Movimentos – e Variações

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 21, 2022 – Giovana Enham |  Movimentos – e Variações


Há exatos três anos eu embarcava com uma passagem só de vinda para Portugal. Sei que não é no dia 18 de novembro que você vai ler este texto, mas fiquei espantada com a feliz coincidência de que a minha procrastinação tivesse feito com que eu me sentasse para escrever tão perto da data limite da entrega, mas que essa data fosse exatamente o dia em que eu peguei minhas duas malas com minha vida dentro e saí de Juiz de Fora, a cidade onde eu nasci e sempre vivi, rumo a Lisboa.

Para além de ser um bom jeito de me ajudar a começar a organizar minhas ideias, também sinto que deveria provocar alguma reflexão. Porém, ao perceber que vou precisar expor tanto sobre mim, logo assim, no nosso primeiro encontro, a escorpiana que habita em mim clama por socorro. Por essa razão, decidi trazer para esta conversa, cujo tema é (acredite) a minha experiência de viver e trabalhar em Portugal, o Sr. António.

Deve fazer quase dois anos que ele começou a aparecer aqui no trabalho para tomar um chazinho à tarde. Nesta altura eu ainda trabalhava somente alguns dias da semana e foram as minhas colegas que me falaram de um senhor muito querido que estava a virar nosso cliente fiel. Quando finalmente meus horários coincidiram com as visitas do Sr. António, pude comprovar pessoalmente a simpatia da qual já tinha ouvido tanto falar.

Descobri que ele era nosso vizinho e a vinda até o Parque São Roque fazia parte da sua rota de lugares cujas visitas serviam também para exercitar as pernas. “Com mais de noventa anos, é preciso estar sempre a mexer, menina” é uma das frases mais repetidas por ele, quase como um mantra a sustentar a disciplina diária de se manter ativo. Constavam na lista ainda as idas a restaurantes para almoçar, as feiras de antiguidades, as lojas de discos, uma loja de artigos de balé na Rua Santa Catarina e a visita a amigos.

Um pouco intrigada com a informação sobre a visita à loja de artigos de balé, me mantive atenta às informações que o Sr. António me confiava com o passar dos nossos encontros. Mostrou-se um grande entusiasta e incentivador da cultura e, acima de tudo, da música. “A música é o que mantém minha pressão controlada, uma maravilha”, ele diz. “Sabia que se quisessem fazer uma exposição aqui sobre música clássica e música do leste, só o que eu tenho em casa já bastava?”. Respondo que não em tom de espanto e assim descubro a grande paixão pela qual ele se deixa consumir há muitos anos. Fica mais claro também o porquê das visitas constantes a lojas de discos, sempre a tentar garimpar algo, e o tempo que passa na loja de balé, onde fez muitos amigos. Descubro também que os amigos aos quais ele se refere são, em sua grande maioria, russos, poloneses, romenos, checos, todos imigrantes.

Ele me mostra no celular as fotos dos encontros, das crianças que ele viu crescer, as fotos de famílias enviadas pelos que já passaram por aqui mas regressaram a seus países. Conta histórias, como quando ia para a Rua das Flores acompanhar um casal que fazia apresentações enquanto ele ficava responsável pela venda dos CDs.

Recebo, então, um convite para ir à sua casa para assistir na TV um bailado com os trajes tradicionais e conhecer a sua coleção de objetos, discos, DVDs, tudo relacionado ao universo cultural do Leste. “Mas vá acompanhada”.

Combino com uma amiga do trabalho e faço a primeira visita. Comprovo o que o Sr. António havia dito: a casa poderia mesmo ser um museu. As paredes são repletas de quadros e fotografias, algumas que ele mesmo tira da tela da TV e manda imprimir.

São bailarinas e bailarinos, músicos, instrumentos musicais. Há balalaicas, cavaquinhos e violões. Muitos bibelôs e algumas bonecas cuidadosamente vestidas com collants e tutus. Todos os espaços são ocupados por algo. Ele mostra com orgulho o pôster colado na porta, “meus olhos têm de estar sempre a olhar para o que é belo”. Outra coisa da qual ele se gaba é de ser o único responsável pela organização e limpeza do apartamento, desde a morte da única filha e da esposa. Carrega uma fotografia delas na carteira, que costuma mostrar com olhos marejados. Fala sobre a solidão, da falta que faz ter uma companhia, “é como comer uma comida muito gostosa sem ter alguém para dividir e poder comentar, não é a mesma coisa”.

Desde então venho recrutando pessoas para me acompanhar à casa do Sr. António e retribuir as visitas que ele procura me fazer todo domingo no trabalho. Às vezes doem os joelhos e ele não aparece.

Nossas conversas já foram além do “Quebra Nozes”, “Lago dos Cisnes”, Stravinsky e Tchaikovsky. O Sr. António também já me falou sobre Guerra Junqueiro, seu escritor preferido, e também já comentou, às gargalhadas, uma entrevista com Jorge Amado em que, ao capinar um terreno e ser indagado se estava trabalhando, ele responde que estava descansando e depois, deitado na rede, quando perguntam se ele estava descansando, ele diz que na verdade estava trabalhando. “É preciso mesmo muita genialidade” e ri-se. Também tive a oportunidade de ouvir as impressões dele sobre as exposições de arte contemporânea que faz questão de ver no museu onde trabalho. “Não é para mim”, ele diz, mas faz registros das obras com o celular.

O Sr. António faz parte de uma alargada população idosa em Portugal. Eles são 22,4%, resultado de fatores como a expectativa alta de vida, que é de 81,06 anos, uma característica facilmente percebida quando se anda nos transportes públicos, pelas praças e cafés das cidades. Outro fato que colabora para a grande proporção de idosos, para além da baixa taxa de natalidade, é o fluxo migratório. Os portugueses em idade ativa muitas vezes optam por deixar o país em busca de mais oportunidades de trabalho e melhores salários, diferentemente do Sr. António, que sempre viveu aqui e trabalhou como mecânico de automóveis até a sua aposentadoria. De acordo com os dados do Alto Comissariado para as Migrações, Portugal é o país da União Europeia com maior número de emigrantes em proporção com a população residente; mais de 20% dos portugueses vivem fora do país. O salário mínimo por aqui é de 665 €, com média salarial de 1.314 €, um problema em um país onde os valores de aluguel têm disparado e chegaram a um valor médio de 1.036 € em 2020, mesmo com uma queda em função da pandemia. Os aposentados, como o Sr. António, recebem em média 1.328,55 € (2019).

Comparado com o Brasil, o custo de vida em Portugal é mais alto, mas ao mesmo tempo meu poder de compra aqui é em média três vezes maior. Faço parte de um diversificado grupo de brasileiros que rumam para cá pelos mais diversos motivos: qualidade de vida, segurança, oportunidades, estudos… Os perfis são igualmente heterogêneos: somos trabalhadores, estudantes, investidores. Com família ou sozinhos. No meu caso, vir para Portugal foi uma escolha baseada nos custos mais baixos com relação a outros países da Europa e no processo burocrático mais simplificado para conseguir um visto. Meu objetivo era poder ter outras experiências de vida, e a ideia de dar continuidade aos meus estudos surgiu apenas em um segundo momento, depois que eu já estava aqui.

Sou uma brasileira que nunca passou por uma situação grave de xenofobia. Sou branca e também não sou o estereótipo que habita o imaginário português sobre o perfil das brasileiras. A maioria, mesmo até depois que começo a falar, não identifica minha nacionalidade. Porém, a minha experiência não é parâmetro. Em uma pesquisa realizada pela Casa Brasil de Lisboa, dos 85,6% de imigrantes que relataram terem sofrido algum tipo de preconceito, 82,7% eram mulheres. Portugal ainda é uma sociedade conservadora, muito influenciada pelo catolicismo, com dificuldade em assumir suas raízes racistas e machistas e que demonstra pouca abertura para diálogo sobre os assuntos. Perfis como o da página @brasileirasnaosecalam, que publicam relatos de preconceito vividos por brasileiras no exterior, evidenciam os tipos de assédio e discriminação pelos quais as mulheres passam, principalmente em Portugal.

A minha vivência nesses três anos é uma entre os 183.993 de brasileiros que estão legalmente em Portugal. São muito mais de 184 mil histórias e possibilidades a serem vividas. Um dia a minha história se cruzou com a do Sr. António, que vê o contato com as pessoas como uma forma de se aproximar ainda mais da cultura que ele tanto admira, de incluir uma estrela nessa constelação que extrapola seu coração e chega até as paredes de sua casa. Mas pode não ser sempre assim, pode ser alguém que não veja a diversidade como aliada, que consuma a cultura de um país mas não se sinta à vontade para compartilhar a cidade com ela, que estabeleça distância ao invés de proximidade.

As pessoas que cruzaram meu caminho são de grande importância para a construção da impressão da minha jornada enquanto imigrante, e são muitas as histórias que levo comigo nesses três anos, mais boas que ruins, e esse é um dado importante para o balanço desses três anos. Foram muitos os momentos, apesar de você, pandemia, ao ar livre, muitas caminhadas pela rua em que minha única preocupação era tentar tirar uma foto que fizesse jus à luz que se projetava sobre alguma casa ou árvore, algumas viagens, bastante vinho e comida boa. Mas até chegar nesse ponto foram algumas crises depressivas, muito choro e um processo longo de reconstrução da minha própria identidade. Sinto que alguma parte dessa adaptação difícil foi, claro, saudade, mas também uma mistura de despreparo psicológico com falta de informação. Por isso, sempre que tenho oportunidade, gosto de colocar algumas informações sobre a realidade econômica e social de Portugal, pois para além de influenciar diretamente a minha vida, ela também foi parte decisiva da construção de quem são os portugueses. 

E também porque aquele Globo Repórter que só mostra os lugares maravilhosos, que são mesmo maravilhosos, muito provavelmente você já viu. Nenhum lugar é perfeito e cada um sabe o que é mais importante nesse tempo que passamos por aqui, o que é negociável e o que é intolerável.

Quando mudei para Portugal trouxe um universo dentro de mim para adentrar em um universo novo. Algumas vezes eles se chocam e outras coexistem formando lindos multiversos.

Nota: Na altura da publicação deste texto eu soube da notícia do falecimento do Sr. António. Partiu antes de ver que dois países com cultura pelas quais ele tinha tanto apreço e onde ele tinha tantos amigos entrassem em guerra.
Agora, faço desse amontoado de palavras minha pequena homenagem e espero que mais pessoas possam conhecer a existência tão singular do Sr. António.


Referências Bibliográficas:

https://www.nacionalidadeportuguesa.com.br/salario-em-portugal/

https://sefstat.sef.pt/Docs/Rifa2020.pdf

https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes&PUBLICACOESpub_boui=442993507&PUBLICACOESmodo=2

https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/pensao-media-no-setor-publico-e-de-1-300-euros-mas-no-setor-privado-nao-vai-alem-de-450-euros

https://eco.sapo.pt/2021/02/11/salario-medio-cresceu-29-em-portugal-para-1-314-euros/

https://www.nit.pt/fora-de-casa/na-cidade/o-preco-medio-das-rendas-em-portugal-caiu-135

https://casadobrasildelisboa.pt/wp-content/uploads/2021/03/Relat%C3%B3rio_MigraMyths_singlepage.pdf

https://www.eurodicas.com.br/brasileiros-em-portugal/


Giovana Enham

Formada em Jornalismo e com especialização em Design Gráfico, trabalho há cinco anos como Produtora Cultural. Atualmente faço um mestrado em Ciências da Comunicação com foco em Cultura na Universidade do Porto, em Portugal.