O relacionamento abusivo e a violência contra a mulher: necessidade de acolhimento

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Maira Leon Ferreira |  O relacionamento abusivo e a violência contra a mulher: necessidade de acolhimento


Nos dias atuais, principalmente no contexto da pandemia, podemos observar um crescente número de relacionamentos abusivos e de casos de violência entre parceiros íntimos na sociedade. Um relacionamento abusivo não precisa ser sinônimo de feminicídio para ter nossa atenção. Esse tipo de relacionamento pode ocorrer com qualquer indivíduo e afeta variadas classes sociais, profissões, gêneros e personalidades. A violência se inicia com microviolências, que podem ser morais ou verbais, e que em seguida evoluem para violência física, de forma que a violência tende a ser naturalizada (Hirigoyen, 2006). Apesar de a violência conjugal estar presente em ambos os sexos, neste texto iremos dar uma maior ênfase à violência contra a mulher.

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) vindos do Relatório Mundial Sobre a Prevenção da Violência (2014), a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu violência como “o uso intencional de força física ou poder, real ou como ameaça contra si próprio, outra pessoa, um grupo, ou uma comunidade, que resulte ou tem grande probabilidade de resultar em ferimentos, morte, danos psicológicos, desenvolvimento prejudicado ou privação” (OMS, 2014, p.02). Este relatório explicitou diversas formas de violência interpessoal e assinalou que para indivíduos entre 15 e 44 anos, a violência é a quarta principal causa de morte em todo o mundo, além dos numerosos casos de vítimas não fatais. 

De acordo com Nogueira (2016) a violência psicológica surge disfarçada de comportamentos ditos “usuais” em um relacionamento, como controlar a forma de se vestir justificada pelo ciúme, ou desqualificar o corpo da mulher com ironias ou “brincadeiras”. Também pode ocorrer a humilhação ou xingamentos em situações públicas, bem como alterações do tom da fala em desentendimentos entre o casal, sendo que a culpa por esse conflito sempre recai sobre a mulher, que tem qualquer ato considerado “errado” ou “ruim”.

Um relacionamento abusivo apresenta alguns sinais iniciais que podem culminar com um ato de violência mais extrema, ou até mesmo o feminicídio. Dentre os sinais que sinalizam o relacionamento abusivo está o “excesso de amor”. O abusador faz demonstrações públicas de afeto, é extremamente carinhoso, cuidadoso, vorazmente apaixonado, principalmente depois de alguma crise no relacionamento ou briga. Esse comportamento é chamado por muitos autores de fase da “Lua de Mel”. Namoros que se iniciam muito rapidamente marcados pela intensidade e excesso de cobranças também podem sinalizar um relacionamento abusivo. A Lei Maria da Penha cita que existem ciclos para a expressão da violência: No ciclo 1, Construção da tensão, no relacionamento, podem ocorrer incidentes menores, como agressões verbais, crises de ciúmes, ameaças e destruição de objetos. O ciclo 2, Explosão da violência, é marcado por agressões agudas, quando a tensão atinge seu ponto máximo e acontecem os ataques mais graves. E na 3ª fase, da Lua de Mel, o agressor pede perdão, compra presentes para a parceira e demonstra efusivamente sua culpa e sua paixão. Esse ciclo pode se repetir diversas vezes dentro de uma relação. 

Outros sinais importantes de um relacionamento abusivo são o controle e o ciúme exagerados. Como exemplo, está a implicância sem motivos aparentes com roupas, comportamentos, amizades ou família da vítima, tudo isso justificado pelo amor. Outra situação corriqueira é a vigilância constante do parceiro, com o bombardeamento de ligações, mensagens, entre outras. Muitas vezes a vítima acaba se isolando de sua rede de contatos sociais a fim de evitar brigas desnecessárias e crises de ciúmes. Essa naturalização de alguns comportamentos permite  até  mesmo que o abuso  físico,  em  um  primeiro  momento,  pareça  normal.  É  o  caso  de  um empurrão,  de  um tapa ou de um puxão dentro de uma briga. Esse tipo de violência é banalizado através de frases como “apenas  um  tapinha  não  dói”,  “tapa  de  amor  não  faz  mal”, “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

A violência contra a mulher é marcadamente citada como problemática a ser enfrentada na “Declaração sobre a eliminação da violência contra a mulher” (OMS, 2014, p. 03). A referida lei descreve em seu texto os vários tipos de violências que podem ocorrer contra indivíduos do sexo feminino, sendo a violência física, a sexual, a patrimonial e a moral as mais frequentes. A violência física é caracterizada como qualquer ato que cause danos corporais, trazendo prejuízos à saúde da mulher, ou qualquer comportamento agressivo como puxar o cabelo, empurrões, apertar o braço, chutes e tapas. Já a violência sexual é qualquer ato que impeça a parceira de exercer sua liberdade sexual, forçando-a a manter relações sexuais não desejadas, por meio de ameaças ou agressões, além de não a deixar prevenir gravidez por meio de preservativos como camisinha e, em caso de gravidez, forçá-la a abortar. O documento também define a violência patrimonial como qualquer conduta que danifique ou detenha bens de valor da mulher, entre as quais quebrar objetos pessoais, tentar controlar ou pegar o dinheiro dela sem seu consentimento ou reter seus documentos pessoais. 

Diante das formas de abuso explicitadas acima, foram desenvolvidas políticas públicas em defesa da mulher, a fim de garantir redes de apoio e enfrentamento contra a violência de gênero, como Centros de Referência, Casas Abrigo e Delegacias da Mulher. Contudo, percebem-se muitos casos em que a mulher vivencia um relacionamento abusivo, no qual é agredida constantemente, porém não denuncia o parceiro, ou, quando o faz, se arrepende e tem dificuldades de terminar o relacionamento (Waiselfiz, 2014).

Torna-se relevante o acolhimento da mulher vítima de violência, sem o julgamento das suas ações. Muitas vezes a mulher permanece nesse tipo de relacionamento por medo de ser agredida, por esperança de o parceiro mudar, pelo relacionamento também ser marcado por situações boas, pela vítima depender financeiramente do abusador, pela vítima não possuir uma rede de apoio, entre outras situações. Por isso, não devemos nos afastar da vítima, é importante fornecer todo o apoio necessário e informações que levem a mulher a se questionar e a romper com esse tipo de abuso. 

A tendência social é culpar e questionar quem sofre o abuso, por não romper tal ciclo de violência. Contudo, a percepção  do  relacionamento  como  abusivo  é  difícil  e,  quando  isso  ocorre, uma rede de apoio bem estabelecida é de suma importância. Também é relevante a procura de um tratamento psicológico quando uma relação de abuso ou violência está acontecendo. Com isso, a vítima terá maior apoio para lidar com questões emocionais, crenças sobre o relacionamento abusivo, autoestima, e terá mais possibilidades de romper com o ciclo de violência. 

Caso conheça algum caso ou necessite de ajuda, ligue para o número 180 ou entre em contato com a Casa da Mulher em Juiz de Fora: (32) 3690-7292.


Referências Bibliográficas:

Hirigoyen, M. F (2006). A Violência no Casal: da coação psicológica à agressão física. Trad. Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

Lei Maria da Penha (2021). O que mudou nos últimos três anos. Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/noticias/assistencia-social/2021/08/lei-maria-da-penha-confira-o-que-mudou-nos-ultimos-tres-anos

Nogueira, E. E. (2016). Algumas considerações sobre Análise do Comportamento, violência doméstica e o ciclo da violência. Disponível em http://abpmc.org.br/arquivos/textos/1505253574c40bb41beb.pdf

Organização Mundial da Saúde (2014). Relatório Mundial sobre a prevenção da violência. Disponível em http://nevusp.org/wp-content/uploads/2015/11/1579-VIP-Main-report-Pt-Br-26-10-2015.pdf. Acessado em 01/06/2019.

Waiselfiz. J. J. (2015). Homicídio de mulheres no Brasil. Mapa da Violência. Disponível em https://www.mapadaviolencia.org.br/. Acessado em 01/06/2019.


Maira Leon Ferreira

Maira Leon Ferreira é psicóloga clínica com experiência no atendimento para transtornos de ansiedade, uso de álcool e outras drogas e relacionamentos abusivos, com ênfase na Terapia Cognitiva Comportamental. Possui doutorado em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com intercâmbio doutoral pela Universidade do Minho (Portugal). É mestre em Psicologia, com ênfase em Psicologia Social e Saúde (UFJF), e graduada em Psicologia (UFJF). Atualmente é docente do curso de Psicologia e coordenadora da Pós-Graduação em Saúde Mental do Centro Universitário Estácio-JF. É também pesquisadora do Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas (Crepeia).