Tre Piani, de Nanni Moretti

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 22, 2022 – Daniel Giotti |  Tre Piani, de Nanni Moretti


Tre Piani é o mais recente filme de Nanni Moretti, para muitos o maior dos cineastas italianos da atualidade. 

E Paolo Sorrentino? Melhor não entrar nessa disputa e apenas torcer para que venham mais e mais filmes de ambos.

Moretti imprime tom dramático e existencialista para tratar do destino de quatro famílias tipicamente burguesas, que moram nos três andares de um também típico prédio romano. 

Obviamente, algumas vezes os destinos se cruzam, aparecem as complexidades corriqueiras — ou nem tanto assim — da vida, e elas precisam ser enfrentadas não a partir de modelos abstratos, fórmulas prontas de uma vida ideal, e, sim, como elas de fato são.

Desde O quarto do filho, que recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cannes, Nanni se mostra, para mim, como um diretor não com um olhar pessimista, mas como alguém que estoicamente entende que há coisas incontroláveis em nossas vidas.

Logo no início do filme, há um acidente de carro envolvendo o filho do casal de juízes que mora no último andar. O acidente atinge o térreo do apartamento de uma das famílias.

Algo incontrolável?

Se a lei é igual para todos, como está exposto numa mensagem na parede atrás do assento de juízes nas salas de tribunais focada em várias cenas do filme, a questão passa a ser como aqueles pais, tão ciosos da aplicação correta do direito e da distribuição equânime da justiça, lidarão com um possível crime cometido por alguém de sua família.

O pai juiz é interpretado por Nanni, sendo um exercício interessante comparar a atuação dele, dando vida a alguém mais pragmático, pessimista e cansado dos erros do filho, com a do diretor, cujo olhar devassador dos dramas mais íntimos antevê, ainda assim, alguma beleza da vida em meio a suas contradições e hipocrisias.

É curioso que, em outra história do filme, também o crime seja um dos fios condutores da trama, numa discussão interessante sobre os usos “pequenos burgueses” que se pode fazer do direito para cimentar grandes ódios e profundos ressentimentos.

Em outra das histórias, essa acentuadamente psicológica, uma mãe, sempre sozinha à espera do retorno do marido que trabalha fora da cidade, tem de enfrentar o medo de “enlouquecer”, sem saber separar a realidade do delírio.

As crianças aparecem em todas essas tramas, rompendo um pouco o caldeirão das misérias humanas dos adultos.

Algumas delas, é claro, já têm que lidar com suas primeiras questões existenciais, mais ou menos intensas.

Nesse cinema que se pode qualificar de intimista, Moretti consegue, em menos de duas horas, cobrir um arco de dez anos, a fim de que não tenhamos apenas flashes de cada um dos dramas, deixando o julgamento sobre as eventuais falhas humanas das personagens para quem assiste ao filme.


Daniel Giotti

É juiz-forano apaixonado, escritor, autor de versos e crônicas que estão nos livros “Inverso Direito” e “1981 Ficou marcado na história”. Também é jurista e professor de Direito com vários artigos e livros publicados na área. Escreveu, ainda, recentemente com Cleber Antunes o livro “Caridade e Firmeza: origem, rito e história”