Projeto Exporvisões: miradas afetivas sobre patrimônios, museus e afins

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 23, 2022 – Aline Montenegro Magalhães e Carina Martins Costa |  Projeto Exporvisões: miradas afetivas sobre patrimônios, museus e afins


Vivemos em uma sociedade marcada pelo ato de ver. Quantas horas ao dia não consumimos imagens, vídeos, jogos, redes sociais? Alguns autores já analisaram o oculocentrismo como essa percepção naturalizada e centralizadora do ato de ver na sociedade contemporânea, marcada ainda pelo aumento do analfabetismo funcional e pela diminuição da leitura densa, que permitiria a leitura do mundo e não apenas das palavras (FREIRE, 1989). Por vezes, a sensação de fragmentação da leitura e a sobrecarga de informações variadas, misturadas com a indústria da fake news, desafiam a nossa capacidade de digestão cognitiva de tantos assuntos, opiniões e argumentos. 

Na pandemia de COVID-19, que promoveu o encastelamento das práticas sociais, o consumo da leitura aumentou enormemente e a internet foi o meio responsável por tal difusão, o que não excluiu a leitura de impressos, como evidencia os dados positivos do mercado editorial brasileiro. Ler, ver e navegar são, portanto, competências inerentes ao consumo cultural atual. Como aponta Nestor Canclini, em interessante ensaio no início do século, a simultaneidade e a descontinuidade caracterizam novos hábitos de leitura. Tais reorganizações profundas do campo cultural, marcado pela intensa mercantilização dos bens, implica numa mudança na cidadania. De acordo com o autor, “a organização em redes possibilita exercer a cidadania para além do que a modernidade esclarecida e audiovisual fomentou para os eleitores, os leitores e os espectadores” (CANCLINI, 2008: p.30).

As disputas sobre as narrativas do passado fazem parte das sociedades democráticas e têm sido incrementadas na última década com o fortalecimento de movimentos sociais que buscam consolidar seus direitos culturais. Percebe-se, neste cenário, um boom memorial que gerou tanto um processo de consolidação de direitos como a mercantilização das memórias, integradas ao que se convencionou denominar de indústria cultural (HUYSSEN, 2001; BARBERO, 1999). As demandas pelo passado e pelo conhecimento histórico são crescentes. Incontestavelmente, a internet tornou-se uma mídia para a produção, o consumo e a difusão de narrativas e informações sobre o patrimônio. Mais do que isso, as tecnologias transformaram substancialmente o exercício do ofício do pesquisador do campo, pela grande oferta de fontes digitalizadas, pelas redes sociais e plataformas de EADs, somente para citarmos alguns exemplos. Contudo, tais desdobramentos contêm inúmeros desafios, conforme aponta Patrícia Hansen a partir de pesquisas sobre Digital History. De acordo com a autora, (…) a inércia no enfrentamento do assunto poderá, efetivamente, potencializar a criação de dois cenários distintos, não necessariamente excludentes: a nível internacional, o de um novo ‘roubo da história’, onde nações ou povos com mais recursos passam a monopolizar as narrativas históricas numa dimensão global, sobre suas próprias sociedades e de outras, seja por terem o domínio sobre as tecnologias da informação e comunicação, seja por estabelecerem as categorias pelas quais a história é pensada em todo lado; em nível nacional, o risco é o da elitização de profissionais de história com recursos particulares e individuais para superar tais desafios. (HANSEN, 2014: 4). Neste sentido, observa-se o crescimento da demanda pelo conhecimento histórico e patrimonial na internet, a necessidade de formar profissionais capazes de manejar as ferramentas e linguagens e, sobretudo, pensar os códigos éticos referentes ao plágio e à produção de uma “justa memória” (RICOEUR, 2010). 

Nesse cenário, percebemos o crescimento da demanda por acesso e participação também na esfera do patrimônio, onde atuamos. Ávidas leitoras de blogs e revistas eletrônicas, compreendemos que a divulgação científica é cada vez uma tarefa mais necessária e importante. O projeto “Exporvisões” nasce de um desejo mútuo de escrever e refletir sobre as atividades cotidianas de pesquisa e fruição nos museus, principalmente, local de nossa atuação profissional. Ele surgiu quase simultaneamente nos nossos corações, pois já tínhamos o hábito de compartilhar longas narrativas uma com a outra após eventos, viagens, descobertas de pesquisa, leituras e entrevistas inspiradoras. Por que não compartilhar essa espécie de diário de viagem com um público mais amplo? Essa pergunta nos conduziu à produção do blog em maio de 2019, ainda que numa perspectiva muito artesanal, que até hoje contamina nossos escritos. Paralelamente, foram construídas as duas redes sociais, no facebook e instagram

A proposta inicial era expor nossas visões sobre o patrimônio, em perspectivas diferentes. A centralidade do ato de ver, analisar e fruir pelas exposições museais nos motivou a criar os primeiros textos, depois ampliados em outras sessões. A força da palavra é o que nos uniu na busca de uma linguagem menos acadêmica e conceitual, para também nos explorarmos em outras dimensões, que chamamos de afetivas. Desde o início, nos propomos a nos desnudar como autoras, com suas memórias, subjetividades, hábitos culturais e lugar de fala.

Ao contrário do material encontrado na internet, com foco predominantemente turístico e descritivo, objetivamos produzir conteúdo informacional, pedagógico e afetivo pautado nas premissas científicas do campo, atrelando nossa rede de sociabilidade.  A chamada “web 2.0” proporciona a construção de textos multimodais e hipertextos; a construção de linhas do tempo complexas; a realização de fóruns de debates e escritas colaborativas; o acesso às fontes e sua edição, permitindo exercitar uma “curadoria digital`. Isso tudo nos motivava enormemente. 

O objetivo geral do projeto é comunicar os patrimônios pesquisados e divulgar cientificamente as pesquisas e atividades de extensão desenvolvidas pela equipe UERJ, bem como do Museu Histórico Nacional, no campo do patrimônio, fortalecendo a função social da universidade e contribuindo para a construção do debate público e do estímulo à cidadania na apropriação do mesmo, concebido como direito. Os objetivos específicos do projeto são: pesquisar, sistematizar e disponibilizar fontes primárias sobre o tema elencado, visando subsidiar o pesquisador e/ou professor no planejamento de suas aulas e projetos;  catalogar, sistematizar e produzir memes com temáticas de usos do passado, patrimônio e memórias; estudar e sistematizar literatura sobre divulgação científica na internet; contribuir para a reflexão e o desenvolvimento do campo patrimonial; contribuir para o debate sobre ética da História e sua responsabilidade no trabalho da memória.

Para tanto, criamos seções com diferentes interesses, fontes e linguagens. A primeira delas, “Início”, apresenta nossos preceitos, a exemplo do “não citarás em demasia”, “não escreverás em javanês”, “não roubarás ideias alheias”, “não priorizarás o monumental”, dentre outras. Os preceitos são importantes para nós não sairmos do trilho e também para os parceiros que queiram participar, que muitas vezes trazem cacoetes da vida acadêmica.  

Em relação ao conteúdo, temos oito seções: “Na cadência da História”, um podcast sobre patrimônio musical produzido pelos pesquisadores Romney Lima e Gilberto Vieira; “Pedagogia do pedestre”, destinada às ações educativas; “As coisas não têm paz”, com análises de artefatos culturais; “Por onde andamos?”, com nossos relatos de fruições em exposições, cidades e instituições; “Em movimento”, sobre filmes e audiovisuais em geral; “Tomando nota”, com resenhas de produções literárias e acadêmicas; “Janelas”, seção de abertura para publicação de parceiras/os; “Oficinas”, com a divulgação de nossas/os alunas/os. 

A relação profissional entre dois pólos, Universidade e Museu, proporciona um cruzamento muito profícuo entre áreas de atuação e engajamento que requerem produções diferenciadas, embora sempre em diálogo. 

O Museu Histórico Nacional, por seu lado, foi construído em 1922 por Gustavo Barroso, importante intelectual brasileiro que defendia o patrimônio em uma perspectiva essencialista e laudatória. Ao longo de sua história, tais premissas foram transformadas em prol de uma perspectiva mais polifônica e engajada no tempo presente. A pesquisadora Aline Montenegro Magalhães atua na instituição há mais de 20 anos. Prestes a comemorar seu centenário, o MHN foi impactado pelas recentes políticas públicas de desmantelamento do campo patrimonial, com profundo desfinanciamento. Entretanto, pelo seu vigor institucional e pela qualidade do quadro técnico, tais interferências certamente serão superadas e as resistências possíveis são realizadas de forma cotidiana.

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro, criada nos anos 1950, recentemente instalou o campus de Petrópolis, com o curso de Arquitetura e Urbanismo, o que denota seu comprometimento com a interiorização e a produção de impactos para além da capital. As Universidades são instituições destinadas ao ensino, pesquisa e extensão, com forte função social nos territórios nos quais atuam. Uma das linhas de pesquisa e atuação do Departamento é o patrimônio. A pós-graduação lato-sensu em Gestão e Restauro do Patrimônio Arquitetônico, iniciada em agosto de 2019, denota a vocação para o tema, bem como a acolhida da cidade de Petrópolis em relação aos estudos do campo. Após sete anos atuando no Departamento de História, no Rio de Janeiro, a pesquisadora Carina Martins se transferiu para atuar mais perto do que gosta. 

O projeto é, portanto, um espaço de encontro. Notamos a ampla adesão do público, chegando a quase vinte mil leitoras/es anuais, com grande crescimento na pandemia com a diversificação de nossas ações, como a produção de lives, oficinas e entrevistas em outros perfis semelhantes. Nesse período, também conquistamos editais, como “Cultura Presente nas redes”, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro e fomos selecionados na etapa regional do Prêmio Rodrigo Mello Franco do IPHAN. Participamos ainda de eventos, ministramos oficinas extensionistas, realizamos parcerias com diversos museus e sonhamos em estender nossa rede e propiciar um espaço livre, plural e engajado na defesa do patrimônio e da memória.

Importante destacar que, em 2020, o projeto foi oficializado na UERJ como ação extensionista, o que possibilitou a formação de uma equipe de estagiárias remuneradas e voluntárias, que investiram na construção de uma identidade visual mais específica ao projeto. O impacto da equipe é notório com a ampliação da presença digital em todas as redes. 

Acreditamos, assim, que este projeto de divulgação científica é um passo importante na luta por romper a profunda desigualdade na produção de narrativas patrimoniais na web, bem como auxiliar na instrumentação das/os leitoras/es na apropriação das linguagens, das metodologias e das ferramentas em prol de uma educação patrimonial mais atrativa, cidadã e democrática.

O blog e as redes sociais podem ser acessados nas páginas http://www.exporvisoes.com e nas redes sociais instagram e facebook `Exporvisões`. Convidamos a todos/as a realizar esse passeio conosco pelo encantamento, crítica, análise, debate e pesquisa. E, claro, também como escritoras/es e cocriadoras/es. A casa é aberta a todas/os!  


Referências:

BARBERO, Jesus-Martin. Cambios en la percepción de la temporalidad. IN: MINISTÉRIO DA CULTURA. Museo y memória nacional. Colômbia, 1999. 

CANCLINI, Nestor. Leitores, espectadores e internautas. São Paulo: Itaú Cultural, 2008.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1989.

HANSEN, Patricia. Digital History e formação de historiadores: sugestões para um debate. IN: BUENO, André; ESTACHESKI, Dulceli; CREMA, Everton (orgs). Tecendo amanhãs: o ensino de História na atualidade. Rio de Janeiro, União da Vitória: Edição Especial Sobre ontens, 2015. 

HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Artplano, 2001.

RICOUER, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.


Aline Montenegro Magalhães 

Carioca, historiadora com mestrado e doutorado em História Social (PPGHIS/UFRJ) e pós-doutorado sênior em Museologia (UNIRIO/MAST), tendo sido bolsista do CNPq. É pesquisadora no Museu Histórico Nacional, docente no curso de MBA de gestão de museus da Universidade Candido Mendes e professora no Mestrado Profissional em Ensino de História (ProfHistória– UNIRIO). É líder do grupo de pesquisa certificado no CNPq “Escritas da história em museus: objetos, narrativas e temporalidades” e co-fundadora do Exporvisões. 

Carina Martins Costa

É mineira, natural de Juiz de Fora e apaixonada pelos museus desde adolescência, quando ingressou no Museu de Arqueologia e Etnologia Americana na UFJF. Pesquisou o Museu Mariano Procópio, além de ter atuado na equipe cultural e educativa do mesmo por alguns anos. Atualmente, professora associada da UERJ, coordenadora do projeto “Olhos de Ver” e co-fundadora do Exporvisões. Possui doutorado em História, Política e Bens Culturais pela FGV (CPDOC), mestrado profissional em Gestão de Bens Culturais e Projetos Sociais (FGV- CPDOC), mestrado em Educação (UFJF) e licenciatura em História (UFJF).