Casa D’Italia: ‘Sentir-se em casa’ – Um ensaio sobre nossos afetos e memórias


Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 25, 2022 – Daniele Ferreira | Casa D’Italia: ‘Sentir-se em casa’ – Um ensaio sobre nossos afetos e memórias


A casa. Palavra a que atribuímos muitos sentidos. Uma metáfora carregada de significados. Talvez o que nos venha primeiro em mente seja o lugar onde moramos. Uma construção ou uma habitação. Esse talvez seja o sentido mais popular do termo. Antigamente, entre nós, casa designava cada um dos compartimentos da moradia. Dizia-se: “casa de dormir”, “casa de frente”, “casa de banho”.  A palavra “casa” pode assumir vários significados, para além da habitação, e gostaria que explorássemos juntos alguns desses sentidos simbólicos que ela pode assumir em nossas vidas. Pode ser um lugar de identidade, um ponto de referência, um lugar de acolhimento e afeto, ou até mesmo um sentimento: talvez você já tenha falado ou escutado a expressão “sentir-se em casa”. Seja qual for o sentido e as palavras que escolhemos para definir nossa casa, a verdade é que todos nós atribuímos a ela valores afetivos. Por que nos sentimos em casa em situações mais diversas possíveis? Como em certo sentido disse o escritor Mia Couto: “O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora”.

As palavras e os discursos carregam significados que não trazemos à consciência todo o tempo, mas sabemos que existem. Junto com nossas ações, tais significados tecem os tecidos da história, dos grupos, das pessoas. É interessante pesquisar a ideia de casa que está presente em nosso imaginário culturalmente diverso, tendo sido protagonista de muitas canções, versos, poemas e histórias que conhecemos.

Uma delas, que acredito trazer luz ao sentido da casa como afeto, é a história contada através do curta-metragem japonês “A Casa de Pequenos Cubinhos (Tsumiki No Ie)”, de 2008.  Nele conhecemos, em apenas 12 minutos, de forma delicada e poética, a história de um senhor que mora sozinho ao nível do mar. Com o passar dos anos, a água vai subindo e ele precisa erguer cada vez mais sua casa, tijolo a tijolo. Ele constrói outro pavimento para que a água não alcance a parte em que está morando. Um dia, ao acordar (e nesse processo de construção e mudança para a parte de cima), acaba perdendo um objeto precioso para ele, um cachimbo. Com a intenção de resgatar o objeto, com roupa de mergulhador, ele decide descer os pavimentos abaixo da casa, agora submerso pela água. E, à medida que desce, não são apenas ruínas ou espaços perdidos que ele visualiza. Subitamente, vêm à sua mente as recordações do passado. Lembranças da esposa, da filha e do genro aparecem nos espaços vividos da casa. A história é uma metáfora para essa dimensão subjetiva de quem habita e experiencia a casa. A casa como afeto, lembranças e recordações. A casa que carregamos em nossas memórias é bem mais uma construção de nossa subjetividade, do nosso mundo afetivo, dos nossos sonhos e fantasias, ancoradas em uma casa concreta, com cores, texturas, cheiros e objetos.

“Rememorar possibilita a ressignificação, unindo passado, presente e futuro”. Brandão (1999: 51). Cena do curta-metragem “A Casa de Pequenos Cubinhos (Tsumiki No Ie)”. Fonte: imdb.com/title/tt1361566/

Nossas memórias, por sua vez, não são coisas apenas do passado. Estamos constantemente atualizando e reconstruindo nossas lembranças a partir de nossas experiências no presente. Nesse sentido, lembramos o que nos diz Bachelard (2008): quando recordamos nossas lembranças sobre nossa(s) casa(s), “adicionamos valores e sonho. Nunca somos verdadeiros historiadores; somos sempre um pouco poetas” (BACHELARD, 2008, pp. 26).

Outro texto que vale sempre ser revisitado e mencionado é o escrito por Lina Bo Bardi, em 1947, com tema “Na Europa a casa do homem ruiu”, no qual, diante da guerra e das perdas, ela indaga: “Havia alguma coisa mais ‘firme’ do que a casa?” Estamos acostumados a ver as casas sempre ali, no mesmo lugar; mesmo com as mudanças que os anos carregam, as renovações, as casas se mostram sempre firmes. Mas as casas podem ser frágeis, sutis, ‘humanas’. Assim como a autora descreve: “Talvez os homens tenham aprendido que a casa é ‘quem a habita, é ele mesmo’, e que espelha o espírito humano e lhe mostra os defeitos, os vícios e a vaidade, ou o equilíbrio e a compreensão” (p. 65).

Desenho de Lina Bo Bardi, estudos para Casa Circular, 1962. Lina tinha um jeito particular de retratar em seus desenhos as casas que projetava de forma muito afetiva, assim como imaginava que seriam apropriados os espaços no cotidiano dos moradores. Fonte: ILBPMB.

Não precisamos sentir a ausência ou a perda para ter em mente os valores que tais lugares de afeto têm para nós, para uma comunidade inteira. Nas cidades, existem várias ‘casas’ de referências (em italiano, “riferimento”), lugares de identidade e de pertencimento. E, nesse sentido, não podemos deixar de abordar outra dimensão da palavra ‘casa’, o nome que também recebem certas construções ou edifícios importantes ou públicos, assim como a Casa D’Italia. Com base nessa dimensão afetiva, podemos fazer a relação do que a Casa D’Italia representa para nossa cidade desde sua inauguração, em 1939. Para as famílias de imigrantes italianos que em nossa cidade firmaram suas raízes, a instituição foi uma casa de encontros, apoio, troca, lazer, colaboração e rememoração dos lugares que antes habitavam. Quando penso em nossas avós, nossos bisavôs, ou seus amigos e compadres que para cá imigraram, fico imaginando os lugares com que eles se identificavam, e gosto de pensar que a Casa D’Italia foi um desses seus afetos. Isso porque, ainda hoje, passados mais de 80 anos, essa “casa” mais ampla continua sendo um espaço de diálogo, articulação com nosso passado, participação presente com a nossa cultura.

O significado cultural, para a coletividade, deve ser levado em consideração nas ações de salvaguarda e preservação de tais lugares. Os valores culturais são dinâmicos, sofrem transformações, sempre se realizam com nossa relação com o objeto. O patrimônio é o suporte para a memória e a representação da identidade de um lugar. A memória é complexa, mas sabemos, de experiência própria, que as lembranças carregadas de emoções são as que mais guardamos na memória, mesmo que remetem às mais difíceis situações pelas quais passamos. Como relaciona o sociólogo Maurice Halbwachs, em sua obra ‘A memória coletiva’: “Somos arrastados em múltiplas direções, como se a lembrança fosse um ponto de referência que nos permitisse situar em meio à variação contínua dos quadros sociais e da experiência coletiva histórica” (Halbwachs, 2006, p. 12).

Assim como acontece com nossa casa, em que, no dia a dia, tecemos memórias com os objetos, os espaços, as pessoas que a habitam, também será na vivência cotidiana com os espaços da cidade que com eles construiremos nossas memórias afetivas. Assim, passamos a identificar a história da cidade que vivemos como pertencente a nossa própria história de vida. É como aquela fotografia antiga de família que queremos preservar, guardar com carinho, tratar e expor no quadro da nossa sala. Guardamos na memória aquilo que nos toca o coração. Da mesma forma, são espaços como a Casa D’Italia que buscamos cada vez mais vivenciar, integrar às demandas presentes, preservar, nos apropriar em diálogo com as atividades e os anseios atuais que possuímos (Kühl, 2008).

No sentido presente, sabemos como é grande a comunidade que se identifica com a cultura italiana em nossa cidade e em todo o país. Seja pelas raízes e pela familiaridade, seja pelo afeto que desenvolvem pela Itália, tão presente em nossa história e em nosso presente. Por mais que a sociedade mude, que as gerações mudem, sempre carregamos o desejo de “tornare a casa” (em português, “voltar para casa”), quaisquer que sejam os sentidos e as palavras que escolhemos para definir nossa casa. Nosso desejo para a Casa D’Italia é que cada vez mais possamos retornar ao seu espaço, nos apropriar, atribuir relações e, com ela, perpetuar e renovar nossos afetos.


Referências Bibliográficas:

BACHELARD, Gáston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

BRANDÃO, Ludmila de Lima. A Casa Subjetiva. São Paulo: Perspectiva, 2002.

CORDEIRO, Nilson da Rocha. A casa em verso e prosa: canções, poesias e subjetividade do conceito de casa, UFPE, 2015. Dissertação (Mestrado).

HALBWACKS, Maurice, 1877-1945. A memória coletiva / Maurice Halbwacks; tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro, 2006. 224p.

KÜHL, Beatriz Mugayar. Preservação do Patrimônio Arquitetônico da Industrialização: problemas teóricos de restauro. Cotia: Ateliê Editorial, 2008.

LINA BO BARDI. Lina por escrito. Textos escolhidos de Lina Bo Bardi, organizado por Silvana Rubino e Marina Grinover; São Paulo, 2009. 

REZENDE, Daniele Ferreira. Cidade E Memória: ‘Se Essa Casa Fosse Minha’, Estudo sobre o pertencimento nas vilas operárias em prol da preservação Juiz de Fora. FAU-UFJF, 2017. Monografia (Graduação).


Daniele Ferreira

Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com ênfase na preservação da paisagem urbana e territorial. Durante a formação, atuou na Divisão de Patrimônio Cultural — Funalfa/PJF. Atualmente exerce a profissão na cidade, com interesses direcionados para projeto, pesquisa e identidade.