Pedras, Caminhos e o Audiovisual

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Fabrício Abramov | Pedras, Caminhos e o Audiovisual


Estava há dias pensando em como começar este texto. Por algum motivo, eu, acostumado a contar histórias e vender ideias, fiquei travado nesta aqui. Talvez por se tratar de algo pessoal, ou, simplesmente, por ser um novo meio de me comunicar. De qualquer forma, eu travei. Então, decidi reagir como em qualquer processo criativo que participo: “Se temos um problema, vamos falar sobre ele e, se a questão persistir, vamos usar o problema a nosso favor.” Desse jeito, ainda antes de entrar no tema principal, vou dividir com vocês essa minha crença de que tudo num processo criativo é matéria-prima, seja o baixo orçamento, a caretice do cliente ou qualquer outra questão que nos tire o sono, essa “pedra no caminho” pode ser usada para pavimentar a estrada pra nossa ideia. Criar é levantar uma cerca e dizer o que está dentro e o que está fora dela. Limites são o que moldam as ideias. É claro que nem sempre é um mar de rosas, mas eu prefiro contar dessa forma, talvez por culpa da minha maior característica: ser um otimista.
Em agosto de 1988, Juiz de Fora ganhava mais um leonino, filho do cruzamento de Russos, Libaneses, Portugueses e Italianos, uma mistura bem brasileira, e claro, Juizforana. Morei poucos anos em Juiz de Fora e logo, por conta do trabalho do meu pai,  me mudei.  Mesmo tendo crescido em outras cidades, sempre tive uma conexão muito forte com Juiz de Fora.
Na pré-adolescência finalmente retornei para minha cidade natal, algo que julgo fundamental para minha formação enquanto artista, e vou contar aqui o porquê.

Nunca fui um bom aluno. Nunca me senti parte ou me encaixei. Na verdade, tive uma enorme dificuldade na escola, tanto nos estudos quanto nas relações sociais. Essa inadequação me transformou num pré-adolescente muito frustrado e com a auto estima de um peso de papel, nenhuma novidade né? 

Mas aí vem a minha mudança para JF e com ela o contato com a música. Comecei a estudar no Conservatório Estadual e, posteriormente, no Pró-Música. Na Escola Normal, formei minha primeira banda depois de receber de um colega uma fita pirata com músicas do Black Sabbath. A partir daí não parei mais. Tudo girava em torno da música. Minha escola de verdade começou a se tornar as ruas, as praças e os estúdios da cidade. Finalmente eu era parte de alguma coisa. Me lembro da alegria que era quando chegava a época do Bandas Novas, “o carnaval dos rockeiros” como a gente chamava. A sensação de chegar na praça Antônio Carlos e ver todo mundo trocando suas criações e consumindo trabalhos autorais era indescritível. Aquilo me transformou pra sempre e me ensinou coisas que eu uso até hoje.

 Daí a importância de existirem iniciativas como essa na cidade. É preciso valorizá-las e entender que o impacto desses projetos vai muito além de apenas criar espaços de entretenimento, mas sim, contribuir para a educação e formação de pessoas. E JF tem aptidão pra isso.  É só olhar a nova geração que continua levando esse legado adiante, como os projetos JF Rock City e Rise Together, que são de jovens que cresceram frequentando as mesmas iniciativas que eu.

Viver esse ambiente cultural me ensinou muito sobre processos criativos, mas talvez o mais importante que aprendi foi o “do it yourself”. No underground, pouca gente vai fazer algo por você e logo cedo a gente aprende que, se quer realizar algo, precisa unir pessoas, arregaçar as mangas e fazer a coisa acontecer. E isso é totalmente aplicável ao audiovisual.

Foi graças a este pensamento que eu pude me tornar diretor de cena. Desde cedo eu já sabia que filmes era o que eu queria fazer, mas não dava pra sentar e esperar uma produtora acreditar no meu talento e me contratar. Isso nunca ia acontecer. Foi aí que percebi que seguir o caminho tradicional de fazer faculdade, estagiar e trabalhar não ia ser o bastante. Para ser diretor, eu precisava dirigir filmes. Então, usei minhas vivências do underground para produzir todos os projetos que conseguisse. Isso foi fundamental. Se eu puder dar só um conselho pra quem tá começando, esse conselho é: “Realize seus projetos autorais a qualquer custo. São eles que vão te levar pro próximo nível.”

E por falar em projetos autorais, vou contar um pouco do meu preferido “Homem ao Mar”. No fim de 2016, a Stereophant, banda da qual eu fazia parte, finalizava seu segundo disco no lendário estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro. “Mar de Espelhos” era um disco conceitual que contava a história de um Homem que se lançava ao mar pra fugir de um mundo apocalíptico. Com esse projeto eu pude aprender muito sobre storytelling. Aprendi que uma boa obra artística se constrói de baixo pra cima. O arranjo que se escuta, a letra que se canta, o enquadramento que se usa ou os diálogos de uma cena são apenas a superfície, ou o resultado de um intenso processo de criação e de formação de uma base conceitual. Como dizem “um filme se faz antes… na preparação”.  Quando se tem uma base forte, fica fácil tomar decisões durante o processo e entender se seu personagem deve ir pra um lado ou para outro.

Para lançar esse disco ousado, era preciso um clipe igualmente ousado. A música escolhida foi  “Homem ao Mar” por retratar o momento chave da história. O projeto já nasceu megalomaníaco, a gente costumava brincar que se tratava de uma “super produção de baixo orçamento”. Desde o início parecia loucura, mas fomos em frente, afinal, eu sou um otimista. Na época eu já formava, junto com Hugo Gama, a dupla de direção HuFa, a qual faço parte até hoje. E a nós foi dada a missão de dirigir esse projeto.
Foram meses de elaboração, pensando o personagem, criando subtexto, desenhando storyboards até que, finalmente, chegou o momento de produzir este clipe que tinha, em sua grande maioria, cenas filmadas em alto mar e um orçamento minúsculo. E quando eu digo minúsculo é minúsculo meeesmo.

A partir disso, precisei colocar em prática tudo que tinha aprendido sobre produções de guerrilha no underground. Mas ainda assim, nunca teria dado certo se não fosse um encontro sobrenatural de uma equipe muito engajada. Alejandro G. Iñárritu disse uma vez, “Fazer um filme é fácil, fazer um bom filme é uma guerra. Fazer um filme muito bom é um milagre.” e eu acredito de verdade que se trata da terceira opção. Nós conseguimos reunir artistas plásticos, fotógrafos, mergulhadores, diretores de arte, coreógrafos… Se havia uma necessidade, o universo conspirava para ela ser resolvida. Por isso, defendo tanto a importância de realizarmos nossos trabalhos autorais. É nesses sets que a mágica acontece. O clima é muito diferente e a equipe se envolve e trabalha num outro nível. Fazer um trabalho em que você e toda equipe acredita totalmente no material que está produzindo é um privilégio. Além, é claro, de ser um ótimo laboratório para testar novas linguagens e métodos que, posteriormente, podemos usar nos nossos trabalhos comerciais.

O projeto contou com um total de sete diárias, a grande maioria com cenas no mar. Vivemos momentos inesquecíveis, como quando acordamos às três da manhã, pegamos uma lancha rebocando a “jangada”do personagem, e fomos pra alto mar esperar o sol nascer para gravarmos algumas cenas. Uma das coisas mais legais que eu já fiz na vida. 

Ao fim do processo, posso dizer que todos os envolvidos na equipe, de alguma maneira, eram “homens ao mar”. Assim como nosso protagonista, nos lançamos ao mar e nos transformamos. Renascemos de uma nova forma.

Se Heráclito diz que “ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”, eu posso dizer que é impossível fazer duas vezes o mesmo filme. Pois este é fruto de um encontro poderoso de pessoas e de uma infinidade de fatores, totalmente incontroláveis, e que ao fim do processo, transforma todos os envolvidos. Por isso, eu digo que um bom diretor precisa estar atento e aberto. Nosso trabalho é ter uma visão e saber expressá-la, mas isso não pode ser confundido com engessar a sua ideia e protegê-la de todos os acasos ou sugestões de colaboradores. O preço dessa má conduta é tornar o seu filme menor.

Com uma boa base conceitual, um bom estudo e compreensão do filme que você está fazendo e, principalmente, a tranquilidade de saber dizer “não”, podemos colocar o filme nos trilhos e todos os envolvidos pensando na direção certa. Assim, podemos extrair o melhor de cada artista com o qual estamos trabalhando e ir direcionando essa locomotiva (levemente desgovernada) na direção do filme que queremos fazer. E no fim, acredite, você vai ter muito mais do que uma boa história na tela, mas muitas outras fora dela também.  E é isso que faz tudo valer a pena.

Hoje, eu moro em São Paulo e trabalho pelo Brasil inteiro. Amanhã, espero estar em qualquer outro lugar do mundo, mas carrego a certeza de que o celeiro cultural de Juiz de Fora reverbera em mim. Por isso, quero agradecer a todas iniciativas culturais de Juiz de Fora como Bandas Novas, Pró-Música, Lei Murilo Mendes, Festival Primeiro Plano, JF Rock City, Rise Together e tantas outras que me formaram e que continuam formando artistas pro mundo. Nós somos uma tribo que se reconhece. Obrigado.


Fabrício Abramov

Formado em Comunicação Social pela ESPM, atua como Diretor de Cena há 10 anos, trabalhando com grandes marcas como Domino’s, Coca-Cola, Spoleto, Americanas, Multiplan e outras.