Mulheres viajantes no Império do Brasil: a trajetória de Maria Graham e Marianne North

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 23, 2022 – Flaviana Aparecida da Silva |  Mulheres viajantes no Império do Brasil: a trajetória de Maria Graham e Marianne North


Ao longo do século XIX, muitos viajantes se dirigiram ao continente americano, buscando novos espaços para comercialização, extração de recursos naturais, condições de trabalho e muitos deles publicaram relatos de suas impressões dos lugares e povos visitados. É neste contexto que encontramos duas mulheres viajantes: Maria Graham e Marianne North. Duas mulheres que se destacaram nas áreas da literatura e das artes e que se tornaram importantes para a historiografia brasileira e para o campo de estudos da história das mulheres e de gênero.

Maria Graham, filha e esposa de membros da Marinha Britânica, escritora, pintora e naturalista , visitou o Brasil e Chile entre os anos de 1821 e 1825. Marianne North, filha de político inglês, viajante, pintora e naturalista, esteve no continente americano entre 1872 e 1889. Duas mulheres brancas, alfabetizadas, com trabalhos no campo das letras, da botânica e das artes, tiveram suas trajetórias marcadas pelo que naquele período era entendido como Novo Mundo. E, nesse período, em que as mulheres eram designadas ao espaço do doméstico, sendo representantes do lar e da pureza, essas duas figuras romperam os limites do privado ao adentrarem espaços historicamente destinados ao homem.

Maria, Lady Callcott por Sir Thomas Lawrence, óleo sobre tela 1819. 
Disponível em: https://trowelblazers.com/maria-graham/

Maria Graham nasceu em Papcastle, na Inglaterra, em 19 de julho de 1785. Seu pai, o escocês George Dundas, ocupava o cargo de Almirante Real da Marinha Britânica. Sua mãe, Ann Thompson, mudou-se para a Inglaterra após seu pai falecer na guerra de independência dos Estados Unidos. Desde criança, Maria Graham teve acesso à educação. Quando morava com a mãe estudava em casa, ouvindo as leituras da Bíblia e de Shakespeare. Aprendeu a desenhar, estudou francês, botânica, história e fazia leitura das obras de Homero. Seus estudos foram financiados pelo tio paterno David Dundas de Richmond, médico cirurgião do rei Jorge III e, por sua influência, ela frequentou a alta sociedade britânica e teve contato com cientistas, artistas, escritores, pintores e pessoas da nobreza (GOTCH, 1937).

Maria Graham realizou sua primeira viagem intercontinental em 1808, com destino para a Índia. Durante o trajeto, se aproximou de Thomas Graham, um jovem que, assim como seu pai, trabalhava na Marinha Britânica no cargo de capitão. Em 1811 começou a trabalhar como tradutora e editora de livros na empresa de John Murray. Ao longo da vida, Maria Graham explorou diversos gêneros literários, dentre eles, literatura de viagem, história, arte e contos infantis.

Em 1821, Maria Graham acompanhou seu marido em uma missão do serviço inglês. O objetivo era visitar a América do Sul e as regiões que estavam em processo de independência. O casal visitou Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro e, posteriormente, dirigiam-se para o Chile. Contudo, Thomas Graham faleceu durante a passagem pelo Cabo de Horn, e a inglesa chegou ao território chileno viúva. Apesar de estar sozinha em terra desconhecida, continuou a viagem e visitou Valparaíso e Santiago. Após o período de um ano, retornou ao Império do Brasil e foi durante esse período que se aproximou da Família Real e ocupou o cargo de professora das princesas imperiais.

Durante a estadia na América do Sul, Maria Graham manteve relações políticas e sociais com pessoas da elite, comerciantes, governadores, viscondes e a Família Real. Através das suas redes de sociabilidade, obteve informações, presenciou conflitos políticos, participou de festas e reuniões, visitou o interior de casas brasileiras e portuguesas e recebeu ajuda e proteção nos momentos de necessidade, principalmente quando ficou viúva. Neste trecho extraído do Diário de Viagem ao Brasil, a inglesa menciona o momento em que escreveu uma carta para a Imperatriz Leopoldina, pedindo ajuda para permanecer no território, pois seu marido havia falecido.

Quanto a mim embarquei com meu marido em busca do Pacífico na fragata Doris, que ele tinha a honra de comandar. Tive a infelicidade de ficar viúva e sou hoje uma estrangeira no Brasil, onde espero passar alguns meses ates de voltar à Europa. É, pois, como estrangeira e como viúva que quereria colocar-me especialmente sob a proteção de sua Augusta e Amável Imperatriz. Tenho a honra de ser sua humilde e obediente criada. (GRAHAM, 1956, p. 274).

Na Inglaterra, Maria Graham publicou a obra Journal of a Voyage to Brazil and residence there during part of the years 1821, 1822, 1823. O livro é produto de sua estadia no Império e muito do que nele foi escrito refere-se aos espaços pelos quais a viajante transitava, como o ambiente público. Contudo, existem discussões que abordam o privado e a natureza. Este diário de viagem é um importante documento que contém informações valiosas do processo de independência do Brasil, aspectos do cotidiano, das celebrações e festas realizadas no Império.

Além de viajante e escritora, Graham realizou trabalhos na área da história natural, coletando espécies nativas e registrando esboços de vegetais para enviar à Inglaterra. Foi principalmente no período que morou no bairro de Laranjeiras, no interior do Rio de Janeiro, que ela realizou esse trabalho.

Com trajetória de algum modo semelhante, a vida de Marianne North também foi marcada por viagens, botânica e pintura. Nascida em 24 de outubro de 1830 em Hastings, Sussex, na Inglattera, ela era filha de Janet North e Frederick North, membro liberal do Parlamento inglês. Seu pai, ao tornar-se membro do Parlamento em 1830, frequentemente realizava viagens a serviço da política e, por esse motivo, North o acompanhava no trabalho.

Marianne North fotografada por Julia Margaret Cameron em Sri Lanka, 1877.
Disponível em: https://www.kew.org/read-and-watch/marianne-north-botanical-artist

A primeira viagem realizada para além do Reino Unido ocorreu em 1847, em um passeio para Heidelberg, atual Alemanha, quando tinha apenas 16 anos. Além de viajar acompanhando sua família, a inglesa visitava seus amigos em outros territórios. Foi a partir da década de 1870 que ela iniciou uma série de viagens por vários países, como Canadá, Estados Unidos, Jamaica, Brasil, Chile, Japão, Índia, Austrália, Nova Zelândia, Egito, Síria e África do Sul. As jornadas duravam aproximadamente um ano, e, além de levar seu caderno de desenhos, a jovem carregava seu diário para registrar suas impressões sobre os povos e lugares visitados. Entre uma viagem e outra, retornava para rever seus amigos na Inglaterra e fazer uma pausa de descanso.

As viagens de Marianne North eram dedicadas a seus trabalhos de história natural, pois o território a ser visitado era escolhido de acordo com o objetivo de pintar uma determinada planta ou incluir objetos e amostras dos lugares visitados para compor a coleção na galeria de pinturas no Royal Botanic Kew Gardens, instituição ligada aos trabalhos de botânica.

Sua permanência no Brasil aconteceu entre 1872 e 1873, quando conheceu as cidades de Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Petrópolis, Juiz de Fora, Barbacena, Ouro Preto, Mariana, Sabará e Lagoa Santa. Poucas viajantes femininas incluíram Minas Gerais em seu roteiro, e a jornada que inicialmente duraria três semanas chegou a oito meses. Através de uma excursão que saiu do Rio de Janeiro, Marianne North foi para o interior de Minas Gerais. No percurso realizado a cavalo, a inglesa se instalou em hotéis, alojamentos, fazendas e casas de desconhecidos localizadas ao longo das estradas mineiras. Vale a pena ressaltar que a viagem foi feita com um grupo de pessoas que, como de costume, seguia um líder que dava o direcionamento no trajeto.

Dentre as cidades visitadas por Marianne, está Juiz de Fora. Ao conhecê-la, a autora informou detalhes da construção e das pessoas que conheceu: “Juiz de Fora é toda um monumento ao bom e grande homem que a fundou, o senhor Mariano Lages; até o excelente hotel foi desenhado e construído por ele, e uma escola de agricultura, biblioteca, museu, sua casa e jardins bonitos e a própria estrada grandiosa tinham sido feitos por ele para o bem de seu país, assim como o seu próprio (…) A vila em si parecia muito confortável cada casa tinha seu jardinzinho luxuriante e sua varanda sombreada, na qual mulheres alemãs claras com o cabelo trançado ao redor da cabeça se sentavam com suas crianças e tricotavam (NORTH, 1892, p. 77-78). O trecho citado foi extraído das memórias de viagem de Marianne, organizadas e publicadas por sua irmã no livro Recollections of a happy life, being the autobiography of Marianne North. Assim como o diário de viagem de Maria Graham, a obra também é permeada por informações do cotidiano do império brasileiro e das concepções de mundo da autora. 

Dentre as cidades visitadas por Marianne, está Juiz de Fora. Após a experiência, a autora escreveu detalhes da construção e das pessoas que conheceu:

Juiz de Fora é toda um monumento ao bom e grande homem que a fundou, o senhor Mariano Lages; até o excelente hotel foi desenhado e construído por ele, e uma escola de agricultura, biblioteca, museu, sua casa e jardins bonitos e a própria estrada grandiosa tinham sido feitos por ele para o bem de seu país, assim como o seu próprio (…) A vila em si parecia muito confortável cada casa tinha seu jardinzinho luxuriante e sua varanda sombreada, na qual mulheres alemãs claras com o cabelo trançado ao redor da cabeça se sentavam com suas crianças e tricotavam (NORTH, 1892, p. 77-78).

O trecho citado foi extraído das memórias de viagem de Marianne, organizadas e publicadas por sua irmã no livro Recollections of a happy life, being the autobiography of Marianne North. Assim como o diário de viagem de Maria Graham, a obra também é permeada por informações do cotidiano do império brasileiro e das concepções de mundo da autora.

O presente texto teve como objetivo apresentar as trajetórias de Maria Graham e Marianne North. Duas mulheres fascinantes que marcaram presença no Império do Brasil em período cronológico diferente. Duas mulheres que transitaram por variados espaços de sociabilidade e que exerceram atividades até então pouco executadas pelo feminino. Duas mulheres que romperam com as expectativas da maternidade e do cuidado com a casa, apresentadas socialmente como único caminho e condições possíveis, entrando em esferas historicamente negadas ao feminino (NUNES, 2019), como o mundo das viagens marítimas, das letras, da botânica e das artes.

As reflexões empreendidas no decorrer do texto fazem parte da pesquisa de doutorado da autora, iniciada em 2021, intitulada Maria Graham e Marianne North na América do Sul: memórias de viagem, relações de gênero e imperialismo britânico no século XIX, no Programa de Pós-Graduação em História (UFJF), orientada pela Profa. Dra. Silvana Mota Barbosa.


Referências Bibliográficas:

AKEL, Regina. The journals of Maria Graham (1785-1842). Coventry: The University of Warwick, 2007.

FRANCO, Stella Maris Scatena. Relatos de viagem: reflexões sobre seu uso como fonte documental. Cadernos de Seminários de Pesquisa. Orgs. Mary Anne Junqueira, Stella Maris Scatena Franco. – São Paulo: Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo / Humanitas, 2011. 

______. Viagens e relatos: representações e materialidade nos périplos de latino-americanos pela Europa e pelos Estados Unidos no século XIX. Tese (Livre Docência). São Paulo: USP, 2017. 

GOTCH, Rosamund Brunel, Maria, Lady Callcott: The creator of Little Arthur. Londres: John Murray, 1937.

GRAHAM, Maria. Journal of a Voyage to Brazil and residence there during part of the years 1821, 1822 e 1823. London: Longman, Hurst, Rees, Orme & Brown; and John Murray, 1824. 

______. Journal of a residence in Chile, during the year 1824; and a Voyage from Chile to Brazil in 1823-1824. London: Longman, Hurst, Rees, Orme & Brown; and John Murray, 1824. 

______. Escorço Biográfico de D. Pedro I com uma notícia do Rio de Janeiro de seu tempo. Trad. Américo Jacobina Lacombe. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2010. 

LEITE, Miriam Moreira (org.). A condição feminina no Rio de Janeiro século XIX. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Instituto Nacional do Livro Fundação Nacional Pró- Memória, 1984. 

______. Livros de viagem (1803-1900). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997. 

MAIA, Ludmila de Sousa. Viajantes de saia: gênero, literatura de viagem em Adèle ToussaintSamson e Nísia Floresta (Europa e Brasil, século XIX). Tese (Doutorado em História), Campinas, Universidade Estadual de Campinas, 2016.

NORTH, Marianne. Recollections of a happy life, being the autobiography of Marianne North. Volume I. Londres & Nova York: Macmillan & Co. 1894a. Disponível online em: http://archive.org/stream/recollectionsofh01nortuoft#page/n3/mode/2up

NORTH, Marianne. “Autobiografia e Viagem ao Brasil”. In: GAZZOLA, Ana Lúcia Almeida (orgs.). Lembranças de uma vida feliz. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 2001. 

NUNES, Ana Beatriz Mauá. Tan criolla, criolla como yo: identidade, política e gênero nas correspondências de Gabriela Mistral e Victoria Ocampo, 1926-1956. Dissertação (Mestrado em história). São Paulo: USP, 2019. 

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2017.

PRATT, Mary Louise. Os olhos do império, relatos de viagem e transculturação. São Paulo: Editora da Universidade do Sagrado Coração (EDUSC), 1999.

Royal Botanic Gardens Kew. Acesso em: https://www.kew.org/ 

THOMPSON, Carl. Journeys to Authority: Reassessing Women’s Early Travel Writing, 1763-1862. Women’s Writing, v. 24, nº 2, 2017, p. 131-150.

ZUBARAN, Maria Angélica. “A vistosa vestimenta vegetal do Brasil”: Maria Graham e as representações da natureza tropical no século XIX. Revista Textura, Canoas, n° 11, jan-jun 2005. 


Flaviana Aparecida da Silva

Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, orientada pela Profa. Dra. Silvana Mota Barbosa. Membra do Núcleo de Estudos em História Social da Política (NEHSP-UFJF).