Professor e estudante: quem sentiu mais a falta de quem durante o ensino remoto?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 20, 2022 – Cristina Vasconcelos Machado |  Professor e estudante: quem sentiu mais a falta de quem durante o ensino remoto?


Quando fui convidada por esta Revista para escrever um texto sobre ensino remoto, passei um longo tempo refletindo de que maneira poderia melhor contribuir para a discussão desse assunto. Afinal, quase toda a sociedade – em algum momento e por diversos motivos – já se deparou com notícias, reportagens, entrevistas, artigos acadêmicos, debatendo essa questão.

Sabemos que o ensino remoto emergencial, adotado pelas instituições de ensino, foi validado e autorizado pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) até o fim da pandemia da covid-19, gerando inúmeras dificuldades e consequências para o processo de ensino-aprendizagem dos estudantes, para a condução do processo pelas famílias dos envolvidos e para a adequação da comunidade escolar a esse novo modo de trabalho.

Para os estudantes, tanto os das redes públicas de ensino, quanto os da rede particular – obviamente guardadas as suas devidas disparidades – as dificuldades oscilaram entre a falta de acesso aos suportes de tecnologia da informação – computadores, tablets, internet, softwares – a ambientes adequados nas residências para estudo – imagine a situação de uma família com sete, oito pessoas morando em um único cômodo. Como estudar?

Como consequência desse modelo, percebe-se que muitos estudantes perderam o interesse pelo estudo e já estão abandonando a escola; a desigualdade educacional entre os modelos de ensino privado e público e entre as diferentes regiões do país se agravou assustadoramente; e os alunos, que ainda resistem, sofrem com os impactos psicológicos de toda a tragédia imbuída pela pandemia.

Na outra ponta do processo, encontra-se a comunidade escolar simbolizada na figura do professor. Sujeito esse que, acostumado a se reinventar constantemente, mais uma vez, abriu sua vida íntima e particular – a casa, o WhatsApp e o e-mail particular – para tentar continuar a condução do processo de ensino-aprendizagem, esperado pelas famílias e pelo sistema. 

Contudo, convém lembrar, prezado leitor ou prezada leitora, que o professor não só transmite conhecimentos – acredito que essa seja até uma função secundária do “ser professor” no mundo pós-globalizado em que as informações estão nas palmas das mãos –, afinal é ele quem, inúmeras vezes, direciona, inspira, escuta, enxerga e carrega o ser humano materializado na figura do estudante. Sendo assim, gostaria de encaminhar a minha contribuição acerca desse tema, refletindo sobre a importância do professor para o estudante e a relevância do estudante para o professor.

É notável a simbologia do professor para o estudante. Estimular um sujeito em formação a pensar, a refletir e a analisar os fenômenos culturais, sociais e econômicos mundiais é tarefa árdua e gratificante.

Professor e estudante. Estudante e professor. Correlacionados. É dessa forma que gosto de pensar sobre essas duas profissões. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o prefixo “co-” indica companhia, concomitância, simultaneidade. Sendo assim, “correlacionar” sugere a ideia de estabelecer ligações na companhia do outro. É justamente o que ocorre na vivência cotidiana do estudante com o seu professor: criação de vínculos para que o processo de ensino-aprendizagem dos conteúdos curriculares e dos valores sociais aconteça. Entretanto, devido ao isolamento social imposto pela pandemia, o entrelaçamento desses dois seres foi comprometido.

Entrelaçamento esse construído, a meu ver, pelo olhar. Que falta sentia de ver os olhos dos meus alunos! É nessa troca de olhares-faíscas que percebo se o estudante está bem; se seu final de semana foi realmente proveitoso; se a atividade proposta foi entendida ou não; se ele compreendeu a habilidade curricular trabalhada; se ele está confortável com determinada situação; se o sujeito humano está presente.

A frase clichê “os olhos são espelhos da alma” materializa-se no jogo relacional estabelecido entre estudante e professor. E é nesse jogo que o professor compreende as necessidades daquele ser em formação sob sua responsabilidade durante aquele ínfimo-infinito tempo de aula e pode enxergá-lo, inspirá-lo e direcioná-lo. Pena que toda essa dança do olhar foi tão prejudicada durante o isolamento social!

Difícil opinar sobre quem sentiu mais falta de quem nesses tempos de ensino remoto. Para você, prezado leitor ou leitora, foi essa professora aqui quem sentiu mais falta do chamego dos estudantes ou o estudante que mora dentro de você ou ao seu lado quem mais sentiu o silenciamento do ambiente escolar?

Espero que nesse retorno presencial tão aguardado possamos restabelecer o nosso compasso e retomar o exercício do olhar para o estudante e para o professor – esse último também precisa da nossa sensibilidade.


Referências bibliográficas:

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

SESTREM, Gabriel. Desigualdade educacional: alunos pobres têm mais prejuízos com escolas fechadas. Gazeta do povo. Disponível: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/desigualdade-educacional-estudo-revela-impactos-ensino-remoto-alunos-mais-pobres-escolas-publicas/. Acesso em 14 dez. 2021.Ser professor na pandemia: impactos na saúde mental. Disponível em: https://www.ufsm.br/midias/arco/saude-mental-professores-pandemia/. Acesso em 13 dez. 2021.

SILVA, Vitória. MEC autoriza ensino remoto no país até o fim da pandemia. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/euestudante/educacao-basica/2020/12/4894173-mec-autoriza-ensino-remoto-no-pais-ate-o-fim-da-pandemia.html. Acesso em 14 dez 2021.


Cristina Vasconcelos Machado

É mestre em Letras pela UFJF e graduada pela mesma instituição. Atua como professora de Língua Portuguesa, Literatura e Produção textual nos ensinos fundamental e médio da rede particular de ensino de Juiz de Fora.