De Tarraco a Olisipo: o patrimônio romano na península Ibérica 


Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Luiz Fernando Lopes | De Tarraco a Olisipo: o patrimônio romano na península Ibérica 

Aquilo que comumente chamamos de cultura ocidental tem como um de seus pilares fundacionais a história do Império romano. Das religiões ao Direito, passando pelas instituições administrativas e pelas identidades linguísticas, essa complexa instituição social e política floresceu às margens do Mar Mediterrâneo, tocou as terras de três continentes e marcou profundamente a existência de diferentes povos da Antiguidade ao longo de sete séculos. Além de vasta cultura imaterial legada às civilizações posteriores, muitos vestígios das grandes obras construtivas de Roma chegaram até os dias de hoje e desfrutam, quase sempre, de destacado status de patrimônio cultural, merecendo atenção de turistas muito além das fronteiras da Velha Bota.

Na península Ibérica, região mais oeste da Europa, a presença romana remete ao final do século III a. C até a chegada dos visigodos, no século IV da nossa era. Iniciado o processo de conquista daquela que seria uma das regiões mais periféricas dos domínios imperiais, o território ibérico foi dividido em três províncias: Terraconense, Bética e Lusitânia. Atualmente, o passado itálico na Espanha e em Portugal é amplamente testemunhado por riquíssimas heranças materiais. Cidades espanholas e portuguesas como Tarragona, Barcelona, Córdoba, Cartagena, Mérida, Évora, Condeixa-a-Velha e Lisboa têm hoje como alguns de seus principais cartões postais o patrimônio romano edificado, bastante frequentado por turistas de todo o mundo. Seus roteiros de visitação apresentam, a partir das ruínas arqueológicas, um pouco de como era a vida cotidiana no maior império da Idade Antiga.

Neste pequeno artigo, apresentarei de forma breve um pouco do patrimônio clássico presente em cidades ibéricas, procurando apontar algumas possibilidades para quem se interessa em conhecer mais da presença romana nesses países.

Para quem visita a Catalunha, no nordeste da Espanha, Barcelona e Tarragona são opções valiosas para se entender os espaços de convívio comunitário daquela civilização. Na capital catalã, é possível conhecer, por meio da Via Sepulcral, um pouco das estruturas funerárias de Barcino, nome da vila romana que deu origem à Barcelona no século I a.C. A 600 metros dali, o Templo de Augusto, localizado no famoso Bairro Gótico, materializa em suas pilastras um importante lugar de culto ao imperador-deus. Ambas as estruturas são de salvaguarda e administração do Museu de História de Barcelona, localizado a poucos passos do templo. Uma visita às dependências do MUHBA possibilita ainda conhecer mais resquícios arqueológicos romanos, como estruturas subterrâneas do aqueduto da cidade, além de painéis e estátuas de mármore, obras artísticas muito comuns à época.

Um pouco mais ao sul, mas ainda a menos de 100 quilômetros de Barcelona, está localizada, na cidade Tarragona, uma das preciosidades do Império em terras ibéricas: o anfiteatro de Tarraco. Construído no século II da era cristã, esse belíssimo espaço da vida citadina na Antiguidade tinha capacidade para aproximadamente 12 mil espectadores. No anfiteatro celebravam-se os jogos, espetáculos muito populares entre a gente comum, como corridas e lutas entre gladiadores. Sua localização à beira do Mar Mediterrâneo não era fortuita: chegavam por meio de embarcações marítimas diversos animais trazidos dos continentes africano e asiático, como leões, elefantes e rinocerontes, frequentemente utilizados nos espetáculos. Assim, estando a arena pública próxima à praia, mais fácil era o transporte.

Anfiteatro de Tarraco – Tarragona/Espanha
Foto: https://www.tarragonaturisme.cat/es/monumento/anfiteatro-romano-mht

Já na Andaluzia, ao sul da Espanha, a milenar Córdoba é muito famosa por sua histórica mesquita de tempos do domínio muçulmano, mas não só. Na Idade Antiga, a cidade era conhecida pelo nome de Corduba e foi terra natal de Sêneca, um dos principais nomes do pensamento clássico. À beira do rio Guadalquivir, a cidade se configurou como território imperial estratégico e foi elevada a capital da província da Bética. Quem visita Córdoba em busca do patrimônio itálico poderá conhecer a porta e a ponte romanas, localizadas às margens do rio e construídas no século I d.C., além de mausoléus da aristocracia da cidade, mosaicos e até um sarcófago de mármore esculpido em peça única.

Ainda na terra dos imperadores Trajano e Adriano, não é possível tratar da herança romana peninsular sem falar de Mérida. Localizada na região da Extremadura, a antiga cidade de Emérita Augusta foi construída no tempo do imperador Octávio Augusto, por volta do ano de 25 a. C., a fim de assentar soldados já veteranos, dando a eles uma aposentadoria digna pelos serviços prestados nas guerras de conquista. A relevância da cidade na região a levaria à condição de capital da província da Lusitânia. No auge de sua ocupação, Emérita Augusta era tida como um simulacro da cidade de Roma em razão dos muitos edifícios públicos existentes. Hoje, Mérida é considerada a Pompeia espanhola e é bem fácil entender o porquê. Suas muralhas, aquedutos, templos, teatro, anfiteatro e a maior ponte do Império ainda existente têm níveis de conservação extraordinários e são apenas alguns dos patrimônios descobertos, preservados e abertos à visitação. Completa o importante complexo cultural emeritense — que desde 1993 possui o reconhecimento de Patrimônio Mundial da Unesco — o imperdível Museu Nacional de Arte Romana, com um vastíssimo acervo composto por mosaicos, esculturas, utensílios, dentre outras milhares de peças encontradas em trabalhos arqueológicos na cidade.

Templo de Augusto, Barcelona/Espanha
Foto: acervo pessoal.

Rumo a oeste, atravessando a fronteira ibérica para o lado português, chegamos ao município de Condeixa-a-Velha, a poucos quilômetros da universitária Coimbra, no centro de Portugal. Essa pequena cidade guarda um patrimônio português de alta estima: as ruínas da antiga vila romana de Conímbriga. Nesse local, que é uma das maiores povoações romanas encontradas em Portugal, é possível vislumbrar as estruturas domésticas das casas de um bairro residencial e, assim, compreender um pouco de como se vivia naqueles tempos. Também causam grande impressão aos visitantes os mosaicos romanos que ornavam os espaços comunitários.

Por fim, seguindo rumo ao sul de Portugal, chegamos a Lisboa. Na maior cidade do país há, distribuídos ao longo de todo o tecido urbano, um sem-número de vestígios que testemunham a vida em Felicitas Iulia Olisipo, a última cidade do Império romano — no sentido geográfico oriente-ocidente europeu. As subterrâneas galerias romanas da rua da Prata, na região da baixa pombalina, são muito famosas e recebem grande número de turistas ansiosos pela visitação, aberta somente uma ou duas vezes ao ano em razão da difícil logística. Um teatro romano, localizado entre as ruas da Saudade e de São Mamede, foi construído no século I d. C. e recebeu espetáculos cênicos do mundo antigo ao longo de 500 anos. A descoberta de suas estruturas construtivas em 1797 fez de Lisboa a única capital europeia a ter um exemplar dessas casas artísticas (excetuando-se a cidade de Roma, naturalmente). Também por tal singularidade, suas ruínas têm merecido atenção da Câmara de Lisboa e investimento com fins de preservação e divulgação. Por toda a cidade, há ainda diversos testemunhos da presença romana possíveis de serem visitados, como as termas, os tanques de salgas de peixes, também chamadas de citânias — que dimensionam a riqueza do comércio de Olisipo. Tudo isso está sistematizado e disponível para consulta pelo aplicativo e pelo site Lisboa Romana, uma ótima ferramenta de divulgação do patrimônio romano da cidade.

Teatro romano de Mérida/Espanha
Foto: acervo pessoal.

Como procurei demonstrar, Espanha e Portugal têm variados roteiros de passeios para quem se interessa pela história do Império romano. Já há muitos anos, esses países investem acertadamente em pesquisa histórica e arqueológica, o que potencializa um setor do turismo que tem público cativo e está em constante tendência de crescimento em todo o mundo: o turismo histórico-cultural. Àqueles que se interessarem por saber mais dessa antiga civilização, as sugestões registradas nestas páginas são apenas apontamentos iniciais para uma incursão mais aprofundada nessa história fascinante. Assim, quem quiser conhecer mais, desfrute dos caminhos apontados. Afinal, todos os caminhos levam a Roma.


Referências Bibliográficas:

Site Tarragona História Viva https://www.tarragonaturisme.cat/es/monumento/anfiteatro-romano-mht

Documentário “Mérida oculta, patrimonio vivo”: Disponível em https://youtu.be/MYaRGuxOwpc

Scaena. Revista do Museu de Lisboa – Teatro Romano: Disponível em: https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/42071/1/SCAENA%20I%20MUSEU%20DE%20LISBOA%20-%20TEATRO%20ROMANO%20%20Artigo%20Carlos%20Fabi%C3%A2o.pdf

www.lisboaromana.pt


Luiz Fernando Lopes

Doutor em História e professor do Instituto Federal de Brasília — IFB. Tem interesse nos seguintes temas de pesquisa: história da Inquisição portuguesa, história do Brasil Colonial, História de Portugal, História de Minas Gerais e Patrimônio.