Natureza e espiritualidades

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Clodomir Barros de Andrade | Natureza e espiritualidades


A crise ambiental e civilizacional que ora testemunhamos — duas faces da mesma moeda —, oriundas daquilo que hoje em dia chamamos de Antropoceno (a era do impacto humano desmedido sobre o planeta), faz parte do elenco das questões mais agudas que hoje galvanizam a atenção de todas e de todos. Sociedade civil, lideranças econômicas e políticas, imprensa: o conjunto da sociedade humana, em todos os quadrantes, latitudes e longitudes do planeta, se inquieta e se preocupa com o desenrolar e as consequências daquilo que começa a se tornar consensual em todos aqueles discursos que pretendam compreender e revolver, ou pelo menos minorar, o problema: o modo como habitamos e nos relacionamos com o chamado “mundo natural” ou, simplificando, a natureza. 

O espanto, o isolamento forçado e a dor incomensurável da perda humana com a pandemia da Covid, que muitos pesquisadores também debitam na conta do desequilíbrio ambiental, ajudaram a, mais uma vez, colocar o meio ambiente e a relação ser humano-natureza sob novo foco: a necessidade urgente de revermos práticas e atitudes que, sabidamente, desestruturam o frágil equilíbrio que a natureza levou tanto tempo para estabelecer. Destruição sistemática das florestas, envenenamento das terras, dos rios e oceanos, exploração irrefletida dos recursos naturais, uma economia global centrada no consumo desenfreado de energias não-renováveis, um processo de produção e consumo de bens e serviços ininterruptos absolutamente insustentáveis, práticas individuais e coletivas daninhas à natureza. A lista de problemas é praticamente infindável e desalentadora. 

Mas o que a espiritualidade humana tem a ver com isso? Tudo.

Para além dos imperativos morais oriundos das muitas crenças religiosas, e alargando-se aqui o termo espiritualidade para além do seu sentido mais corriqueiro, podemos constatar que a forma através da qual nos compreendemos como seres humanos e as formas pelas quais nos relacionamos com o Outro — seja a natureza ou a humanidade — são fatores determinantes nas ações e omissões que resultam no estado lamentável e preocupante do nosso pequeno e delicado planeta azul, nossa única morada possível. 

Nosso divórcio unilateral e litigioso da natureza, baseado no nosso desmedido orgulho e narcisismo, que enxergam o ser humano como separado e superior ao mundo natural, talvez ajudem a explicar alguns dos porquês que se cristalizam nas práticas sistemáticas de destruição daquilo que, queiramos ou não, somos: a natureza. SOMOS NATUREZA, e tudo aquilo que possamos ou acreditamos ser posteriormente depende dessa constatação primordial, irrefutável e incontornável. Além disso, porque somos natureza, PRECISAMOS da natureza. Dependemos dela. A recíproca não é verdadeira. Muito pelo contrário. Houve eras e eras de períodos de tempos inconcebíveis em que não existíamos. Mas eis que surgimos no horizonte da história e, desde então, marchamos, inexoravelmente, para a tentativa de compreensão, domínio e instrumentalização da natureza para nossos propósitos, nem sempre os mais sábios ou mais justos.

Algo, porém, nesse esquema, está claramente fora de ordem. Se não, como entender o estado preocupante da sociedade humana e do planeta? Desnecessário elencar novamente os problemas: basta o dom da visão, da audição e um mínimo de inteligência para percebermos que existe algo profundamente errado em toda essa história. Daí a necessidade de refletirmos e meditarmos de forma sustentada sobre os modos como nos entendemos e nos relacionamos com o outro humano, também natural; e com o natural, também e necessariamente, agora, humano. Felizmente, parece que começamos a compreender que natureza e humanidade se confundem, são interdependentes e inseparáveis. É por isso que, nessa reflexão e meditação, não podem faltar os grandes atores que determinam, em larga escala, nossos valores e nossas práticas: política, história, economia, tecnociência. E, também necessariamente, aquela nossa instância última, talvez aquela nossa dimensão mais tênue e mais importante, quem sabe um dos nossos últimos refúgios possíveis nestes descaminhos que tomamos ao longo da aventura humana sobre a Terra e sob o Céu: aquela dimensão de assombro, de fascínio, de amor atordoante. A dimensão do sagrado.

Não é à toa, portanto, que, hoje em dia, toda e qualquer tradição espiritual humana esteja profundamente engajada no esforço de pensar e repensar suas heranças rituais, míticas, filosóficas e práticas no sentido de ressignificar o fenômeno humano dentro do horizonte mais abrangente da natureza. No Oriente, no Ocidente, ao Norte, ao Sul, no alto das montanhas e nas mais densas florestas, assistimos, perplexos e esperançosos, a riqueza espiritual que ressurge — e surge — a partir das antigas tradições que, sensíveis ao perigo do colapso iminente, se organizam para refletir e repensar suas crenças e opiniões acerca da relação entre o sagrado, o humano e a natureza. 

Seria impossível destacar aqui, mesmo que de modo sumário, o extraordinário elenco de releituras e reorientações de valores e atitudes que desabrocham por todo o planeta e em absolutamente todas as tradições espirituais conhecidas, imantando coletividades novas e tradicionais, algumas, inclusive, por vezes marginalizadas e vítimas de antigas visões de mundo de outras daquelas tradições, colaborando, agora, de forma estreita e empática neste enorme e extraordinário desafio – talvez o maior já colocado frente à humanidade —, em que, pela primeira vez, nossa própria preservação como espécie se encontra nitidamente ameaçada, não por um predador superior, mas pelas práticas e crenças que teimamos em reproduzir.

Quando assistimos, felizes, ao valor agora dado à sabedoria ancestral dos povos tradicionais, quando assistimos cristãos de todos os matizes, budistas de todas as colorações, muçulmanos de todas as partes, espiritualidades afro-brasileiras, judeus, hindus, xintoístas e espíritas se tornando conscientes de nossa pertença inextricável ao mundo natural, começamos a pressentir, e a celebrar, uma nova riqueza teológica e espiritual que, cortando transversalmente comunidades humanas de línguas, histórias e valores espirituais absolutamente distintos, se traduzem naquilo que poderíamos chamar somente de cuidado: carinho, respeito, proximidade, amor. 

Talvez, no fundo, quem sabe, ao deitar uma oferenda numa cachoeira, ao colocar uma flor sobre um altar, ao varrer o pátio de um templo, ao retirar um pedaço de lixo da mata, ao economizarmos um pouco de combustível, ao moderarmos nossos apetites consumistas, o que estamos fazendo, de fato, seja algo muito mais importante e decisivo. Talvez estejamos celebrando a própria vida, e a possibilidade da sua continuidade para as próximas gerações, guardiãs e guardiões temporárias e temporários que talvez sejamos, deste indescritivelmente belo e fascinante sendeiro de luz chamado vida.


Clodomir Barros de Andrade

Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião (PPCIR) e do Departamento de Ciência da Religião (Decre) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990), mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1995), doutorado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2013) e pós-doutorado pela Boston University (2017/2018). Tem experiência nas áreas de Filosofia e Ciência da Religião, com ênfase em História da Filosofia, atuando principalmente nos seguintes temas: tradições da imanência e não-dualistas no Oriente (Hinduísmo, Budismo e Daoísmo) e no Ocidente (Pensamento Pré-socrático, Estoicismo, Espinoza, Hölderlin e Thoreau). Atualmente se dedica à Filosofia da Natureza, às relações possíveis entre a experiência do sagrado e Natureza, e às espiritualidades gregas clássicas. Coordena o Grupo de Estudos “Renatura” (PPCIR/UFJF/CNPq), que se dedica a explorar as imbricações entre Natureza, espiritualidades e filosofias. É autor de livros e artigos sobre esses temas, além de tradutor.