Um Titanic que deu certo

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 22, 2022 – Rodrigo Mangal |  Um Titanic que deu certo


Em 15 de abril de 1912 afunda, no Oceano Atlântico, o navio Titanic, cinco dias após o início de sua viagem inaugural. Era considerado, por conta das inovações em seu projeto, um navio “inafundável”. Caso o comandante desviasse sua rota em apenas 1 grau uma hora antes de seu acidente, talvez não tivéssemos a obra cinematográfica, sucesso de bilheteria, protagonizada por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. Muito provavelmente outros navios afundariam, gerando, quem sabe, outros filmes. Talvez, em algum universo paralelo, seja assim que tenha acontecido. O fato é que esse terrível acidente mudou o destino das viagens marítimas, acarretando mudanças nas leis internacionais de navegação e, com certeza, salvando muitas outras vidas.

Ao fim de 2019, quase 108 anos depois desse evento trágico e histórico para a humanidade, nos deparamos com outro evento trágico e histórico para a humanidade: a pandemia causada  pelo coronavírus. Esse, muito maior e mais impactante, em vários níveis de significado, objetivos e subjetivos. Quem não tiver sido fortemente impactado pelos acontecimentos, ainda que em nível psicológico, bom sujeito não é, como já dizia o famoso samba de Dorival Caymmi. Se a internet já havia tirado as pessoas do armário, a pandemia terminou de explodir o móvel onde guardamos roupas e cuecas. Digo isso pois venho aqui contar um pouco da minha trajetória e do fruto saudável, adocicado e colorido, gerado em tempos de incerteza: O Cabaret dos Seres da Ribalta. 

Uma semana antes de ser “oficialmente decretada” a chegada da pandemia ao Brasil, nas primeiras semanas de março de 2020, concluía eu meu doutorado em física teórica pelo Departamento de Física da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Não cometerei aqui a deselegância de mencionar o título da tese nem sobre o que se tratava o trabalho, até porque, com a distância que me separa desse momento, já não entendo bem e não me lembro direito mais. Após abrir mão de minha carreira artística como ator e diretor em São Paulo, em paralelo à conclusão sofrida na graduação de engenharia naval, estava eu decidido a continuar minha vida profissional como pesquisador universitário de física teórica no Brasil, algo muito valorizado em tempos de governo Bolsonaro (“ironiquinho” eu agora). Finalmente eu iria conciliar dois aspectos fortes na minha personalidade: matemática e imaginação. Somente a Física teórica poderia me propiciar tal união. Meu próximo passo seria, então, conquistar uma bolsa de pós-doutorado. E sim, o verbo correto seria realmente conquistar, dado o esforço que teria eu que empreender, semelhante a um guerreiro que conquista sozinho, munido de uma tesoura e uma faca, uma cidade feudal fortemente armada na idade média.

E como conquistar? Dada a situação, precisaria eu estudar muito mais, me especializar muito mais e, se não fosse pedir muito, escrever um artigo científico que solucionasse, sem sombra de dúvidas, um dos grandes dilemas da Física moderna atual, como a origem da matéria escura, por exemplo. Bem, em um momento de pandemia, com a necessidade do isolamento,  manter-se em casa, estudando alucinadamente, seria uma atividade produtiva, possível de ser realizada, correto? Errado. Aprofundar-se em um estudo, fechado  no quarto ou no escritório, sem a oportunidade ou possibilidade de sair dessa “caixa”, tornou qualquer atividade que exigisse altos níveis de concentração praticamente impossível naquele momento. E digo isso com algum grau de certeza pelos contatos que tive com colegas e professores em situação semelhante à minha. 

O que fazer então? (parte 1)

Com a situação que se configurava, acompanhando as notícias nas redes sociais, começavam a surgir iniciativas de união entre os artistas de Juiz de Fora para buscar alternativas de solução para a área da cultura na cidade. E, assim, descobrimos o aplicativo Zoom, para reuniões online, que possibilitou um encontro entre agentes culturais da cidade, onde muitos não se conheciam. Surge assim o MARE (Movimento Artístico Evolucionário), uma união ampla e inédita de vários artistas e produtores da cidade de Juiz de Fora. Desde o primeiro momento, duas frentes de batalha a percorrer se impuseram, face aos tempos que viriam: a luta política, em prol de políticas públicas que aliviassem um pouco a dificuldade dos artistas, já que seriam os primeiros a parar e os últimos a voltar, e a pergunta sem resposta até ali: como continuar produzindo cultura em tempos de pandemia? Depois de me envolver em um primeiro momento na batalha política, percebi que minha melhor contribuição seria buscar alternativas de produção cultural para o futuro próximo. Alinhado com outros cinco colegas que se empenharam em lutar na mesma batalha, formou-se então o Coletivo Seres da Ribalta, nome que eu mesmo sugeri, inspirado no meu apelido nos tempos recém-vividos de pós-graduação em Física. 

O coletivo formou-se com artistas da área da música (Sil Andrade), das artes cênicas (Marcus Amaral), da palhaçaria (Revelino Mattos), da dança (Christine Sílmor) e até do teatro de marionetes (Alexandre Gutierrez). As primeiras formas encontradas pelos artistas em todo o mundo para exibir seus trabalhos foram as famosas lives, apresentações de música e entrevistas, principalmente transmitidas ao vivo pelo Instagram. Como formávamos um grupo de linguagens diversificadas, decidimos produzir um Cabaré quinzenal, um show de variedades artísticas com as linguagens dominadas pelos membros do coletivo, transmitido ao vivo pela internet, com cada um de sua casa executando seu número. Após algumas semanas de ensaio e preparo, realizamos o primeiro ensaio técnico para avaliar o projeto antes de exibi-lo ao público. E o resultado não foi satisfatório. Sem uma transmissão poderosa pelas redes sociais, somente com a internet “caseira” de todos nós, a sensação para o público seria a de um míope assistindo um espetáculo artístico sem óculos. 

O que fazer então? (parte 2)      

A proposta que surgiu foi a seguinte: em vez de se produzir um cabaré quinzenal, com baixa qualidade técnica de transmissão, que tal produzir e gravar um primeiro com qualidade de cinema? Surge assim o Cabaret dos Seres da Ribalta, um cabaré cinematográfico, gravado em patrimônios históricos da cidade de Juiz de Fora. O primeiro lugar escolhido foi o Cine-Theatro Central, um dos prédios mais belos da cidade, se não aquele com o interior mais belo. E a proposta era usar todo o teatro como um grande estúdio, e não simplesmente registrar os números artísticos executados no palco. Para a realização desse projeto, contamos com as parcerias fundamentais de Rodrigo Soares e Rodrigo Paschoal (câmeras), André Medeiros (captação de áudio) e Fred Fonseca (edição) para que o cabaré se realizasse de forma colaborativa. Além do palco, camarotes, sala de recepção do público e até banheiros se transformaram em cenário para o primeiro episódio. O resultado pode ser conferido em https://www.youtube.com/watch?v=LV-eu9a0xSg

Além do retorno extremamente positivo de audiência e comentários elogiosos ao trabalho, a primeira edição do cabaré foi inscrita no prêmio Janelas Abertas, promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Entre mais de 400 trabalhos inscritos, o primeiro episódio foi selecionado em primeiro lugar. Além do reconhecimento do trabalho, a premiação em dinheiro, em conjunto com a campanha de arrecadação via redes sociais, nos possibilitou planejar e executar uma segunda edição, dessa vez com recursos financeiros que possibilitaram pagar pelos serviços da equipe técnica de gravação (câmeras, editores, fotógrafos, etc). Dessa vez, o patrimônio público escolhido foi o complexo de construções da antiga estação ferroviária: o prédio da Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras e o Museu Ferroviário. Como tema deste segundo episódio, toda a memória afetiva existente no inconsciente coletivo dos áureos tempos do transporte ferroviário. Além do cenário, elemento fundamental na construção da narrativa, este segundo episódio contaria também com as ilustrações do artista plástico Ramón Brandão, conectando de forma orgânica e visceral as imagens cinematográficas das diversas linguagens artísticas e estabelecendo, assim, o que acreditamos ser o formato definitivo do projeto.

Nesta segunda edição, o espectador poderá apreciar uma nova interpretação para um clássico trecho de um monólogo de Chaplin em um cenário impactante, uma encenação inusitada de teatro de bonecos de um trecho de Dom Quixote, e também um curta-metragem que remete aos primórdios do humor em cinema mudo. Além disso, um sofisticado número de dança contemporânea se materializa na tela a partir de memórias de infância. Logo na sequência, apreciamos a belíssima canção “Fragmentos”, de autoria de Driano Barboza, criada com forma de pedido de namoro. Destaca-se também a canção “O Luar”, com letra e música de José Amaro, músico nascido em Juiz de Fora, negro, motorneiro dos saudosos bondes elétricos de Juiz de Fora, que completou em 2021 cem anos de vida. Este segundo episódio pode ser visto em https://www.youtube.com/watch?v=GGILmBe1_CY.  

Tanto quanto o destino trágico do Titanic mudou a história da navegação marítima (não talvez em algum universo paralelo), a pandemia causada pelo coronavírus mudou radicalmente o curso da história da humanidade. Sem a pandemia, a união dos artistas do MARE e do Coletivo dos Seres da Ribalta provavelmente não aconteceria. Um dos resultados desse encontro, em uma pequena cidade do globo terrestre, foi o surgimento do projeto Cabaret dos Seres da Ribalta. Talvez, nem o filme de James Cameron nem os dois episódios do Cabaret se realizaram em algum universo paralelo, onde as pessoas que os assistiriam estão entediadas assistindo a alguma novela ou partida de futebol.


Referências Bibliográficas:

ASANTE, Molefi.  Afrocentric idea in education. The Journal of Negro. Vol. 60. No. 2, Spring 1991, p.170-180.

ASANTE, K. Afrocentricidade: notas sobre uma posição disciplinar. In: NASCIMENTO, E. L. (Org.). Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009. p. 93-110.

BOURDIEU, Pierre. Escritos de Educação. Petrópolis: Vozes, 2007.

GHIRALDELLI JR., Paulo. Filosofia política para educadores: Democracia e direitos de minorias. Barueri: Manole, 2013.

KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África? Entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2006. Disponível no site do Jornal da Angola: www.jornaldeangola.sapo.ao/17/0/os_bantu_entraram_cedo_para_a_historia Último acesso: 29 de janeiro de 2020.

NOGUERA, Renato. “Ubuntu como modo de existir: elementos gerais para uma ética afroperspectivista”. In: Revista da ABPN, v.3, nº 6., 2011/2012, p.147-150.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Nem preto, nem branco, muito pelo contrário. Cor e raça na sociabilidade brasileira. São Paulo: Claro Enigma, 2012.


Rodrigo Mangal

Iniciou sua carreira artística em 1990 no GTA – Grupo de Teatro da Academia – onde participou como ator em cinco peças. Em 1993 passa a integrar o elenco do TQ – Teatro de Quintal, tradicional grupo de humor de Juiz de Fora liderado por Gueminho Bernardes. Em 1996 muda-se para São Paulo e monta o grupo humorístico Vérber Diriges, uma espécie de franquia do TQ, onde passa a atuar como ator e diretor. Com o reconhecimento do trabalho do Vérber pela classe artística de São Paulo, Rodrigo Mangal é convidado a atuar em outras importantes produções teatrais entre os anos de 2000 e 2008, como Anjo Proibido (direção de Kiko Jaess), inspirada na obra de Nelson Rodrigues; Nos Campos de Piratininga, de Renata Palotini; Cinderela, adaptação do conto infantil escrita por José Wilker com direção de Eduardo Martini, entre tantas outras. Após algumas participações em filmes nacionais, publicidades e trabalhos para importantes empresas do cenário nacional, é convidado em 2008 por Hugo Possolo a integrar como palhaço o elenco de Oceano, importante projeto de retomada do circo nacional através do projeto Circo Roda Brasil, liderado pelo tradicional grupo Parlapatões. Em seguida integra também a montagem de DNA – Somos Todos Iguais, projeto circense também produzido pelo Circo Roda Brasil. Encerrada a temporada de DNA, passa a integrar o elenco fixo do grupo Parlapatões, comandado por Hugo Possolo e Raul Barreto, onde participa de uma série de espetáculos como Parlapatões Revistam Angeli, com estreia no Festival de Curitiba de 2013, As Nuvens (ou um Deus chamado Dinheiro), Nóis Otários, entre várias produções do grupo Parlapatões das quais participou e continua participando. Atualmente é integrante do MARE – Movimento Artístico Evolucionário onde já produziu e dirigiu o vídeo manifesto do movimento e dois episódios do Cabaret dos Seres da Ribalta. Possui graduação em engenharia naval e mestrado e doutorado em física teórica.