Turismo e educação – desafios para os impactos positivos da formação em turismo no Brasil

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 29, 2022 – Edwaldo dos Anjos, Carla Fraga, Romilda Lopes | Turismo e educação – desafios para os impactos positivos da formação em turismo no Brasil


Embora o termo Turismo esteja no dia a dia, este é um fenômeno complexo, que vai muito além dos sonhos, planejamento e realizações de “viagens de final de semana e/ou de férias”. O Turismo exige tratamento profissional e ético, com aquisição de competências (conhecimentos e habilidades) com origens multi e interdisciplinares. Portanto, alinhamentos entre teorias e práticas diversas são essenciais para propostas criativas e inovadoras, que contribuam tanto para o avanço do conhecimento científico sobre o Turismo, quanto para as atuações nas mais diversas atividades que compõem a cadeia produtiva na qual está engendrado. As reflexões sobre o histórico dos Cursos de Graduação em Turismo no Brasil oferecem pistas relevantes para se compreender os desafios e as oportunidades decorrentes do impacto da educação em Turismo neste alvorecer do século XXI.

Breve histórico dos cursos de graduação em turismo

Os primeiros cursos superiores de Turismo no Brasil remontam à década de 1970, e é nesse período que o termo turismólogo passa a designar o conjunto de profissionais da área do Turismo, com o objetivo de normatizar uma categoria de trabalhadores que não possuíam o reconhecimento de suas profissões1. Há de se considerar que, à época, havia no país uma política de estímulo à criação de cursos profissionalizantes, o que fez com que a maioria dos cursos de graduação em Turismo se iniciasse em instituições, beneficiando-se dos incentivos
governamentais, ao estimular cursos que tinham como eixo central o planejamento turístico, ao compreender o turismo como um agente de desenvolvimento nos anos de 1980. Esse aspecto ligado à operacionalização do turismo acabou por dar um menor espaço à reflexão humana e à possibilidade de estímulo de um espírito crítico junto aos discentes naquele momento.

Nos anos de 1990 e início dos anos 2000, há um crescimento significativo de graduações, sobretudo em instituições privadas, num contexto de abertura a novas modalidades de cursos, tal como consolidado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996. Para se ter uma ideia mais precisa acerca do grau de crescimento de cursos na área de Turismo, Ramos et al. (2011) atestam que, em 2005, as graduações de turismo e afins chegaram a 697 cursos. Cenário diferente das décadas anteriores, já que Matias (2002) apontava 25 cursos de Turismo e/ou Hotelaria no final da década de 1980, passando para 60 cursos de Turismo em 1997 (RAMOS et al. 2011).

Aliás, na área do Turismo, esse aumento causou um efeito colateral relevante: fez com que se conformasse um excesso de oferta de cursos de graduação, com reflexos até os dias atuais. Dentre esses desdobramentos, pode-se citar a existência de um significativo contingente de turismólogos formados sem, entretanto, ter acesso ao mercado de trabalho no Turismo.

Aliás, um parêntese: essa situação de um contingente de turismólogos desempregados ainda parece ser uma realidade junto ao mercado de trabalho, algo que, segundo Pimentel e Paula (2014), pode ser atribuído a três fatores: i) descompasso entre os processos de formação do turismólogo e demandas do mercado; ii) um excesso de mão de obra com formação de nível superior para ocupar cargos intermediários e superiores, ao passo que há uma carência de profissionais de nível operacional; iii) diversidade da área de turismo, o que gera que atividades afins possam contar com profissionais com outras formações.

Observa-se que, a partir de 2008, após forte crescimento, começa a haver um declínio dos bacharelados de Turismo, chegando a 99 cursos em 2018 (BRASIL, 2019). Desse total, 47 cursos (47,5%) são de instituições públicas e 52 (52,5%) provêm de instituições privadas. Outro fator relevante para se pensar a distribuição e o oferecimento dos cursos de Turismo no país relaciona-se à distribuição geográfica desses. Dos 99 cursos superiores regulares, 41,4% do total nacional provinham da região Sudeste. Por sua vez, tanto as regiões Nordeste e Sul contavam com 21 cursos cada, correspondendo a 42,4% do total de cursos. (BRASIL, 2019).
Bom, feito essa síntese do panorama e da história dos cursos de graduação em Turismo no Brasil, eis que surge a questão: qual o impacto da educação no setor do turismo?

O impacto da educação em turismo na área: desafios e oportunidades

Uma análise das publicações científicas relativas a Cursos Superiores de Turismo, utilizando o suporte do software Iramuteq versão 0.7 Alpha 2, executada a partir do Portal Publicações de Turismo utilizando o termo “superior” e filtro “título”, alcançou 82 resultados, dos quais 36 foram validados – por apresentarem afinidade temática e resumo em português – e demonstram o que tem sido mais recorrente ao se tratar a temática em âmbito científico (vide Figura 1):

É importante destacar, contextualmente, que esse Portal Publicações de Turismo, na data da consulta (08/08/2022), abarcava 50 periódicos iberoamericanos de Turismo com mais de 15 mil artigos indexados. Ainda, na Figura 1 ficou evidente que, sobre Cursos Superiores de Turismo, vários termos são muito representativos, tais como: “pesquisa” (n=54), “área” (n=38), “formação” (n=31), “profissional” (n=28), “egresso” (n=26), “mercado” (25), “educação” (n=21), entre outros, e são essenciais.

Diante desse cenário, o papel da educação para o Turismo é objeto de discussão não só da academia ou do mercado de trabalho, mas também de toda a sociedade. Ao que tudo indica, parece haver uma percepção mais ou menos generalizada de que os cursos de graduação em Turismo carecem ultrapassar uma formação genérica, introdutória e dispersa. Isso quer dizer que parece haver a necessidade de especialização mais específica em alguma das áreas do turismo, mediante competências específicas. E isso envolve uma revisão dos currículos dos cursos, de maneira a possibilitar outras habilidades, como: i) domínio avançado de idiomas; ii) manejo de softwares; iii) habilidade na produção de projetos interdisciplinares.

Outro ponto é referente ao quantitativo ainda reduzido de cursos de pós-graduação na área do Turismo no Brasil. Para ilustrar isso, a partir do primeiro semestre de 2022, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) fomentou, por meio do edital 09/22, a abertura de 156.120 novas vagas em cursos de graduação e especialização lato sensu das instituições públicas de ensino superior integrantes do Programa Universidade Aberta do Brasil (UAB). Apenas 8 propostas ligadas ao Turismo foram submetidas. Desse universo, uma foi indeferida (Especialização em Turismo e Hospitalidade) e, das sete propostas aprovadas, apenas 1 curso era de pós-graduação (lato sensu), o curso de Especialização em Gestão Pública de Turismo e Desenvolvimento Regional, da Universidade Federal de Juiz de Fora, oferecendo 150 vagas por entrada, isto é, 0,10% do total de vagas. Dos demais cursos, um se tratava de um bacharelado e cinco eram cursos tecnológicos (BRASIL, 2022).

Já no campo da pós-graduação stricto sensu, Rejowski, Ferro e Sogayar (2022) identificam a existência de seis doutorados em Turismo, Hospitalidade e Lazer no Brasil (Turismo e Hotelaria – UNIVALI; Turismo e Hospitalidade – UCS; Hospitalidade – UAM; Turismo – UFRN; Turismo – USP; Estudos do Lazer – UFMG), onze mestrados acadêmicos e três mestrados profissionais, aí excluídos os interinstitucionais.

Todavia, a despeito do panorama ligado à formação profissional em Turismo no Brasil, a inserção de profissionais de Turismo oriundos de instituições de ensino superior parece estar contribuindo sobretudo para as políticas públicas e as inovações (vide Quadro 1):

Fortalecimento de políticas públicas de TurismoSeja do ponto de vista municipal, seja nas esferas estaduais e nacional, visualiza-se a eclosão de diferentes iniciativas de governança do Turismo, muitas delas intimamente ligadas ao setor público. No caso de Minas Gerais, não só se visualiza certa permanência da Secretaria Estadual de Turismo no Estado, como também se tem o desenvolvimento de um conjunto de dispositivos capazes de contribuir para o fortalecimento das políticas da área: conselhos municipais de turismo, circuitos turísticos (Instâncias de Governança Regional – IGR) e legislação específica sobre o setor.

Desenvolvimento de inovações na área do Turismo

Através da educação, existe a possibilidade de formação de profissionais capazes de atuar na melhoria do oferecimento de bens e serviços, bem como o desenvolvimento de novos materiais, técnicas e tecnologias que busquem oferecer experiências turísticas compensadoras e melhoramentos à atuação de outros profissionais da área. Além disso, através da educação, pode-se aprimorar os processos de gestão com vistas a trazer mais fluidez na administração de instituições públicas ou privadas fazendo a inserção de diferentes ferramentas organizacionais. Outro ponto que merece destaque é a utilização de métodos e técnicas para posicionamento e reposicionamento no mercado de determinada oferta ou de produto turístico. Diante disso, a educação pode vir a ser uma ferramenta significativa para a formação de profissionais capazes de manejar
softwares
, novas tecnologias e produzirem projetos factíveis a partir das necessidades do mercado e da sociedade.

Quadro 1: Contribuições da Educação no Turismo para a área – Elaboração Própria

Breve reflexão final

Como se observa, a educação superior na área do Turismo apresenta desafios. Todavia, alguns desdobramentos já podem ser vistos junto ao setor público, ao setor privado e também ao terceiro setor. Para que avanços ocorram, parece haver a necessidade de uma mudança. Ela consiste em que os atores envolvidos na área do Turismo (poder público, comunidade acadêmica, sociedade civil e iniciativa privada) possam superar as diferenças e contribuir para uma melhor sinergia nas relações, de modo a reorganizar o quadro de trabalho dos turismólogos no Brasil, procurando compreender as singularidades e as dificuldades da área no país.


Referências bibliográficas:

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Relatório síntese de área: artes visuais (licenciatura). Brasília: Inep, 2019.

BRASIL. Lei nº 12.591, de 18 de janeiro de 2012. Reconhece a profissão de Turismólogo e disciplina seu exercício. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12591.htm. Acessado em 10 ago. 2022.

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MATIAS, Marlene. Turismo: formação e profissionalização. São Paulo: Manole, 2002.

PIMENTEL, Thiago Duarte.; PAULA, Sara Conceição de. A inserção profissional no mercado de trabalho face às habilidades adquiridas na formação superior em turismo. Revista de Turismo Contemporâneo, [S. l.], v. 2, n. 1, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/turismocontemporaneo/article/view/5474. Acesso em: 08 ago. 2022.

PREFEITURA DE JUIZ DE FORA. Política Municipal de Turismo. Disponível em: https://www.pjf.mg.gov.br/e_atos/e_atos_vis.php?id=97754. Acesso em 10 ago 2022.

PUBLICAÇÕES DE TURISMO. Disponível em <http://www.each.usp.br/turismo/publicacoesdeturismo/&gt; Acesso em 08 ago. 2022.

RAMOS, Maria da Graça Gomes; GARCIA, Tania Elisa Morales; HALLAL, Dalila Rosa; MÜLLER, Dalila. Ensino superior em turismo no Brasil: da expansão à diversificação. Tourism & Management Studies, Universidade do Algarve, Faro, Portugal, v.1, p. 777-786, 2011.

REJOWSKI, Mirian e FERRO, Rafael Cunha e SOGAYAR, Roberta. Pós-graduação em Turismo, Hospitalidade e Lazer no Brasil: da consolidação dos mestrados à emergência dos doutorados. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, v. 16, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.7784/rbtur.v16.2217. Acesso em: 08 ago. 2022.

VIEIRA, Rodrigo. Falta de mão de obra especializada afeta setores do Turismo. Disponível em: ttps://www.panrotas.com.br/gente/movimentacao/2022/07/falta-de-mao-de-obra-especializada-afeta-setores-do-turismo_190502.html. Acesso em: 07 ago. 2022.


Edwaldo dos Anjos

Professor do Departamento de Turismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Coordenador do Curso de Especialização em Gestão Pública de Turismo e Desenvolvimento Regional. Líder do Grupo de Pesquisa e D’ELAZ – Educação e lazer (CNPQ/UFJF). E-mail: edwaldo.anjos@ufjf.br

Carla Fraga

Professora substituta do Departamento de Turismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Líder do Grupo de Pesquisa e D’ELAZ – Educação e lazer (CNPQ/UFJF). E-mail: romildaalopes@ufjf.br

Romilda Lopes

Professora do Departamento de Turismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Vice – Coordenadora do Curso de Bacharelado em Turismo. Líder do Grupo de Pesquisa Transportes e Turismo – GPTT (CNPQ). E-mail: carlota.fraga@ufjf.br