Il teatro è un martello

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 22, 2022 – Chiara Gerbaudo |  Il teatro è un martello


Meu nome é Chiara e quero lhe contar uma história… Um belo dia, perto da estação de trem da minha cidade, encontrei Francesca – uma amiga que não via há muito tempo – e ela me perguntou:   – Quer vir fazer teatro? Te busco às 20h!  

Nesse momento, eu ingressava neste mundo. E é interessante como ele pode ser entendido, descrito. Os ingleses, por exemplo, definem o Teatro como a união de duas entidades distintas:  Drama e Theatre. Este último representa todo o conjunto dos elementos estruturais que têm a ver com a peça, com la messa in scena: palco, roteiro, cartaz, luzes, trilha sonora, artistas, diretor, dramaturgo, caixa da bilheteria, trajes, plateia etc. Por outro lado, o Drama abrange os aspectos da atuação, da mimesi, a capacidade de se construir o personagem, isto é, o trabalho do ator. É nisso que me joguei sem nem saber de nada. Eu o chamava de laboratorio teatrale. 

O laboratorio teatrale é aquela dimensão espaço-tempo na qual se percebe quantas camadas existem, de quantas partes é feita e que, talvez, nem todas sejam necessárias. Quantas e quais delas são fundamentais para se tornar uma atriz, um ator? E, de repente, percebe-se que é muito difícil chegar à neutralidade, à “folha branca” e se reinventar. Teatro para mim é tirar, eliminar, se desapegar, e não colocar, construir, acrescentar. Já viu um martelo destruir algo? Já viu um martelo construir algo? O Laboratorio teatrale di Voci Erranti foi o meu batizado, a minha marca identitária. Ainda hoje, considero o teatro como uma ferramenta para se conhecer, ir ao encontro de si mesmo; concentrar-se no que é importante, atentar-se para o aqui e o agora. 

Enquanto vivia isso tudo, estudava sociologia, antropologia e comunicação. Sem saber, estava trabalhando na mesma linha. Uma era mais teórica, a outra, prática e de experiência interior. Estava enxergando os pilares, os elementos imprescindíveis: o ator e o público; Io e te. Un elemento e il suo interlocutore. Inconscientemente, estava elaborando a concepção de Terzo Teatro di Eugenio Barba, do qual me sinto discípula. 

Tempos depois, me mudei pra Siena e o “martelo” veio comigo. Construí o meu lado professora. Estudei na Università per Stranieri di Siena e adquiri novos conhecimentos nas práticas de ensino de línguas estrangeiras, tive brilhantes modelos e, mais ainda, pude desenhar a imagem da educadora que queria ser. 

Durante o dia, estudava na faculdade. À noite, estava no teatro com Mila Moretti e o TeatrO2 com o qual ensaiávamos. Empregava meus esforços para entrar na personagem de Georg Sand – uma escritora e jornalista francesa de 1800. Ela montava a cavalo, costumava vestir roupas masculinas, sempre ficou na linha de frente contra as convenções sociais que tiravam a liberdade feminina. Tornou-se célebre por seus numerosos casos de amor, sobretudo com Frederich Chopin. Uma mulher com uma história de vida incrível. Poderosa e frágil, imponente e sensual. Expressar e incorporar a sua personalidade foi bem difícil, mas, gratificante.                                                                                                                            

Na aula de linguística aplicada, as conversas sobre determinismo e relativismo linguístico começaram a desencadear questionamentos. Do precursor Wilhem Von Humboldt – que considerou a linguagem não só como um conjunto de signos, mas como algo constitutivo da atividade de pensar – aos que agora acreditam numa conexão muito forte entre a estrutura do pensamento e o idioma. Demorei semanas para entender esta frase: “A língua é a forma do pensamento”.  Minha massa cinzenta continuava tendo epifanias e eurekas até que finalmente parecia que aquela barreira entre língua e teatro já não existia mais. A língua é identidade! “Falar duas línguas é como possuir duas almas”, dizia Carlo Magno. O sistema linguístico que as línguas carregam para organizar as ideias contribui a criar o jeito que expressamos a realidade e as informações catalogadas. De fato, muitos já afirmam que cada língua carrega uma identidade, ou seja, falar outro idioma significa assumir um esquema lógico diferente para descrever o mundo. Como no teatro, para interpretar um personagem, preciso entendê-lo, vivenciar a sua realidade, pensar como ele para poder expressá-lo falando a sua linguagem. 

Vamos ver alguns exemplos. Você que já aprendeu um outro idioma, até mesmo italiano, me ajude a traduzir para o português TI PORTO UN FIORE. Primeiro, preciso pensar se PORTARE nessa frase entende TRAZER ou LEVAR. Caso acerte, posso ainda errar falando ‘Te trago um* flor.’ Pois ‘FIORE’ em italiano é uma palavra masculina. Logo, na primeira e nas mais simples das hipóteses, você já tem que reavaliar o seu jeito de ler o mundo. O flor? O árvore? Eu consegui utilizar o artigo correto a partir do momento em que enxerguei flor e árvore como entidades femininas.

Outro exemplo. Quem me conhece sabe da minha paixão e amor pelo Torino – meu time de futebol na Itália. Os torcedores do Torino são conhecidos pelo nome Granata – cor grená da camisa. Seu arquirrival é um time muito mais conhecido no exterior. Tem as cores preta e branca e prefiro nem citar o nome… 

Enfim, mas vamos à história. O Torino ficou conhecido por causa de uma tragédia ocorrida em 4 de maio de 1949, num acidente de avião no qual o time inteiro veio a óbito. Em um 4 de maio, fui trabalhar com a camisa grená do Torino. Um gesto simbólico e pessoal, pouquíssimos de fato sabem da história, e no Rio o clube não é muito conhecido. Só alguns colegas repararam no símbolo e o nome estampados na blusa e ninguém pensou na data. Porém, na saída das aulas, enquanto pressionava o botão do elevador, se aproxima uma estudante de outra turma. A jovem olha para a minha camisa e, sem hesitação, num perfeito italiano, pergunta se eu sou de Turim. Eu abro um sorriso, olho nos olhos dela, sentindo orgulho por essa estudante do Instituto Italiano de Cultura que conhece Torino e que puxa conversa em italiano. Eu apenas respondo um feliz . E ela, incisiva, pergunta se eu torcia pela Juventus… (aquele das cores preta e branca cujo nome não queria citar). Silêncio. O elevador chega. A porta abre e, com ela, a percepção do tamanho do desafio que os professores de idioma têm. Porque tem uma cultura, um jeito de viver! Já pensaram perguntar para uma pessoa que veste a camisa tricolor se ela torce para o Flamengo? 

Com isso não quero dizer que seja necessário conhecer as camisas de todos os times de futebol, porém, considero que apenas os livros não conseguem passar o conteúdo necessário para vivenciar o espírito de um idioma – a segunda alma. Então, por que não usamos o teatro como recurso para aprender a falar outra língua, junto com seus elementos culturais, fonéticos, prosódicos de valores e tabus? 

O teatro é, de alguma forma, uma prática já usada em sala de aula, sobretudo em atividades mais comunicativas. Um role play ajuda a simular uma situação rotineira. Os estudantes desempenham um papel seguindo um script, um roteiro. Poder interpretar e simular algo num ambiente protegido, ou seja, sem medo de errar e ser criticado, julgado ou ironizado é muito positivo. É uma oportunidade de experimentar uma nova identidade linguística. Esse aí que é o martelo – teatro pode ser de grande valia e contribuição. 

Quando entramos num processo de aquisição linguística, sentimos que a nossa habilidade de expressão é muito inferior àquela que usamos cotidianamente. Esse fenômeno chama-se Asymmetrical Ability e cria desconforto prejudicando o aprendizado. Imagine agora que na sala de aula você se transforme: não será mais João, mas Giovanni. Deixará de ser um brasileiro tentando usar frases simples, mas sim um italiano que se apresenta na sala de espera de um aeroporto. Aquela pessoa que fala seu nome, sua profissão e sua idade não é você, mas a sua personagem italiana.                                     

Com essas convicções no coração e na cabeça, projetei o Curso Teatral de língua italiana. Deste, brotou um segundo projeto – Vozes de Literatura Viva – que, ao longo de muitos anos, conectou várias pessoas à literatura, à cultura e à língua italiana, através do movimento, do trabalho em equipe e da participação ativa de todos. Os textos de literatura italiana escolhidos ajudavam a compreender a vida, o momento histórico e social na qual o autor estava mergulhado. Assim, todo o conhecimento chegava de forma dinâmica e o estudante era o verdadeiro protagonista. Ele era o leitor/ator que precisava entender para ler em voz alta e não apenas ter a pronúncia perfeita e entender de fonética. O curso compreende a pessoa que participa como um todo, com o seu corpo, as suas emoções , e a sua postura. A partir disso, o grupo tem o desafio de ler em língua italiana e interpretar o roteiro que foi criado a partir deles – são co-produtores – proporcionando para a plateia a possibilidade de escutar as palavras originais em que a obra literária foi escrita junto com a tradução, numa imersão performática da leitura dramatizada. 

Eu não podia prever que as consequências iam ser tão surpreendentes. Esse tipo de trabalho não apenas ajuda no aprendizado da língua, mas envolve as pessoas num desafio comum, criando laços de afeto, respeito, autoconhecimento e muitos benefícios dos quais os seres humanos precisam. 

Outro desencadeamento aconteceu durante o período em que fomos obrigados subitamente a criar relações exclusivamente online: nem corpos inteiros podíamos ver. Só partes de corpo atrás da tela. Num quarto. O novo desafio forçou-nos a descobrir outros e fortes meios de comunicação, e as contingências desencadearam experiências imprevistas na qual o meu jeito de  usar o teatro, o meu martelo, foi chamado para atuar de forma diferente: sem fim de aprendizado linguístico. Com a Associação Ponte Entre Culturas e o Festival de jovem talentos, desenvolvemos uma oficina teatral pra jovem artistas. Uma reflexão sobre o espelho para se olhar e olhar o outro, num processo criativo comum através da tela. O projeto foi tão incrível que provocou mais uma surpreendente visão do teatro, uma nova criação chamada “Quarto Teatro”. 

Você sabia por que Eugenio Barba  definiu o teatro dele Terzo Teatro, terceiro teatro? O primeiro teatro está ligado à definição da origem da arte, com os seus pilares mais tradicionais. Depois, veio o segundo, o teatro vanguardista com com Staniwslaski e Grotowski – do qual Eugenio Barba foi aprendiz, criando depois outros caminhos, rompendo e indo além com o terceiro teatro. Começei a enxergar o “Quarto Teatro”! O teatro que fizemos nos nossos quartos, quando podemos enxergar só um quarto de nós, só um quarto do artista.

Vejo onde os “trilhos” do teatro me levaram. Daquele dia na estação de trem, construí, concertei e desconstruí muito. Os benefícios que a arte teatral pode trazer no universo da aprendizagem são ilimitados. Uma versão Beta perpétua. Estaremos constantemente usando e desenvolvendo novos e interessantes métodos. Vamos usar o teatro como ferramenta, não apenas como um fim. Não penduramos o martelo numa moldura, façamos melhor uso dele.


Referências Bibliográficas:

HOLDEN S., Drama in a language teaching, Harlow, Longman, 1981 

HUMBOLDT V.W., Über die Verschiedenheit des menschlichen Sprachbaues und ihren Einfluss auf die geistige Entwickelung des Menschengeschlechts. Berlin, F. Dümmler, 1936.Ed. it. La  diversità delle lingue, trad di D. Di Cesare, Bari- Roma, Laterza, 2004

LOZANOV G., GATEVA E., Metodo suggestopedico per l’insegnamento delle lingue straniere, Roma, Bulzoni Editore, 1983 

MARINO L., Nati per fingere. L’identità flessibile dell’attore, Catania, Bonanno, 2009 

SAVOIA M., Tutti in scena. Il gioco teatrale: esercizi e testi di laboratorio, Firenze, Salani, 2007 

THE AMERICAN COUNCIL ON THE TEACHING OF FOREIGN LANGUAGES, ACTFL Integrated Performance Assessment Manual, 1996, http://www.actfl.orgEVOLA V., “Aveva ragione Whorf? La lingua enbodied/ embedded?” Reti saperi linguaggi, 4 (2012), 12, pp. 38-43 http://www.coriscoedizioni.it


Chiara Gerbaudo

Professora de Italiano e de teatro. Estudou Antropologia na Università degli Studi de Turim. Prosseguiu seus estudos na Università per Stranieri de Siena obtendo a Láurea em Didática do Italiano para Estrangeiros. Em paralelo aos estudos universitários, Chiara sempre viveu sua paixão pelo teatro frequentando os cursos na Accademia di Teatro Comico de Turim, a Escola Teatr02 de Mila Moretti em Siena e a Escola e Associação de Teatro Voci Erranti de Cuneo, onde começou a viver o teatro como instrumento de comunicação e ação social. Em 2012 Chiara trouxe para o Rio de Janeiro o primeiro Curso Teatral de língua italiana experimental. Desde então trabalhou como professora no IED e ainda no Instituto Italiano di Cultura e na LEC no Rio de Janeiro. Além do curso de língua italiana através do teatro VOCI DI LETTERATURA VIVA, desenvolveu junto com o ator e dançarino Will Freitas, a oficina DESIGN DO HOMEM sobre Leonardo Da Vinci e o Homem Vitruviano: uma experiencia que une dança, teatro, arte e italiano. Além disso, não para de pensar em novos cursos de língua e projetos de aprendizado também com os novos modelos online, numa pesquisa contínua de possibilidade.