Vozes brasileiras para ouvir em italiano: Selton

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Luana Sofiati | Vozes brasileiras para ouvir em italiano: Selton


Quem gosta de música brasileira se apaixona pelo trabalho do grupo Selton. O grupo escolhido para fechar a série Vozes brasileiras para ouvir em italiano é formado por brasileiros que estão construindo carreira na Itália desde há mais de uma década. As composições misturam várias línguas e ritmos, revelando o intenso trabalho de pesquisa dos quatro músicos que criaram esse projeto: Daniel Plentz, Eduardo Stein, Ramiro Levy e Ricardo Fischmann1.

O primeiro disco do grupo foi Banana à Milanesa, lançado em 2008. As canções ali reunidas revelam o desejo de estreitar laços com a música italiana a partir de um olhar brasileiro. Quase todas as faixas são versões em português de canções originalmente compostas em italiano, mas também temos faixas bilíngues. A única canção original composta para o álbum é homônima a ele. Sobre a escolha do título, Ramiro Levy, um dos membros, explicou em entrevista ao jornal La Repubblica:

Banana à Milanesa é um prato típico brasileiro, uma banana frita e empanada, uma versão vegetariana da costeleta à milanesa. Na canção falamos dos estereótipos através dos quais na Itália pensa-se o Brasil e, vice-versa, no Brasil pensa-se a Itália. O conhecimento recíproco mostra quanto são falsos. (MORETTI, 2008, online, tradução nossa).

O álbum é resultado de uma grande parceria com Enzo Jannacci, multiartista italiano que ocupou espaço privilegiado no cenário musical da segunda metade do século XX. Sobre o grupo, Jannacci, que já havia colaborado com Chico Buarque décadas antes, declarou: “feliz que do outro lado do mundo exista um grupo de jovens que apreciam tanto a minha música” (MORETTI, 2008, online, tradução nossa). Além de participar como intérprete na faixa “Silvano” e “Pedro Pedreiro”, Enzo Jannacci é autor de boa parte das canções do disco. Essa última, composição e Chico Buarque com Enzo Jannacci, é cantada parte em português e parte em italiano. Outras vozes italianas presentes nesse álbum são de Cochi e Renato, duo cômico formado nos anos 60 que interpreta as faixas “Malpensa” e “Canção Inteligente”, originalmente interpretada pelo duo na década de 70, sob o título “Canzone Intelligente”.

Cocchi e Renato                                     
Selton

A mistura de línguas e ritmos que caracteriza o trabalho do grupo é percebida em “Canção Inteligente”, faixa bilíngue de tom irônico sobre a composição musical de sucesso e a inserção do artista no mercado fonográfico. Nos versos em português, a canção ganha um toque de samba.

Na abertura do álbum Saudade, de 2013, temos a reinterpretação de “Qui nem Jiló”, composta por Luiz Gonzaga. Nessa faixa, temos ainda, a participação do músico estadunidense Arto Lindsay. Além de composições originais em português, o álbum traz canções em inglês e italiano ampliando o trânsito entre línguas que se tornaria uma das principais marcas do grupo nos álbuns seguintes, como Loreto Paradiso, de 2016.

Essa subjetividade que se constrói nos encontros culturais é o fio condutor de Manifesto Tropicale, álbum de 2017, que traz faixas em português, italiano e espanhol. A faixa “Tupi or not tupi” retoma a paródia modernista do aforismo hamletiano To be or not to be. Essa filiação ao olhar antropofágico para a brasilidade é muito marcante nesse álbum, embora não restrita a ele. Em todo o percurso da banda, notamos o jogo de incorporação e transformação de diferentes códigos sob uma perspectiva brasileira e só esse tópico já renderia uma outra conversa bem longa. 

A parceria com músicos italianos sempre foi um marco do grupo. Olhar atentamente essa trajetória significa fazer um passeio pela variedade musical italiana. Além das colaborações que marcaram a estreia do grupo, em 2012, eles cantaram com Daniele Silvestri no Prêmio Tenco, na cidade de Sanremo. Em 2019, produziram o single “Cercasi casa” em parceira com Dardust. No mesmo ano, lançaram o single “Ipanema”, com participação da italiana Malika Ayane e do brasileiro Carlinhos Brown. Em 2020, a colaboração com a rapper Priestess na canção “Estate”. A faixa originalmente interpretada por Bruno Martino nos anos 1960, foi cantada também por João Gilberto em 1977.  Em parceria com Willie Peyote e Emicida, a faixa “Fammi Scrollare” foi lançada em 2020.

O trabalho mais recente do grupo é o álbum Benvenuti, de 2021. Uma novidade que tornou esse lançamento ainda mais especial foi a produção de uma série cômica com 6 episódios, nos quais são apresentadas ao vivo 6 faixas do álbum, bem como esquetes relacionadas a cada uma. Sempre guiados pelo tom irônico e divertido que caracteriza o trabalho do grupo, cada episódio tem participações especiais de atores e músicos italianos.

Em resumo, o repertório do grupo nasce a partir do diálogo entre bossa nova, pop, samba, folk rock e outros gêneros, com letras irônicas, românticas, divertidas… realmente um excelente ponto de chegada para nossa viagem entre a música brasileira e a italiana! Para ouvir as músicas mencionadas nesse e nos outros textos da nossa série, visite nossa playlist no Spotify!

Buon ascolto!

[1] Ricardo participou da banda entre 2005 e 2017, deixando o grupo após o lançamento de Manifesto Tropicale.


Referências bibliográficas:

BENVENUTI a Casa Mia – The Sitcom. Disponível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLrsdKNbMrfLVx5gvmzzwMj73DAgwbxACm. Acesso em: 10 jul. 2022.

JANNACCI, Enzo. Treccani. Disponível em: https://www.treccani.it/enciclopedia/enzo-jannacci_%28Dizionario-Biografico%29/ Acesso em: 10 jul. 2022.

MORETTI, Carlo.I Selton, dal Brasile a Milano così Jannacci canta in portoghese. La repubblica. Disponível em: https://ricerca.repubblica.it/repubblica/archivio/repubblica/2008/01/14/selton-dal-brasile-milano-cosi-jannacci.html. Acesso em: 10 jul. 2022.

SELTON – Fammi Scrollare ft. Willie Peyote, Emicida. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eQglSS1rXss. Acesso em: 10 jul. 2022.


Luana Sofiati

Formada em Letras Português/Italiano pela UFJF e mestra em Letras pela mesma instituição. Entre 2016 e 2018, atuou como professora bolsista no Projeto de Universalização de Línguas Estrangeiras na UFJF. Enquanto professora de língua italiana, incentiva seus alunos a criarem um percurso de aprendizagem permeado pela cultura. Para ajudá-los, está sempre ampliando meu repertório de músicas, filmes, séries e outros produtos culturais.