Paulo Freire, democracia e a pedagogia do oprimido: questões da atualidade

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 22, 2022 – Aline Choucair e Daniel Ribeiro de Almeida Chacon | Paulo Freire, democracia e a pedagogia do oprimido: questões da atualidade


Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife/PE, no dia 19 de setembro de 1921 e, se estivesse vivo, completaria, no ano de 2021, 100 anos. O legado deste autor para as Humanidades de forma geral é inequívoco, sendo uma referência para o debate sobre a transformação social por meio da educação e de uma práxis com base no diálogo.  Patrono da educação brasileira, Freire tem 29 títulos de Doutor Honoris Causa por Universidades da Europa e da América, e várias outras menções e prêmios, como Educação pela Paz, da UNESCO, que recebeu em 1986. Além disso, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz no ano de 1993. Também, de acordo com a ferramenta da Google Scholar, que é usada para pesquisa no meio acadêmico, Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado do mundo em trabalhos científicos na área das Humanidades. 

Paulo Freire – Guia do estudante

Paulo Freire foi preso e exilado na Ditadura Civil-Militar no Brasil no ano de 1964. O autor viajou para locais como América Latina, Estados Unidos, Europa e África para atuar em atividades didático-pedagógicas sobre o processo de alfabetização de adultos/as e também refletir sobre as estruturas sociais desiguais que perpassam a sociedade capitalista . Discorreu com ênfase na crítica à sociedade burguesa e no processo de opressão contra os grupos populares. Quando Paulo Freire foi exilado, a Ditadura-Civil Militar propôs um Programa de Alfabetização – Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL, que representava os preceitos do Estado Autoritário. Esse Programa não conseguiu conduzir com êxito os processos de alfabetização como os Movimentos de Cultura Popular Freirianos, no início da década de 1960, no Nordeste Brasileiro.

A Ditadura Civil-Militar interrompe um processo importante para a educação brasileira e, sobretudo, para os sujeitos marginalizados em nossa sociedade. Em um programa com o entrevistador Serginho Groisman, Paulo Freire foi questionado por uma jovem: 

Jovem: Eu gostaria de saber o que foi a Ditadura para a Educação Brasileira. Paulo Freire: Olha, puxa, eu acho assim, uma pergunta muito bacana e uma pergunta também… Eu imagino a curiosidade de muitos e muitas de vocês quando se põem diante de mim e ouviram falar de mim. Eu até fiquei muito contente agora com essas respostas que eu vi na rua. Eu confesso que ultrapassaram até a minha expectativa. Talvez seja até um pouco de humildade minha, não esperava ser tão conhecido e bem, quanto agora as respostas revelaram. Eu acho que muitos de vocês devem ficar curiosos com relação, por exemplo, ao que aconteceu em 64 com um cara que porque estava preocupadíssimo em desenvolver um plano, um Programa de Alfabetização de Adultos para o país. Fui preso por causa disso. Quer dizer… eu realmente me lembro de que quando fui para o exílio e comecei a discutir na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos as razões do meu exílio, as razões por que fui preso e expulso da Universidade. Os caras não podiam entender e nem compreender. Eu fui preso e exilado por causa da Ditadura. A Ditadura Militar de 64 considerou, e não só considerou, mas disse por escrito, publicou, que eu era um perigoso, subversivo internacional, um inimigo do povo brasileiro e inimigo de Deus, ainda arranjaram essa carga para mim de ser inimigo de Deus. Poxa, acho que a Ditadura estragou esse país da gente durante muito tempo e continua estragando hoje. Quer dizer… evidentemente que a Ditadura Militar não inaugurou no Brasil o autoritarismo. O autoritarismo está entranhado na natureza mesma da nossa sociedade. O Brasil foi inventado autoritariamente, mas os militares deram uma indiscutível contribuição ao autoritarismo. Eles ajudaram muito a crescer o autoritarismo, a violência, a mentira, foi uma coisa trágica isso. Eu acho que esse período de Ditadura no Brasil, Deus queira, agora diria eu, que jamais se reinvente. O meu gosto é que nós todos, brasileiras e brasileiros, meninos, meninas, velhos, maduros, que nós todos tomemos tal gosto pela liberdade, tal gosto pela presença no mundo, pela pergunta, pela criatividade, pela ação, pela denúncia, pelo anúncio, que jamais seja possível no Brasil a gente voltar àquela experiência do pesado silêncio sobre nós1.

Hoje, infelizmente, muitos defendem o período ditatorial e seu retorno, sem saber de fato o que ocorreu. Durante o seu período de exílio em virtude da ditadura, Paulo Freire escreveu, ainda no Chile, por volta de 1968, seu principal livro, intitulado “Pedagogia do oprimido”. A referida obra assinala, de modo sui generis, a dimensão política da educação. Em que pese a natureza conceitual do problema, a proposta da Pedagogia do oprimido não se acomoda numa especulação estéril e desvinculada da vida.

 A proposta pedagógica de Freire consiste em uma educação dialógica, participante, problematizadora e libertadora, na qual a classe oprimida procura libertar-se das amarras da coisificação, da desumanização para, desse modo, exercer suas potencialidades, ou como Freire denominava, a vocação ontológica de “ser mais”, isto é de ser gente, plenamente humanizada, de ser, assim, autora de sua própria história libertadora por meio da práxis.  Nesse horizonte, Paulo Freire propõe uma pedagogia contextualizada, ou seja, elaborada e vivenciada a partir da classe oprimida, de sua própria linguagem e valores.

Com efeito, a pedagogia libertadora e humanista proposta por ele consiste em dois momentos distintos:

O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se, na práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo permanente da libertação2

Contudo, Paulo Freire reconhece não ser essa uma tarefa simples. Há, entre a classe oprimida, um medo da liberdade, um medo de assumi-la, enquanto a classe opressora teme perdê-la, teme não ser mais livre para exercer a opressão. Freire afirma, portanto, que: “a libertação é, por isto, um parto. E um parto doloroso3”, porém, inevitável, pois, na luta pela redenção, os/as oprimidos/as deverão se valer apenas de si mesmos como modelo de sua libertação.

Paulo Freire desenvolve, portanto, uma teoria da ação na conquista por liberdade e condições de vida digna.   Em sua pedagogia, a classe oprimida torna-se protagonista de sua própria libertação a partir da consciência crítica, compreendida como práxis, isto é, teoria/ação transformadora.  

Nesse sentido, a Pedagogia  do oprimido  é  um  atual  tratado  que  versa  sobre  educação, liberdade, democracia,  epistemologia, ética  e  política,  indicado  àqueles  e àquelas que  se  colocam  a pergunta  pela  justiça,  amor  e  misericórdia  face  à  injustiça,  dominação  e desumanização.   

 [1] Serginho Groisman entrevista Paulo Freire. Paulo Freire entrevistado no programa Matéria Prima da TV Cultura, 1990. Acessado em 8 de abril de 2020. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Zx-3WVDLzyQ. Canal no YouTube Cecierj. 

[2]  FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 60 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016, p. 74.

[3]  FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 60 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016, p. 70.


Referências Bibliográficas:

FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. 38ª ed. Rio de Janeiro / São Paulo: Paz & Terra, 2014. 

_____. Pedagogia do oprimido. 60 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. Serginho Groisman entrevista Paulo Freire. Paulo Freire entrevistado no programa Matéria Prima da TV Cultura, 1990. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Zx-3WVDLzyQ. Canal no YouTube Cecierj.


Aline Choucair

Possui graduação em História pelo Centro Universitário Newton Paiva, especialização em História da Cultura e da Arte pela Universidade Federal de Minas Gerais – FAFICH/UFMG, Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais – FaE/UFMG e Doutorado em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais – FaE/UFMG. Cursou Pós Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação – Educação e Formação Humana – da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais – PPGE/UEMG. É professora efetiva da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais – FaE/UEMG. É editora chefe da Revista Científica “SCIAS. Direitos Humanos e Educação”.


Daniel Ribeiro de Almeida Chacon

Professor Efetivo e Pesquisador da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais – FaE/CBH/UEMG. Detém formação em três áreas, a saber:  Filosofia, Pedagogia e Teologia / Ciência da Religião. Atualmente, realiza pesquisas nos seguintes temas: Filosofia Política, Filosofia da Religião e Educação e Direitos Humanos.