Espiritismo e colônia francesa no Rio de Janeiro: primeiros passos do caminho de uma religião no país

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 23, 2022 – Paulo Victor Cota | Espiritismo e colônia francesa no Rio de Janeiro: primeiros passos do caminho de uma religião no país


Hoje, o espiritismo é uma religião muito bem conhecida no Brasil. Difícil é encontrar alguém que não o reconheça como expressão religiosa presente em nosso país, como também não identifique emblemáticos porta-vozes, como Chico Xavier e Divaldo Franco, famosos médiuns espíritas brasileiros. O que talvez fique a cargo da História lembrar-nos é a origem de um espiritismo francês na segunda metade do século XIX. Em 18 de abril de 1857, a publicação d’O livro dos espíritos, autoria de Allan Kardec, inaugura uma caminhada não muito longa até aportar no Império brasileiro.

A França, nessa época, era uma referência mundial em muitos aspectos culturais para o ocidente. Falar, escrever e ler no idioma francês proporcionava um grande prestígio e privilégio a quem pudesse dominá-lo, principalmente em um lugar que acabara de deixar de ser uma colônia portuguesa e de obter sua independência política, ainda permanecendo sob um regime monárquico. Não à toa, segundo Amanda Peruchi (2018), pesquisadora que se debruçou sobre os periódicos franceses na imprensa do Rio de Janeiro durante o século XIX, logo após o processo de independência, o fundador do primeiro periódico em francês no Brasil, Pierre Plancher, justificava a publicação do L’Indépendant, de 1827, como um urgente e necessário movimento para elevar a cultura dos cidadãos e os anseios por progresso de uma nação. 

Assim, as contribuições francesas neste quadro histórico, com novas ideias e mentalidades, eram identificadas em múltiplos aspectos. O que vemos com clareza na percepção de quem estuda esta interação cultural é que as classes intelectuais de ambos os países possuíam estreita relação. Basta olharmos as influências francesas que atingiam a área acadêmica, as artes em suas diversas dimensões, como também a política brasileira e costumes de nossa elite oitocentista. Essa interação proporcionou uma rápida chegada dos livros doutrinários e notícias sobre o espiritismo que vinham da França com imigrantes e viajantes de lá.

Portanto, é em meio aos imigrantes franceses que conseguimos identificar um inicio das ideias espíritas em circulação na Corte Imperial do Brasil. Vale ressaltar que entre esses imigrantes encontramos diversos profissionais liberais, como jornalistas, comerciantes e professores. Autores como Ubiratan Machado (1996) e Célia Arribas (2010) confirmam que um dos precursores do espiritismo era o francês Casimir Lieutaud. Pessoa de cultura elevada, diretor e pedagogo de um dos locais de ensinos da Corte mais bem conceituados da época, o Colégio Francês. Ele foi reconhecido como um dos contribuintes para uma renovação dos métodos de ensino no Brasil, mesmo sendo uma contribuição modesta. Era um sujeito sintonizado com a mentalidade francesa oitocentista e que abraçou a renovação de ideais como socialismo e espiritismo. Sua publicação de Les temps sont arrivés é uma das primeiras obras espíritas no Brasil, neste caso escrita em francês em 1860. 

Junto a ele, figuras como Adolpho Hubert e Madame Collard, enquanto organizadores de um órgão de imprensa redigido na língua francesa, Courrier du Brésil, que circulou entre 1854 e 1862. Neste periódico, podemos encontrar publicações referentes ao espiritismo, incluindo Adolpho Hubert assumindo sua condição espírita. Juntamente a outros franceses imigrantes habitantes da colônia no Rio de Janeiro, este grupo fazia reuniões reservadas para o estudo da doutrina e dos fenômenos atribuídos a ela. Não podemos nos esquecer que essa redação se encontrava em uma das artérias que pulsavam na cidade daquele tempo, a Rua do Ouvidor.  Símbolo do que era o Rio de Janeiro do final do século XIX, concentrou diversas atividades comerciais de franceses daquela cidade.

A Rua do Ouvidor. Fotografia de 1862 (Crédito Rafael Castro Y Ordoñez – Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro) Disponível no site do MultiRio

O espaço de redação deste jornal era palco de encontro para a celebração de ideias modernizantes e das novidades além-mar. Ali chegaram a circular personalidades que hoje temos como grandes nomes, por exemplo, Machado de Assis, este sendo um dos críticos dos fenômenos espíritas. Como era esperado da imprensa que estava por dentro dos acontecimentos fenomênicos de mesas que “mexiam” e efeitos sobrenaturais, podemos encontrar no Courrier du Brésil notícias que narram estes tipos de eventos. Vale também apontar o posicionamento político presente no jornal, pois convergia para a defesa de uma linha editorial anticlerical e também avessa ao governo francês de Napoleão III, marcadamente tendências que derivam da influência de pensadores socialistas franceses de renome à época. Este pensamento socialista tem uma relação próxima ao espiritismo, como veremos a seguir.

Courrier du Brésil, 15 set. 1854. Disponível no BNDigital

Pensadores desta vertente, como Pierre Leroux, Charles Fourier e Saint-Simon, segundo Célia Arribas, eram lidos pelo grupo francês. Enquanto tendência de ideias, o socialismo francês se alinhava com as ideias filosóficas de resolução da desigualdade social e existencial por concepções das múltiplas existências de vida do ser (reencarnação), como também a pluralidade das existências em vários mundos, elementos igualmente compartilhados pelas publicações de Kardec. Por certo temos que o socialismo francês foi capaz de influenciar tanto os trabalhos de Allan Kardec quanto as ideias propagadas no jornal franco-brasileiro. Contudo, a autora enfatiza que as ideias de reencarnação atreladas ao socialismo não estavam na pauta do dia a ser debatida para a época. As configurações culturais francesas do final do século XIX que relacionavam o espiritismo ao socialismo eram bastante específicas e não se compatibilizaram com a situação no Brasil.

Sob poucas publicações e restrições da circulação de um jornal em língua estrangeira, houve alguns desafios que impediram um grande crescimento das ideias ali contidas, visto principalmente a barreira linguística que tornava seu acesso exclusivo para as camadas mais letradas da sociedade brasileira. As condições de acolhimento do espiritismo em meio aos franceses que circulavam naquela colônia no Rio de Janeiro colaboraram para os primeiros passos da novidade vinda da França. Encerrados os primeiros passos com este grupo francês, veremos, logo em seguida, uma pujança dos ideais espíritas em terras baianas, principalmente com a empreitada de Luiz Olímpio Teles de Menezes. Este pequeno fragmento da organização de imigrantes franceses no Rio deixou marcadas as pegadas iniciais do espiritismo.


Referências Bibliográficas:

ARRIBAS, Célia da Graça. Afinal espiritismo é religião? A doutrina espírita da diversidade religiosa brasileira. São Paulo: Alameda, 2010.

COURRIER DU BRÉSIL. 15 set. 1854. [imagem digitalizada]. Disponível em: <http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=709719&pesq=&pagfis=1>. Acesso em: 13/11/2021 

MACHADO, Ubiratan Paulo. Os intelectuais e o espiritismo: de Castro Alves a Machado de Assis. Niterói: Publicações Lachâtre, 1996.

PERUCHI, AMANDA. Os periódicos franceses na imprensa carioca oitocentista Uma leitura dos editoriais de primeira edição. ALMANACK, v. 1, p. 489-516, 2018.


MULTIRIO: a mídia educativa da cidade. A Rua do Ouvidor é o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, s.d. Disponível em: <http://multirio.rio.rj.gov.br/index.php/estude/historia-do-brasil/rio-de-janeiro/65-o-rio-de-janeiro-novamente-corte-o-imperio/2896-a-rua-do-ouvidor-e-o-rio-de-janeiro>. Acesso em: 12/11/2021


Paulo Victor Cota

Mineiro forjado e cravejado em Juiz de Fora. Formado em História e especialista em Ciência da Religião pela UFJF. Atualmente cursa o Mestrado também em Ciência da Religião na mesma Universidade. É servidor público nesta Instituição.