Marta e as mulheres-árvore no teatro político de Jorge Andrade

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 23, 2022 – Táscia Souza | Marta e as mulheres-árvore no teatro político de Jorge Andrade


Se estivesse vivo, Aluísio Jorge de Andrade Franco, ou apenas Jorge Andrade, celebraria 100 anos neste maio de 2022. E a primeira lembrança do escritor que me vem à mente e nela persiste há 20 anos é apenas a de um nome impresso em um cartaz. Ou melhor, em quatro cartazes diferentes. Enquanto eu me perdia na tentativa de organizar as décadas de arquivos do Centro de Estudos Teatrais — Grupo Divulgação, que neste ano completa 56 anos de existência em Juiz de Fora, pensava no que haveria de especial naquele nome, que se destacava em meio a outros tantos autores como um dos dramaturgos mais encenados pelo grupo ao longo de sua história. 

O quinto cartaz veio no semestre seguinte, já bem depois de Jorge Andrade ter enchido minha memória com suas palavras e imagens. Senhora na Boca do Lixo foi a quinta — e, até agora, última — peça do dramaturgo levada aos palcos pelo Divulgação, no já distante ano de 2002. Mas foi, sobretudo, o primeiro — e único — texto do autor no qual pude me envolver de corpo e espírito, entre pregos, madeiras e grampos; entre paredes, escada e lustre; entre palavras e sonhos. Entre amigos e paixão. E foi justamente esse texto, ainda que na época inconscientemente, que me trouxe a primeira experiência da força das mulheres andradianas, seja para guardar memórias, para transformar histórias, ou para fincar/arrancar raízes. 

Dali me veio às mãos Marta, a árvore e o relógio. Na verdade, o nome dado por Jorge Andrade à publicação que reúne a maior parte de suas peças traz consigo mais do que mera referência aos três elementos que se repetem — juntos ou não — ao longo do ciclo histórico-ficcional traçado desde As confrarias até O sumidouro. Pelo contrário: ainda que não apareçam, concretamente, em todos os textos, os três estão presentes em todas as histórias, sem exceção: a árvore, feminina, como símbolo das raízes familiares e culturais, da tradição e do templo; o relógio, masculino, representante do tempo, às vezes remetendo ao progresso, ou outras, quando parado ou atrasado, evidenciando a dificuldade de se avançar em direção ao futuro e deixar o peso do passado para trás; e Marta, a guardiã do lar da memória, aquela que recebe o sagrado e se dispõe ao trabalho de tecer os trapos deixados pelos caminhos textuais.

Nesse conflito e, simultaneamente, nessa conjugação entre masculino e feminino, os relógios parados e as árvores partidas são o símbolo do recomeço. O ciclo da vida, assim como o ciclo do drama, é mesmo feito de exorcismos, mortes e renascimentos, em que, a cada dia, uma nova raiz se fecunda no solo da identidade. Embora se possa dizer que as horas da existência avançam inexoráveis, os ponteiros param para dar tempo de as memórias fluírem e se reintegrarem na construção do presente. Da mesma forma, árvores se partem em novas sementes, novas flores e novos frutos para dar origem a outras obras, outros pensamentos, outras reflexões. Os rastos de Jorge Andrade são cíclicos.

No entanto, mais do que dos relógios parados — refúgios das memórias de todos os tempos — e das árvores partidas – raízes dos múltiplos rostos e identidades que completam o drama andradiano —, é preciso falar das muitas Martas perdidas e encontradas nesse amplo universo de significações em que se constitui a obra de Jorge Andrade. A personagem representa o próprio olhar do autor sobre o mundo, visão que se coloca, ao mesmo tempo, próxima e distante dos acontecimentos, por mais paradoxal e dicotômica que essa posição possa parecer. Marta é, sobretudo, a personagem que, mesmo com outro nome qualquer (nem todas as Martas do livro — sequer aquela primeira a atravessar meu caminho, ainda em Senhora na Boca do Lixo — chamavam-se assim antes da revisão das peças para a publicação na coletânea), representa o olho estranho, ao mesmo tempo enigmático e transformador, lançado sobre a realidade.

A raiz exposta de As confrarias

Na impossibilidade de pincelar as faces de todas essas Martas, quero falar aqui de apenas uma, a que, de certa forma, encerra em si todas as outras mulheres criadas e recriadas por Jorge Andrade. A Marta em questão, de As confrarias, é também a primeira e última encarnação feminina do livro, já que a mesma peça que abre o ciclo traçado pelo dramaturgo é aquela que o fecha, por ter sido o último dos dez textos a ser escrito. Nessa peça, ao iluminar o drama de uma mãe em busca de um solo onde enterrar o filho ator, o que o escritor põe em cena é o percalço de todas as mães e mulheres que precisam carregar os corpos de seus homens pela vida afora.

Não é só isso, é claro, já que a Marta do texto é também aquela que desafia a ordem preexistente. Em As confrarias, mais do que transportar para o palco a memória que a mulher guarda do filho José e do marido Sebastião, mortos em nome da ganância pelo ouro das Minas Gerais, Jorge Andrade transporta para a cena a própria história brasileira, além das marcas deixadas por ela na vida de pessoas simples. José, como ator, é a representação simbólica do teatro como força capaz de manter viva a memória coletiva de um povo. Mas é de Marta a voz que evidencia essa verdade:

MARTA: Que sentido teria a arte de meu filho, se não levasse aos outros a compreensão da angústia que sentem? Se não mostrasse aos que lutam, em nome do que estão lutando? (…) Meu filho sabia que é difícil lutar pelos outros; que tudo que é injusto, é injusto para todos! Com a personagem que escolheu ser… atirou-se contra a ameaça do mundo e tentou se defender, defendendo vocês. (ANDRADE, 1986, p.62)

No texto, José, o ator, acaba por utilizar o teatro como instrumento para alertar o povo da Vila Rica do século XVIII sobre os abusos de poder impetrados pela cobrança do quinto e da derrama pela Coroa Portuguesa. O personagem é morto como mortos foram diversos intelectuais mineiros envolvidos no projeto de inconfidência e seu Libertas quae sera tamen — do poeta Cláudio Manoel da Costa ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes. As quatro confrarias que emprestam nome à peça — irmandades dos brancos, dos negros, dos mulatos e dos pardos — denunciam como a segregação de uma sociedade pode se tornar responsável por seu próprio aprisionamento.

O tempo (es)corrido de Pedreira das Almas

Cartaz da montagem de Pedreira da Almas, encenada em 1977 pelo Grupo Divulgação

Esse tema — do corpo insepulto e da subjugação política de uma sociedade — é retomado no texto seguinte do livro, Pedreira das Almas (o primeiro do autor encenado pelo Grupo Divulgação, em 1977). Assim como é retomada a mesma personagem, com a mesma simbologia feminina de força, resistência e transformação política. A despeito de, em Pedreira, a Marta de As confrarias só aparecer em reminiscências, é a influência de seu discurso libertário que, de certa maneira, conduz a trajetória dos outros personagens, tanto os que partem da cidade quanto os que, por dever, nela ficam. Tal qual As confrarias, Pedreira das Almas também é uma peça intrinsecamente política. E por isso mesmo completamente feminina.

A imagem, masculina, de Tiradentes enforcado e esquartejado, é reelaborada nos dois textos, a partir da já mencionada temática do corpo insepulto. Contudo, ao contrário do inconfidente, que foi usado como bode expiatório por ter incitado o povo a rebelar-se contra a derrama, as mortes de José e Sebastião, em As confrarias, assim como a do jovem Martiniano, em Pedreira, são expostas para servirem de exemplo contra a tirania e a perversidade: 

SEBASTIÃO: Marta! Não vá me ver. Deixe-me… até que a chuva apodreça a corda.
MARTA: (Hirta de dor) Deixarei.
SEBASTIÃO: Quero que meus ossos fiquem espalhados em minha terra.
MINEIRO 1: E é onde vai ficar. Pensa que alguma igreja receberia seu corpo?
SEBASTIÃO: (Olha o chão) Há uma que vai receber.
(…)
MINISTRO: E você deixou o corpo insepulto?
PROVEDOR: Largou os ossos como se fossem de animal?! MARTA: Quando parti, olhando de longe, pareciam espigas de milho espalhadas. Na paisagem… a única coisa verde era a árvore.
(…)
Ministro: Não sepultou o marido, nem rezou por ele… e vem pedir para enterrar o filho em nossa igreja?! Que está querendo?
(…)
Marta: Meus mortos não serão mais inúteis. Devem ajudar os vivos. Para que serve um corpo esquecido como galho de árvore… ou como laje! (ANDRADE, 1986, p.42-3)

É a memória dessa Marta que não quer os corpos dos seus fiquem esquecidos como árvores plantadas no chão que incita os jovens de Pedreira das Almas a abandonar a cidade — onde não há mais terra sequer para esquecer os mortos sob as lajes — e buscar a vida noutro lugar. Todavia, os planos são esfacelados com a morte de Martiniano e, por tristeza, de sua mãe, Urbana. Mais uma vez, a negação em sepultar o cadáver é a única arma para enfrentar a tirania. A questão é que, aqui, ao invés do exemplo de libertação de Marta, Urbana e principalmente a filha Mariana fazem o caminho oposto: se enraízam na cidade de Pedreira para, assim, libertar os outros. São mulheres-árvore que permanecem fincadas no chão enquanto o vento carrega suas folhas para longe.

Foto do espetáculo Pedreira das Almas, do Grupo Divulgação, dirigido por José Luiz Ribeiro

Pedreira das Almas denuncia o principal conflito abordado pela dramaturgia de Jorge Andrade: a existência de personagens inertes, aprisionados a um passado irrecuperável, mas ao qual é preciso metaforicamente retornar e manter vivo para compreender os impasses presentes:

MARIANA: Mais forte do que as promessas é a morte que nos liga à terra. Sinto tudo dentro do meu corpo, como se fizesse parte do meu sangue. As rochas… a igreja… o adro!
GABRIEL: Mariana! Não podemos passar a vida venerando os mortos. Foi para escapar a isso que sonhamos partir. É preciso saber escolher, Mariana.
MARIANA: Isto não depende de escolha. Há coisas que não podemos evitar.
GABRIEL: Mudaste muito. Mal te reconheço!
MARIANA: Gabriel! Duas pessoas perderam a vida. Não compreendes? Duas pessoas que eram a minha família. Como queres que seja a mesma?
GABRIEL: Também perdi a minha.
MARIANA: Há muito tempo. Viveste sem ela.
GABRIEL: Prometeste uma para mim. Não te lembras?
MARIANA: Não a este preço.
GABRIEL: Mas que preço? Foi o próprio mundo de Pedreira que matou Martiniano, como matou minha família.
MARIANA: Nossos mortos não podem ser abandonados. GABRIEL: Não sabes mais pensar a não ser em mortos?!
MARIANA: Vivo conforme meus princípios.
GABRIEL: Não eram princípios teus, há poucos dias atrás. MARIANA: São agora. Quando menos esperamos, ficamos presos a compromissos superiores a nossos sentimentos.
GABRIEL: Que compromissos?
MARIANA: Tu, com o povo que agora tem o direito de partir. Eu… com os mortos de Pedreira. Eles precisam de mim! Sei que Pedreira não morrerá enquanto eu estiver aqui. (ANDRADE, 1986, p.112-3)

Em Pedreira das Almas, enquanto Gabriel tem os olhos voltados para o futuro e para as terras distantes e férteis aonde pretende guiar o povo, Mariana, tal qual uma Antígona emparedada à rocha, mantém-se presa aos corpos de sua mãe e seu irmão. O drama de Mariana e Gabriel é uma reflexão sobre a relação do ser humano com seu passado, seu sangue, sua terra, sua cidade (Urbana/mãe) — compromissos superiores até mesmo aos sentimentos. É um embate entre o precisar recordar e a necessidade de seguir em frente. 

O grande conflito é o da identidade. Para Mariana, seu destino é manter-se fiel à família e a cidade onde nasceu e cresceu; é inconcebível abandonar os corpos de sua mãe e de seu irmão; é preciso guardar seus mortos, sua tradição. Para Gabriel, por sua vez, a identidade está no papel de guiar o povo para a “terra prometida” e lá construir, com seus braços, uma nova vida. Para ela, a identidade é o sangue; para ele, o trabalho. Para ele, o relógio, marcando o novo tempo; para ela, a árvore, arraigada a suas raízes. Enquanto Mariana, como Antígona, é uma guardiã da velha ordem, das leis do sangue que não precisam ser escritas, Gabriel, como o anjo bíblico, é o anunciador da nova era.

As memórias e identidades individuais se cruzam com as memórias e identidades sociais que formam o homem — e a mulher — andradianos. Considerado por muitos como um “poeta do ontem”, e algumas vezes criticado por isso, Jorge Andrade foi, antes de mais nada, um escritor de seu próprio tempo. Inusitadamente, foi um dos poucos dramaturgos brasileiros de meados do Século XX, se não o único, a escrever peças de épocas. Por esse motivo, por não retratar literalmente, nos textos e nos palcos, as circunstâncias históricas do momento em que concebeu sua obra — leia-se a repressão gerada pela início da ditadura civilmilitar — o autor foi, inclusive, acusado de só se preocupar com o passado, e não com o processo político então presente. 

Entretanto, tanto em As confrarias quanto em Pedreira das Almas, através da mesma temática e de um recurso profunda e intrinsecamente brechtiano, Jorge Andrade fez, em plena ditadura, seu libelo contra a hipocrisia e pela liberdade num momento histórico ferido pelo aprisionamento e pela tirania. Em nenhum instante seu discurso é panfletário ou transforma o palco em palanque partidário das esquerdas vanguardistas e revolucionárias. Todavia, trata-se de um teatro político na acepção mais pura do termo, no sentido de que retrata o homem em sua relação direta com a sociedade, em meio aos jogos de dominação e de poder. 


Referências Bibliográficas:

ANDRADE, Jorge.  Marta, a árvore e o relógio.  2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1986.

SOUZA, Táscia. Relógios parados, árvores partidas: Jorge Andrade em rastos de identidade e memória. Dissertação de mestrado defendida no PPG-Letras/ UFJF em abril de 2008. Disponível em <https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/2845>.

Site do Centro de Estudos Teatrais — Grupo Divulgação: <http:// www.grupodivulgacao.com.br/repertorio/1977-pedreira-das-almas.php>


Táscia Souza

Doutora em Estudos Literários pela UFJF, jornalista, escritora, atriz e revisora da Revista Casa D’Italia.