Sangue de Sonhos

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Bia Chicca |  Sangue de Sonhos


Querida Itália,

eu te amava antes mesmo de te conhecer. Você sempre apareceu nas memórias da minha família, nas expressões que usamos, no nosso jeito de ser. Você já fazia parte da minha jornada, do meu caminho.

Por isso, quando chegou a hora de te conhecer pessoalmente, entrei em êxtase.

Eu imaginava que seria um encontro lindo, mas não foi. Foi um reencontro. Meu com você, meu comigo mesma.

Ainda me lembro da sensação de andar pelas ruas estreitas, feitas de pedra. Das pontes, das luzes, dos idiomas dos turistas e do italiano dos locais. Eu me lembro das dezenas de igrejas, do sabor da lasanha com o vinho tinto e do sorvete de pistache. Eu me lembro de tudo, e foi aí que a grande virada começou.

É difícil explicar a sensação que eu senti. Eu me senti livre, completa. Tive uma sensação de pertencimento, como se uma importante peça do meu próprio quebra-cabeça tivesse se encaixado.

Algo em mim dizia que nosso encontro tinha sido mais do que uma viagem. Eu queria explorar mais o sentimento que tinha acabado de descobrir. O sonho de aprender a falar italiano se fortaleceu dentro de mim e se uniu a um novo: voltar para ficar.

De volta para o Brasil, fui engolida pela rotina: trabalho, namoro, família, amigos. Você me perdoa, Itália? Eu ainda não estava pronta para te conhecer a fundo.

Precisei de seis anos. Foram seis anos de tantas mudanças. Tudo mudou e só tive uma opção: crescer. Crescer e começar a procurar por aquilo que fazia sentido para mim. Comecei a me perguntar quem eu era, do que eu gostava, no que eu era boa.

Você deve saber, Itália, que crescer dói. E foi num momento de muita dor que me lembrei daqueles sonhos. Quando mais precisei, você me deu a mão e me guiou.

Você me deu de presente a Giulia Nardini. Muito mais do que uma professora de italiano, ela me ensinou como os italianos são, como eles pensam, do que gostam e do que não gostam.

Foi como olhar num espelho. Passei a entender comportamentos da minha família, as partes boas e as ruins também. Senti um estreitamento de laços entre meus antepassados e eu. Senti que, de onde quer que estejam, eles se alegraram em serem lembrados, em serem vistos.

Fiquei pensando em como minha vida é boa. Nas oportunidades que tenho. Para que eu tenha tudo isso hoje, meus antepassados tiveram de abandonar tudo o que tinham há mais de cem anos atrás.

Nunca tinha pensado em quanta coragem eles tiveram. Em quanta dor eles devem ter sentido. Nas tantas dificuldades que tiveram que superar, e conseguiram.

Sou bisneta da coragem, da força, do sonho. Ao reconhecer tudo isso, minha autopercepção mudou. Tenho orgulho de onde venho e muita esperança em quem sou capaz de me tornar.

Nosso reencontro presencial foi adiado pela pandemia, mas não se preocupe, Itália. Nossa hora vai chegar. E espero poder fazer por você tanto quanto você fez por mim.

Essa foi uma das lições mais recentes que aprendi: reciprocidade. Passei a me perguntar se eu estava sendo capaz de dar aquilo que gostaria de receber. Como diz uma das minhas orações preferidas, a de São Francisco: “É dando que se recebe.”

Lembra que te contei dos meus questionamentos? Quem sou, do que gosto, no que sou boa? Aprendi que todas essas perguntas podem ser melhor respondidas com outra: como posso servir as pessoas ao meu redor?

Estou aqui para contribuir, Itália. Estou munida de autoconhecimento, autopercepção e autoamor. Agora, sim, sou capaz de conhecer, perceber e amar o outro.

Foi você que me deu tudo isso. Foi você que me despertou para a importância de olhar para minha história e, assim, ser capaz de aproveitar o presente e sonhar com um futuro bonito.

Obrigada por todos esses presentes. Obrigada por ser uma parte de mim.

Até breve,

Com amor,

Bia.


Bia Chicca

Nascida em São Paulo, capital, em 1991. É uma escritora e poeta que acredita na cura através da expressão artística. Começou a frequentar o Clube da Escrita Para Mulheres, de Jarid Arraes, em 2019. Em maio de 2021, seu texto “Todos os caminhos levam para dentro” foi publicado no livro Cartas de uma pandemia, pela Editora Claraboia. Possui textos publicados em revistas literárias como a Revista Grifo e a Revista Cassandra. Instagram: @escrevabia