O retorno do Talibã e a questão da mulher

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 20, 2021 – Karolina dos Santos |  O retorno do Talibã e a questão da mulher


Recentemente, na mídia, “voltamos” a ouvir falar sobre o retorno do Talibã, grupo que foi esquecido após a guerra no Afeganistão, durante a busca de Osama bin Laden, após os ataques de 11/09. O acesso que temos sobre as questões do Afeganistão e esse grupo se baseia na mídia com uma visão imperialista, e não  através de uma mídia local. Devido a isso, parte do que chega até nós é distorcido.

Primeiramente, antes de chegar ao Talibã e ao que ele representa hoje, é preciso conhecer um pouco do que é o Afeganistão de fato. Desde o início de sua criação, os países Afeganistão e Paquistão foram criados artificialmente para separar a Índia da Rússia. O Afeganistão surgiu no século XVIII, como resultado da desintegração dos impérios Persa e Mongol. Posteriormente, houve a dominação da tribo pashtun sobre outros grupos presentes, o que mudou o curso na construção de um Estado moderno, que começou a desabrochar a partir de 1880 (Ruchel &Vieira, 2021).

O país passou pelo imperialismo britânico no século XIX, período em que houve uma disputa entre Rússia e Grã-Bretanha. Devido a isso, os valores ocidentais adentram no território afegão, e o país se torna objeto de disputa das potências mundiais. O Afeganistão é uma sociedade dividida em clãs, cada um com seus aspectos culturais, políticos e religiosos. O país é predominantemente islâmico, com influências de países vizinhos, já que o território era disposto como local de passagem. Rubin (2002) aponta que os clãs foram organizados na ausência de instituições políticas, quando impediram o surgimento de um poder central, exceto em momentos de crise. No caso do Afeganistão, um clã, uma tribo poderia ser definida como a maior unidade capaz de unificação diante de um ataque externo. 

Durante o século XX houve diversas revoltas tribais, que levaram à sua independência no ano de 1919; posteriormente buscaram o desenvolvimento e, dessa forma, estreitaram laços com a União Soviética. A Revolução de Saur, em 1978, marcou o fim do período monárquico, e com isso houve a instauração de um regime socialista no Afeganistão (Ruchel & Vieira, 2021). Em parte, gerou descontentamento e revolta. Em 1979, o território afegão é invadido por soviéticos, que lá permaneceram até 1989 (Visentini 2013), com o pretexto de combater guerrilheiros islâmicos (Mujahideen). Tais guerrilheiros darão origem ao Talibã em um momento futuro.

Após a intervenção soviética, poucos especialistas acreditavam que o incipiente movimento de resistência mujahideen teria chances contra o moderno exército soviético. Dado o apoio direto do Paquistão e indireto dos EUA, o movimento de resistência afegão deixou de ser um movimento isolado e dependente das redes tribais de assistência. Na mesma medida em que o governo socialista afegão recebia apoio das forças soviéticas, os grupos islâmicos de resistência, a exemplo do Hezb-e Islami, foram diretamente auxiliados pelo governo do Paquistão (Ruchel & Vieira 2021, p. 9)

O surgimento do Talibã ocorreu em meio ao conflito intra-afegão. O grupo é majoritariamente pashtun e foi liderado por Mullah Omar. Muitos atribuem seu surgimento ao desejo de libertar o país dos senhores da guerra, outros apontam que o grupo tenha sido criado, organizado e armado pelo serviço de inteligência paquistanês para assegurar forças amigas no país vizinho (Ruchel &Vieira, 2021). Apesar de demonstrar o desejo de estabilizar o Afeganistão, algo visto como positivo aos olhos ocidentais, a postura em relação às mulheres, assim como a rigorosa interpretação do Islã, fizeram com que a comunidade internacional mantivesse cautela em relação ao grupo, aponta Ruchel & Vieira (2021). Após a ocupação e conquista de Cabul em 1996, o grupo buscou ser reconhecido como o governo legítimo do Afeganistão, recebendo o apoio do Paquistão, da Arábia Saudita e dos Emirados. Porém, os ataques de 11 de setembro e a chegada de Osama bin Laden ao país atrapalharam os planos do grupo.

Sobre a invasão dos EUA no território afegão, Reginaldo Nasser, em uma entrevista concedida à Revista Fórum (2021), alega que “O motivo era combater o terror e o Talibã nunca teve nada a ver com terror. Nesses 20 anos cresceram a máquina militar americana e o sistema de vigilância no mundo, vários países adotaram método americano de combater o terror”. 

É preciso lembrar que a guerra em si movimenta a economia mundial. O grupo governou o país até 2001, posteriormente passando por momento de insurgência, mas mesmo assim ocupando 80% do território afegão. Com seu retorno, agora em 2021, muito é questionado sobre a questão feminina, como “salvar” as mulheres do Talibã. Mas será que realmente as mulheres do Afeganistão estariam salvas de fato?

A questão da mulher:

Um dos pontos de grande importância ressaltado por Lila Abu Lughod (2012) sobre as mulheres afegãs e muçulmanas é que, entre os anos 1978-1992, a maioria das mulheres usava burca, uma ou outra adotava uma moda ocidentalizada, muito antes da chegada do Talibã ao poder. Lughod descreve que a burca é parte da cultura pashtun, não é islâmico de fato. Ou seja, envolve aspectos culturais, não religiosos. Os pashtun são um dos diversos grupos étnicos no Afeganistão, e a burca era uma das muitas formas de vestimenta no subcontinente e no Sudoeste da Ásia (Lughod, 2012, p.456). Dessa forma, a utilização desse tipo de cobertura significa pertencimento a uma comunidade particular. Abu Lughod (2012), sobre a questão feminina, alega que, em vez de  buscarem explicações políticas e históricas, buscam explicações culturais, oferecem itens para artificialmente
dividir o mundo em esferas separadas, uma geografia imaginária do Ocidente em oposição ao Oriente.

A questão é por que saber sobre a “cultura” da região e particularmente suas crenças religiosas e o tratamento dispensado às mulheres era mais urgente do que explorar a história e o desenvolvimento dos regimes repressivos na região e o papel dos Estados Unidos nessa história (Lughod 2012, p. 453).

Lughod (2012) descreve que, caso essas mulheres fossem liberadas do uso forçado da burca, a grande maioria escolheria ainda alguma outra forma de cobertura da cabeça, assim como todos aqueles que vivem próximo à região e que não estavam sob regime do Talibã – e isso incluía comunidades hindus rurais e também as muçulmanas no Paquistão.

É preciso trazer à tona o colonialismo, que é muito do que os Estados Unidos e Europa fazem em relação a alguns países, e o Afeganistão está incluído. De acordo com a pesquisadora indiana Spivak (1988), a questão da mulher e das crianças é usada para justificar o domínio de homens brancos salvando mulheres marrons de homens marrons. O registro histórico é cheio desses casos, principalmente no Oriente Médio e nos países da África. Leila Ahmed (1992) chamou isso de “feminismo colonial” e apontou que estava firmemente funcionando.

O ponto é o problema político-ético que a burca levanta, que é como lidar com os “outros” culturais. Como devemos lidar com a diferença sem aceitar a passividade assumida pelo relativismo cultural – um relativismo que diz que é a cultura deles e que não é da minha conta julgar ou interferir, apenas tentar entender (Lughod, 2012). É preciso compreender que as formas de vida que encontramos ao redor do mundo já são produtos de longas histórias de interações.

Projetos de salvar outras mulheres dependem de, e reforçam, um senso de superioridade por parte dos ocidentais, uma forma de arrogância que merece ser desafiada. Tudo o que se precisa fazer para vislumbrar a qualidade condescendente da retórica de salvar mulheres é imaginar utilizá-la hoje nos Estados Unidos em relação a grupos em desvantagem, como mulheres afro-americanas ou mulheres proletárias. Nós agora entendemos que elas sofrem uma violência estrutural. Tornamo-nos politizados acerca de raça e de classe social, mas não em relação à cultura (Lughod, 2012 p. 465)

O trabalho missionário e o feminismo colonial pertencem ao passado. Nossa tarefa é explorar criticamente o que poderíamos fazer para ajudar a criar um mundo no qual as mulheres afegãs possam ter segurança e vida decente. As mulheres querem ser vistas e ouvidas, essas mulheres estão na luta anti- imperialista e querem trazer uma outra visão da mulher muçulmana (diferente da visão ocidental, que coloca a mulher muçulmana sempre como oprimida). É preciso ter em mente que elas não se sentem incluídas  no feminismo ocidental. Não devemos negar a violência estrutural e nem a violência promovida pelo Talibã; a questão da mulher afegã vai muito além da vestimenta. Elas buscam liberdade para trabalhar, comer, ter um lar, ter uma família. E jamais podemos esquecer o papel do ocidente nessa história.


Referências bibliográficas:

ABU-LUGHOD, Lila. As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação? Reflexões antropológicas sobre o relativismo cultural e seus Outros. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 20(2): 256, maio-agosto/2012

AHMED, Leila. Women and Gender in Islam. New Haven, CT: Yale University Press, 1992

MALEY, Willian. The Afghanistan wars. New York: Palgrave Macmillan, 2002.

RUBIN, Barnett. The Fragmentation of Afghanistan: state formation and collapse in the international system. New Haven and London: Yale University Press, 2002

RUCHEL, Gabriela;VIEIRA, Maria Gabriela O. AFEGANISTÃO EM GUERRA: INVASÃO E INSURGÊNCIA (2001-2020).DOSSIÊ DE CONFLITOS CONTEMPORÂNEOS | Vol. 2, n. 2, fev./ maio, 2021 | ISSN 2763-6518

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. “Can the Subaltern Speak?” In: NELSON, Cary; GROSSBERG, Lawrence (Eds.). Marxism and the Interpretation of Culture. Urbana: University of Illinois Press, 1988. p. 271-313.

VISENTINI, Paulo Fagundes; PEREIRA, Analúcia Danilevicz; MARTINS, José Miguel; RIBEIRO, Luiz Dario; GRÖHMANN, Luiz Gustavo. Revoluções e Regimes Marxistas: rupturas, experiências e impacto internacional. Porto Alegre: Leitura
XXI, 2013.

Entrevista Reginaldo Nasser: https://revistaforum.com.br/global/nao-houve-derrota-dos-eua-no-afeganistao-diz-reginaldo-nasser/


Karolina dos Santos

É graduada em Ciências Sociais pela UFJF, Especialização em Ciência da Religião pela UFJF. Mestra em Ciência da Religião como foco nos estudos sobre o conceito de jihad no islã, pela UFJF. Atualmente é doutoranda no Programa de Pós Graduação em Ciência da Religião pela UFJF, com foco de estudos e pesquisa sobre o Islã, e os conceitos de jihad e jihad global.