Cobras Fumantes: o heavy metal e a participação do Brasil na segunda guerra mundial (1939-1945)

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 20, 2021 – Diogo Tomaz |  Cobras Fumantes: o heavy metal e a participação do Brasil na segunda guerra mundial (1939-1945)


O momento mais esperado das aulas de História do 9º ano do Ensino Fundamental e do 3º ano do Médio, presenciais ou não, com certeza é aquele em que o professor chega ao capítulo sobre a Segunda Guerra Mundial. Algumas vezes pode ser decepcionante para os alunos, pois acham que a aula será no nível de um filme hollywoodiano ou de algum jogo no estilo Call of Duty. De fato, o início pode ser um banho de água fria. Primeiro é preciso entender que, em 1918, quando se encerrou a Primeira Guerra Mundial, o desejo sincero de grande parte da população europeia era de que essa fosse a última guerra e que, a partir dali, a paz fosse algo duradouro. Todavia, a década de 1930 foi frustrante nessas intenções. Em discurso ao Parlamento Inglês em 1941, o primeiro-ministro Winston Churchill afirmou: “Essa guerra, de fato, é uma continuação da anterior”. 

Quando os alunos acham que o assunto vai “engrenar”, introduzimos que a insatisfação com o Tratado de Versalhes ao término da Primeira Guerra (1914-1918), somado aos problemas econômicos e sociais, possibilitaram a ascensão dos governos fascistas na Itália e na Alemanha. Impulsionados por um forte nacionalismo acompanhado de um desejo de vingança, esses regimes prepararam a Europa para um novo conflito.

A essa altura das aulas é muito comum ouvir um: “professor, passa um filme pra gente”. Assistir a filmes, séries, documentários auxilia muito a compreensão de diversos conteúdos históricos trabalhados em sala de aula. Mas, na maioria das vezes, fica inviável para professores utilizar essas ferramentas que chegam a ter duas, duas horas e meia, sendo que suas aulas duram 50 minutos (mesmo dando a sorte de terem uma aula “germinada”). Também é um anticlímax começar um filme na segunda e terminar na sexta (o aluno já esqueceu o que viu, perdeu o interesse, sem contar aqueles que faltaram na primeira parte e ficam perdidos). De uns tempos pra cá, devido à facilidade dos streamings, o “ver em casa” ficou muito mais acessível e adiantou demais o trabalho dos professores (pelo menos o meu). 

Para diversificar as aulas, além de indicar filmes e séries, desde 2016 tenho utilizado muitas canções em minhas aulas de História. Rap, Rock, Funk, MPB e até Heavy Metal têm me ajudado muito. Digo “até”, porque ainda há um certo preconceito contra esse gênero (assim como há contra os outros; é difícil agradar uma turma com mais de 30 alunos). Recentemente utilizei a música Smoking Snakes da banda sueca de Heavy Metal, Sabaton. A canção, do álbum Heroes de 2016, é sobre os “Três Heróis Brasileiros”, no caso três soldados da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que enfrentaram um pelotão com mais de 100 soldados alemães. Se chamavam Geraldo da Cruz, Geraldo Rodrigues e Arlindo Lúcio, todos de São João del Rey/MG.

Nós lembramos, sem rendição
Heróis do nosso século

Três homens foram fortes e eles resistiram por muito tempo
Indo para a luta, para a morte que os espera
Loucos ou corajosos, isso acabará na sepultura?
Enquanto eles estão dando suas vidas
Como dita sua honra

Longe, longe de casa, para uma guerra
Travada em solo estrangeiro
Longe, longe do conhecido, contem seu conto
Sua história esquecida
Cobras fumantes, eterna é sua vitória

Espantado e admirado com a resistência dos três brasileiros, o comandante nazista ordenou que os enterrassem e escrevessem em uma placa:Drei brasilianische helden, que em português significa “três heróis brasileiros”. Vale também destacar que o título da música em português significa “Cobras Fumantes”, uma clara referência ao símbolo adotado pela FEB (quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, houve uma grande descrença por parte da opinião pública da época, que dizia ser mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar no conflito. De forma irônica, adotou-se o símbolo). 

Ergam-se do sangue dos seus heróis
Vocês foram aqueles que se recusaram a se render
Os 3 escolheram morrer ao invés de fugir
Saibam que a sua memória
Será cantada por um século

Depois que os alunos aprendem sobre a participação brasileira na guerra, discutem a participação da FEB e da FAB e analisam a letra, uma série de perguntas surgem. “Por que uma banda da Suécia fez essa música?”;Os três heróis brasileiros realmente existiram?”; “Por que pouco se fala do Brasil na Segunda Guerra?”. Pronto, pode separar no mínimo umas duas aulas só para analisarem especificamente esse assunto.

Ainda é possível fazer outros ganchos, como por exemplo, ver que no Brasil, após mais um golpe, Getúlio Vargas se dedicava ao seu projeto nacionalista. Era uma mistura de elementos fascistas da Itália de Mussolini com algumas políticas trabalhistas e sociais de Roosevelt nos Estados Unidos, e uma grande quantidade de propaganda populista de fazer inveja em Hitler e Stálin. Mesmo aparentando uma boa relação com os governos fascistas, em 1941 Vargas recebeu a visita de Walt Disney e estreitou laços com os norte-americanos, dando início à política de boa vizinhança. No ano seguinte, o país rompia relações com o Eixo e tinha os seus navios afundados por submarinos alemães, o que empurrou o Brasil para a guerra ao lado dos Aliados. 

Segundo o historiador Icles Rodrigues, “o plano original era de recrutar aproximadamente 60 mil soldados brasileiros, mas por conta dos critérios mínimos que precisavam ser atendidos por parte dos recrutas, muitos eram recusados”. Divididos entre médicos, soldados, entre outros, foram recrutados 25.334 soldados. Icles também aponta que os americanos não tinham muito interesse na integração dos brasileiros em suas filas de combatentes; afinal, os Estados Unidos tinham o interesse muito maior no posicionamento geográfico brasileiro e no que tínhamos para oferecer como matéria prima, do que a disponibilidade de combatentes em si. “Mas como Vargas fazia absoluta questão de enviar tropas, elas foram à Itália subordinadas ao 5° Exército dos Estados Unidos”. 

Nos primeiros anos da guerra, os Estados Unidos mantiveram uma postura isolacionista, apesar de garantirem fornecimento de armas para a Inglaterra. A assinatura da Carta do Atlântico (1941), compromisso entre Churchill e Roosevelt no combate ao fascismo, não resultou numa participação direta dos norte-americanos no conflito. Todavia, a expansão japonesa no Pacífico preocupava os estadunidenses. Quando os japoneses invadiram a Indochina em 1941, os Estados Unidos impuseram um embargo econômico ao país, impedindo a comercialização de petróleo e aço. Em resposta, o Japão ataca, no dia 7 de dezembro de 1941, a base militar norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí. Diante desse ataque, o presidente Roosevelt se viu obrigado a declarar guerra ao Japão e, em seguida, à Alemanha e Itália, que formavam o Eixo. 

Enviados aos mares para serem batizados em chamas
Lutaram por um propósito com orgulho e desejo
Sangue de bravuras foi dado como inspiração
Cobras fumantes, sua memória vive!

Cobras fumantes, eterna é sua vitória

Voltando à letra da música, o refrão cantado em português merece um destaque (“Cobras fumantes, eterna é sua vitória”). Um reconhecimento pouco ocorrido no Brasil, não só relacionado aos “Três Heróis brasileiros”, mas à participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Segundo Icles, os governos brasileiros, em geral, nunca deram muita atenção para os ex-combatentes da FEB. “Um ou outro político podia até instrumentalizar a vitória na Itália e o apoio da FEB, mas milhares de febianos precisaram lutar por anos, às vezes até décadas para receber benefícios”, explica o historiador. 

Em uma entrevista concedida a uma revista de rock brasileira, o baixista do Sabaton, Pär Sundström, disse que em sites europeus é muito comum ler sobre os “Três Heróis brasileiros” e que a temática do álbum Heroes “seria sobre pessoas que conseguem ir além do seu dever, pessoas que se colocam em perigo em prol do bem de todos. Ou seja, heróis”. Para retribuir a homenagem do Sabaton, em maio de 2015 o Exército Brasileiro, através da banda da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada de Florianópolis, executou a música em uma apresentação.

Quando a guerra acabou, em 1945, os restos mortais de Geraldo da Cruz, Geraldo Rodrigues e Arlindo Lúcio foram enviados para o Cemitério de Pistoia, na Itália, depois foram trazidos para o Rio de Janeiro, onde estão até hoje no Monumento aos Pracinhas. 


Referências bibliográficas:

– BARONE, João. 1942: O Brasil e sua guerra quase desconhecida. São Paulo: Harper Collins, 2013.

– HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos – O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

– RODRIGUES, Icles. Brasileiros na Wehrmacht e alemães na FEB? Entrevista com Dennison de Oliveira. 2016.

– SABATON. Smoking Snakes. Álbum: Heroes, 2014. 


Diogo Tomaz

Possuo Licenciatura (2014) e Mestrado (2017) em HISTÓRIA pela Universidade Federal de Juiz de Fora; onde também adquiri a experiência como Paleógrafo. Leciono desde 2014 e, em minhas aulas, gosto de utilizar ferramentas que possibilitem a construção do conhecimento histórico de forma mais leve e descontraída, como músicas, games, séries, filmes, HQ’s…