O olhar do turismólogo na gestão do patrimônio cultural

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Aline Marques | O olhar do turismólogo na gestão do patrimônio cultural


O Cine-Theatro Central

Inaugurado em 30 de março de 1929, o Cine-Theatro Central (CTC), localizado no centro de Juiz de Fora, é ainda hoje uma das principais casas de espetáculos da cidade e um dos mais belos teatros do país. Na época de sua construção, a Companhia Central de Diversões, que o idealizou, tinha a intenção de refletir no espaço a ascensão industrial e cosmopolita pela qual os juiz-foranos passavam.

A partir de então, o CTC passou a ser uma importante ferramenta de acesso à cultura da elite da cidade, exibindo filmes, recebendo grandes companhias de teatro, dança e música. Em seu site (www.theatrocentral.com.br) podemos constatar que o espaço recebeu ao longo dos anos diversos artistas nacionais e internacionais. (CTC, s.d.).

Após décadas de protagonismo no cenário cultural da cidade e do país, a partir de 1980, com a decadência do cinema, devido à ascensão da televisão, houve uma queda significativa quanto ao público que frequentava o espaço e, mesmo com a permanência das apresentações de teatro e dança, o equipamento cultural passou por um período de negligência e abandono.

A população de Juiz de Fora, juntamente com artistas locais e nacionais, se uniu para lutar pela preservação do espaço e, em 1983, graças a essa movimentação, o teatro foi tombado em nível municipal. Isso fez com que não fosse demolido. No entanto, sua preservação dependia de recursos para restauração. Somente em 1994  o Central é adquirido pela Universidade Federal de Juiz de Fora, graças ao então presidente Itamar Franco, e se torna patrimônio tombado em nível federal através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (o Iphan). Em 1996, passa por uma grande restauração  (CTC, s.d.).

Em 2006, a UFJF criou a Pró-reitoria de Cultura, responsável por gerir os espaços artísticos e culturais da mesma, o que demonstra o interesse da instituição pela gestão cultural. A UFJF é uma das poucas do país que possui uma pró-reitoria específica de cultura (César, 2019), que tem por princípios norteadores: Incentivo à produção cultural, memória da cultura, arte-educação: formação e cidadania, dinamização dos espaços culturais e imagem da universidade. (UFJF, s.d.).

As visitas guiadas

Com esses princípios norteadores em mente, em 2015, eu, recém formada bacharel em turismo com ênfase em gestão do patrimônio pela UFJF, passei no processo seletivo para compor a equipe de funcionários terceirizados do CTC. O então diretor, André de Lima Xandó Baptista, queria retomar o projeto de visitas guiadas ao Cine-Theatro Central e me encarregou de montar o roteiro de visitação e treinar os bolsistas da UFJF que realizariam as visitas. Num primeiro momento, a equipe de bolsistas era composta por alunos dos cursos de Artes e Design e Letras da UFJF, e o diretor propôs que os assuntos abordados envolvessem aspectos artísticos, históricos, arquitetônicos e culturais.

Além do grande apego por parte da população ao Cine-Theatro Central, este também sempre despertou a curiosidade dos transeuntes da Rua Halfeld, e diversas gestões do espaço incluíram nas atividades do teatro as visitas guiadas. O diferencial desse novo roteiro de mediação era ter como objetivo a apresentação da história do teatro, visando despertar no visitante o sentimento de pertencimento, tornando o visitante um agente de mudança e de proteção do espaço que é de todos e democratizando o acesso ao espaço, historicamente  voltado para a elite.

No decorrer do tempo, viu-se a necessidade de ampliar os cursos dos bolsistas, e atualmente possuímos uma equipe diversa composta por alunos dos cursos de Artes e Design, Arquitetura, Comunicação Social e, claro, Turismo.

Turismóloga no Cine-Theatro Central

Ao longo desses anos como turismóloga no Cine-Theatro Central, além da coordenação do projeto de Visitas Guiadas, que acontece até hoje, também pude participar de diversos projetos do teatro, como a idealização do Projeto Memória, que busca registrar os eventos que ocorrem atualmente no teatro, digitalizar os documentos antigos que possuímos e divulgar (através do nosso Instagram e Facebook) acontecimentos históricos importantes vinculados ao teatro.

Também participei da elaboração do Projeto Palco Central, coordenado pelo produtor cultural Beto Campos, colega de trabalho. No Palco Central, artistas e público dividem o palco em apresentações para no máximo 100 pessoas, gratuitas e com caráter intimista. Cabe destacar também a realização da noite de gala em comemoração aos 90 anos do Cine-Theatro Central, que contou com a apresentação do espetáculo “Valencianas”, reunindo a Orquestra Ouro Preto e o cantor Alceu Valença, e foi totalmente produzido pela equipe do CTC.

Atualmente, além das produções próprias, o Central recebe diversas produções que alugam o espaço para realização de seus espetáculos, colações de grau, palestras, entre outros. E eu atuo na pré-produção desses eventos, lidando diretamente com os produtores, enviando contratos, solicitando documentos, fazendo a mediação entre as produções e a equipe do teatro.

No contexto da pandemia, foi necessário o teatro se reinventar para continuar atuando na difusão da cultura e das artes. Por isso, juntamente com os bolsistas, criamos alguns projetos de divulgação em nossas redes sociais, como o Visita Na Tela, com pequenos vídeos de visita virtual do espaço, o QI Cultural, rede de indicações de artistas locais que se apresentam semanalmente através de vídeos, o Detalhe e o TBT, cujo foco são os aspectos artísticos e históricos do Central e da cidade.

Uma instituição tão diversa como o Cine-Theatro Central, que recebe muitas produções, produz seus próprios espetáculos e tem uma história que se mistura com a história de Juiz de Fora, permite que a atuação do turismólogo seja plural. Possibilitando executar múltiplas atividades vinculadas ao turismo, como elaboração de projetos, atuação em eventos, criação de roteiros, além da lida direta com o público que frequenta o espaço.

O turismólogo é o profissional que contribui para o desenvolvimento de ações que envolvam o usuário com o patrimônio cultural. No CTC isso se dá graças a uma gestão atuante, através da ProCult e da UFJF, que dão todo o suporte para democratizar cada vez mais o espaço.


Referências bibliográficas:

CÉSAR, Ana Paula de Sant’Anna. Gestão Pública de Cultura no Âmbito da UFJF: o caso do Cine-Theatro Central. Juiz de Fora, 2019.

_______. Cine-Theatro Central. Origens, Juiz de Fora, [s.d.]. Disponível em http://www.theatrocentral.com.br/origens/. Acesso em 30 de novembro de 2021.

_______. Cine-Theatro Central Tombamento, Juiz de Fora, [s.d.]. Disponível em http://www.theatrocentral.com.br/tombamento/ . Acesso em 30 de novembro de 2021.

_______. Universidade Federal de Juiz de Fora. Pró-reitoria de Cultura, Princípios norteadores. Juiz de Fora, [s.d.]. Disponível em https://www2.ufjf.br/procult/apresentacao/principios-norteadores/. Acesso em 30 de novembro de 2021.

Redes sociais do CTC: www.facebook.com/centralufjf https://www.instagram.com/cinetheatrocentral/


Aline Marques

Bacharel em Ciências Humanas e em Turismo com ênfase na Gestão do Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Atua como Agente de Cultura e Lazer do Cine-Theatro Central desde 2015.