Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 29, 2022 – Mario Cau | Entre imagens e fumacinhas
Quando me perguntam há quanto tempo eu desenho, sempre respondo “desde sempre”. E é verdade, desenho desde os dois, três anos, nunca parei, nunca perdi o interesse. E isso, somado ao incentivo e ao apoio da família, foi crucial para que hoje eu seja um artista profissional. Mas não só isso. Se desde muito cedo eu me interessei por desenho, a narrativa veio junto. As histórias em quadrinhos embalaram minha infância, minha adolescência e continuam hoje, na minha vida adulta, agora configuradas como profissão. A linguagem dos quadrinhos é algo que faz parte de mim.
Histórias em quadrinhos como uma linguagem existem há milênios, se levarmos em consideração que uma sequência deliberada de imagens que contam uma narrativa (com ou sem texto) já era um recurso empregado na arte do Egito Antigo, nos códices Maias e também na Coluna de Trajano, que fica em Roma (tive a oportunidade de visitá-la em 2015). Porém, os quadrinhos como forma de entretenimento popular, em publicações destinadas às massas, só começaram a realmente se desenvolver no fim do século 19.
Apesar das origens lendárias, os quadrinhos não eram pensados como forma de arte ou mesmo como produto na Antiguidade. Começaram a se tornar o que conhecemos hoje a partir de experiências narrativas de artistas plásticos como Rodolphe Töpffer e do desenvolvimento do design. Porém, só com a publicação em massa de HQs nos jornais e revistas é que podemos dizer que a linguagem se consolidou. E, apesar da “batalha” para definir quem “inventou” os quadrinhos modernos (os norte-americanos obviamente querem o título para si, citando a publicação de Yellow Kid, em 1896), quem realmente leva o título é o Brasil. Quer dizer, para ser específico, um italiano que viveu no Brasil.
Angelo Agostini nasceu em Vercelli em 1843, e veio para o Brasil com 16 anos. Foi o mais importante artista gráfico de seu tempo e trabalhou em diversas publicações importantes, jornais e revistas. Em 30 de janeiro de 1869, publicou o que seria considerada a primeira história em quadrinhos brasileira: As aventuras de Nhô Quim, na publicação A Vida Fluminense.
O 30 de janeiro é comemorado hoje em dia como o Dia do Quadrinho Nacional (favor não confundir com Dia Nacional dos Quadrinhos, que não é a mesma coisa), em homenagem à publicação pioneira de Agostini no Brasil. Seu nome batiza, também, um troféu muito importante para a cena brasileira, organizado pela AQC (Associação dos Cartunistas e Quadrinistas) e entregue anualmente a autores e autoras através de voto popular. Tive a honra de ser premiado duas vezes como melhor desenhista, em 2015 e 2018.
As histórias em quadrinhos no Brasil sempre viveram uma montanha-russa de situações: ora a produção era grande e as tiragens imensas, ora o mercado minguava e limitava-se à republicação de material estrangeiro (com a exceção perene da MSP de Maurício de Sousa). É evidente que crises políticas e econômicas prejudicaram as possibilidades dos quadrinhos no nosso país, especialmente se pensarmos que sempre foi considerada uma “arte menor” por ser produzida e vendida para grandes públicos, e ser relativamente “superficial e descartável”. Nem preciso dizer que isso é uma falácia, não é? Quadrinhos são uma linguagem tão poderosa quanto a literatura e o cinema, e, assim como essas vertentes da produção nacional, sofrem com a falta de incentivo, investimento e público, enquanto material internacional tem espaço garantido e receptividade boa entre o público.
Então, o que os quadrinhos têm de tão especial? Como disse, trata-se de uma linguagem. Então, podemos dizer que as HQs possuem recursos próprios, que são característicos e indissociáveis dessa linguagem. Quadrinhos são uma derivação das artes visuais por serem, em essência (também questionável), baseados em imagem. Mas as HQs evoluíram para muito além disso. Não são literatura, artes plásticas ou cinema. A associação de texto com as imagens, por exemplo, já existia na literatura, mas os recursos cada vez mais inventivos foram se distanciando do que era o senso comum: texto agora poderia não só descrever a cena, o que é muito redundante numa narrativa de HQ, mas também simbolizar as falas, efeitos sonoros e narrações. Um dos grandes recursos visuais dos quadrinhos é o balão de fala (e suas derivações, como o balão de pensamento). E é justamente o balão que batizou os quadrinhos italianos.
Na Itália, as histórias em quadrinhos são conhecidas como fumetti, ou seja, fumacinhas. O nome veio da associação do balão de fala com o ar projetado pela voz, que foi batizado de fumetto. Vale dizer que diferentes culturas chamam as HQs de um jeito: no Japão, são conhecidas como mangá. Em inglês, comics. Portugal as chama de banda desenhada, e, na França e na Bélgica, é bande dessinée. No Brasil, o termo que mais pegou foi gibi. Dentro dos quadrinhos em geral, incluindo o fumetti, existem infinitas possibilidades de contar histórias, dos infantis aos policiais, do erótico à ficção científica. Arrisco dizer que, para cada gênero narrativo, a Itália nos presenteou com pelo menos um grande nome.
A produção intensa e invejável de quadrinhos na Itália é reconhecida mundialmente. É inquestionável a qualidade e relevância dos quadrinhos Disney produzidos por lá e republicados pelo mundo todo (inclusive no Brasil). Histórias de Mickey e companhia também foram produzidas no Brasil durante décadas, pela Editora Abril, mas, infelizmente, foram descontinuadas em 2018. A produção foi retomada pela editora Culturama no ano seguinte, porém, dessa vez, sem material produzido por autores brasileiros. Há dois anos, foi anunciada a produção de HQs inéditas de Zé Carioca por autores brasileiros. Nada mais justo para nosso papagaio malandro.
Outro grande monumento dos fumetti é a Sergio Bonelli Editore. Fundada em 1940 pelo próprio Sergio Bonelli, a editora produz quadrinhos seriados de temas diversos, sendo que, entre os mais conhecidos (inclusive por leitores brasileiros), estão faroeste, policial e mistério. Diversos autores e autoras se revezaram ao longo de décadas para contar histórias de personagens já icônicos como Tex, Mágico Vento, Julia Kendall, Ken Parker e Dylan Dog (meu favorito dentre os fumetti da Bonelli).
Dentre os autores mais relevantes na Itália atualmente está Zerocalcare (pseudônimo de Michele Rech), que produz histórias que misturam relatos do cotidiano, memórias de sua própria vivência e reportagens (um de seus trabalhos mais relevantes é Kobane Calling, em que relata sua experiência em meio à guerra da Síria). Publicada pela Bao, a obra de Zerocalcare tem um alcance enorme na Itália e, recentemente, começou a ser publicada no Brasil pela Editora Nemo, além de ter ganho uma adaptação em animação, intitulada Entrelinhas pontilhadas, disponível na Netflix. A já mencionada Bao figura entre as maiores editoras de quadrinhos atualmente na Itália, tendo inclusive publicado a adaptação de Dois Irmãos, livro de Milton Hatoum, pelos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon.
É inegável que as HQs sempre foram fonte de inspiração para cinema, games, TV, brinquedos e tanto mais. É inegável também que, como linguagem, os quadrinhos não param de evoluir, com cada vez mais autores e autoras criando obras incríveis e expandindo as possibilidades narrativas. Mercados como o norte-americano e o japonês, para não mencionar o franco-belga e também o brasileiro, cada um a seu modo, continuam permitindo que contemos histórias diversas para entreter e intrigar os leitores do mundo todo.
Quero deixar claro, também, apesar de esperar que não seja necessário: quadrinhos não são (apenas) entretenimento rápido e raso e/ou para crianças; é uma linguagem com gêneros, estilos, formatos, propostas infinitas — e com certeza existe uma HQ por aí que você vai amar. Se você não é leitor (talvez tenha deixado de ler gibis quando ainda era criança), deixa eu te avisar que a produção brasileira é colossal e maravilhosa, diversa em todos os sentidos. Mas é preciso buscar: as melhores HQs brasileiras não estão nas bancas de jornal, e sim nas livrarias, comic shops, lojas on-line e na internet. Vale muito apena uma pesquisa. Vai que você (re)descobre o amor por essa linguagem?
Sempre existe muito mais a dizer sobre quadrinhos, e meu amor pela linguagem precisa ser contido para que o texto não fique longo demais. Tenho orgulho de fazer parte de um universo tão vasto, e espero poder continuar contando minhas histórias por muito tempo.
Referências bibliográficas:
Sergio Bonelli Editore, no podcast Confins do Universo: https://universohq.com/podcast/confins-do-universo-028-raios-e-trovoes-hqs-bonelli/
A História do Quadrinho Brasileiro, no podcast Confins de Universo: https://universohq.com/podcast/confins-do-universo-122-a-historia-do-quadrinho-
Guia dos Quadrinhos, uma enciclopédia das publicações de HQ no Brasil: http://www.guiadosquadrinhos.com/

Mario Cau
É autor de quadrinhos, ilustrador, editor, professor e produtor de conteúdo; formado em Artes Visuais pela Uicamp. Entre seus trabalhos mais relevantes, estão as séries Pieces, Monstruário (com Lucas Oda) e Terapia (com Rob Gordon e Marina Kurcis), e a adaptação de Dom Casmurro (com Felipe Greco). Vencedor dos mais importantes prêmios brasileiros, como o HQMIX, Jabuti e Angelo Agostini, acredita nos quadrinhos como forma poderosa de comunicação, expressão e entretenimento.