Biblioteca Hebraica de Juiz de Fora: O resgate da história e da memória judaica mineira

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 21, 2022 – Washington Londres |  Biblioteca Hebraica de Juiz de Fora: O resgate da história e da memória judaica mineira


Em abril de 2015 foi fundada, na cidade de Juiz de Fora, a Biblioteca Hebraica. O projeto originou-se de ações da pequena comunidade judaica da cidade que reuniu esforços para o resgate das tradições religiosas e culturais dos israelitas. Contudo, o projeto da biblioteca foi além e passou a conectar comunidades judaicas do Brasil e do mundo, chamando a atenção para a cidade e para as histórias dos imigrantes judeus que passaram boa parte de suas vidas em Juiz de Fora e contribuíram para parte da formação social e comercial da região.

Fanny Goldberg, Baba e filhos, Carnaval Juiz de Fora – ANOS 30

Inicialmente, a Biblioteca Hebraica abrigava em seu acervo apenas livros com conteúdo judaico ou multitemáticos escritos por homens e mulheres de ascendência israelita, mas, com o passar do tempo, observamos que havia um ponto a ser trabalhado, que era a história da imigração judaica em Juiz de Fora e que ia além dos filhos e netos do atual grupo, basicamente formado a partir dos anos 1990.

Nos ciclos de conversas, era sabido que algumas famílias judaicas vieram para Juiz de Fora ao longo dos anos de 1930 e 1950, a maioria de origem polonesa, russa ou alemã. Contudo, não havia registros conhecidos destas passagens além dos relatos ocasionais de filhos e netos, e foi a partir deste momento que vimos a necessidade de fazer este levantamento e trabalhar no resgate da história e memória da presença de imigrantes e nativos judeus de Juiz de Fora.

Fanny Goldberg Cha Wizzo – Juiz de Fora – ANOS 50

O fenômeno imigratório judaico no Brasil se tornou constante desde a abertura dos portos em 1808, a partir dos incentivos comerciais de Don João VI e, subsequente a este momento, o fim formal da Inquisição no Brasil em 1821, dando condições para Dom Pedro I, em 1824, promulgar a liberdade de culto em todo território nacional, desde que não divulgada publicamente. Estas leis, de certa forma, ajudaram a moldar a configuração social de muitas cidades brasileiras que, ao longo dos anos, passaram a receber um contingente judaico muito grande, tanto que o primeiro processo de naturalização de um homem israelita ocorre com o marroquino Jayme Benjo em 1882, sendo considerado por muitos historiadores como o primeiro judeu naturalizado brasileiro. Ele, como muitos outros que o sucederam, exercia o ofício de mascate, ou vendedor de porta em porta, que visitava promissoras cidades do interior como Niterói, Campos, Breves no Pará e Juiz de Fora, fazendo destas pontos de fixação de suas famílias.

Embora soubéssemos que os anos de referência seriam os da primeira metade do século XX (1930 a 1950), nossas pesquisas nos transportaram para a segunda metade do século XIX, quando, a partir do registro dos memorialistas Egon e Frieda Wolff em sua obra “Judeus no Brasil Imperial”, de 1975, foi dedicado um capítulo inteiro aos judeus de Minas Gerais que, na ocasião, se limitava a Juiz de Fora, Leopoldina, Mar de Espanha e Cataguases. A capital Belo Horizonte, no mesmo período mencionado, só viria a ser fundada pouco mais de trinta anos depois, em 1897, fazendo exatamente de Juiz de Fora o centro de concentração comercial mais ativo da região, dando oportunidades para os joalheiros Jacob e Naftali Abraham, ambos de origem francesa, fundarem a firma Jacob Abraham & Filho em 1864, seguida por seus compatriotas Felix Samuel, Salomão Levy, Cerf Levy, Lion Freres, todos eles ligados ao ramo comercial de roupas ou joias.

Abram Rotter Recorte jornal

Outro ponto importante e que marca a longínqua presença judaica em Juiz de Fora pertence à obra “Sepultura de Israelitas II”, publicada também pelos Wolff em 1983, cujo trabalho descreve os enterramentos de judeus em necrópoles não judaicas pelo Brasil. O texto menciona treze enterramentos no Cemitério Municipal de Juiz de Fora, entre os anos de 1878 e 1975, com destaque para o jazigo da família Levy, que pode ser encontrado ainda hoje na antiga ala do Cemitério Municipal. 

O jazigo é o único que mantém características iconográficas judaicas, fazendo referências simbólicas levíticas, já que se tratava de uma família com sobrenome Levy. Uma espécie de jarro está posicionado em sua tampa, onde originalmente havia uma peça que simbolizava as Tábuas da Lei seguida de uma estrela de seis pontas, sendo esta a única peça que restou no local. Segundo os funcionários do cemitério, não é raro observar os casos de vandalismo e profanação tumular, que se tornam cada vez mais recorrentes no local, e um dos trabalhos da direção acadêmica da Biblioteca Hebraica consiste exatamente na identificação e preservação destes monumentos.


Washington Londres

Prof. Washington Fco. Londres, Diretor Acadêmico Biblioteca Hebraica. Consultor em Reabilitação Física e História da Saúde. Mestrando em História (UFJF).