Meio ambiente: sobre relações e utopias!

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Job Antonio Garcia Ribeiro |  Meio ambiente: sobre relações e utopias!


No mês de junho, mais precisamente no dia 05, comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. Essa data foi estabelecida há 50 anos na “Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano”, com a intenção de chamar a atenção para os problemas ambientais e para a importância de se preservar os recursos naturais, dos quais sempre seremos dependentes! Afinal, somos organismos heterótrofos, que necessitam de outros seres para a obtenção de compostos orgânicos – alimentos, ou seja, para existirmos!

Esta última afirmação por si só já justificaria a necessidade de olharmos para o meio ambiente de maneira mais empática! Afinal, como se diz, não se pode preservar o que não se conhece, ter atitudes positivas sobre o que se sabe muito pouco ou sobre algo que não nos é perceptível, sensível…à razão e à emoção!

O propósito desse escrito é trazer à tona alguns elementos que nos permitam entender a relação que construímos com o meio ambiente e traçar caminhos para ampliarmos a noção desse conceito, que não se restringe ao mundo natural.

Uma das origens da expressão “meio ambiente” está na terminologia francesa milieu ambiance, composta de dois vocábulos complementares: milieu (do latim, medium), “lugar no qual se move um ser vivo” e ambiance (do latim, ambiere) que faz referência “ao que o rodeia, ao que envolve este ser”. Nesse sentido, podemos entendê-la como algo que circunda ou envolve, como um local onde um organismo vive e do qual depende. Em outras palavras, meio ambiente é uma entidade na qual o homem se insere, à qual pertence e com a qual se relaciona, por isso inclui as relações ecológicas, socioculturais, econômicas e também políticas.

Essa relação é, portanto, bastante complexa e requer uma análise pormenorizada. Por isso, para fins didáticos, vamos adotar quatro perspectivas, que se complementam e nos fazem enxergar o todo, assim como nos permite compreender as razões pelas quais existem diferentes atitudes para com o meio ambiente, umas mais outras menos desejáveis!

A primeira delas chamamos de perspectiva filogenética, que diz respeito às particularidades de nossa espécie, adquiridas e desenvolvidas durante o processo evolutivo. Do ponto de vista biológico, somos os seres que apresentam e estabelecem mais interações com as demais espécies e impomos, direta ou indiretamente, propositalmente ou não, intensas mudanças nas relações ambientais existentes. Atuamos como predadores, competidores, mutualistas ou até parasitas. Iniciamos associações diariamente, seja em virtude do desenvolvimento, da domesticação de espécies, da manipulação genética, das alterações ambientais ou de diversas outras atividades, que acabam por influenciar os demais seres.

Além disso, tendemos a organizar em certa escala espacial e valorativa os elementos do meio ambiente (físico, biológico e social). É por isso que temos mais empatia por carros e gatos do que por um inseto pequeno qualquer! Também temos o egocentrismo como característica, que nos faz perceber o mundo a partir do próprio self, no qual o que está mais afastado de nós tem um valor menor. Por trás disso está a ideia de que os problemas do meu entorno ou de meu grupo social são mais importantes do que aquilo que está acontecendo longe de mim.

A segunda perspectiva é denominada de ontogenética e parte da seguinte prerrogativa: as interações e relações que possuímos com o meio ambiente variam temporalmente de acordo com nossas vivências. Isso significa que, em diferentes fases de nossa vida, percebemos os objetos e fenômenos do meio ambiente de maneira distinta. Quando crianças gostamos ou nos interessamos por algo, mas essa predileção não necessariamente continuará quando adultos, e o contrário também é verdadeiro. Dito de outra forma, os valores ambientais podem se modificar e, nesse processo, a esfera educativa tem papel fundamental.

Além das perspectivas filogenética e ontogenética, podemos considerar, na análise da relação homem-meio ambiente, a influência sociocultural ou perspectiva sociogenética. Ela pressupõe que as representações do meio ambiente podem variar conforme os grupos sociais, pois são construídas à medida que as relações culturais se desenvolvem. O contexto sócio-histórico atua como um palco de negociações, onde os sujeitos estão num constante movimento de recriação e reinterpretação das informações, dos conceitos e dos significados. Tem, portanto, um importante papel no condicionamento da percepção e dos valores ambientais. Se nossos antepassados se orgulhavam de terem “desbravado” o centro-oeste brasileiro, abrindo caminhos no Cerrado em prol do desenvolvimento agrícola, por exemplo, nossa geração do “ecologicamente sustentável” olha de forma desconfiada essa ideia de progresso e questiona se o “Agro” é mesmo pop!

Por fim, um outro olhar que se faz necessário é o da perspectiva microgenética, cujo nome já nos transmite a referência de algo em menor nível, micro, individual, mas não menos importante. Ela diz respeito à maneira particular com que cada indivíduo interage com o meio ambiente. Ora, se os elementos e fenômenos naturais são variados, mais variada ainda é a maneira como as pessoas percebem tais fatos, os avaliam e dão a eles significados. Isso quer dizer que, ao percebermos os elementos do mundo, fazemos inferências baseadas em conhecimentos adquiridos previamente, interpretando os dados perceptuais à luz de conteúdos psicológicos particulares. A estética (sensação de beleza ou prazer visual), a sensação de bem-estar mental ou físico e a afeição pela familiaridade fazem parte dessa perspectiva microgenética. 

É essa ideia, aliás, que nos permite dizer que cada um de nós cria a sua própria relação de interesse, uma certa identidade para com elementos físicos, biológicos e sociais que nos cercam. A título de exemplo: um morador que se mudou recentemente para uma nova cidade pode ver seu bairro simplesmente como um conglomerado de casas e prédios, mas outra pessoa que nesse mesmo bairro experienciou momentos prazerosos em sua infância, que cultivou amizades, o enxerga e o valoriza de maneira distinta. Com o passar das experiências, o novo morador pode até construir valores e significados semelhantes!

A essas quatro perspectivas ou modos de enxergar a relação humana com o meio ambiente podemos associar dois conceitos: o de Topofilia  e o de Biofilia (filia = afinidade), propostos respectivamente pelo geógrafo Yi-Fu Tuan e pelo biólogo Edward O. Wilson. O primeiro refere-se aos laços afetivos que construímos e estabelecemos com o lugar (do grego, tópos) em que nos encontramos, e o segundo refere-se à ligação emocional que temos com os elementos biológicos. 

Mas como construir ou aflorar dentro de cada um de nós tais sentimentos de pertencimento a um lugar e à natureza? Baseado nos autores, propomos três caminhos: a Arte, a Educação e a Política.

A Arte, por chamar a atenção para áreas de nossa experiência que, de outro modo, passariam despercebidas, por despertar dentro de nós centros de significados, seja pela literatura, pela pintura, pelo teatro ou pelo cinema. A Educação, por possibilitar o intercâmbio de experiências particulares e visões de mundo através do processo de socialização e escolarização, e aqui temos o papel fundamental do professor: tornar o invisível (desconhecido) perceptível ao mundo dos estudantes. E a Política, por orientar e influenciar ações individuais e coletivas de valorização do meio ambiente!

Se isso se trata de uma utopia, pois que seja, mas que seja no sentido proposto pelo escritor Eduardo  Galeano, para quem a utopia se afasta a cada passo que damos em sua direção sem jamais ser alcançada, mas que serve justamente para isso: para que não deixemos de caminhar!

Que o Dia Mundial do Meio Ambiente continue a ser comemorado e rememorado!


Referências Bibliográficas:

COIMBRA, José de Ávila Aguiar. O outro lado do meio ambiente: a incursão humanista da questão ambiental. Campinas: Millennium, 2002, 527p.

RIBEIRO, J. A. G.; CAVASSAN, O. As quatro dimensões da relação homem-meio ambiente. Pesquisa em Educação Ambiental, vol. 8, n. 2, pp 11-30, 2013

TUAN, Y. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente.

OLIVEIRA, Lívia de (trad.). DIFEL/Difusão Editorial S.A. São Paulo, 1980, 288p.


Job Antonio Garcia Ribeiro

Licenciado em Ciências Biológicas, mestre e doutor em Educação para a Ciência. Atualmente é Professor do Magistério Superior da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, campus Iturama-MG (UFTM-ITU). Atua nas áreas de: Ensino de Ciências e Biologia; História da Ciência; Educação e Tecnologias; Espaços não Formais; Metodologias de Ensino e Educação Ambiental. É vice-coordenador do Núcleo de Educação em Ciências, Diversidade e Educação Ambiental (NEduC) e pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Inovação em Educação, Tecnologias e Linguagens (Grupo Horizonte-UFSCar).