Influência da alimentação na formação dos espaços e da cidade de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 22, 2022 – Luiza Coury |  Influência da alimentação na formação dos espaços e da cidade de Juiz de Fora


A alimentação constitui uma das atividades humanas mais importantes, não só por causas biológicas, mas também por envolver aspectos econômicos, sociais, científicos,  políticos, psicológicos e culturais fundamentais na dinâmica da evolução das sociedades. Desde o princípio da história da humanidade, é possível perceber que alimentar-se  envolve muito mais processos do que somente a ingestão de alimentos. Envolve o prazer  de consumir algo, assim como os rituais de preparo da comida e de partilha da refeição em comunidade. E, claro, influenciou muito na formação dos espaços e das cidades!

O ato de dividir um momento de alimentação com alguém foi importante para a criação dos espaços sociais alimentares, primeiramente os domésticos e, depois, as tabernas,  restaurantes, lanchonetes, entre outros. O primeiro ambiente de alimentação formado  definitivamente se deu em torno das relações familiares. Ao compartilhar uma refeição em  família, os mais jovens aprendem como se alimentar e como se comportar, além de  experiências compartilhadas e tradições passadas.

Cada nacionalidade, ao longo da  história, desenvolveu suas  próprias tradições, assim como os espaços específicos para seus rituais. Durante o  período medieval, por exemplo, os banquetes tinham o objetivo de mostrar riqueza, bem como selar pactos e alianças. A alimentação servia, também, como forma de hierarquização da sociedade, como é possível perceber no período colonial. 

O período da Roma antiga, por exemplo, foi marcado por muito requinte e sofisticação, principalmente no que diz respeito à comida. O ambiente de alimentação da elite era o Triclinium: sala de jantar destinada a receber convidados e demonstrar todo o poder e  requinte do anfitrião. Era um ambiente composto por decorações refinadas e por três sofás, nos quais a disposição dos convidados refletia o grau de procedência de cada um. 

Com a queda do Império Romano, toda a estrutura da civilização se modificou. O  requinte e o desenvolvimento gastronômico que perduraram ao longo do império foram  esquecidos e sobrepostos pela nova civilização medieval dominante. Regras de  comportamento à mesa foram criadas ao longo desse período, pois, durante os banquetes  nos grandes salões, rituais e cortesias eram necessários para que a violência não surgisse durante a partilha. 

Você já tinha parado para pensar em quanto a comida influenciou nos rituais e ambientes de alimentação ao longo da história do mundo? E em nosso país não poderia ter sido diferente!

Formação alimentar no Brasil

Desde os primórdios da história do Brasil, nossa cultura foi influenciada por  inúmeras nacionalidades. Cada povo que chegou ao país acrescentou um ingrediente ou técnica às nossas tradições, incrementando a cultura indígena já existente. O fato de  possuir um vasto território geográfico e vários biomas e climas acentuou a diversificação e formação dos hábitos alimentares.  

O primeiro marco da alimentação do país foram os indígenas, população que já  habitava antes do descobrimento pelos portugueses. A alimentação indígena tinha como base o aproveitamento máximo de frutos e raízes da flora brasileira, além da caça e da pesca de animais. Aproveitavam as fibras da vegetação e construíam utensílios como cordas, redes, peneiras e esteiras. Com ingredientes e materiais da natureza, preparavam comidas, bebidas e moradia. E seus espaços de alimentação se moldavam nessas dinâmicas existentes do cozimento com fogo e de máximo aproveitamento dos elementos naturais.

O primeiro século de exploração dos portugueses no Brasil foi marcado pela incorporação dos hábitos dos indígenas em seu cotidiano. Tal atitude foi fundamental para a sobrevivência e a adaptação dos colonizadores. Os portugueses assimilaram como utilizar a biodiversidade local, além de técnicas de plantio e aproveitamento do solo. Aos poucos, foram incorporando elementos europeus nos hábitos dos nativos.  

Para recriar a cultura portuguesa nas terras brasileiras, foram trazidas vacas, bois, ovelhas, cabras e galinhas. Desse modo, poderiam obter ovos e manteiga, elementos muito apreciados na cultura portuguesa. Gradualmente, foram inserindo o uso do azeite, do trigo e de frutas estrangeiras, como o romã e laranja.  

Desde D. João VI até D. Pedro II, os hábitos alimentares da realeza foram se  desenvolvendo e se tornando mais sofisticados. As casas desse período se tornaram mais luxuosas e seus donos investiram cada vez mais em mobiliários e decorações. Além dos já existentes, foram acrescidos a alvenaria, tijolos, telhas cerâmicas e assoalhos de madeira para os pisos. A decoração era marcada por móveis de madeira de lei, louças de porcelana e brasões gravados nos objetos. As mesas eram sempre fartas e compostas de iguarias de diversas nacionalidades. Grandes banquetes e eventos eram promovidos, nos quais eram utilizadas aparelhagens de prata e, muitas vezes, até de ouro. Devido ao refinamento dos hábitos alimentares e desejo por maior privacidade, surgem, nesse período, as salas de jantar, pois até então as mesas eram desmontáveis e as pessoas comiam em diversas partes da casa. Outra modificação foi a criação de uma nova cozinha, conhecida como “cozinha suja”,  que se localizava do lado externo da casa e onde se preparavam carnes e frituras. Com isso, a “cozinha limpa”, no interior da casa, era utilizada para o preparo de café, saladas e bolos.  

Quantas alterações nos hábitos e nos ambientes alimentares em tão pouco tempo, não é mesmo? 

Formação alimentar em Juiz de Fora

O começo da história da cidade também foi marcado pelo tema do nosso texto: alimento. O desenvolvimento urbano de Juiz de Fora está intimamente ligado ao café. A expansão da cultura cafeeira no século XIX impulsionou o crescimento da  economia da região. Diversos imigrantes se mudaram para a cidade em busca de trabalho e novas oportunidades, permitindo o aumento do comércio e o desenvolvimento urbano de Juiz de Fora. Entre as nacionalidades que chegaram estão alemães, italianos, portugueses, espanhóis, sírio-libaneses e algumas famílias inglesas.

A chegada de qualquer grupo que carrega tradições diferentes das já existentes no local é  permeada de mudanças e dificuldades. Ambas as nacionalidades, a nativa e a que chega, têm de aprender a conviver com as modificações e as novas culturas. A mescla cultural formada pelo acréscimo das nacionalidades que chegaram à cidade foi fundamental para seu desenvolvimento e, principalmente, para a área de alimentação e  seus ambientes. 

Os imigrantes alemães foram os primeiros a se instalar na cidade e criaram um núcleo para os estrangeiros dessa nacionalidade. O local principal destinado foi na parte da cidade onde se encontra, atualmente, o bairro Borboleta. Aposto que você já ouviu falar na famosa Festa Alemã desse bairro, que dura até os dias atuais, estou certa?

Nesse momento da história surge no país um ambiente importante para a gastronomia da cidade e que possui grande influência na economia atual: as cervejarias. Em 1860, foi fundada, na Colônia de Cima (bairro São Pedro), a primeira cervejaria da cidade e do estado de Minas Gerais, a Cervejaria Barbante. Outras cervejarias foram fundadas ao longo dos anos seguintes, como a Cervejaria Kremer, em 1867, e a Cervejaria José Weiss, em 1878.

Nossa cidade é considerada um polo cervejeiro. Imagina o que seria dos bares, restaurantes e festas se não fossem os deliciosos chopes artesanais da cidade?! 

Além dos alemães, outros imigrantes chegaram à cidade e marcaram muito nossa alimentação. Entre eles estão os sírios e libaneses. O período de chegada deles no Brasil coincide com o desembarque dos imigrantes italianos no país.

Em relação às influências gastronômicas na cidade, a cultura sírio-libanesa se difundiu com menor intensidade que a italiana, possuindo uma quantidade bem menor de estabelecimentos. Assim como as outras culturas, a cozinha original sofreu alterações, ganhando características da gastronomia brasileira. Inspirada pela cultura desses países, os ambientes de alimentação possuem características, cores e decorações que nos permitem uma experiência mais completa do local de origem. Além disso, em quase toda lanchonete pela cidade e em diversas festinhas é possível encontrar quibes e esfihas. Já faz parte da cultura local!

Uma das nacionalidades que mais influenciou na formação da cidade foi a italiana. Os italianos chegaram ao Brasil por volta de 1880 e Juiz de Fora foi um dos destinos. Para se adaptarem, incorporaram muitos hábitos locais, tanto na língua, quanto na alimentação e no vestuário. Porém, isso não impediu que sua cultura se espalhasse pela cidade e criasse raízes.

Olhando pela cidade, é possível dizer que a nacionalidade estrangeira com mais ambientes de alimentação é a italiana, não é mesmo? Pizzarias, casas de massas, risoterias, sorveterias. Mesmo nas nossas casas, é uma cultura muito presente. Quem nunca comeu uma ótima macarronada no almoço de domingo, rodeado pela família? Os ambientes de alimentação típicos dessa cultura são muito marcados por grandes mesas, toalhas xadrezes, diversos quadros nas paredes com fotografias de pessoas e locais, e elementos decorativos que remetem à história do estabelecimento e de seus proprietários.

Uma boa iniciativa para que as culturas estrangeiras sobrevivam fora do país de origem é criar um centro para que seja possível vivenciar um pouco da nação. Nesses locais, é possível conhecer pratos típicos, ter aulas de língua e até mesmo aulas de dança. Assim, os hábitos tradicionais são perpetuados e é possível manter as particularidades dos povos que foram de extrema importância para a formação cultural-alimentar da cidade.

E, claro, não poderia deixar de citar um local de referência para a cultura italiana: a  Casa D’Itália. Localizado no centro da cidade, o centro cultural abriga eventos  gastronômicos, palestras, oficinas, exposições, eventos culturais, campanhas sociais e muito mais. Em locais assim, os descendentes podem se reunir e passar para frente seus rituais e tradições, evitando que se percam com o tempo.

E aí? Ainda tem alguma dúvida sobre como os alimentos influenciam a formação de uma cidade? Aposto que vai passar a reparar mais nos ambientes de alimentação que você frequenta e na forte conexão da cidade com as nacionalidades que a formaram.

Seja como for, é sempre bom compreendermos e valorizarmos  nossa história! 


Luiza Coury

Arquiteta e designer por formação, mas a paixão é pela cozinha. Gastrônoma pela UniAcademia e pós-graduada em Cozinha Brasileira. Apaixonada pela cozinha italiana, sendo proprietária de uma empresa especializada em massas caseiras, a Basílico.