“A Filha Perdida”, de Elena Ferrante

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Daniel Giotti |  “A Filha Perdida”, de Elena Ferrante


Desta vez minha resenha é sobre um livro neste espaço generoso que tenho nesta revista.

Sobre um livro que virou filme, é verdade. E sobre um livro de uma autora que envolve uma trajetória cinematográfica, não só por seus romances virarem filmes e séries.

Refiro-me a Elena Ferrante, cuja obra demorei a conhecer, embora uma ou outra amiga me indicasse que a lesse, muitas vezes considerando que ela seria magistral. 

Já tinha ouvido falar dela, muito pela polêmica envolvida a respeito de o nome ser o pseudônimo misterioso da verdadeira escritora — ou escritor —, uma opção que teria feito para realçar que o importante é a obra em si, não quem a escreve.

Quem quiser procurar na Internet verá que o mistério pode ter sido solucionado, o que é uma pena, pois anonimato, nesta sociedade de espetáculo de hoje, seria o luxo mais supremo.

Nem falei ainda sobre o livro, meu primeiro “Elena Ferrante”, e tudo até aqui parece digno da sétima arte. Retomo minha análise, pois quero saber da obra em si. 

Os adjetivos podem ser traiçoeiros e, quando elevam a carga de expectativa sobre um livro, fica mais difícil fruir de sua leitura, como se fosse uma obrigação reconhecer a excelência que outros antes viram na obra.

Nesse contexto, fui lá eu ler A filha perdida, romance de 2006 que virou, recentemente, filme da Netflix, a que ainda não assisti. Li apenas críticas elogiosas, dizendo que, apesar de se ter trocado a Itália pela Grécia e o italiano pelo inglês, a adaptação cinematográfica foi muito boa.

Perdeu-se, porém, a referência a Nápoles, a cidade que sempre está por trás dos romances de Elena Ferrante. Para os apaixonados pela Itália, como todos nós que fazemos ou lemos esta Revista Casa D’Italia, a perda não é desprezível.

O enredo do livro é simples: uma mulher de quase 50 anos, Leda, professora universitária, decide passar as férias de julho na costa jônica, nas praias do sul da Itália.

Entretanto, como em toda obra literária relevante, a exuberância está nos detalhes, que Elena Ferrante logo nos enuncia nas primeiras páginas.

Leda admite que, após suas filhas se mudaram para Toronto, teria descoberto um “deslumbre constrangedor”, acrescido pela ausência de “tristeza alguma”, antes uma leveza, e, na voz da autora: “pela primeira vez em quase vinte e cinco anos, não senti mais aquela ansiedade por ter que tomar conta delas”.

O leitor é apresentado ao que todos dizem sobre os romances de Elena Ferrante: o universo feminino, sobretudo materno, descortinado de forma diversa da tradicional, como não se vê habitualmente em romances escritos por homens, ou mesmo por mulheres.

Se é verdade que uma parcela da sociedade não mais quer ver a mãe como a grande responsável pela criação de filhos, exigindo que os pais deixem de ser apenas ocasionais participantes na educação das crianças, entre o discurso da partilha educacional e a prática disseminada em todos os lares existe alguma distância civilizatória ainda a ser trilhada.

Voltemos a Leda. Para ela, a mudança de suas filhas para Toronto significaria como se “as tivesse definitivamente posto no mundo”, algo transformador na vida da protagonista. De repente, ela é vista mais generosa pelo olhar de um colega, assim como se vê rejuvenescida na imagem do espelho. Daí que um tempo nas praias do sul da Itália pudesse ser a coroação para uma nova vida, com menos obrigação e mais prazer. 

Seu horizonte de expectativas, contudo, é quebrado ao se confrontar com uma grande família napolitana, da qual são protagonistas Nina, uma jovem mãe, e sua filha, Elena.

Relembrando muito da mulher jovem que foi, Leda se vê envolvida com o que acontece no dia a dia de Nina e Elena, inclusive com o objeto de especial afeição da última, uma boneca.

Devo parar por aqui, a fim de evitar spoiler, mas a relação de Nina com Elena, de Elena com a boneca, de Leda com as filhas, de Leda com Nina e com Elena e com a boneca aproxima leitores e leitoras das complexidades da maternidade, da diferença entre a idealização dos relacionamentos e sua concretização.

Ferrante opta por capítulos curtos e admito que, mesmo não tendo visto a genialidade da autora neste livro — o que muitos dizem estar em sua tetralogia “Série Napolitana” —, ela me conquistou por sua capacidade narrativa atrelada a esse olhar sobre o feminino, tão difícil de ser captado. 

Estou muitíssimo curioso para saber como é o final do filme, pois as últimas páginas do livro podem sugerir algumas chaves de leitura diferentes ou, ao menos, deixar em suspenso o futuro de Leda. 

Será que o filme termina com as mesmas palavras do livro?

A conferir.


Daniel Giotti

É juiz-forano apaixonado, escritor, autor de versos e crônicas que estão nos livros “Inverso Direito” e “1981 Ficou marcado na história”. Também é jurista e professor de Direito com vários artigos e livros publicados na área. Escreveu, ainda, recentemente com Cleber Antunes o livro “Caridade e Firmeza: origem, rito e história”