O que é ser um concept artist e ilustrador

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2021 – Giovanni Auditori | O que é ser um concept artist e ilustrador


Trabalhar com desenho é ouvir pelo menos uma vez na vida ‘’Ah você desenha! E você trabalha também?’’

Pensar neste tema foi difícil, devo dizer. Primeiro porque ilustração pode soar como um tema amplo, e na verdade é, mas para mim, o entendimento da palavra ilustração hoje é bem diferente do que eu imaginava há 4 anos, quando eu era um jovem aprendiz no mundo das artes digitais, e pensar em quais das formas eu poderia passar adiante me fez conflitar sobre o assunto, mas cá estou eu, pensando em como esse conflito é bom, doce, e me faz lembrar do artista que eu sonhava em ser quando peguei pela primeira vez em uma caneta digital.

Mas não quero colocar a carroça na frente dos bois, como dizia meu pai, então vamos começar por este que vos fala. Fui uma daquelas crianças que começaram a desenhar desde cedo, mas que nunca pararam. Entre brincar na areia da casa do vizinho em obras e registrar em desenhos o que eu assistia na TV, com o tempo eu passei a querer criar meus próprios personagens e, por que não, minhas próprias histórias. Lembro da primeira história em quadrinhos que eu criei, com um personagem genérico que usava capa e voava pelos prédios. Logo depois, inventei a equipe que o ajudava a combater o crime. Com isso, já é fácil dizer que os desenhos animados tinham uma grande influência sobre mim, como Teen Titans.

Teen Titans, desenho animado que me inspirou a criar meu primeiro gibi. fonte: https://teentitans.fandom.com

Mas havia uma coisa que me acompanhava e me fazia querer continuar desenhando mesmo fora de casa, que, nesse caso, era no momento da escola: As ilustrações presentes nas capas dos cadernos. Na minha época, ter um caderno com uma fotografia de um surfista pegando uma onda era mais fácil e barato de adquirir do que os cadernos que todo jovem adolescente (ou quase todos, eu imagino) queria de verdade: os cadernos com artes de super-heróis. Eu não sabia na época, mas quando finalmente ganhei meu caderno de super-herói, foi ali minha primeira experiência com uma ilustração.

Os cadernos da minha infância. Fonte: o autor

Sabe aquela famigerada frase “não julgue o livro pela capa’’? Veja bem, as pessoas julgam os livros pela capa, sim. E está tudo bem. Um bom livro merece um projeto gráfico que ilustre seu tema, seu gênero, seu estilo, enfim, que mostre a que veio e se destaque na prateleira em meio a outras centenas de livros. Aproveitando, eu fico extremamente feliz quando leitores vêm até mim e dizem que a capa do meu gibi, o Assassino Rubro, puxa os olhos até eles, pois isso faz a pessoa querer saber a história por trás daquela capa. É revigorante ouvir isso.

Capa do meu gibi. Fonte: o autor

Vamos lá, se capas não fossem tão importantes, não existiriam várias edições do mesmo livro com capas diferentes? É, isso vende.

Duas capas para o mesmo livro. fonte: https://capasdelivrosbrasil.blogspot.com

O ponto é, a ilustração pode ser uma ferramenta que permite que a arte evoque sensações e desejos. Um exemplo simples: quando você vai ao mercado, você olha aquela caixa de suco com letras cursivas, uma arte colorida, com instruções, de maneira descontraída, de como abrir e agitar, logo pensa ”hum, isso parece gostoso’’. Além de fazer você se interessar por algo, a ilustração pode servir a outro propósito também: a de contar histórias. Eu comecei a contar histórias primeiro pelos gibis, e depois, só por volta dos meus 21 anos, quando adquiri uma mesa digital, foi que eu comecei a desenvolver minhas habilidades de ilustração através de vídeos e pessoas que eu seguia nas redes sociais.

Minha primeira mesa digital. Fonte: o autor

Mas acho que agora podemos ir ao ponto em que trabalhar com desenho é assunto sério.

Trabalhar com ilustração só se tornou uma realidade para mim há pouco tempo, e ainda foi há pouco tempo que comecei a reparar que os desenhos animados, os personagens, o visual 3D do baianinho ou da magalu, os super-heróis dos filmes são pensados e criados por pessoas, por artistas, por ilustradores.

 Na primeira imagem: o concept art do personagem que serve de base. Na segunda: o personagem feito em 3D por outra equipe e inserido no jogo. fonte: http://howtonotsuckatgamedesign.com/2016/01/stylized-realism/

Ok, dentro da ”caixinha” ilustrador, vamos pensar em dois tipos: aquele que ilustra algo criado por outro artista e aquele que cria algo partindo do ponto zero. O primeiro tem a ilustração como finalidade. O segundo tem a ilustração como ferramenta. A ilustração pode ser uma finalidade, como a capa do caderno do homem-aranha, a capa de um livro, o mascote estampado na caixa de cereais, uma arte em uma camiseta, uma capa de álbum de música; as finalidades são infinitas. Lembra do mascote da caixa de cereais? Antes de você ver o personagem desenhado na caixa, todo bonitão, houve outro artista que pensou, testou e criou o visual definitivo do mascote para que, no futuro, outros artistas pudessem ilustrar o personagem, seja em embalagens ou em anúncios na TV. Essas ilustrações iniciais, conhecidas como concept arts, vão servir de base (ferramenta) para outro artista, como o ilustradorconstruir a arte onde o personagem será estampado, que é a caixa de cereais (finalidade). Pegou?

Importante perceber que ilustrador é um termo geral que estou usando no texto para melhor entendimento, e que na prática, ilustradorese concept artists são profissionais diferentes, que trabalham em etapas diferentes de um projeto. Assim como um arquiteto e um engenheiro estrutural, que trabalham em etapas e áreas diferentes do mesmo projeto.

Concept arts de personagens para livro infantil que realizei. Fonte: o autor.

Para mim, gosto de ser os dois tipos de artistas. As áreas em que se pode trabalhar são várias e é importante saber em que área você mais quer dar foco, e aqui estou falando com você, que ainda vê seus rabiscos somente como hobby. Se quiser continuar só como hobby, tudo bem, mas caso queira tornar isso sua fonte de renda, fazer sua paixão por desenho se tornar algo maior, você está lendo o texto certo.

Mas preciso dizer uma coisa muito importante antes. Tudo que eu aprendi foi de maneira autodidata. Isso quer dizer que o que eu aprendi foi através de vídeos, textos em blogs, postagens em redes sociais, tudo isso, de maneira gratuita. Gosto de dizer isso porque ainda que eu tenha aprendido ‘’sozinho’’, sem um professor e aulas semanais, tudo isso não é só puro talento. É esforço e disciplina em consumir tudo que é oferecido gratuitamente na internet. Mas, eu posso dizer com certeza que, muito do que eu aprendi em vários meses estudando, eu poderia ter aprendido em semanas com um acompanhamento e cursos pagos. A questão é que se você não tem como investir nisso, ainda é possível trabalhar com ilustração, mesmo que leve mais tempo. Agora sim, podemos começar a falar sobre o caminho para se tornar um profissional de ilustração. Aqui, vou colocar a minha breve experiência de como desenvolvi minha percepção das áreas em que eu gostaria de atuar e alguns nomes que ajudaram a aprimorar meus estudos.

Ilustração que fiz fazendo uma mistura entre arte moderna e cultura pop. fonte: o autor.

Como ilustrador/concept artist você vai ser responsável por contar uma história, usando imagens. Especificamente, o concept art tem como objetivo ajudar as outras equipes de artistas através de soluções visuais, e as ilustrações são só ferramentas que ajudam a entender essas ideias, como diz o artista sênior Jon Buran na série ‘’So you wanna make games’’, disponível no youtube, a qual eu recomendo fortemente.

Usando como exemplo a área que eu mais tenho estudado, a de concept art para jogos, o artista, nesse trabalho, é responsável pela representação inicial de personagens, objetos de cenários, o próprio cenário, o visual de personagens presentes em cenários, etc. Depois de criar e apresentar suas criações para o time de artistas e passar por feedbacks, outros artistas irão usar suas imagens para trabalhar em cima delas e inseri-las nos jogos, ou nas animações, seja para desenhos animados ou filmes. Ora, voltamos novamente para aquela etapa em que eu falei sobre ilustração como ferramenta.

Concept art que fiz para teste de um jogo de celular. fonte: o autor.

E aqui vai uma dica pessoal: se você quer trabalhar com história em quadrinhos, precisa ler história em quadrinhos, se quer trabalhar com jogos, precisa jogar e aprender sobre as etapas de criação dos jogos, e algumas dessas coisas podem ser facilmente encontradas dentro dos ‘’extras’’ no menu principal dos games. Pause seu jogo, vá até o menu e divirta-se. Mas, um lugar especial onde você pode entrar a fundo nessa temática seria o site artstation.com. Para aprender sobre uma área da qual você goste, eu indico criar um ambiente onde você possa respirar aquilo diariamente, seja no ambiente virtual ou não. Nas redes sociais, siga artistas que trabalham com o que você quer trabalhar, visite sites como o brushworkatelier.com, ou o theconceptartblog.com. Além de entender os processos, esses sites e as pessoas que você seguir vão servir de referências para você consultar, parte essencial do processo de criação. Para minha história em quadrinhos, consumir mangás, filmes, jogos e livros pensando neles como referências foram fundamentais para construir a história, os desenhos, os personagens, a capa e todo o visual do projeto. Respire a arte que você quer criar.

Até agora, tudo o que indiquei aqui foram maneiras de começar a criar seu mindset de forma gratuita. Mas é possível encontrar muitos cursos onlines em sites como udemy.com e domestika.org, a preço de banana, muitas vezes. Os cursos pagos oferecem o que todos nós já sabemos: aulas organizadas em tópicos que você vai estudar. Mas uma coisa fundamental que descobri quando comecei a estudar através de cursos pagos no ano passado é que eles oferecem foco. Você vai estudar algo específico por semanas, meses, e vai se aprimorar sem se perder. Ter um bom direcionamento que um curso pago pode dar é muito bom, mas, colocar o foco no estudo da área que você quer atuar é fundamental. E depois de entender e perceber isso, você pode estudar gratuitamente pela internet e se tornar um ótimo profissional.

Acho que falamos muito sobre ilustração e concept art por hoje, e ainda que tenhamos mais um mar de tópicos que eu poderia abordar, a principal lição que deixo aqui é a de que você pode ganhar dinheiro e se sustentar com desenho. No fim das contas, é só mais uma profissão que necessita de estudo, aprimoramento e disciplina.


Referências bibliográficas:

Série ‘’So you wanna make games’’ no youtube. https://www.youtube.com/watch?v=RqRoXLLwJ8g&list=PL42m9XiTqPHJdJuVXO6Vf5ta5D07peiVx&ab_channel=RiotGames

Blog brush work atelier. https://brushworkatelier.com/

Blog The CAB. https://www.theconceptartblog.com/


Giovanni Auditori

Tem 25 anos, é ilustrador, quadrinista e concept artist Nascido no interior de Minas, atualmente reside em Juiz de Fora, onde vive e trabalha como artista freelancer. O artista realiza trabalhos de capas e ilustrações de livros infantojuvenis, livros infantis, histórias em quadrinhos, criação de personagens e encomendas pessoais. Também trabalha como concept artist e quadrinista na webcomic Legend of Genji, projeto que reúne artistas de todo o mundo. Recentemente lançou seu primeiro gibi através da Lei Murilo Mendes. Suas principais paixões são contar histórias através de ilustrações, jogar videogame e assistir filmes e animes que o inspirem a continuar criando. Para conhecer o trabalho de Giovanni e/ou contato comercial, vá até: https://www.instagram.com/gioauditoriart/