A Itália por toda uma vida: lembranças de um mergulho na obra de Elena Ferrante

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 22, 2022 – Elisabetta Mazocoli | A Itália por toda uma vida: lembranças de um mergulho na obra de Elena Ferrante


A tetralogia napolitana, de Elena Ferrante, foi uma das séries de livro mais comentadas dos últimos anos. Em cerca de 1600 páginas (abrangendo os volumes “A amiga genial”, “História do novo sobrenome”, “História de quem foge e de quem fica” e “História da menina perdida”), as obras parecem ter criado ou desvendado todo um novo mundo – que, no entanto, talvez sempre tenha existido. A autora ousou colocar em foco uma amizade entre duas mulheres que se estende pela vida de ambas, e que se constitui, inclusive, como a única coisa que permite a existência de cada uma delas. A premissa é simples, mas não se engane: esse é um livro que fala sobre todos os assuntos, que causa imensa dor quando acaba e que parece traduzir existências inteiras. Sem meias palavras: é imperdível. 

Amiga Genial

A narrativa começa já arrebatadora. Logo no primeiro capítulo, ficamos sabendo que a personagem Lila Cerullo, já velha, desapareceu sem deixar rastros. É seu filho quem liga para a amiga mais próxima da mãe, Elena Greco, em busca de ajuda para encontrá-la – e a partir disso se dá conta de que ela sempre havia planejado fugir daquele jeito. Lenu (apelido de Elena), como quem reage contra a possibilidade de um desaparecimento completo da amiga e, de certa forma, de si mesma, decide então escrever a história da relação que tiveram ao longo de tantas décadas. Com a promessa dessa separação já em vista, a narrativa volta para a infância das duas, buscando encontrar todos os sinais que indicassem o sentido dessa futura ruptura.

E os sinais estavam em toda parte. Lenu e Lila sentem uma atração visceral uma pela outra, e viram amigas e rivais desde bem pequenas porque as duas eram consideradas especialmente inteligentes na pobre escola napolitana em que estudavam. Lenu era do tipo mais esforçada e obediente, enquanto Lila possuía uma espécie de inteligência mais intuitiva e cortante, que fugia inclusive ao seu próprio controle. Ela aprendia a fazer tudo sozinha, de um jeito que ninguém mais sabia, de ler a escrever, de trabalhar com computadores a criar modelos sofisticados de sapatos. Inventava histórias e brincadeiras e era, de um modo mais geral, uma menina que sabia usar essa inteligência para driblar as situações mais brutas da vida ou para pensar com uma audácia imprevista um futuro que ultrapassasse as ruas daquele bairro. Sua inteligência era extraordinária, e abrangia muito mais do que as tarefas da escola. Poderia ter um futuro brilhante – embora sempre pesasse sobre ela a pobreza da sua família de sapateiros, que não apoiava de modo algum que ela tecesse seus planos de continuar os estudos. 

Há momentos muito marcantes no livro, como quando as duas meninas acabam trocando e, em seguida, perdendo as únicas bonecas que tinham. Ou quando conseguem comprar juntas um livro encantado, e Lila escreve por conta própria um outro que é entregue para a professora que, a princípio, parece ser o ter desprezado, mas que significa para as meninas toda uma nova promessa de destino. Quando vemos Lila ser arremessada violentamente da janela pelo próprio pai, no entanto, somos mergulhados subitamente numa série de camadas de violência que haviam permanecido entrevistas até ali. A relação entre as meninas, então, passa a sofrer mais interrupções e desajustes, já que uma ganha a chance de seguir com os estudos e a outra fica de cama bastante machucada durante muito tempo, vendo sua brilhante vida escolar naufragar de vez.

Lenu, de todo modo, mesmo também sendo de uma família pobre, consegue ir para escola. Ela chega a estudar mais do que qualquer outra pessoa do bairro e isso, é claro, causa ressentimento em Lila. Mas não só isso: nasce ali também um pacto de admiração mútua em que cada menina parece ser a contraface da outra, e assim nunca sabemos quem é de fato a “amiga genial” que o título anunciava. Lila, afinal, mesmo não tendo continuado na escola, dá um jeito de aprender tudo o que havia por conta própria, e chega até mesmo a ensinar as matérias da escola para a amiga. Com o tempo, no entanto, acaba se frustrando demais com a situação, até que prefere evitar todos os assuntos que envolvessem aquela parte da vida, inclusive abolindo o uso do italiano e mantendo o dialeto do bairro, o que passa a marcar de forma definitiva a crescente diferença de classe entre as duas. 

Enquanto Lila se ressente por esses motivos, Lenu tem outros. É Lila, afinal, quem tem um dom tão descarado que chega a machucar, mesmo com todo o esforço de Lenu para acompanhar ou tentar superar a amiga. É ela quem, já no final de ” A amiga genial” e por todo o volume de “História do novo sobrenome”, se torna irresistivelmente bonita. É ela quem chega a atrair inclusive o rapaz que era alvo do maior interesse amoroso de Lenu e parece se tornar mais dona desse novo poder que a beleza e o novo corpo de moça lhe traziam. 

Os destinos das duas, dessa forma, vão se tornando cada vez mais diferentes. Mas elas sempre parecem ter no horizonte a vida uma da outra como uma espécie de possibilidade latente para si mesmas e,  ainda, como um guia ou até um testemunho da própria existência. E, enquanto crescem, a Itália também se transforma de maneira cada vez mais notável, já que também vemos de perto a pobreza e as relações entre os diversos grupos sociais a partir do bairro em que as meninas moravam no momento pós-guerra, num quadro que vai se desdobrando ao longo da tetralogia por muitos outros momentos e lugares. Vemos a luta de classes, a tentativa de ascensão social por parte das duas, as ciladas que os seus diferentes caminhos lhes reservam, além de um retrato claro do mundo das mulheres que palpita numa espécie de face oculta dentro de todo esse cenário. 

São mais de cinquenta anos de vida narrados entre as amigas, ainda que não necessariamente contínuos. De todo modo, sempre acabam arrumando jeitos de se encontrarem: uma lê o diário da outra, e outra continua indo atrás da conexão entre elas mesmo quando as diferenças já parecem intransponíveis demais. Se casam com homens do bairro, se separam deles, têm filhos, aceitam empregos horríveis, vivem momentos esperançosos, retornam para Nápoles – e seguem observando e vivendo tudo, em todos esses momentos. Até quando não sabemos mais o que haveria para ver. Até que inclusive alguns trágicos pontos cegos começam a emergir.

São quatro obras que vão revelando aspectos diferentes dessa amizade e que vão se aprofundando no amadurecimento dessas mulheres. Seus destinos não são o que queríamos para elas, e em muitos momentos a leitura se torna mais dolorosa. Mas ver as duas passando por todas as fases da vida é como ver uma amiga nossa, ou como acompanhar nossas mães ou avós desde o momento em que souberem que existiam, e fato é que somos compelidos a continuar acompanhando suas trajetórias por conta do violento magnetismo da escrita de Ferrante. Sentimos raiva, tristeza, revolta, queremos que as duas voltem para o começo, mas também que possam dar saltos desmedidos. O ponto mais avançado do caminho, no entanto, não se move: não podemos nos esquecer de que Lila vai desaparecer. 

Imersos na experiência arrebatadora de leitura, muitos até se perguntam: a amizade das duas é saudável? Afinal vemos como podem ser cruéis uma com a outra, como são capazes de se sabotarem mutuamente. Mas também vemos um cenário em que, muitas vezes, elas não tinham o que comer, em que uma delas havia tido o mero acesso à educação completamente bloqueado, enquanto a outra, ainda que o tivesse, era continuamente desprezada e desafiada por isso. Também vemos como as duas se casam, vemos os ganhos e os desastres bem de perto, o quanto estavam tolhidas em relação às chances de serem quem queriam ser, toda a miséria e crueldade daquele bairro emergir. E aí vemos que tantas vezes elas eram tudo o que tinham uma para a outra. Eram apenas como o oxigênio pode ser, aquela substância invisível sem a qual, no entanto, a vida não poderia germinar nem persistir.

O desfecho da relação entre elas, como acontece na própria vida, não é simples e, ao mesmo tempo em que acompanhamos as duas vivendo suas próprias vidas mais separadamente, em cada livro sentimos o final que as reúne se aproximando. A cada livro nos deparamos com um final arrebatador e ficamos quase sem poder nem respirar – até começarmos a ler o volume seguinte.  

O final dos capítulos e dos livros também revelam as duas se modificando e, ao mesmo tempo, mantendo algo muito vivo da criança que haviam sido. Elas se lembram, afinal – e as bonecas continuam voltando, os livros viram uma espécie de multiplicação de sombras. E apesar de começar com um sumiço, também vemos que nada desaparece de verdade nessa obra. Os sinais e as lembranças mais persistentes estão por toda parte, e a memória incansável de Lenu impede que a gente se esqueça de qualquer detalhe. 

Como que numa espécie de espelho ou como numa relação entre yin e yang, Lila e Lenu seguem então na esperança de não decepcionar uma à outra. Na vontade angustiada de conseguirem ver até onde a amiga poderia chegar. Em uma disputa silenciosa e ininterrupta, em uma competição que a fazia andar de mãos dadas até quando não podiam se ver. Viviam também com raiva e amargura uma da outra, é verdade, como só nas relações mais fortes e profundas isso pode existir, sem que, no entanto, isso pudesse durar ainda mais que uma vida inteira de amizade, de cumplicidade e de amor. 


Referências Bibliográficas:

FERRANTE, Elena. A Amiga Genial. Biblioteca Azul, 2015. 

______. História do novo sobrenome. Biblioteca Azul, 2016.

______. História de quem foge e de quem fica. Biblioteca Azul, 2016.

______. História da menina perdida. Biblioteca Azul, 2017.


Elisabetta Mazocoli

É estudante de jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisa tensões e confluências entre imprensa feminina e feminista. Seu principal interesse é o jornalismo cultural e literatura. Mantém um perfil chamado @travessia.literaria no instagram. E-mail: bettamazocoli@gmail.com