Museu Dr. Américo Werneck: Um museu com nome de doutor, mas que acolhe a todes!

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 22, 2022 – Francislei Lima |  Museu Dr. Américo Werneck: Um museu com nome de doutor, mas que acolhe a todes!


A escolha do nome para o museu criado em 1996, na cidade de Lambari, localizada no circuito das águas, no sul de Minas Gerais, evidenciou ao longo do tempo uma série de problemáticas acerca da memória e do patrimônio para a sua comunidade. O personagem homenageado, naquela ocasião, veio a ser o do Dr. Américo Werneck. Controverso do ponto de vista da história, mas celebrado pela comunidade local como o modelo de agente político, foi responsável por transformar a cidade, no início do século XX, num lugar ideal que habita o imaginário das pessoas como sendo o período de maior riqueza e progresso. Tomada a devida distância do senso comum, podemos interpretar a associação ao nome de Werneck como um esforço para valorizar memórias afetivas locais conectadas a um passado em que a fundação da cidade de Águas Virtuosas do Lambary estivesse relacionada somente a grandes feitos.

É certo que Américo Werneck não poupou esforços para a realização das obras de melhoramento da estância hidromineral do Lambary. Fachadas imponentes e ambientes luxuosos para os jogos e diversões aquáticas foram fabricados com os materiais escolhidos conforme o que havia de mais “moderno” no mercado europeu: pinho de riga, cimento, ferro fundido, porcelanas, cristais, tecidos e a iluminação a gás e elétrica – que havia pessoalmente conferido em sua viagem para a Exposição Universal de Paris, em 1890. Sua empreitada se materializou em arquiteturas construídas junto às fontes de águas gasosas que suscitavam sonhos1 , de um olhar contemplativo sobre tais coisas transformadas em mercadoria. Nas suas próprias palavras, quando do discurso de inauguração proferido na noite do dia 24 de abril de 1911, diante de Hermes da Fonseca, Presidente da República, e de Wenceslau Braz, Presidente da Província de Minas Gerais, reforçou que: 

Isto foi feito para receber a aristocracia, o alto comércio, a alta indústria, a alta finança, a alta política, o supremo magistrado da república com todo o seu ministério, no período de descanso, que precisa entrar nos nossos costumes; isto foi feito para encantar a natureza feminina e seduzir os corações2.

Esse tempo da altivez, contudo, passou. Com o advento da farmacoterapia3 nas décadas seguintes e a proibição dos jogos de azar no Brasil pelo governo Eurico Gaspar Dutra, em 1946, os hotéis se esvaziaram ano após ano, restando apenas as memórias saudosistas de uma temporalidade marcada pela chegada e partida do trem trazendo e levando aquáticas/os4 do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Foto: Postal “LAMBARY. Vista parcial do Parque Wenceslau Braz e Cidade. Loja Nogueira”, c. 1911. Impressão sobre papel fotográfico, 9 x 13,5 cm. Coleção do Museu Dr. Américo Werneck.

Fechado esse portal, era preciso que a população local sonhasse os seus próprios sonhos para o futuro. E que desafio! Lambari se viu obrigada a lidar com seu passado, de uma cidade criada como o lugar para acolher o outro, a/o viajante, e nunca a si própria. Desse paradoxo, surge o esforço de personagens como o senhor Nascime Bacha5, de origem libanesa, para reunir objetos e documentos que dessem conta de abarcar a identidade das e dos lambarienses. 

   Desse trabalho intuitivo, sem o acompanhamento de profissionais da museologia ou de historiadoras/es, formou-se um acervo que reúne de tudo um pouco, ironicamente, acondicionado aos poucos no Cassino – imóvel tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA, somente em 2002. De lá para cá, foram muitos os percalços enfrentados para a salvaguarda do acervo, tendo em vista a necessidade de retirada de todos os objetos e documentos textuais e visuais para outra reserva improvisada, já que não houve, em nenhum momento, por parte da prefeitura, quando da criação do Museu Dr. Américo Werneck – MAW, a elaboração de projeto de ocupação do Cassino que oficializasse a sessão do espaço para se sediar ali o Museu da cidade. 

Foto: Postal “LAMBARY. Cascata do grande Casino. Loja Nogueira”, c. 1911. Impressão sobre papel fotográfico, 9 x 13,5 cm. Coleção do Museu Dr. Américo Werneck.

O MAW, entretanto, conquista sua sede somente neste ano de 2021, por meio de um Termo de Cooperação Técnica, assinado com o Parque Estadual Nova Baden e o Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais, tendo a possibilidade de transformar a antiga Estação Ferroviária de Nova Baden em um equipamento museal. Todo o nosso esforço para a elaboração de um Plano Museológico que prevê a reforma/restauro do prédio construído em 1894 se dá quando recebemos o feliz convite para colaborar com a Revista CASA D’ITÁLIA, o qual esperamos retribuir lançando algumas questões que perpassam as políticas de memória das duas instituições. 

Se uma das principais atribuições de um museu vem a ser o acolhimento das pessoas que o circundam e são detentoras dos saberes vinculados aos objetos e documentos ali protegidos, não podemos dar continuidade a qualquer ação criativa sem o envolvimento das comunidades e a manifestação de suas versões sobre os vestígios do passado. A Estação Ferroviária de Nova Baden foi, no passado, a principal porta de chegada para famílias de migrantes italianas/os, a fim de exercer diferentes tipos de trabalho, principalmente quanto à oferta dos serviços necessários para o acolhimento do turismo aquático no povoado de Águas Virtuosas do Lambary, cada vez mais frequentado. Músicos, sapateiros, comerciantes, cozinheiras/os e garçons: foram muitos os ofícios a que se dedicaram. Preencheram os lugares que deveriam ser reservados a pessoas brancas, enquanto a população negra seguia em suas lutas por liberdade e cidadania no pós-abolição, anônimas nos livros de memorialistas, enquanto continuavam a atuar como lavadeiras, cozinheiras/os, arrumadeiras, lavradores, retireiros, maleteiros, aguadeiros e pedreiros. 

A promoção do encontro entre as velhas e novas gerações permite-nos tensionar uma leitura oficializante e romantizada sobre esse passado, pondo em contato narrativas e visualidades sobre a Rua do Pito Aceso e a Rua dos Italianos, por exemplo. Na primeira, havia uma tapera, simples moradia de um senhor negro, cujo nome se perdeu na passagem do tempo, que se sentava à soleira da porta para o seu momento de pausa lúdica ao fumar um cachimbo de barro. Já na segunda, encontramos as casas de tijolos, com as fachadas ornadas com relevos em estuque e cobertas de telha francesa, construídas como habitação de grande parte dos homens e mulheres vindos da Itália, na década de 1890. Se o homem negro permanece anônimo para nós, 30 homens que integravam a colônia italiana tiveram o direito de voto reconhecido nas eleições de 15 de novembro de 1894, fato que resultou na troca do antigo nome da rua Camilo Fraga para Rua dos Italianos6.

Como museu comunitário, nossa principal missão consiste em fazer ponte, conectar as pessoas, suas lembranças e projetos para um futuro mais justo, digno e cidadão.  Conforme reforça Mário Chagas7, nosso compromisso social

(…) implica uma nova ética, uma nova postura museológica; implica a valorização das relações, das articulações entre diferentes públicos, dos agenciamentos que produzem coleções e descoleções, musealização e desmusealização, territorialidades e desterritorialidades.

Nesses termos, enquanto uma instituição que promove ações de musealização sobre essa territorialidade ampliada, que se metamorfoseia conforme os desafios e perguntas lançadas para a realidade em que vivemos, problematizar o passado nos ajuda a escolher quais molduras melhor a enquadram.  Ou então, se torna uma ação/ um compromisso primordial com a História; dito de outra maneira, incluir os muitos rostos que foram (e ainda são) excluídos dos retratos, até então reservados somente aos “grandes da cidade”. Podemos elucidar tal provocação lançando mão, mais uma vez, do exemplo do projeto de Américo Werneck, entre os anos de 1909 e 1911, para o saneamento, alinhamento e embelezamento da estância hidromineral do Lambary. O principal dos prédios públicos monumentais a serem construídos veio a ser o Cassino do Lago, (re)desenhando o mapa afetivo do povoado ao mobilizar um número significativo de trabalhadores para tanto. Todavia, não possuímos em nossa coleção nenhuma fotografia desses homens que atuaram no canteiro de obras. Temos apenas o registro fotográfico da suntuosa fachada do prédio, rodeado por um vazio convidativo para o parente que os recebiam com as notícias das diversões por essas plagas, transcritas no verso de um postal. A única imagem com referência ao homem do trabalho é aquela do condutor da gôndola importada para singrar o lago durante os bailes venezianos a serem realizados ali.

Foto: Cartão Postal “LAMBARY. – Grande Lago”, c. 1911. Impressão sobre cartão, 9 x 14 cm. Coleção do Museu Dr. Américo Werneck, Lambari MG.

O nosso principal desafio hoje, talvez, vem a ser dar conta do registro das memórias dessas pessoas cujos rostos, nomes e afetos não cabiam no discurso da oficialidade, da solenidade, da suntuosidade. (Trans)vendo8 esses rostos e vivências podemos tornar menos frios, menos distantes da nossa realidade os tantos objetos guardados em nosso acervo diretamente relacionados aos afazeres do comércio, dos hotéis, das casas e da rua. Nesse sentido, as ações educativas cumprem um papel fundamental ao pôr as crianças em contato  com vestígios do passado, como uma piteira de barro ou uma forma para sapatos, à medida que velhas/os são convocadas/os para esse diálogo possível e sempre aberto. 

Esse exercício de imaginabilidade nos possibilita lançar perguntas que deixam ecoar ruídos das problemáticas do presente. No ano em que celebramos o sétimo centenário de Dante Alighieri, ironicamente o MAW recebe a doação de uma edição datada de 1969 da tradução dos versos do “Purgatório”, feita pela poetisa Henriqueta Lisboa, nascida em Lambari. Pensemos no quanto o contato com os seus escritos e com a realidade de uma mulher dedicada às letras possa abrir novas perspectivas para meninas e jovens. 

Portanto, são os sonhos das crianças, jovens, adultos/as e velhas/os que pretendemos cultivar a partir do tensionamento da realidade vivenciada em uma cidade de interior de Minas como Lambari, cujo museu tem nome de doutor, mas busca acolher a todas as pessoas, suas culturas, trajetórias e memórias9.

[1] BENJAMIN, Walter. Espaços que suscitam sonhos, museu, pavilhões de fontes hidrominerais. In: CHAGAS, Mário. Revista do patrimônio histórico e artístico nacional – Museus: antropofagia da memória e do patrimônio. n. 31. Rio de Janeiro: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2005, 133-147.

[2] Trecho do discurso pronunciado por Americo Werneck na solenidade de inauguração dos melhoramentos de Águas Virtuosas, publicado em 27 de abril de 1911. Melhoramentos de Lambary, Belo Horizonte/Minas Gerais, 1911, p.5.

[3] Marras, Stelio. A Propósito de Águas Virtuosas: formação e ocorrências de uma estação balneária no Brasil . Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

[4] “Os usuários das águas eram os chamados aquacticos ou aquistas, predominando a primeira forma. Embora hoje essa expressão tenha sido substituída por turista, podendo ganhar a aparência de algo jocoso, tudo indica que, sob a perspectiva dos seus contemporâneos, ser um (a) aquactico (a )estava mais próximo de ser incluído como alguém privilegiado do que representar algo burlesco.” LIMA, Glaura Teixeira Nogueira. O natural e o construído: a estação balneária de Araxá nos anos 1920-1940. Revista Brasileira de História. São Paulo, v.26, n.51, 2006, p.232.

[5] Nascime Bacha (1920-2013)era de uma família libanesa radicada em Lambari no final do século XIX. O pai dele trabalhou como mestre de obras no período de construção das residências no centro da cidade justamente no período de melhoramentos empreendidos pelos agentes políticos Garção Stockler e Américo Werneck. Foi combatente na Segunda Guerra Mundial e, ao retornar para sua terra natal, iniciou um trabalho de memória, conduzido por seu anseio “patriótico”, reunindo informações sobre a história local, elegendo Werneck como “herói”.

[6] Informação presente no livro do memorialista MILÉO, José Nicolau. Ruas de Lambari, Guaratinguetá, SP: Graficávila, 1970, p.50.

[7] CHAGAS, Mário. Os museus na moldura da crise. In: Revista Brasileira de Museus e Museologia, n.5. Brasília: Instituto Brasileiro de Museus, 2011, p.120.

[8] Da poesia de Manoel de Barros, Trans(ver) os museus foi o desafio lançado pela Semana Nacional dos Museus – IBRAM para este ano de 2021.

[9] Sobre os museus comunitários: VARINE, Hugues. A nova museologia: ficção ou realidade. In: _. Museologia social. Porto Alegre: Unidade Editorial da Secretaria Municipal da Cultura, 2000, p.23.


Referências Bibliográficas:

BENJAMIN, Walter. Espaços que suscitam sonhos, museu, pavilhões de fontes hidrominerais. In: CHAGAS, Mário. Revista do patrimônio histórico e artístico nacional – Museus: antropofagia da memória e do patrimônio. N. 31. Rio de Janeiro: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 2005, 133-147.

MARRAS, Stelio. A Propósito de Águas Virtuosas: formação e ocorrências de uma estação balneária no Brasil. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

MILÉO, José Nicolau. Ruas de Lambari. Guaratinguetá, SP: Graficávila, 1970.

SILVA, Francislei Lima da. Os monumentos da água no Brasil: pavilhões, fontes e chafarizes nas estâncias sul mineiras (1880-1925). 2012. Mestrado (Dissertação de História) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora/MG, 2012.VARINE, Hugues de. A Nova Museologia: Ficção ou Realidade. In: Museologia Social. Porto Alegre: Unidade Editorial da Secretaria Municipal da Cultura, 2000. p. 21-33.


Francislei Lima

É Presidente do Museu Dr. Américo Werneck, dedicando-se às pesquisas sobre a estância hidromineral de Lambari desde sua graduação em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Campanha, e, em sua dissertação de mestrado “Os monumentos da água no Brasil”, defendida na Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente, estuda a ornamentação dos chafarizes em Minas Gerais, no período colonial, pelo Programa de Pós-Graduação em História da Arte da Universidade Estadual de Campinas, bolsista CAPES.