Da próxima vez

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Nicole Ayres | Da próxima vez


Ela era alta, esbelta, magra e loirinha. Andava com outras menininhas iguais a ela. E era fissurada em leitura. Juntas, criaram um Clube do Livro. Se reuniam todas as sextas na casa da árvore de uma delas, a Júlia, se não me engano. Às vezes deixavam de lanchar pra economizar dinheiro e poder comprar livros. Porque eram todas pobres. Já eu, tinha certa condição. Papai era dono de uma livraria no centro do Rio. Vivia trazendo livros pra casa. Tentava me incentivar a ler, mas essa nunca foi muito a minha praia. Eu gostava mesmo era de doces. Acabei ficando com sobrepeso. Baixinha e troncuda, jamais conseguiria competir com aquelas meninas. Eu não estava nem aí pro clube idiota delas. E nem pra elas. Mas reparava nos seus olhares. Deviam me achar horrorosa. Elas e todos os outros. Eu não tinha um único amigo, na época. Então, me entupia ainda mais de balas e doces. Só fazia engordar.

Até que um dia a mais loirinha delas me procurou. Deu um sorriso meigo e perguntou por que eu andava sempre sozinha. Como se ela não soubesse. Cínica. Respondi que não tinha amigos porque ninguém gostava de mim. Ela disse que era uma pena. Mas ela e suas amigas poderiam me fazer companhia, se eu quisesse. Elas tinham um Clube do Livro e eu poderia, inclusive, participar. Já que meu pai era livreiro, eu devia gostar de ler. Entendi logo o jogo de interesses. Pensei em dar um fora na pirralha pra nunca mais ver sua cara. Mas logo percebi que aquela poderia ser uma ótima oportunidade.

Disse que não queria fazer parte do clube, mas poderia fornecer os livros. Que ela deveria vir na minha casa no dia seguinte pra pegar o da semana. Eu tinha a coleção completa de Monteiro Lobato, com capa dura, caso interessasse. Sabia como aqueles livros eram cobiçados. Seus olhos faiscaram de emoção. Ela agradeceu, tomou minhas mãos, deu um largo sorriso e saiu correndo ao encontro das outras. Idiota. Mereceria o que estava por vir.

No dia seguinte, após a escola, lá estava a pestinha batendo na minha casa. Pediu o livro, afoita, quase sem respirar direito. Respondi que tinha emprestado a outra colega, que passasse no dia seguinte. E, no dia posterior, a mesma coisa. Consegui enrolar a menina por uma semana. No final, ela já vinha num estado deplorável, os cabelos despenteados, olheiras marcando o cansaço no rosto. Eu sentia um prazer inominável ao torturar aquela pobre criatura. Pela primeira vez, podia exercer alguma espécie de poder, podia fazê-la implorar. Cheguei a pedir comida em troca do livro desejado. Sua mãe fazia uns doces deliciosos, que às vezes ela vendia na escola. E ela me deu, foi me dando tudo, tudo pra conseguir seu  precioso, como uma mulher apaixonada. Eu sempre com uma desculpa pronta pra não entregá-lo. “Ainda não devolveram”. “Se você viesse um pouco mais cedo…”.

Até que, um dia, mamãe nos flagrou. Ela percebeu que havia algo estranho: aquela menina vinha todos os dias pra quê? Tentei disfarçar, mas, ouvindo uma e outra, apesar de nos atropelarmos na fala, ela conseguiu entender a situação. Entrou e pegou o primeiro livro da coleção de Monteiro Lobato. Entregou à loirinha e afirmou, com delicadeza, que ela poderia devolver quando quisesse. A outra ficou exultante. Saiu saltitando pela rua, em êxtase completo. Murchei. Ainda levei bronca da mamãe por causa da confusão. Fiquei sem sobremesa naquele dia. Meu reinado, que mal começara, já chegava ao fim. Só uma esperança me consolava: a de que ela viesse pra devolver o livro e pegar o segundo volume. Ah, eu estaria preparada…

Inspirado no conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector.


Nicole Ayres

30 anos, carioca, é professora de francês e escritora, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, colaboradora e coeditora do site Homo Literatus. Possui diversas publicações em coletâneas de contos, poemas e crônicas. Publicou, em 2021, seu primeiro livro solo, intitulado “Dançando na Varanda”, disponível no site da Amazon, e que em breve terá sua versão física. Sagitariana, amante das coisas palpáveis e abstratas, procura fazer o que gosta e gostar do que faz. Não sabe definir bem os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, nem pretende. Divulga seus escritos no blog https://sentimentosemcompotas.blogspot.com/ e no Instagram @sentimentosemcompotas e participa dos coletivos Ecos Poéticos @ecoandopoesia e
Corvo Literário @corvoliterario.