Marcas e memórias do vestido de Maria Bonita, acervo do Museu Histórico Nacional

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 23, 2022 – Ana Lourdes Costa | Marcas e memórias do vestido de Maria Bonita, acervo do Museu Histórico Nacional


Nascida em 1911, em Malhada da Caiçara-BA, a mais conhecida figura feminina do movimento social conhecido como Cangaço, Maria Gomes de Oliveira, morreu sem saber que entraria para a história brasileira com o nome de Maria Bonita. Mulher, nordestina, sertaneja, durante os oitos anos de Cangaço levou uma vida nômade, enfrentou a seca de 1932, foi perseguida pelas volantes e assassinada, em 1938, no episódio histórico que ficou conhecido como Cerco de Angico, em Sergipe. Após 110 anos de nascimento, completados em 2021, ainda é referenciada por seu ineditismo como a primeira mulher cangaceira do século XX. 

Naquele distante 1938, quando foi assassinada, Maria Bonita carregava em seu bornal, entre outros objetos pessoais, o vestido (Figura 1) que, desde a década de 1970, faz parte do acervo do Museu Histórico Nacional – MHN. 

Vestido de Maria Bonita em mesa da Reserva Técnica do MHN – Foto: Bruno Chiossi – 2019

É no momento imediato após a morte de Maria Bonita que a trajetória do vestido começa a ser traçada, até sua entrada no Museu Histórico Nacional. O vestido foi retirado do bornal da cangaceira pelo Aspirante Francisco Ferreira de Mello, que comandou a vanguarda da volante que matou Maria Bonita e mais dez homens do bando, e entregue a Melchiades da Rocha, que trabalhava para o jornal A Noite e foi o primeiro repórter da Região Sudeste a chegar ao local. Ressaltamos que o vestido, conforme nossa análise, foi, por esse fato, desapropriado pelo Aspirante Mello,  enquanto o corpo de Maria Bonita, sem vida,  era despojado de outros de seus pertences. Na época, a “doação” do vestido foi notícia no próprio jornal onde Melchiades trabalhava (Figura 2). 

‘O Rei do Cangaço e seu equipamento’ – A Noite 1938 – Fonte: Biblioteca Nacional – Hemeroteca Digital Brasileira

Entretanto, após a efervescência dessas notícias, seu vestido, assim como a maioria dos objetos que a acompanhavam em seu momento final, tomaram rumos silenciosos. Mas, quarenta e cinco anos depois, em 1983 (por coincidência, uma interessante data, visto que Maria Bonita foi assassinada em 1938, ou seja, anos com números iguais), o vestido começa a refazer a trajetória que, até o momento, conhecemos. O historiador Frederico Pernambucano de Mello estava montando sua coleção de objetos referentes ao Cangaço e, por isso, foi ao apartamento de Melchiades da Rocha, localizado no Rio de Janeiro, pois já tinha tido acesso às informações sobre a entrega do vestido ao repórter. Durante esse encontro, Melchiades informou a Frederico que tinha dado o vestido à atriz Nádia Maria que, por sua vez, o teria doado ao Museu Histórico Nacional.  Foi por isso que o historiador entrou em contato com o museu e perguntou sobre a roupa em questão. Mas qual foi a surpresa? A equipe do museu não sabia que um vestido de Maria Bonita fazia parte do acervo da instituição.  Fato é que alguns anos depois ele foi localizado em uma sala onde ficavam objetos que seriam descartados, e, por isso, já não mais contava com os cuidados necessários para a devida conservação de um objeto musealizado. Entretanto, após ser localizado, foi remusealizado, ou seja, adquiriu novamente a sua condição de objeto musealizado, passando, mais uma vez, a ser um objeto passível de comunicar, no Museu Histórico Nacional, a sua existência e, por isso, podendo participar, por exemplo, de exposições, publicações, pesquisas.

Como objeto de museu, o vestido pode compor muitas narrativas e ser analisado a partir de diferentes vieses. Mas optamos, neste texto, por  abordar a materialidade que essa roupa carrega. Porém, antes, gostaríamos de ressaltar que a estética cangaceira é potente e muito visual, pensada propositalmente para causar impacto, de diferentes formas. É fruto de um processo de criação anterior à chegada das mulheres aos bandos, mas foi com elas, especialmente com a cangaceira Dadá, que a estética passou por uma importante sofisticação. Indaiá Silva dos Santos, neta criada como filha de Dadá, nos conta como a avó-mãe falava sobre o motivo de ter pensado em deixar o Cangaço ainda mais colorido: “quando chegou, viu uma coisa sem graça e já tinham uma vida tão miserável que decidiu que mereciam um pouco de alegria, por isso pensou nas cores dos bordados.”

Sobre cores, o vestido de Maria Bonita, parte do acervo do Museu Histórico Nacional, é decorado com soutache vermelho nos bolsos, na gola e nos seios, e seu acabamento é embutido, o que, na costura, é considerado um padrão de alto refino. Em outras palavras, soutache é uma fita estreita de algodão que serve como arremate ou adorno de roupas, ou as duas funções ao mesmo tempo. Além disso, é cáqui, feito de algodão, e sua tecelagem é a sarja.  Também possui quatro palas que imitam bolsos – duas na parte superior, uma em cada lado dos seios, e duas na parte inferior – no que podemos chamar de saia do vestido. E, confirmando o acesso a que cangaceiras e cangaceiros tinham às novidades em termos de roupas, o vestido possui um zíper. Aliás, esse acessório era raro e ainda pouco usado na época, na década de 1930. Para se ter uma ideia do caráter inovador que essa roupa de Maria Bonita apresentava, somente na década de 1940, uma depois da feitura do vestido (1930 – 1938), é que o zíper vai se popularizar pelo mundo, começando pelos Estados Unidos, quando “durante a Segunda Guerra Mundial, que a cadeia de lojas Sears massificou o seu uso em roupas femininas” – conforme nos informou Queila Ferraz Monteiro, historiadora, profissional da área de moda e doutora em Comunicação e Mídia. 

Como se encontra hoje no Museu Histórico Nacional (Figura 1), é um vestido que apresenta vários remendos, ao que parece, costurados com o mesmo tecido com o qual foi feito. Também tem um orifício no centro, que não foi recosturado, o que pode indicar a presença de rasgo por arma de fogo, visto que  Maria Bonita o usava no momento de sua morte. Mas, para comprovar essa hipótese, é preciso ser submetido a exames laboratoriais. Também apresenta manchas. Porém, sem exames apropriados, não há como saber o motivo que as causou, ou se foram causadas por algum elemento, sem excluir a possibilidade de serem manchas de sangue. Sobre essas marcas físicas, visíveis, Peter Stallybrass, em seu livro ‘O casaco de Marx – roupas, memória, dor’, afirma que são memórias deixadas nas roupas e que, mesmo depois de mortas, as pessoas continuam presentes nas roupas, na forma dessas memórias. Por isso, ao concluir esse texto, propomos uma reflexão sobre a presença da cangaceira no vestido: mesmo que não seja mais possível Maria Bonita vesti-lo, no sentido mecânico de colocar uma roupa, seu corpo continua a habitá-lo, pois incorpora toda a carga simbólica trazida por sua vestimenta – ela habita nele e, por sua vez, o vestido continua a vesti-la.

[1] Rigorosa estiagem que, em 1932, atingiu parte da Região Nordeste e matou milhares de pessoas de fome, sede e doenças. Um dos estados mais atingidos foi o Ceará, onde houve deslocamento de milhares de pessoas para Fortaleza, capital do estado, em busca de melhores condições de vida. Como resposta, os governos da época, tanto o estadual quanto o federal, criaram campos de reclusão para tentar impedir que os retirantes da seca chegassem à capital.

[2]  Denominação dos grupos militares que formavam as forças policiais que enfrentavam o Cangaço

[3] Tipo de bolsa usada pelas cangaceiras e pelos cangaceiros, que guardava de munição a roupas.


Ana Lourdes Costa

Mestre em Museologia e Patrimônio pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO. É especialista em Arte, educação e tecnologias contemporâneas pela Universidade de Brasília – UNB e graduada em História. Desde 2003 atua como profissional de museus. Atualmente, desenvolve trabalhos de consultoria para o campo museal. Entre 2009 a 2021, integrou as equipes do Instituto Brasileiro de Museus – Ibram, onde foi, por oito anos, coordenadora da área de Promoção e Gestão da Imagem Institucional. De 2006 a 2009, participou de educativos em espaços de arte contemporânea de Brasília, bem como de projetos voltados para o patrimônio histórico e cultural do Distrito Federal e do estado de Goiás. Em 2008, levou para Brasília a Rede de Educadores de Museus e Centros Culturais – REMIC DF, e fez parte do Conselho Gestor até 2012. Durante os anos de 2003 a 2006, integrou a equipe do Museu Histórico Nacional – MHN, trabalhando em exposições, pesquisas e projetos educativos da instituição, entre outros. Possui artigos publicados, organização de publicações e tem participação em palestras e mesas redondas acerca de temas do campo museal, como conferencista e mediadora. Entre 2017 a 2021 foi professora de História, da rede pública de Brasília.