O papel das praças da cidade na vida do juiz-forano

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 29, 2022 – Silvia Senra e Eduarda Beraldo | O papel das praças da cidade na vida do juiz-forano


Boa parte dos acontecimentos urbanos e dos encontros e reencontros acontecem nas praças da cidade. Sua importância vem desde a antiguidade, sediando grandes acontecimentos históricos, sendo palco de trocas de mercadorias e representando a dimensão cultural dos povos e das civilizações. Até os dias atuais, a praça ainda exerce seu papel fundamental para as cidades, sendo importante não somente para a organização espacial, atuando como marco visual, mas também influenciando na qualidade de vida e bem-estar da população.

O conceito de praça é abrangente, pois ela exerce diversas funções no cotidiano urbano, tanto no contexto social quanto físico. No seu aspecto funcional, as praças se apresentam como local propício para a realização das necessidades de ocupação do tempo livre, com oportunidade de prática de atividade física, de lazer, social e recreação. No campo ambiental, as praças acabam por se caracterizar como “respiro urbano”, dado ao fato de serem áreas não edificadas, auxiliando na ventilação e iluminação; quando ajardinadas, ajudam no controle da temperatura, promovendo áreas sombreadas para a população e auxiliam na drenagem das águas de chuva, por exemplo. Desta forma, auxiliam no enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas, que se destaca como um grande desafio contemporâneo das cidades de uma maneira global.

A presença das praças no contexto urbano é importante, também, para a qualidade de vida da população, uma vez que promovem o uso para lazer e prática de atividades físicas, além da socialização, proporcionando bem-estar para seus usuários. Destaca-se ainda que, recentemente, no período da pandemia de COVID 19, as praças tornaram-se elementos estratégicos, sendo reconhecidas como equipamentos saudáveis para a população urbana.

Entendemos como praças espaços livres de edificação, públicos e urbanos, destinados ao lazer e ao convívio da população, acessíveis aos cidadãos e livres de veículos, definição dada por autores da área. Sendo assim, a cidade de Juiz de Fora apresenta um total de 95 praças, onde não são consideradas organizadores de trânsito, espaços cercados com acesso público restrito, não apropriados para se estar, lotes abandonados, largos, pertencentes a distritos. Esse valor representa 1 praça a cada 6.000 habitantes, número considerado pequeno.

Nós conseguimos classificar as 95 praças avaliadas de acordo com o tamanho. Neste sentido, 75% são de pequeno porte, com área menor que 4.000m², sendo que quase metade dessas são menores que 1.800m² (+- 25% da área de um campo), as maiores possuem em média 11.000m², como por exemplo a Praça CEU, o Parque Halfeld, a Praça de Esportes Dejair Dias Ferreira (Linhares) e a Praça Presidente Antônio Carlos.

Um dado extremamente importante é que o porte das praças é considerado pequeno, o que dificulta a disponibilidade de áreas maiores de esporte como, por exemplo, quadras cobertas e descobertas. Com relação aos playgrounds, apenas 60% das praças avaliadas possuem este equipamento,e apenas 40% da população reside a 400 m de praças que possuem playground. Esta distância de 400 m é considerada ideal para que os residentes se desloquem a estes espaços, correspondendo a 5 minutos de caminhada.

A presença de pessoas nos espaços públicos é um fator importante que proporciona vitalidade e segurança a estes ambientes. William Whyte, autor relevante do urbanismo internacional, destaca a importância da presença de “grupos de pessoas” na praça, pois demarca que a praça se configura como um espaço de destino escolhido por esse grupo de pessoas, ou seja, devido às suas qualidades específicas, diferente das praças que se configuram apenas como espaços de passagem, sem maiores atrativos.

A variedade das áreas de atividade proporciona um uso múltiplo, agregando cada vez mais usuários e possibilitando variados tipos de uso, como, por exemplo, a prática de atividade física vigorosa proporcionada por espaços de esporte como quadras e pistas de caminhada, agregando cada vez mais usuários. O uso destes espaços contribui de diversas formas para a saúde, pois influencia a saúde física, mental e as relações sociais daqueles que utilizam estes espaços. Além disso, outro fator importante para a utilização destes espaços é a qualidade e manutenção. Quando bem conservadas, acabam incentivando o uso e, assim, promovem a saúde da população, pois facilitam a atividade física recreativa.

Outra autora da área, Jane Jacobs, acredita que tais espaços devem ser cercados pelos “olhos das ruas”, ou seja, com portas e janelas voltadas para a praça e possuem entorno com uso variado, mesclando residencial, comercial e institucional. E destaca que “os parques de bairro bem-sucedidos raramente têm a concorrência de outras áreas livres” (JACOBS, 1961, p. 111)

Neste sentido, com relação ao entorno destes espaços, Jane Jacobs (1961) defende que o sucesso dos “parques de bairro” está relacionado a um entorno de uso variado, ou seja, à presença de uma mescla de espaços comerciais e espaços residenciais. Para a autora, tal fato promove uma variedade de usuários que utilizam o parque em horários distintos, gerando um movimento contínuo. Contudo, em Juiz de Fora, o entorno das praças avaliadas a partir do térreo dos lotes foi caracterizado como predominantemente residencial, pois somando-se os usos residencial unifamiliar e multifamiliar, somam-se 64,1% dos lotes.

Assim como Jacobs, Kevin Lynch defende a diversidade de uso, de funções ao redor das praças. Em sua obra “A boa forma da cidade”, o autor define que uma boa praça deve ter por hábito, ou disposição intencional, usos sobrepostos, seja como terminal rodoviário, mercado de legumes, parque infantil e local de reunião para os adultos. Desta forma, os horários das atividades podem ser manipulados de maneira a compartimentar o comportamento no tempo. Ou seja, tendo movimentação ao longo do dia todo.

A praça é presença cotidiana, é parte do tráfego, do trânsito, da saúde e do esporte. Juiz de Fora tem história marcada em diversos destes espaços. Sua importância, em todos os âmbitos, revela a necessidade de políticas públicas para manutenção, conservação e implementação de novas praças, com o crescimento da cidade e dos empreendimentos.


Referências bibliográficas:

WHYTE, W. H. The social life of small urban spaces. Washington, D.C: 1980. 125 p.

GEHL; JAN. Cidade Para Pessoas. São Paulo: Perspectiva 2013.

JACOBS, J. Morte e vida das grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

ROBBA, Fábio; MACEDO, Silvio Soares. As Praças Brasileiras. São Paulo: Emesp, 2002.

MACEDO, Silvio Soares. Espaços Livres. Paisagem Ambiente Ensaios. São Paulo, n. 7 p. 15 – 56 jun. 1995. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/paam/article/view/133811/129684 Acesso em: 28 agosto 2018

QUEIROGA, Eugênio Fernandes. Sistemas de espaços livres e esfera pública em metrópoles brasileiras. RESGATE – vol. XIX, N0 21 – jan. /jun. 2011 – p. 25-35.


Silvia Senra

Autora do livro Praças de Juiz de Fora, é mestra em Ambiente Construído pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É membro do núcleo de pesquisa VIRTUS.Lab e tem trabalhado em projetos de pesquisa que investigam o espaço livre público urbano a partir de estudos que envolvem saúde e qualidade de vida. É sócia proprietária do escritório Silvia Senra arquitetura, onde atua no desenvolvimento de projetos de arquitetura de loteamentos, residencial, comercial e interiores.

Eduarda Beraldo

Autora do livro Praças de Juiz de Fora, é mestra em Ambiente Construído pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É membro do núcleo de pesquisa VIRTUS.Lab e tem trabalhado em projetos de pesquisa que investigam o espaço livre público urbano a partir de estudos que envolvem saúde e qualidade de vida. É sócia proprietária da Ligne arquitetura e Interiores, onde atua no desenvolvimento de projetos de arquitetura residencial e interiores.