Preservar a natureza exige estratégias, e não sacrifícios

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Tiago Shizen | Preservar a natureza exige estratégias, e não sacrifícios


Nas últimas semanas, vimos notícias sobre o “desaparecimento” de Bruno Pereira e Dom Phillips, indigenista e jornalista, no Amazonas. Bruno e Dom foram sacrificados porque investigavam e denunciavam atividades de exploração ilegal em terra indígena. Ou seja, lutavam pelos direitos dos povos indígenas e pela preservação da natureza e, por isso, foram assassinados. Não muito longe, em escala amazônica, da região onde Bruno e Dom foram vistos pela última vez, Chico Mendes atuou na luta pela preservação da floresta nas décadas de 1970 e 80. Assim como Bruno e Dom, Chico foi sacrificado. O instituto responsável pelos parques brasileiros recebeu o nome Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e, em agosto deste ano, completará singelos 15 anos. Infelizmente, muitas outras pessoas foram sacrificadas por lutar pela preservação da natureza, e seriam necessárias centenas de institutos mais para homenageá-las.

Charge de Gilmar. @cartunista_das_cavernas

O sacrifício dessas pessoas nos indigna, ou pelo menos deveria, pois todos dependemos da natureza pela qual elas lutaram. Pensar na falta que a natureza preservada faz é mais evidente, então cito alguns exemplos palpáveis relacionados ao nosso dia a dia: a falta de água nas cidades próximas ao Rio Doce após o rompimento da barragem da Samarco em Mariana; não poder nadar na maioria dos rios, agora poluídos e/ou encanados; os períodos, cada vez mais frequentes, com chuvas torrenciais, ou secas prolongadas, devido a mudanças climáticas causadas, sobretudo, pelo desmatamento. São incontáveis os exemplos como estes que, somados, evidenciam o colapso que estamos enfrentando, e que teve início já há algum tempo. 

A saber, Chico Mendes percebia os efeitos do desmatamento há 50 anos. Ainda antes, podemos falar da crise da falta d’água no Rio de Janeiro na metade do século XIX, que fez com que pensassem (acertadamente) na recuperação da floresta que hoje conhecemos como Floresta da Tijuca. 

Ainda temos outros exemplos ao longo da história da humanidade. Evidências históricas indicam que civilizações antigas, tais como a civilização egípcia, sucumbiram devido a problemas ambientais. Até rituais envolvendo sacrifícios humanos foram praticados por algumas dessas civilizações para agradar aos deuses que, então, ficariam satisfeitos e solucionariam grandes problemas. Mas sacrifícios humanos não são mais praticados, ou pelo menos não deveriam ser. O que podemos fazer é elaborar e implementar estratégias que nos ajudem a enfrentar os problemas e seguir existindo enquanto sociedade.

Rastro de destruição do Rio Doce após rompimento da barragem da mineradora Samarco no interior de Minas Gerais. Foto: Corpo de Bombeiros-MG

Então, quais são as estratégias sendo desenvolvidas na tentativa de preservar a natureza? As duas principais são proteger áreas para que não sejam destruídas e restaurar áreas que já foram degradadas.

Definir as áreas a serem protegidas é um dos objetos de estudo de um campo multidisciplinar, a biologia da conservação. Seu início se deu, formalmente, na década de 1980, ao mesmo tempo em que Chico Mendes passava a ser conhecido internacionalmente. Curiosamente, na mesma década, tiveram início os estudos formais da ecologia da restauração (ou restauração ecológica), campo igualmente multidisciplinar que tem como objetivo o auxílio à recuperação de ecossistemas que sofreram algum grau de degradação, ou até mesmo destruição completa.

As duas estratégias, conservação e restauração, estão no centro de discussões globais sobre a preservação da natureza. Exemplo disso é o fato de as Nações Unidas terem dedicado a década passada à conservação (de 2011 a 2020, Década da Biodiversidade) e esta década à restauração (de 2021 a 2030, Década da Restauração de Ecossistemas). Isso nos mostra que chegamos a um ponto em que é necessário agir em diversas frentes para tentar reverter o colapso ambiental que estamos vivendo.


Logotipos das décadas das Nações Unidas. Fonte: http://www.unep.org

Falando da década atual, da restauração de ecossistemas, é inerente pensar em como fazer para restaurar áreas que foram degradadas, ainda mais aquelas que foram totalmente devastadas, como no exemplo recente da destruição completa do Rio Doce após o rompimento da barragem da Samarco em Mariana. Para tanto, logo vem à mente o plantio de árvores. Temos tido avanços nesse sentido, inclusive com a utilização de conhecimentos de outras áreas já consolidadas, como a agricultura e a silvicultura (plantio de florestas para obter madeira e derivados).

É necessário, porém, fazer uma ressalva: nem todos os ecossistemas são florestas (vide os campos do Pampa, no sul do Brasil), então nem sempre restaurar significa plantar árvores. Para saber se devemos plantar árvores ou não, é necessário ter um modelo do que existia na área degradada, o que, na restauração ecológica, são denominadas referências. As referências ajudam a saber quais espécies devem ser plantadas, além de ajudar também como fontes de sementes, assim como de outros organismos que saem delas em busca de outros lugares onde se alimentar e até mesmo viver. Quando esses organismos passam a repovoar áreas que estão sendo restauradas, entendemos que o processo de restauração está acontecendo satisfatoriamente.

Sem as referências, é como se não soubéssemos para onde a restauração deve ir. Sem esse rumo, corremos um grande risco de chegar em um lugar diferente do que deveríamos; ou seja, a restauração acaba não acontecendo.

Uma forma de ilustrar a importância das referências, embora no campo artístico, é o de uma senhora espanhola que tentou restaurar uma pintura que representava Jesus. Ela havia encontrado a obra em estado bastante danificado. A senhora, então, decidiu tentar restaurar a obra, mesmo sem referência alguma, e acabou obtendo um resultado bastante diferente do esperado. Na restauração ecológica, boa parte das referências são áreas que foram indicadas, a partir de estudos de biologia da conservação, para serem protegidas. Por terem sido poupadas da ação humana sem controle, muitas vezes essas são as únicas áreas disponíveis como referência. Em resumo, a restauração ecológica depende de termos áreas onde a natureza está preservada, sobremaneira graças à conservação.

Obra de Elías García Martínez em três versões: original (à esquerda), danificada (meio) e “restaurada” por uma senhora espanhola (direita). Fonte: Internet

A conservação, por sua vez, começou tendo destaque maior que a restauração, e se desenvolveu bastante como campo do conhecimento. Isso provavelmente aconteceu porque, naquele momento, ainda tínhamos quantidade significativa de áreas para serem conservadas. Mas em que consiste a conservação? Como fazer para conservar, ou preservar, a natureza?

A conservação é feita limitando-se o uso dos recursos naturais em algumas áreas. Essas áreas normalmente possuem características únicas, como espécies ou conjuntos de espécies de animais e/ou plantas que estejam sob ameaça; por exemplo, sob risco de extinção. Tais áreas, mais conhecidas como parques ou reservas, são geridas pelo supracitado ICMBio. Algumas reservas, no entanto, são terras indígenas, onde povos indígenas podem seguir seus modos de vida. Nesses casos, a gestão é feita pela Funai, órgão no qual Bruno Pereira trabalhava para proteger os modos de vida dos povos indígenas. Vale lembrar que os modos de vida dos povos indígenas são compatíveis com a preservação da natureza.

Aqui, surge outro questionamento: limitar o uso da natureza nos parques e reservas seria sacrificar algo? Sim e não. Quando comunidades tradicionais, tais como os povos indígenas, são impedidas de continuar convivendo com a natureza nessas áreas, a relação muitas vezes milenar entre estes povos e a natureza pode estar sendo sacrificada.

Por outro lado, quando o uso é exploratório, indiscriminado, e consiste em desmatar, poluir, etc., não considero que algo esteja sendo sacrificado. Curiosamente, é comum pensarmos o seguinte: se temos áreas para a preservação, então todo o resto seria liberado para a exploração descontrolada? A resposta é, ou deveria ser, não. É aí que entra a restauração, para tentar reverter parte do que foi degradado quando ainda se pensava e permitia que tudo, ou todo o resto desprotegido, podia ser utilizado como bem entendêssemos. Algumas dessas áreas que foram bastante degradadas, mas que passaram a ser percebidas como importantes para a preservação da natureza, precisam ser restauradas. Então, podemos concluir que a conservação, sobretudo agora, depende da restauração.

Assim, nota-se que o que precisamos é de estratégias combinadas, pois conservação e restauração são interdependentes, e nem uma nem outra representam uma solução única. Vale ressaltar que boa parte dessas estratégias, inclusive sua aplicação de forma combinada, está prevista na legislação brasileira. Porém, temos percebido um desmonte tanto do arcabouço legal, quanto do poder de fiscalização, que teve início após as mudanças políticas em 2016 e significativamente agravada a partir de 2019. Isso faz com que, entre as várias frentes já necessárias à preservação da natureza, acabemos tendo mais uma: reconstruir os sistemas legal e de fiscalização. Nesse contexto, o caso do Brasil é interessante, pois um dos argumentos utilizados é baseado na falsa impressão de que já preservamos demais e precisamos abrir espaço para o “desenvolvimento”. Estaríamos, então, sacrificando o desenvolvimento em prol da preservação da natureza?

Na verdade, não há sacrifício ao se preservar a natureza, muito menos ao restaurá-la, principalmente considerando o estado de colapso a que chegamos. Há, sim, áreas disponíveis para a agricultura e outras atividades que dependem do cultivo da terra. Além disso, manter a natureza preservada ajuda a evitar a diminuição da produção de alimentos devido, por exemplo, à falta de polinizadores. Manter áreas preservadas também ajuda a evitar catástrofes (e os custos associados a elas), como enchentes e deslizamentos de terra, e até mesmo o surgimento de epidemias, como a pandemia causada pelo novo coronavírus. O que não podemos pensar é que o sacrifício de humanos seja necessário ao desenvolvimento que, além de desmantelar famílias, só serve ao benefício de poucos e causa prejuízos a todos.

Daqui para a frente, penso que devemos lutar e ter esperança de que essas e outras estratégias sejam desenvolvidas e possibilitem a preservação da natureza. Em nível global, temos as décadas das Nações Unidas e diversas iniciativas semelhantes sendo implementadas. Enquanto brasileiros, devemos refletir sobre a escolha de representantes preocupados e comprometidos com a implementação dessas estratégias. Localmente, podemos pensar em estratégias individuais tais como pequenas ações diárias, ter um olhar atento ao que acontece no Brasil e no mundo, e tentar difundir conhecimentos bem embasados entre nossos amigos e familiares. Por fim, que nenhum outro sacrifício aconteça.


Referências Bibliográficas:

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Tiago Shizen

Ubaense, biólogo pela UFV, mestre e doutor em ecologia pela UFRGS. Atualmente é bolsista de pós-doutorado, desenvolvendo pesquisas na UFMG sobre biodiversidade e restauração ecológica.