A importância da moda no campo acadêmico

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Renata Rezende | A importância da moda no campo acadêmico


Como já dizia o filósofo francês, Gilles Lipovetsky, a moda está por toda parte na rua, na mídia e na indústria – e também no meio acadêmico. A moda é campo de investigação científica, é um dos princípios organizadores da vida coletiva moderna. Precisamos cada vez mais do desenvolvimento do pensamento crítico para analisar as manifestações dessa “sedução efêmera” que impacta todas as esferas sociais.

 Muitos autores e autoras trouxeram contribuições significativas para os estudos sobre moda e sociedade. O sociólogo alemão, Georg Simmel, aponta um dualismo presente na moda, que é o de se igualar e também o de se distinguir individualmente, e que isso é parte da natureza humana, já que estamos inclinados tanto à necessidade de adequação ao grupo, quanto à necessidade de distinção.

Ao considerarmos que o sistema da moda se baseia nesse dualismo novidade/imitação, ou como aponta o filósofo judeu alemão, Walter Benjamin, na “eterna recorrência do novo” percebemos também a capacidade da moda em possibilitar a existência simultânea de tendências opostas, como por exemplo, o fast fashion e o slow fashion.

Diferença Fast Fashion x Slow Fashion. Retirado de: https://www.fashionflash.eu/slow-fashion-x-fast-fashion-2/

Esses dois tipos de consumo necessitam de uma investigação minuciosa. Um dos autores que reflete sobre esse assunto é o antropólogo canadense Grant McCracken, que destaca que o consumo possui um significado cultural, já que os consumidores expressam, criam e cultivam significados e noções de si a partir dos bens de consumo. 

Indo além da proposta de dualismo na moda, o antropólogo italiano, Massimo Canevacci, notório teórico da contemporaneidade, aponta as tendências surgidas com a mescla entre moda, arte e tecnologia. Massimo comenta sobre a importância da produção acadêmica italiana sobre moda, em uma entrevista concedida no seminário: “Cultura da moda: panorama antropológico da moda como produto”, que aconteceu em 1999, no Centro de Estudos da Moda – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). “Sem sombra de dúvida, Milão é um dos centros financeiros mais importantes no mundo da moda. É a capital pós-industrial da moda na Itália. Existem os vários conglomerados de empresas, como Prada, entre outras, que respondem por boa parte da produção econômica nacional. Em contrapartida, a produção acadêmica italiana sobre moda também tem seu destaque, sobretudo a partir dos anos 1960/70”, ressalta Massimo.

Loja Prada – Milão, Itália. Retirado de: https://www.vamosparaitalia.com.br/prada/

Na mesma entrevista, o antropólogo Massimo Canevacci fala da produção acadêmica sobre moda no Brasil, e destaca a obra do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, no livro Modos de homem & modas de mulher (1987), destacando que é preciso darmos continuidade e trazer outros enfoques científicos para aumentarmos a contribuição intelectual sobre moda no Brasil.

Por fim, muito além da função de vestir, as roupas carregam memórias, comportamentos, desejos e sentimentos subjetivos. Através das pesquisas científicas é possível explorar muitas possibilidades para compreender a essência da moda e a importância deste fenômeno cultural em nossa sociedade.


Referências bibliográficas:

BENJAMIN, Walter. Passagens. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.

D’ALMEIDA, Tarcísio. Por um mapa antropológico da moda. Cienc. Cult., São Paulo, v. 62, n. 2, p. 24-25, 2010 . Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252010000200011&lng=en&nrm=iso>.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do efêmero – a moda e seus destinos na sociedade moderna. São Paulo: Companhia das letras, 1987.

McCRACKEN, Grant.  Cultura & Consumo: novas abordagens ao caráter simbólico dos bens e atividades de consumo. Tradução: Fernando Eugênio. Revisão técnica: Everardo Rocha. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.

SIMMEL, Georg. Filosofia da moda e outros escritos. Lisboa: Texto & Grafia, 2008.


Renata Rezende

É mestranda em Antropologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde pesquisa moda, tecnologia, antropologia digital e econômica. Cursou Design de Moda na Uniacademia (CES JF) e realizou intercâmbio em Design de Comunicação na Universidade do Algarve (UAlg), em Portugal. Atua como pesquisadora de usuário (UX Researcher) e é apaixonada por tecnologia e design.