O panorama do tráfico interno em um município cafeicultor: Juiz de Fora durante a segunda metade do século XIX

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Dayana Oliveira | O panorama do tráfico interno em um município cafeicultor: Juiz de Fora durante a segunda metade do século XIX


Desde quando ingressei na graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora, um assunto me causava desconforto e estranhamento: a escravidão. Com o passar do tempo, deixado para trás o período de euforia causada pelo ano inicial, a essa altura, no terceiro período da faculdade, participei de uma seleção para bolsista de um projeto de Iniciação Científica intitulado: “Escravidão e Família em pequenas e médias propriedades do Alto do termo da Borda do Campo – séculos XVII-XIX”, vinculado ao Lahes (Laboratório de História Econômica e Social/UFJF). Essa experiência, sem dúvida, foi fundamental na minha formação acadêmica, pois me proporcionou os primeiros contatos com as fontes primárias.

Ao término do projeto, nós, bolsistas, éramos estimulados a propor à orientadora projetos próprios, visando a um futuro TCC, bem como a um projeto de mestrado. Foi nesse contexto que comecei a buscar referências sobre a cidade de Juiz de Fora e a escravidão na região. Deparei-me com um assunto importante; confesso que, naquele período, ele me era estranho, pois ainda não tinha conhecimento sobre o tráfico interno, mas somente sobre o fato de que Juiz de Fora havia concentrado, na segunda metade do oitocentos, uma das maiores escravarias da Mata mineira. Daí por diante, surgiram as primeiras indagações que impulsionaram toda a minha trajetória. Surgiram perguntas como: quem eram os agentes responsáveis por esse comércio? Como era feito o translado dos cativos que chegaram nessa região? Quem e quantos eram os escravizados que chegaram à Zona da Mata mineira? Estas, dentre outras questões, serviram como um pontapé inicial.

No que diz respeito à cidade de Juiz de Fora, está localizada ao sul da Zona da Mata mineira, antes rota de passagem de tropas, tropeiros e viajantes em geral que circundavam as margens dessa região, trazendo e levando mercadorias. Tem suas origens diretamente ligadas ao fim da economia mineradora e à construção da estrada que viria a ser conhecida como Caminho Novo. Um grande feito de engenharia para a época, idealizada e construída por Garcia Rodrigues Paes, cujo objetivo era encurtar a distância entre essas capitanias, ligando, de forma mais segura e dinâmica, o interior das Minas Gerais à capitania do Rio de Janeiro, ainda no século XVIII.

Na segunda metade do século XIX, entre os anos de 1850 e 1870, ocorreu a expansão da lavoura cafeeira. Conforme nos esclarece Anderson Pires (1999, p. 96-98), a cafeicultura na Zona da Mata mineira seguiu um ritmo diferente do observado com os vizinhos fluminenses, que durante essa época já demonstravam sinais de esgotamento.  Nessa região, o cenário era bem distinto: era possível observar uma grande disponibilidade de matas virgens, concomitante ao grande potencial para produção em larga escala. Portanto, cercado por sítios e fazendas de café, o município de Juiz de Fora e seus distritos foi a única região, no período analisado, a concentrar uma escravaria com cerca de 20.000 escravizados, 26% da população escrava de Minas Gerais, conforme destacado por Rômulo Andrade (1991, p. 93-129).

Embora o município juiz-forano na segunda metade do oitocentos possuísse tamanha e significativa escravaria, é importante pontuar que esse período foi marcado por grandes transformações e instabilidade em relação ao comércio de cativos. Sobretudo porque o tráfico atlântico de escravos, após as pressões do governo britânico ao Brasil, havia sido abolido definitivamente, através da Lei n. 581, de 04 de setembro de 1850, popularmente conhecida como Lei Eusébio de Queirós.

  Apesar do contexto desfavorável, os senhores escravistas não se deixaram abater. Sabendo que o principal fornecedor de mão de obra escrava, a África, estava fechado, restava-lhes outra alternativa para manter-se atuante nesse negócio extremamente lucrativo: o tráfico interno. O pesquisador Roberto Conrad (1978) nos esclarece que o tráfico interno se constituía de migrações forçadas de escravos de uma região menos dinâmica para aquelas onde essa mão de obra estava sendo mais requisitada no momento.   Essa configuração de tráfico, agora intensificada no Brasil, possuía distintas configurações: interprovincial (praticado entre as distintas províncias), intraprovincial (praticada dentro de uma mesma província) e local, caracterizada a partir das transações entre os agentes do tráfico em um mesmo município.

Juiz de Fora, a exemplo de tantas outras cidades no período, como exposto pelo historiador Rômulo Andrade (1991), para aumentar ou mesmo repor os escravos doentes e velhos, contou massivamente com o comércio interno. Dessa forma, conforme as pesquisas feitas por Cláudio Heleno Machado (1998), o município funcionou como um importante entreposto comercial da mercadoria escrava.

Os Livros de Escrituras de compra e venda de escravos da década de 1870, analisados em nossa dissertação de mestrado, demonstram que, em um total de 281 notas de compra e venda, foram arrolados 708 indivíduos, dos quais 623 eram escravizados e 85 ingênuos (SILVA, 2019, p. 46). A natureza das transações foi distinta: compra e venda, venda condicional, troca, hipoteca e penhor; destas, a forma mais usual praticada pelos traficantes era a de compra e venda. Sobre a venda condicional, temos um exemplo bem emblemático dessa modalidade de tráfico ocorrida em Juiz de Fora. No distrito de Chapéu D’uvas, região que respondia administrativamente a Juiz de Fora, vivia em sua fazenda uma senhora que tinha por nome Generosa Carolina Horta de Toledo Ribas. No dia 02 de maio de 1866, dona Generosa dirigiu- se ao cartório de notas da cidade de Juiz de Fora para tratar dos trâmites da venda de sua cativa Ambrosina. Àquela altura, a cativa em questão contava com seus dezoito anos; foi descrita na documentação como solteira, de “cor” parda, e avaliada em 1:300$000 (um conto e trezentos mil réis). A documentação traz outra informação relevante sobre a origem de Ambrosina, que tinha por cidade natal Congonhas do Campo (MG), um município a aproximadamente 187 km de distância de Juiz de Fora.

A partir dessa informação, percebemos que Ambrosina havia chegado a terras juiz-foranas através do tráfico; todavia, a fonte não nos permite saber quando nem em que momento a cativa chegou a Chapéu D’uvas. Ainda que os documentos apresentem lacunas, conseguimos identificar o tipo de tráfico ao qual Ambrosina foi submetida, neste caso o intraprovincial. Certamente, a cativa não permaneceu por muito tempo sob o poder de dona Generosa, pois ela aparece nas escrituras sendo vendida condicionalmente, por doze meses, ao senhor Modesto Camilo de Campos, que residia no mesmo distrito. Talvez a transferência de Ambrosina da fazenda de sua antiga senhora para o novo “lar” temporário não tenha significado dificuldade de adaptação; o mais óbvio nesse caso é pensarmos que esses senhores já se conheciam e, por isso, a comercialização. 

Esse pequeno fragmento de vida é verídico. Ele nos mostra um pouco sobre a vida cotidiana de uma sociedade caracterizada pela atuação de traficantes. Dona Generosa, apresentada neste texto, é descrita pela historiografia como uma pequena traficante que usava o seu bem mais precioso para angariar lucros, quiçá, mesmo para sua sobrevivência. Esta, por sinal, não foi a única vez em que dona Generosa vendeu condicionalmente Ambrosina, que voltou outras vezes a figurar nas páginas dos livros de escrituras públicas de Juiz de Fora.    

Histórias como a de dona Generosa e da escravizada Ambrosina estavam encobertas com o peso do passado, que teimava em mantê-las no esquecimento. Precisamos falar cada vez mais sobre a escravidão, ainda que se trate de um tema sensível. Em Juiz de Fora, poucas são as referências públicas desse passado; ainda assim, temos o Largo Rosa Cabinda, uma escravizada que foi propriedade do comendador Henrique Guilherme Fernando Halfeld, e também a praça Negro Theóphilo, cuja senhora era a dona Francisca Umbelina Nazareth, que residia em Vargem Grande, atual Belmiro Braga.

No que diz respeito à dona Francisca Umbelina, ela aparece nos negócios do tráfico interno comprando duas cativas no ano de 1878. A primeira escravizada foi Gabriella, de quatorze anos, “cor” preta, solteira, matriculada em Oliveira em 28/04/1872, por 1:000$000 (um conto de réis); a segunda, Simplicia, uma cativa de 22 anos, solteira, “cor” parda, matriculada no município de Montes Claros em 14/09/72, avaliada em 1:400$000 (um conto e quatrocentos mil réis).

Retomando o caso paradigmático do negro Theóphilo, que anos depois foi homenageado em reconhecimento às lutas e às contribuições para o crescimento da cidade de Juiz de Fora, dando nome a uma praça na Avenida Brasil, ele era escravo de confiança da família Horta. De acordo com Elione Guimarães (1999), Theóphilo era “fiel da casa” e, na ausência dos senhores, ficava incumbido de cuidar dos outros escravizados e dos afazeres da propriedade. Em 1880, ao retornarem de uma missa, dona Francisca e seu filho haviam percebido que o negro havia evadido. Alguns anos se passaram até que o escravizado foi recapturado e retornou à propriedade de dona Francisca. Como castigo pelo mal feito, foi açoitado para servir de exemplo aos outros. Certamente, podemos especular que Gabriella e Simplicia, as cativas compradas por Francisca Umbelina, presenciaram o terrível acontecimento, assim como o desfecho final da história desse cativo, que morreu sonhando com a liberdade que nunca veio.

O tráfico interno, objeto das minhas inquietações há muito tempo, vem revelando os aspectos mais cruéis do nosso passado escravista. Histórias de vida e de luta cotidianas estão saindo dos papéis amarelados pelo tempo e ganhando ares na história. O que temos percebido com as nossas pesquisas é que nesse comércio havia espaço para todos aqueles que pudessem investir na “mercadoria” escrava. Homens, mulheres, lavradores, comerciantes, políticos, militares e – pasmem – até mesmo religiosos envolvidos nessa atividade. Casos como o do negro Theóphilo, mas não só este, são uma pequena amostra de que esses indivíduos não eram conformados com o sistema, mas, sim, que lutaram com bravura em meio a um ambiente extremamente hostil e construíram relações sociais, de trabalho e solidariedade. Fragmentos de vidas como os narrados neste texto apontam para um assunto que deve ser mais explorado pela historiografia, uma vez que, tantos anos após o fim da escravidão, os efeitos nocivos daquele sistema ainda são sentidos cotidianamente e assombram as vidas de homens e mulheres negros em todo o país.


Referências bibliográficas:

AHJF. Fundo Cartório de Notas. Livro de Escritura de compra e venda de escravos.  Livro 1 (216) Primeiro Ofício. 1862 –1871, cx. 24. fls. 31 a 33.

ANDRADE, Rômulo. Escravidão e Cafeicultura em Minas Gerais: o caso da Zona da Mata. Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH – Editora Marco Zero, SCT – CNPq, FINEP, v. 11, n. 22, p. 93-129, mar./ago.1991.

CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

GUIMARÃES, Elione.  Criminalidade e conflito nas relações entre senhores e escravos no município de Juiz de Fora (1830-90). São Paulo: Núcleo de Estudos em História Demográfica. Boletins. HTM, n.18, nov. 1999.

MACHADO, Cláudio Heleno. Tráfico interno de escravos estabelecidos na direção de um município da região cafeeira de Minas Gerais: Juiz de Fora, na Zona da Mata (segunda metade do século XIX). Monografia (Especialização em História do Brasil) –Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 1998.

PIRES, Anderson. Capital agrário, investimentos e crise da cafeicultura de Juiz de Fora (1870-1930). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1993.

SILVA, Dayana de Oliveira. Destinos Incertos: negociantes, cativos e o tráfico interno em Juiz de Fora (1870-1880). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2019.


Dayana Oliveira

Doutoranda em História, Mestra (2019), em História pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPGHIS/UFJF). Bacharela (2017) e Licenciada (2016) em História pela mesma Universidade. Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG). Membro do Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFJF), sob a orientação da Prof.a Dr.a Hebe Mattos e do GT Emancipações e Pós-Abolição em Minas Gerais – ANPUH/MG. Atualmente, seus interesses de pesquisa se concentram na dinâmica exercida pelo comércio interno de escravizados, no papel exercido pelos agentes do tráfico, nas rotas terrestres, assim como nos múltiplos aspectos referentes aos cativos traficados na parte sul da Zona da Mata mineira, especialmente em Juiz de Fora, durante a segunda metade do século XIX.