Arandu

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Layla Mayer Fonseca | Arandu


A palavra “Arandu”, que dá título a este texto, tem sua origem na língua falada pelos povos indígenas Guarani e Kaiowá e significa conhecer, vivenciar, ouvir o tempo. Na rotina acelerada de trabalho, estudo e vários outros afazeres, vivendo em uma cidade como Juiz de Fora, com quase 600 mil habitantes, vários prédios e muitas vezes com um trânsito terrível, terminamos os dias sem perceber o que nos cerca. 

A nossa cidade está localizada na região que chamamos de Zona da Mata mineira, com diversos pontos de vegetação remanescente de Mata Atlântica, que é considerado um dos biomas com maior biodiversidade do planeta. Sim, bem aqui entre nós, às vezes a gente nem se dá conta, não é mesmo?

Quando foi a última vez que você, conscientemente, ouviu o tempo? Estar em contato com a natureza traz diversos benefícios para o corpo e para a mente, além de poder ser bastante prazeroso. Para sorte de quem vive em Juiz de Fora, o que não nos falta são espaços de natureza. O objetivo deste texto é que, na semana do Meio Ambiente, possamos repensar a natureza da nossa cidade.

Além de observar as belezas naturais que nos cercam, vale a pena também separar um pouco desta atenção para perceber o que a cidade faz com sua natureza. Como a cidade transforma o ambiente em detrimento de suas necessidades, muitas vezes de forma hostil. O rio Paraibuna, tão importante na nossa história, se tornou hoje um triste retrato da nossa sociedade, cruzando a cidade em um silêncio melancólico, que se revolta na época das chuvas, causando inundação em alguns bairros da cidade, nos lembrando que apesar de todas as modificações agressivas que sofreu e sofre ao longo dos anos, a natureza é livre. 

Arandu”, em forma de sentimento, nos convida à reflexão. Parar, repensar e sentir nosso papel como parte integrante da natureza. Ailton Krenak, líder indígena, escritor e filósofo, em entrevista, afirmou o seguinte sobre o que a Terra estaria sentindo a respeito de nós: “Seria como uma mãe, um dia pela manhã, reunir os filhos e ela sentir que os filhos estão dizendo: a gente não quer ficar aqui com você. A Terra está ouvindo isso da gente. Ela está sentindo isso da gente. E a maior parte desses filhos não estão nem aí. Eles estão mesmo a fim de ir para Marte”. 

Eu não gostaria de ir para Marte, e você?


Layla Mayer Fonseca

Sou formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutoranda no programa de Pós-graduação em Biodiversidade e Conservação da Natureza na mesma instituição. Minha área de pesquisa é Ecologia Aquática. Também faço parte de projetos voltados para a restauração da Mata Atlântica e me interesso por temas sobre Educação e Justiça Ambiental.