Biblioteca Mindlin: um patrimônio bibliográfico nacional

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 29, 2022 – Jeanne B. Lopez | Biblioteca Mindlin: um patrimônio bibliográfico nacional 


A Biblioteca Mindlin, apesar de ser uma das mais novas bibliotecas do campus da Universidade de São Paulo, com quase uma década de existência, tem uma origem de mais de 80 anos de história. Isso porque ela foi formada por José Mindlin, um bibliófilo de grande destaque nacional que, juntamente com a esposa, Guita Mindlin, pioneira em conservação e restauro de livros no Brasil, formou esse precioso acervo. 

Devido à generosidade deles e ao senso de responsabilidade em tornar à disposição um patrimônio de grande valor bibliográfico, histórico e cultural para todos os brasileiros, sua biblioteca particular foi doada à USP em meados de 2004.  Um prédio moderno no coração da cidade universitária foi construído e especialmente equipado para abrigar a coleção de obras raras e especiais e torná-la pública. Em 2013 aconteceu a inauguração e hoje ela é um órgão ligado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, cuja missão é preservar,, dar acesso a conteúdos relacionados a estudos de assuntos brasileiros e promover sua disseminação por meio de programas e projetos específicos. 

José Mindlin, além de ter sido um amante do livro e da leitura, foi também advogado e empresário bem sucedido no Brasil. Desde adolescente nutria a paixão pelo livro e pelo colecionismo de obras raras e especiais. Por suas viagens, principalmente como empresário em diversos países, garimpava em sebos e livrarias verdadeiros tesouros da nossa história. E, por ser uma pessoa bem relacionada no meio literário e cultural do país, tendo amizade com importantes autores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Antonio Candido, entre outros, seu acervo é marcado pela presença deles através de dedicatórias e anotações que dão mais vida à coleção, além de muitas outras marcas de proveniência como ex-libris, selos de livraria, anexos como cartas e fotografias deixadas no livro, que deixam rastros de gostos e curiosidades dos que possuíam as obras e revelam a trajetória do exemplar. 

O acervo da biblioteca é principalmente composto por um expressivo conjunto de livros, folhetos, jornais e revistas, almanaques, além de documentos impressos e manuscritos, que totalizam, aproximadamente, 32.200 títulos reunidos em cerca de 60 mil volumes. A maioria desses volumes é rara e especial, razão pela qual a BBM não é uma biblioteca circulante. O nome “Brasiliana” se deve ao fato de que ela reúne exclusivamente obras escritas por autores brasileiros e/ou estrangeiros que tratem do Brasil e dos mais variados aspectos de todos os estudos brasileiros, sejam elas publicadas no Brasil ou em outros países, em forma manuscrita ou impressa. 

As grandes vertentes que compõe a Biblioteca Mindlin são a literatura brasileira, com destaque a primeiras edições publicadas; os relatos de viajantes desde século XVI; os livros e manuscritos históricos e literários; os periódicos; os livros científicos e didáticos; os livros de artistas (em geral com gravuras); e a iconografia (que inclui estampas e álbuns ilustrados). Dentro dessas vertentes, encontram-se obras de história, incluindo temas como escravidão, Guerra do Paraguai, província Cisplatina, Guerra de Canudos, maçonaria, jesuítas e outras ordens religiosas, imigração, questões de limites, entre outras. São obras que chamam a atenção por sua beleza gráfica, importância de conteúdo, manuscritas e impressas em papel ou pergaminho, ilustradas ou não, em pequenos e grandes formatos que encantam o público que as conhecem. 

Há também importantes obras com referência à Itália, com temas como: imigração italiana no Brasil; arquitetura; arte; inquisição; contos; além do famoso tipógrafo do século XV Aldo Manuzio, que inovou na arte da tipografia, no uso do itálico e no formato dos livros, ajudando a difundi-los para os leitores europeus da sua época1.

Nos últimos anos têm sido feitos esforços para institucionalização da BBM, com a construção de políticas e promoção do seu acervo por meio de editais de pesquisa, colóquios, seminários, exposições e projetos. Pesquisadores e alunos têm desenvolvido suas pesquisas tanto através da consulta ao acervo físico, quanto ao acervo digital (este último, inclusive, vem crescendo ainda mais em número de acessos). 

Esse crescimento do meio digital também se justifica pela questão da pandemia, que restringiu por quase dois anos o uso dos espaços públicos e privados e trouxe à tona os desafios das instituições de cada vez mais unirem esforços e criarem ferramentas, na medida do possível, para facilitar o acesso aos recursos informacionais por meio digital. Nesse sentido, a BBM busca desenvolver há algum tempo, em parceria com seus diversos setores (Coleção e Serviços, Laboratório de Conservação, Laboratório de Digitalização, Setor de Mediação Cultural e Setor de Publicações), conteúdos ricos e com ferramentas que possibilita a seus usuários informação em qualquer lugar e a qualquer tempo com os recursos da tecnologia. 

Convido a todos a conhecer e explorar alguns desses recursos e projetos que estão disponíveis gratuitamente: 

BBM-Digital 

Reúne obras digitalizadas do acervo físico da BBM, muitas com seleções de textos críticos, que estão em domínio público.

https://www.bbm.usp.br/pt-br/projetos-digitais-da-bbm/bbm-digital/

Projeto BBM no vestibular 

Disponibiliza aos vestibulandos textos introdutórios sobre as obras selecionadas para a Fuvest,, assim como vídeos-aulas ministradas por grandes especialistas. https://www.bbm.usp.br/pt-br/bbm-no-vestibular/ 

Atlas dos Viajantes 

Plataforma interativa que relaciona e divulga obras e iconografias de relatos de viagens dos séculos XVI ao XIX do acervo da BBM, servindo de apoio a pesquisadores e como material didático de professores e estudantes. 

https://viajantes.bbm.usp.br/

Exposição virtual

Uma menina centenária – 100 anos de Narizinho Arrebitado 

Apresenta, em imagens e textos, a trajetória do escritor Monteiro Lobato, o nascimento da personagem Narizinho e outras informações e curiosidades. 

http://ameninacentenaria.bbm.usp.br 

Publicações BBM 

Reúne publicações realizadas pela biblioteca de livros e da Revista BBM que podem ser acessadas integralmente para leitura e pesquisa. 

https://www.bbm.usp.br/pt-br/publica%C3%A7%C3%B5es-bbm

Bibliotecas históricas e patrimoniais são únicas no sentido de possuírem livros em seus acervos que contêm características que os tornam exclusivos tanto do ponto de vista do valor documental, como do valor de memória, pois carregam fragmentos da história no que diz respeito à trajetória da obra nas mãos dos que a possuíram até o contexto histórico no qual foi adquirida. Revelam a memória do país, sua identidade e valor. A Biblioteca Guita e José Mindlin, nesse sentido, possui obras de valor inestimável para a história e a memória de nosso país. E o nosso desejo é que cada vez mais as pessoas possam conhecer, valorizar e usufruir desse patrimônio. 

[1] Por meio do catálogo eletrônico <http://dedalus.usp.br/> pode-se obter informações a respeito dessas obras e outras do acervo da BBM/USP.


Referências bibliográficas:

GAUZ, V. O Livro Raro e Antigo como Patrimônio Bibliográfico: aportes históricos e interdisciplinares. Museologia &amp; Interdisciplinaridade, [S. l.], v. 4, n. 8, p. 71–87, 2015. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/museologia/article/view/16905. Acesso em: 15 fev. 2022. 

MINDLIN, José – Uma vida entre livros: reencontros com o tempo. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997

MORAES, R. B. O bibliófilo aprendiz. 4. ed. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2005. 

SATUÉ, Enric. Aldo Manuzio: editor, tipógrafo, livreiro. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.


Jeanne B. Lopez

Formada no Curso de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicação e Artes – ECA/USP. Bibliotecária da Biblioteca Guita e José Mindlin, SP desde de novembro de 2011.