Entre o público e o privado: A intimidade contada por Maria Firmina dos Reis

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 21, 2022 – Natália Lopes |  Entre o público e o privado: A intimidade contada por Maria Firmina dos Reis 


Resumo: O presente trabalho pretende analisar os escritos da poetisa maranhense Maria Firmina dos Reis (1822-1917) intitulado Álbum (1853 – 1901), compilados pelo seu biógrafo José Nascimento Morais Filho. O Álbum é, segundo Reis, um livro da alma que estampa os mais íntimos sentimentos, ou seja, escritos que vislumbram a intimidade desta poetisa. Pretende-se, com este compilado de informações, entender a pessoa de Maria Firmina dos Reis enquanto mulher na sociedade maranhense do século XIX, contrapondo sua visibilidade na esfera pública, além de captar nuances da vida em sociedade, problematizando os espaços de fala e de sociabilidades habitados por ela. Cabe a este trabalho a tarefa de analisar o Álbum a partir da perspectiva de fonte histórica buscando vislumbrar a sociedade maranhense na qual esta poetisa estava inserida.

Palavras-chave: Maria Firmina dos Reis; Álbum; sociedade maranhense

Abstract: The present work intends to analyze the writings of the poet Maranhão Maria Firmina dos Reis (1822-1917) entitled Album (1853 – 1901), compiled by her biographer José Nascimento Morais Filho. The album is, according to Reis, a book of the soul that shows the most intimate feelings, that is, writings that glimpse the intimacy of this poetess. The purpose of this compilation of information is to understand the person of Maria Firmina dos Reis as a woman in Maranhão society of the nineteenth century, opposing their visibility in the public sphere, besides capturing nuances of life in society, problematizing the spaces of speech and sociabilities inhabited by she. It is the task of this work to analyze the Album from the perspective of a historical source in order to glimpse the Maranhão society to which this poet was inserted.

Keywords: Maria Firmina dos Reis; Album; Maranhão society


O álbum como fonte historiográfica

O álbum é o livro da alma; é nele que estampamos os nossos mais íntimos sentimentos, os nossos mais extremosos afetos; assim como as mais pungentes dores de nossos corações. (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p)1.

A presente citação já evidencia que a fonte de pesquisa na qual nos debruçamos neste artigo se trata de um diário, intitulado Álbum, escrito por Maria Firmina dos Reis, poetisa e professora maranhense do século XIX. Nesta citação, já percebemos que encontraremos escritos a respeito da intimidade desta mulher poetisa nos oitocentos, bem como teremos um vislumbre do mundo em que ela estava inserida.

 Deixamos claro, portanto, que o conteúdo autobiográfico possui uma voz unilateral carregada de ressignificações, ou seja, seus escritos precisam ser analisados com o mesmo rigor da memória, não perdendo de vista as nuances de esquecimento. Partiremos de uma análise de fonte construída e não de uma verdade, pois os conteúdos dos textos de seu álbum tiverem uma certa intencionalidade por parte da autora. É o que podemos perceber neste trecho: “Aqui neste livro íntimo […] a quem tenho confiado os mais ardentes e os mais profundos sentimentos de minha alma” (REIS, apud MORAIS FILHO, 1975, s/p). Deste modo, ela escreveu no álbum apenas eventos e pessoas que de alguma maneira marcaram sua vida.

Sobre isso, Raymond Williams (1984: 13) adverte sobre a escrita autobiográfica que esconde intenções subjetivas, isto é, não há relato livre de desejo, de imaginação. Contudo, segundo Neves e Pinto (2012: 1), os diários fornecem informações a respeito de uma realidade externa aos textos, uma vez que esses artefatos visam a semelhança com o verdadeiro, ou seja, a partir dos escritos poderemos vislumbrar a intimidade e as sociabilidades de Maria Firmina.

De acordo com Pinsky e Luca (2009: 316), “a história se utiliza de documentos, transformados em fonte pelo olhar do pesquisador”. E uma das fontes utilizadas são os diários pessoais, estes, segundo as autoras, foram por muito tempo desconsiderados pelos historiadores. Contudo, a partir da década de 1980, momento de revalorização do indivíduo, tal realidade muda visivelmente, tornando os diários documentos valiosos para a compreensão de vidas cotidianas de determinada época. 

Nos dias atuais, portanto, a utilização de diários pessoais como fonte documental no trabalho de (re)construção histórica assume cada vez mais um duplo papel: o de permitir ao pesquisador analisar o momento em que foi escrito, ou pelo menos depreender algumas de suas características, e o de informá-lo sobre a trajetória de vida do diarista. A obra é ela e seu próprio tempo. Ou melhor, o tempo de seu autor, enquanto representante de uma determinada sociedade, classe e época, e principalmente enquanto agente de enquadramento da memória. (MOREIRA, 1996: 183)

Assim sendo, os diários possibilitam as pesquisas por ajudar no entendimento do tempo de seu autor, bem como utilizá-los como fontes ancoradas na memória, trazendo um olhar subjetivo para os escritos deixados. Amparados nisso, partiremos de uma análise onde o indivíduo é produtor e enunciador de um discurso (DUBAR, 2004: 65), ou seja, o entendimento do álbum de Maria Firmina nos permite entender sua figura enquanto participante ativa do discurso narrado, além de buscar reflexões pautadas na intimidade e nas relações de sociabilidade em que ela estava inserida, bem como obter um vislumbre de costumes sociais.

Rompendo as barreiras do público e do privado

Mas, se o meu álbum, em algum dia, depois de minha morte, puder merecer a atenção de alguém ele levará a posteridade o nome de uma pessoa estimável como era Vicente Cabral (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p).

Essa citação de Reis é do ano de 1874 e nos faz pensar no porquê de ela discorrer sobre a possibilidade de leitura futura por outros após sua morte. A partir disso, levantamos como hipótese que de algum modo ela tinha percepção de ocupar um lugar de difícil acesso para mulheres, e principalmente para mulheres negras e pobres. Para entendermos esse lugar ocupado por ela, precisamos entender quem foi Maria Firmina. Ela nasceu no dia 11 de março de 1822, em São Luís no Maranhão, filha de Leonor Fillippa dos Reis, mulata forra2. Aos cinco anos de idade mudou-se para Villa de Guimarães, onde permaneceria até sua morte, em 11 de novembro de 1917, aos 95 anos. 

Esse lugar que temos falado que Reis ocupou é tanto o de professora pública, visto que ela passou no concurso público para a cadeira vitalícia de primeiras letras do sexo feminino da Villa de Guimarães, tendo sido nomeada em 17 de agosto de 18473, quanto o de poetisa e escritora, tendo publicado romances, contos e poesias em diversos jornais a partir da década de 1860. Portanto, o lugar ocupado por ela na imprensa maranhense estava começando a ser ocupado pelas mulheres, pois antes esses espaços públicos eram destinados aos homens. 

Essa situação começa a mudar a partir da década de 1850, visto que, tanto na Corte quanto em outras províncias, observa-se o aparecimento e a proliferação de escritos de autorias femininas, bem como periódicos editados por mulheres, como é o caso do Jornal das Senhoras, de 18524. Deste modo, fica claro a percepção que Firmina tinha de ocupar espaços, principalmente na imprensa, que estava iniciando a abertura para a circulação de publicações femininas.

Assim sendo, seu álbum ganha importância no que se refere ao entendimento a respeito da vida de uma mulher negra maranhense nos oitocentos, suas relações sociais e costumes, bem como a intimidade por trás da figura da escritora que fazia críticas sociais, principalmente contrárias à escravidão. É uma fonte de pesquisa importante, pois o pesquisador pode “aproveitar as informações esparsas por ele fornecidas, ou ainda ler nas entrelinhas os silêncios impostos ao texto por seu autor, para complementar as fontes oficiais ou não, e assim de algum modo responder às suas indagações sobre o passado”. (MOREIRA, 1996: 183).

Em oposição a todas as formas de ficção, a biografia e a autobiografia são textos referenciais: exatamente como o discurso científico ou histórico, eles se propõem a fornecer informações a respeito de uma “realidade” externa ao texto (LEJEUNE, 2008: 36). Deste modo, todos os trechos analisados perpassam pela realidade experimentada por Reis. Contudo, cabe sempre ter em mente a intencionalidade dos mesmos trechos escritos por ela. Ancorado nisso, Reis nos dá uma outra definição para álbum, pautada nas experiências que marcaram sua vida.

Bem, compreendeis o que é um álbum – são as páginas d’alma escritas ora com sangue, outra hora com lágrimas; nunca animadas por benéfico sorriso. Amor ou desesperança – saudade, ou dor, eis o que ele significa. (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p).

Denotamos então, segundo o significado de álbum, que este registro foi fruto da vivência dela permeada por sentimentos e por pessoas que passaram por sua vida. São estes que dão a tônica dos escritos de Reis, ou seja, sua escrita possuía traços da melancolia que foram fruto das experiências de vida que a marcaram. Fazendo juz a este significado dado por ela ao álbum, Maria Firmina dos Reis iniciou seu texto autobiográfico no dia 9 de janeiro de 18535, “dia este que há de ser eternamente gravado em minha mente” (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p). Este dia foi importante, pois Reis dedica um texto a sua mãe que acabava de falecer. Este foi denominado “Uma lágrima sobre o túmulo”.

Oh! Sim!… E para sempre escondida aquela que eu tanto amara!… Eu chorava… No silêncio da noite, minha dor, tocava a desesperação … o Mar desbobrava-se a meus pés, – as estrelas cintilavam, sobre minha cabeça, – a viração andava em torno de mim. Deus se me revelava em cada um daqueles objetos. Oh! Eu amo a Deus porque Ele é justo, – santo – e onipotente. (REIS apud  MORAIS FILHO, 1975, s/p).

  Já seus últimos escritos se encerram em 11 de setembro de 1903; aqui ela afirmava que tinha chegado do Pará e se encontrava em Guimarães. Segundo Luiza Lobo (1993: 230), o álbum parece ter forma originalmente entrecortada, descontínua, parecendo apresentar páginas perdidas. Contudo, segundo ela, é importante, pois apresenta a intimidade de uma mulher brasileira do século XIX.

  Retornando ao conteúdo do álbum, cabe ressaltar também que, de acordo com as informações de Morais Filho, por volta de 1870 Reis abandonou os escritos de seu álbum, retornando à escrita em 1872: “há dois anos que te abandonei, meu pobre álbum” (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p). Esses silenciamentos contidos no álbum denotam ainda a intencionalidade da autora e sua seletividade em escrever apenas aquilo que ela deseja, bem como indagar os motivos do abandono do álbum. Mas não são apenas os silêncios do texto que devem ser observados. Em se tratando de diários, pode-se verificar que, em muitos casos, seus autores apresentam uma maneira meio livre de realizar seus registros (MOREIRA, 1996: 183), ou seja, a seletividade do autor está implícita em todo o corpo do texto, e é isso que vemos ao analisar os documentos pessoais de Maria Firmina dos Reis.

É interessante pontuar que Maria Firmina, em 1863, fez uma descrição de si mesma no texto Resumo de minha vida. No que diz respeito aos escritos autobiográficos, Luca e Pinsky nos informam que estes são meios privilegiados de acesso a atitudes e representações do sujeito (2009: 320). Deste modo, ao descrever a si própria temos uma noção da representação que Reis faz de si mesma.

 De uma compleição débil, e acanhada, eu não podia deixar de ser uma criatura frágil, tímida, e por consequência melancólica: uma espécie de educação freirática, veio dar remate a estas disposições naturais. Encerrada na casa materna, eu só conhecia o céu, as estrelas, e as flores, que minha avó cultivava com esmero talvez, por isso eu tanto ame as flores. (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p).

Deste modo, essa descrição no álbum corrobora a nossa hipótese de que ela desejava ou esperava que seu álbum fosse lido por outras pessoas, pois descreve a si mesma. Além disso, percebemos neste trecho um vislumbre da educação dada à mulher. Segundo Reis, era freirática. Essa palavra, segundo o dicionário de Luiz Maria da Silva Pinto (1832), significa próprio de freira, ou seja, uma educação recebida por freiras e/ou em conventos, o que evidencia a educação dada às mulheres naquele período, em que majoritariamente tinham aulas em casa ou eram educadas em conventos, aprendendo a bordar e outras atividades do lar.

Além disso, ao falar de sua compleição acanhada, podemos perceber que este comportamento era o esperado para as mulheres de tal período, visto que em vários periódicos estas características eram exaltadas. Temos, como exemplo disso, o periódico para o qual Reis colaborou, O jardim das Maranhenses (1861-1862). Além disso, ela afirmava que estava encerrada na casa materna, enfatizando a sua presença no espaço privado doméstico, lugar este ocupado pelas mulheres no século XIX, salvaguardando as mulheres escravas e libertas, pois estas circulavam pelos espaços públicos devido à venda da sua força de trabalho. Firmina acaba por circular também nestes espaços, devido à profissão de professora e por ser poetisa.

Segundo Le Goff (2006: 138), o documento histórico é produto de uma construção; deste modo, o álbum é uma construção de Maria Firmina, onde ela narrou episódios de sua vida que considerava importantes, bem como descreveu como foi sua infância e como eram suas características físicas. Além disso, deixa claro para o leitor o quanto esses episódios causaram a ela muitas dores e sofrimentos. Na seguinte citação, a poetisa narra a passagem de sua infância para a adolescência, sempre rememorando os tempos de criança: “da minha melancolia infantil, passei insensivelmente a um meigo olhar inocente de felicidades. Ah! Por que tão depressa fugiste. Ah! por que fugiste idade única da vida” (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p). 

Ainda a respeito de sua vida, Reis não teve filhos e nem se casou. Contudo, passou por uma experiência de maternidade por volta de 1862/1863: “Renato – creio que assim se chamará o pequeno órfão que recebi”, mas logo em seguida este morre e ela escreveu o seguinte texto em seu diário: “Renato! Renato, meu filho adotivo, meu pobre anjinho, já não existes! Que fatalidade, meu Deus! É duro ver-se morrer aquela a quem se dedica afeição quase materna” (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p). A partir deste trecho, podemos dizer que, apesar de não ter tido filhos, Reis obteve diversas experiências maternas, inclusive Morais Filho entrevista dois filhos de criação dela, Nhazinha Goulart e Leude Guimarães; este, segundo o álbum, nasceu no dia 12 de outubro de 1883.

No que diz respeito às sociabilidades, no texto o que é a vida, Reis nos deu um vislumbre da sociedade na qual ela estava inserida, mostrando-nos um cenário de festas e costumes locais e, de alguma forma, ela questiona se a vida seria apenas isso.

O que é a vida? Será acaso a vida o respirar, o sorrir no trocar de cumprimentos banais e quantas vezes frívolos…o banquetear com aparatosa regularidade, com suntuoso luxo dos amigos […]Ou será então o deslumbrante, e sedutor aspecto de um salão dourado, […] Ou será a vaidade satisfeita pela posse de um rosto que a natureza adornou com a perfeita formosura dos anjos. (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p).

Ao narrar este trecho, Reis mistura o público e o privado, fala do exterior para exemplificar o que se passa no interior e, além disso, documentos assim expressam a vida privada segundo regras de boas maneiras e que apresentam uma imagem de si controladora da espontaneidade e da revelação da intimidade, remete para o jogo sutil entre o público e o privado, entre o íntimo e o ostensivo. (LUCA, PINSKY, 2009: .320).

É interessante notar ainda que, no texto “Lágrimas num baile”, de 1873, Firmina dos Reis dizia que participava de uma reunião, e a partir dele podemos ter uma visão, a partir da construção de Reis, desse lugar de sociabilidade frequentado por ela, bem como dos costumes vigentes no período.

“Ontem eu assistia uma pequena, mas bem animada reunião. Valsavam os pares alegres, e risonhos: mas no fundo dos corações, quanto fel, quanta amargura! A máscara do rosto, quantas vezes encobre um vértice de dores, e de desesperanças” (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p). 

Esse trecho, escrito por Firmina dos Reis, evidencia uma sociedade envolta em máscaras, ao mesmo tempo em que relata um costume do período, as reuniões e as personalidades das pessoas que só se conhecem no âmbito privado. Outro ponto que merece ser destacado é que, ao longo da escrita do álbum, a autora vai citando nomes, como Vicente Cabral, Alfredo Rodrigues de Melo e Raimundo Marcos Cordeiro; todos estes citados passam pela vida dela, alguns são amigos e outros se casam com amigas dela, como podemos ver no seguinte trecho: “Aqui nesse livro íntimo, onde só tenho estampado os nomes sacros que mais hei amado no mundo” (REIS apud MORAIS FILHO, 1975, s/p). Deste modo, essa gama de nomes revela a rede de sociabilidade na qual ela estava inserida e propicia muito mais estudos a respeito dessas pessoas citadas.

Contudo, um desses nomes merece destaque. Raimundo Marcos Cordeiro, segundo Reis, é um amigo da família; ela não dá outros detalhes sobre o mesmo. Apenas  temos acesso, no compilado de Morais Filho, a um poema que Cordeiro dedica a Reis. Segue um trecho:

Uma saudade – No álbum da Exmª Snrª D.M.F.R
Nestas Folhas perfumadas,
Pelas rosas desfolhadas
Dos teus cantos de amizade,
Deixo um – adeus magoado,
Todo de pranto bganhado,
No teu álbum, -uma saudade!…

Em seu texto Auto-Retrato de uma pioneira abolicionista, Luiza Lobo nos diz que esse poema revela “toda a reverência respeitosa por alguém cujo amor seria impossível, quer pela classe social, quer pela raça, quer pela idade” (LOBO, 1993: 234). Contudo, não temos como dizer, baseado no álbum, que de fato algo existiu entre os dois; apenas podemos dizer que Cordeiro e Otton, com o poema A Minha Mamaia M. F dos Reis, são os únicos homens a escreverem no álbum de Maria Firmina dos Reis.

Os escritos autobiográficos de Maria Firmina, como dito anteriormente, se encerram em 1903. Suspeitamos que nesse período, dado o avanço da idade, ela não conseguia mais escrever. Contudo, um dos últimos textos dela, datado de 1903, se chama Lágrimas da Velhice. Nele, a poetisa afirmava sua tristeza e solidão, solidão esta que se intensifica na velhice.

Essa lágrima é o resumo de quanta dor na vida, de quanta amargura nos punge a alma, de quanta mágoa nos dilacera a alma! Essa lágrima, que a dor espreme na âmbula de quanta dor o mundo oferece. Oh! Essa lágrima vertida na solidão, escondida a todos; porque ninguém comove – como–a lousa de um sepulcro – árida como um deserto – triste, e lúgubre como o som de um sino gemendo um morto que a terra vai fazer desaparecer para sempre!. (REIS MORAIS FILHO, 1975, s/p).

Neste trecho, já podemos perceber a fala da poetisa em relação à velhice, sua solidão na sociedade maranhense, além de demonstrar um resumo de sua vida, afirmando ser de muita dor. É interessante, pois ela traz nosso olhar para a representação da velhice que construiu de si mesma. Embora seja um documento unilateral e ambíguo, seu diário pessoal nos revela todo um mundo construído a partir da visão de Reis, a seletividade dos assuntos que marcaram sua vida e a lembrança de pessoas com as quais compartilhou sua rede de sociabilidades. 

Por fim, seu álbum e seus escritos autobiográficos revelam toda uma história contada por Maria Firmina dos Reis em que público e privado se misturam às memórias que a marcaram, e denotam para nós toda uma sociedade ressignificada à qual temos acesso através dos olhos dessa poetisa maranhense do século XIX.

Considerações Finais

Podemos destacar e reafirmar a importância que diários, cartas pessoais e outros possuem como fontes históricas, tanto no que diz respeito ao entendimento de uma sociedade através de um olhar, quanto a entender a intimidade e o espaço privado.  Além disso, o álbum deixado por Maria Firmina dos Reis nos revela uma intencionalidade por parte da autora em escrever apenas eventos que tiveram importância em sua vida. Deste modo, levantamos como hipótese que Reis tinha percepção do lugar que ocupava na sociedade, permitindo assim, através do seu álbum, nos mostrar um vislumbre do cotidiano dela e da vida social maranhense.

Seus escritos autobiográficos nos ajudaram a entender a pessoa de Maria Firmina dos Reis, bem como entender sua intimidade e suas relações de sociabilidade. A partir deles, podemos ter uma percepção onde espaço privado e espaço público possuíam fronteiras fluídas pelas quais o álbum perpassava. Deste modo, constituíram  fonte importante para o entendimento de uma mulher negra, escritora e poetisa do século XIX na Província do Maranhão.

[1] Essa citação foi escrita por Maria Firmina dos Reis em seu diário intitulado Álbum e retirada do compilado de informações organizadas pelo seu biógrafo José Nascimento Morais Filho em sua obra Maria Firmina dos Reis: fragmentos de uma vida (1975), cabe ressaltar que as passagens do álbum possuem caráter fac-similar.

[2]  APEM. Autos de justificação de nascimento de Maria Firmina dos Reis. Fundo da Arquidiocese do Maranhão, caixa nº114, documento n º4171, 1847.

[3]  APEM. Portarias de nomeação, licenças e demissões (1839-1914). Fundo Secretaria do Governo. Livro1561, folha 55, 1847.

[4]  Periódico encontrado no site da Hemeroteca Digital. Para mais informações ver: BARBOSA, Everton Vieira. O Jornal das Senhoras: Conexões culturais femininas pelo Atlântico em meados do século XIX. XXVII Simpósio Nacional de História ANPUH conhecimento histórico e diálogo social.2013.

[5]  Não sabemos ao certo se esta foi uma das primeiras coisas escritas por ela, mas na biografia a seu respeito, Morais Filho nos mostra essa, como sendo a primeira publicação do álbum.


Referências Bibliográficas:

APEM. Autos de justificação de nascimento de Maria Firmina dos Reis. Fundo da Arquidiocese do Maranhão. Documento n º4171, 1847.

APEM. Portarias de nomeação, licenças e demissões (1839-1914). Fundo Secretaria do Governo. Livro1561, folha 55, 1847.

MORAIS FILHO, José Nascimento. Maria Firmina dos reis: fragmentos de uma vida. São Luís: governo do Estado do Maranhão, 1975.

PINTO, Luiz Maria da Silva. Diccionario da Lingua Brasileira. Província de Goyaz. Typographia de Silva, 1832.

BARBOSA, Everton Vieira. O Jornal das Senhoras: Conexões culturais femininas pelo Atlântico em meados do século XIX. XXVII Simpósio Nacional de História ANPUH conhecimento histórico e diálogo social.2013.


Natália Lopes

Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Licenciada e Mestra em História pela mesma instituição. As pesquisas envolvem os temas de Gênero, Trajetórias, Imprensa no oitocentos, tendo como enfoque a trajetória de Maria Firmina dos Reis (1822 – 1917). É pesquisadora associada ao Núcleo de Estudos em História Social da Politica (NEHSP- UFJF) atuando na linha Mulheres e a escrita da História.