Reconhecendo a racialidade através do  Patrimônio Cultural: Abayomis como mecanismo na Educação

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Michaela Cristina Santiago Mario |  Reconhecendo a racialidade através do  Patrimônio Cultural: Abayomis como mecanismo na Educação


Ao reunir engrenagens para rodar, assim, o entendimento sobre o tema, em alguma medida me deparei com memórias desconcertadas do início da minha graduação, com a fome primária pelo entendimento que não me foi alcançado na escolarização fundamental e, assim, o  embarcar no reconhecimento consciente da ausência da educação patrimonial no domínio público. De acordo com Guia Básico da Educação Patrimonial editado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN),

A Educação Patrimonial é um instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal em que está inserido. Este processo leva ao reforço da auto-estima dos indivíduos e comunidades e à valorização da cultura brasileira, compreendida como múltipla e plural.

Sendo assim, em posse de tais elucidações contemporâneas, a pergunta que me importuna é: Por qual motivo um instrumento tão poderoso foi e continua sendo negligenciado a crianças e jovens brasileiros no ensino público, ou melhor, por qual motivo um mecanismo de tamanha potencialidade persiste na omissão de direitos à infância e juventude negra do nosso país? E, desta forma, a consciência da necessidade de questionar tal conjuntura impulsionou este escrito a caminhar curioso contrário ao abismo da comodidade estrutural, buscando, com a invocação das lembranças dos saberes que circundam a boneca Abayomi, exemplificação possível para uma nova perspectiva diante do sistema educacional direcionada à preservação e promoção patrimonial.

A princípio, é crucial percorrer as excepcionalidades e finalidades da educação patrimonial que, tendo duas palavras-chaves: Educação e Patrimônio, é incapaz de percorrer à frente da discussão de políticas eugênicas e sanitaristas das primeiras décadas do séc. XX. Destarte, estas caminham em paralelo, sendo os processos de embranquecimento populacional por meio da educação contemporâneos às projeções urbanísticas de gentrificação das cidades brasileiras. Tais mobilizações edificaram a construção dessa nova narrativa nacional, justificando a percepção diante da patrimonialização, notória no período em análise – sob a ótica atual, enquanto mecanismo que persiste em proteger manifestações que remetem à identidade almejada, ou seja, a da culturalização europeia, portanto branca,  junto à atribuição do  aprendizado  promovido circulando em mesmo âmbito, o que atravessa o tema tratado em ambas as pontas.

Nessa perspectiva, erguendo incessante proposta de compreensão, é visível que a comunhão deste conjunto de produtos pretendia estabelecer terreno fértil à formação do “verdadeiro cidadão nacional”,uma vez que as pretensões vistas firmaram bases a revelar a garantia à perseverança da mentalidade utilitária positivista. No entanto, a efetividade dessa composição entendia o eu brasileiro a partir do desmonte cultural de qualquer outra influência não europeia, descartando não só as construções históricas do país, mas também a presença física dos corpos negróides e indígenas na sociedade dita. Com isso, a evidência do que deve ser preservado, em contexto, são as reafirmações do passado colonial estratificado do Brasil, em virtude do desrespeito à diversidade cultural presente, empurrando as populações indesejadas às margens urbanas ao promover a higienização das cidades e a gentrificação identitária quando exclui as manifestações a serem erguidas e lembradas por estas. 

Logo, de forma geral, atenta às percepções, é de suma importância ressaltar o caráter arquitetônico do elemento patrimonial citado até aqui. Contudo, este não é o único constituinte dos valores do Patrimônio Cultural. Segundo Elaine Monteiro e Martha Campos a partir do Decreto 3.551/2000, que identifica a complexidade potencial imaterial do patrimônio cultural, e em posse dessas competências, se reconfigura a racialidade das intervenções salvaguardadas, dizendo:

É evidente que o reconhecimento pelo Estado é importante e o registro como patrimônio imaterial teve impacto positivo nos bens registrados, sobretudo em termos de visibilidade e nas possibilidades encontradas por suas/seus detentoras/es para articular o reconhecimento e a visibilidade com lutas históricas por reconhecimento, reparação e garantia de direitos, como a luta pela terra e por educação. Como bem sintetiza Toninho Canecão, liderança jongueira do Quilombo São José da Serra, em Valença/RJ, em um ponto de jongo, quando o patrimônio é racializado, ele exige não apenas reconhecimento, mas reparação histórica.

Ou seja, as portas do Patrimônio Cultural foram abertas às pluralidades sociais com a mobilização dos ideais de referências e, assim, firmou-se a possibilidade de intervenção e interlocução dos provedores além do imagético irracional. Para as autoras, as políticas de patrimônio imaterial, articuladas às outras políticas no campo da cultura e da educação, produziram uma intensa movimentação de sujeitos que, pelas múltiplas possibilidades de encontros e de criação de redes, fortaleceram suas identidades. (MONTEIRO, 2020, p.65) Dessa maneira, as conexões diante da memorização da boneca Abayomi se fazem exemplo a uma ação imprescindível, a fim de perpetuar e concretizar tais feitos.

Ao traçar este paralelo, inicialmente,  o digno é reconhecer a instabilidade narrativa pela qual a  origem da Abayomi é atravessada, um prisma de múltiplas concepções.  O fato é que a Abayomi pode ser entendida como uma mecânica, uma chave de identificação espelho, demarcada em simbologia, mas flutuante em signo. Isso, a marca, acima de tudo, como aparelho racional de entendimento e perpetuação das expressões das relações pretas, suas historicidades e construções orais, pois, ao fincar raízes profundas ao imaginário coletivo, marginalizado a boneca dita, resistiu aos momentos inoportunas da História e seus apagamentos. Abayomi, apesar das negligências, é constante.   

À frente, em posse dos levantamentos e experiências concedidos no estágio na Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (FUNALFA), na elaboração das atividades propostas em projeto concedido pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Artística da UFJF, e por último, mas igualmente importante, a minha iniciação no culto aos Orisás, aqui descrevo  três possibilidades narrativas com as quais me deparei ao longo deste primeiro ano. E, ainda que somente a última se marque pela tradição religiosa, todas elas evidenciam e se promocionam pela oralidade.

            Destas, a primeira invocada neste me foi contada pela excelentíssima artesã Maria Geralda,  ao procurá-la para ministrar uma aula sobre a história da boneca Abayomi. Geralda, presidente do Movimento de Economia Solidária, me relatou seu acesso a esse saber em momento de necessidades diversas, explanado que o movimento Abayomi a acolheu por meio do relato, em certa popularidade, da mãe violentada pelo tráfico transatlântico do período colonial que, ao acalentar seu filho, rasgava parte das vestes e, assim, a transformará em uma Abayomi, um (aba) encontro (omi) precioso , segundo a mesma. Esta narração findou até o presente em produto visual1 a ser acessado aos afetados pelo projeto Programação infanto-juvenil virtual do CECOM-UFJF, já citado, o qual idealizei e pelo qual me responsabilizo pelas demandas junto ao coordenador escolhido, Marcos Olender.

Maria Geralda, artesã e Presidente do Movimento Economia Solidária. Foto: Michaela Santiago (2021). 

Seguindo, também por Geralda e apoiada as indicações de leitura do meu coordenador, tive o primeiro vestígio da segunda narrativa possível na qual englobasse outros dois fatores relevantes: a representação materna nas feições da boneca e a criação nomeada a um indivíduo, perdendo o caráter coletivo de origem. Esta, por sua vez, nomeia a educadora nordestina Lena Martins como criadora original da Abayomi

A narrativa de sua criação remonta a um período marcado pela efervescência de movimentos sociais no país, nos anos 1980, momento de redemocratização, debates em torno de uma nova Constituição e dos cem anos da Abolição da escravidão, ambos culminando em 1988.(…)Waldilena Serra Martins, mais conhecida como Lena Martins (….) A artesã desenvolveu a técnica da boneca negra de pano, sem costura ou cola, naquele mesmo ano. Os materiais utilizados eram retalhos (…) descartes de fábricas e confecções.

Abayomi: a representação da mãe com o cria nos braços,  fabricada no Maranhão. Foto: Michaela Santiago (2022)

Enfim, neste escrito,  a última versão tratada me foi transmitida sentada na cozinha do Ilê Asé Omorode no ouvir atento da  noviça que era. Essa conta que a Orisá Yansã, ao ser mãe, deu à luz a nove lindos bebês em meio a uma tempestade, clima este que a mesma produziu ao ver seus filhos nascerem sem vida. A divindade dos raios, à medida que acolhia seus natimortos nos braços, ia lhes nomeando e acalmando sua grande fúria. No fim, mais calma, viu seu último filho nascer com vida, o nomeando de Abayomi, nascido para meu orgulho/felicidade, a bí sí nascidopara, ayo felicidade/alegria, mi meu/minha,  segundo o dicionário Guia prático da língua Yourùbá, por Fernandez Portugal Filho.

Agora, caminhando para a conclusão, mediante as narrativas da boneca Abayomi apresentadas e as ainda não evidenciadas, é perceptível as similaridades entre elas, momento que acredito que a historicidade que o abarca é um suficiente ponto de excelência que, segundo Michel Pollak,

(…) a sobrevivência durante dezenas de anos, de lembranças traumatizantes, lembranças que esperam o momento propício para serem expressas. A despeito da importante doutrinação ideológica, essas lembranças durante tanto tempo confinadas ao silêncio e transmitidas de uma geração a outra oralmente, e não através de publicações, permanecem vivas. O longo silêncio sobre o passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais.

Por fim,  entendo que a mecânica de propagação da Abayomi é um potente exemplo a possibilitar uma vertente democrática de ensino ao racializar o conhecimento. Assim como  a democratização da educação patrimonial perpassa o reconhecimento da pluralidade dos ideais de Patrimônio Cultural. Junto a isso, acredito ser necessário um novo apossamento dessa diversidade social nos bens arquitetônicos e monumentais, uma vez que afastar as presenças não brancas da edificações urbanas  realoca os negros e indigenas à não produção dos sinônimos simbólicos de cidade, como civilidade e progresso, marcado na historiografia positivista, propagando uma visão errônea. Porém, o dever emergencial desse caminha para começar por alguma movimentação, findando na descolonização epistemológica perante o Patrimônio Cultural.


[1] Disponível:  https://www.youtube.com/watch?v=wOsJQ4iFrsg


Referências Bibliográficas:

GOMES, Edlaine de Campos; Bizarria, Júlio; Collet, Célia; Sales, Marcos Vinícius . A Boneca Abayomi: entre retalhos, saberes e memórias. ILUMINURAS. N.44. Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2017.

HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; GRUNBERG, Evelina & Monteiro, Adriane Queiroz. Guia Básico da Educação Patrimonial. Museu Imperial  / DEPROM – IPHAN – MINC. Disponível em : http://portal.iphan.gov.br/uploads/temp/guia_educacao_patrimonial.pdf.pdf

MONTEIRO, Elaine; ABREU, Martha Campos. Patrimônio Imaterial e afirmação negra: a política dos encontros para uma educação antirracista*. Cadernos Naui: Núcleo de Dinâmicas Urbanas e Patrimônio Cultural, Florianópolis, v. 9, n. 17, p. 60-88, jul-dez 2020.

POLLAK, Michel. Memória, esquecimento, silêncio. In: Revista de Estudos Históricos.  vol. 2, n. 3. Rio de Janeiro. Jun. 1989, p. 3-15.

PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático da língua Yorubá. São Paulo: Madras, 2019.


Michaela Cristina Santiago Mario

Graduanda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Foi bolsista do Marcos Olender no Programa de Treinamento Profissional do Centro de Conservação da Memória, da mesma universidade. Participou do corpo de organizadores do I Congresso Internacional Gestão dos Patrimônios da Humanidade Urbanos: desafios e riscos da preservação/ I Simpósio Internacional: Patrimônios da Humanidade Mineiros no Contexto Internacional. Atualmente, integra o quadro de estagiários do Departamento de Memoria e Patrimonio Cultural da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (FUNALFA), também faz parte do grupo de bolsistas da PIBART, Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Artística da UFJF, com o projeto  Programação infanto-juvenil virtual do CECOM-UFJF, coordenada, novamente pelo docente Marcos Olender.