiamento e interpretação dos atrativos e roteiros, despertando a atenção dos visitantes, tocando-os pela emoção, com laços de memória coletiva e social capazes de construir sentidos, tecer significados. Logo, nos vemos também diante de uma grande oportunidade para revelar histórias esquecidas / apagadas e culturas que estão à margem dos circuitos convencionais. A título de exemplos, ainda inspirados na palavra chave deste artigo, podemos citar iniciativas focadas na valorização das trajetórias de comunidades negras, como as empreendidas pelas agências “Rota da Liberdade”3 e “Diáspora Black”4 de São Paulo, bem como a produtora de Juiz de Fora-MG, “Da Mata Cultural”5, a qual criou o roteiro “JF Negra”.
Indo além do trivial, dos enquadramentos tradicionais e das histórias “oficiais”, provoca-se o olhar curioso, instiga-se a descoberta de algo novo e que de fato vai marcar uma experiência turística. Afinal, os roteiros também buscam ir além da técnica, da compreensão “do que” se fazer na viagem. Eles buscam evidenciar a essência do “porquê” e “como conhecer”. E ter isso em mente é fundamental em um contexto no qual ao mesmo tempo podemos observar, de um lado, um crescente fluxo de turistas mais interessados em tirar fotos para postar nas redes sociais e, de outro, uma demanda crescente de turistas que buscam sentir plenamente o lugar do outro e através dele melhor conhecer a si próprio por meio de vivências que revelem um mundo desconhecido ou agreguem informações e sentimentos que transformam sua maneira de ver esse mundo.
“O turismo depende dos roteiros”, já dizia Miguel Bahl, pesquisador e autor de publicações sobre o tema. E que para esses roteiros possam contribuir efetivamente para o desenvolvimento do turismo e serem libertadores, precisamos superar todos esses desafios de modo que deixem de ser meros percursos compostos por lugares de passagem e se transforme em caminhos capazes de otimizar a interação, a cooperação e a interpretação de todo o universo simbólico e afetivo que faz pulsar a cultura das comunidades locais e semear seus territórios.
[1] Para saber mais acesse: https://mgturismo.com.br/maior-eixo-turistico-do-brasil-e-lancado-o-via-liberdade/ e na página oficial do projeto: https://www.vialiberdade.com.br/
[2] Amartya Sen foi Prêmio Nobel de Economia em 1998 por sua contribuição às teorias da escolha social e do bem-estar social. É reconhecido internacionalmente por sua dedicação ao combate à pobreza com soluções concretas e estratégias complexas em obras traduzidas para mais de 30 idiomas.
[3] https://rotadaliberdade.site/
[4] https://hospedagem.diaspora.black/
[5] https://www.instagram.com/damatacultural/
Referências bibliográficas:
BAHL, Miguel. Viagens e roteiros turísticos. Curitiba: Protexto, 2004.
BRASIL. Ministério do Turismo. Coordenação Geral de Regionalização. Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil : Módulo Operacional 7 Roteirização Turística. Brasília, 2007.
RAMOS, Silvana Pirillo (org). Planejamento de Roteiros Turísticos. Porto Alegre: Editora Asterisco, 2012 (Coleção Espaço e Tempo)
SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

Raphaela Corrêa
Turismóloga com pós graduação em Comunicação e História. Possui experiência em gestão, produção cultural, projetos e pesquisas no campo do patrimônio e turismo que perpassam espaços museológicos, roteiros educativos e criativos. É professora do Departamento de Turismo da UFJF, onde também leciona para o Bacharelado Interdisciplinar em Ciências Humanas.