Teias de relacionamentos ítalo-brasileiros: História e trajetórias de Antonio Passarella e Itamar Franco

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 19, 2022 – Renan Aguiar |  Teias de relacionamentos ítalo-brasileiros: História e trajetórias de Antonio Passarella e Itamar Franco


Há dez anos (5/10/2011) a Câmara dos Vereadores do Município de Juiz de Fora promoveu o inusitado encontro entre Antonio Passarella e Itamar Franco. O dito cruzamento se deu exatamente no local em que o comerciante de secos e molhados possuía um armazém. Cruzaram-se histórias; trajetórias de migrantes que vieram fazer a vida em Juiz de Fora e construíram duas cidades, a Manchester brasileira e o Centro urbano-cultural e de serviços, dos anos 1960 em diante. 

O grande exotismo deste encontro assenta-se nas diferenças entre os dois juiz-foranos, um italiano do Vêneto, nascido à foz do rio Pó, e o outro brasileiro, literalmente nascido sobre as águas do Atlântico. Passarella notabilizou-se como comerciante e Itamar como político; o italiano nasceu no século XIX (1871); Itamar é de 1930. Passarella talvez jamais tenha visto o ex-presidente da República, mas certamente Itamar ouvira falar ou conheceu, em sua infância, o importante comerciante italiano. Apesar das explícitas diferenças, a condição de migrante lhes ofereceu singular semelhança.    

Compreender o sentido e a dimensão das migrações nas trajetórias de Antonio Passarella e de Itamar Franco é o objetivo da pesquisa que desenvolvo. Estes atores históricos se identificavam como migrantes? O fato de serem migrantes foi determinante na construção de suas redes de relacionamento em Juiz de Fora. São três pesquisas: as duas primeiras sobre as trajetórias de Antonio Passarella e Itamar Franco e a terceira sobre os critérios comparativos a serem utilizados.  

Neste primeiro passo, estudo a trajetória de Antonio Passarella e possuo muitas perguntas e respostas, mas, neste texto, centrar-me-ei nas perguntas sem respostas, muitas das quais fazemos, sem respostas claras, aos nossos pais. Contarina foi a comune (município) de nascimento de Antonio; a região é um celeiro de “Passarellas”, um grupo familiar enraizado naquela terra. É uma região cercada por braços do rio Pó, exatamente no seu delta, um espaço geográfico que faz lembrar uma ilha, apesar de não o ser. A pesca e a agricultura eram vocações da região, tanto quanto o era a agricultura em toda a região polesine, fração oriental  da região situada entre os rios Ádige e Pó, cuja principal cidade era e é Rovigo. 

A Sereníssima República de Veneza, da qual o Vêneto fazia parte,  foi invadida por Napoleão Bonaparte em 1797. Em 1815, o Congresso de Viena confirmou o domínio direto do Vêneto, do qual Contarina fazia e faz parte, pelo Império Austro-Húngaro.  Rebeldes, com o apoio do Piemonte, do papa e de Nápoles, declararam guerra aos austríacos, fazendo com que a República fosse proclamada em Roma no ano de 1849. 

Ainda em 1849, os austríacos venceram os piemonteses e os revolucionários, restabelecendo o domínio Austro-Húngaro. Em 1866, com a Guerra Austro-Prussiana, os exércitos da península itálica se aliaram aos da Prússia e venceram os austríacos que, por força do Tratado de Viena (1866), cederam o Vêneto à França que deveria, sob consulta da população, definir o seu destino. Napoleão III, no entanto, antes do plebiscito, retirou suas tropas e abriu caminho para que o Vêneto fosse ocupado pelo, já consolidado,  Reino da Itália. O destino do Vêneto coube ao Reino da Itália, que organizou um plebiscito de duvidosa lisura (1866), mas suficiente para formalizar a anexação do Vêneto ao Reino da Itália

Nascido em 1871,  Giovanni e Giuseppina, pais de Antonio Passarella, testemunharam a instabilidade e o câmbio de poder na Itália. Apenas 74 anos antes de Antonio nascer, Napoleão havia posto fim à República Sereníssima de Veneza, fazendo com que o Vêneto sucessivamente mudasse de soberano, entre franceses e austríacos. A instabilidade política, provavelmente acompanhada de instabilidade econômica, afetou os venezianos e, dentre eles, os agricultores que, já sob o domínio austríaco, se acostumaram a verter sua produção para outras regiões do Império Austro-Húngaro. 

A desorganização econômica no Vêneto, após a Unificação italiana, é uma das justificativas para a grande imigração vêneta no final do Século XIX e início do Século XX. Teria Antonio Passarella imigrado para a América por dificuldades econômicas ou apenas buscava fazer a américa e distanciar-se de um local fatigado, conforme a experiência de seus pais, por instabilidades? No seio da família Passarella, há um discurso segundo o qual Antonio Passarella era considerado como sendo do outro lado. O que significa isso? Seria austríaco? Apoiara os austríacos? Talvez fosse republicano, o que o faria avesso ao Reino da Itália. Talvez ele fosse judeu, como alguns familiares aventaram, mas como não há evidências de criptojudaismo ou de tradições culturais judaicas, tal resposta perde sustentação. Os sobrenomes de seus pais fazem com que se descarte a ascendência austríaca, mas, talvez, pudesse ter sido um entusiasta do domínio austríaco, tese para a qual também não há evidências. . 

 Antonio Passarella desembarcou no Brasil e, segundo informações familiares, trabalhou como carroceiro no Rio de Janeiro, uma atividade dominada por brasileiros e portugueses. A estadia na capital brasileira o fez reencontrar uma antiga “namorada” do Vêneto, que trabalhava como dama de companhia de uma família de cafeicultores de Cantagalo. O reencontro teria renovado o mútuo interesse dos jovens, que se casaram em 1891, na casa do fazendeiro Francisco Rodrigues da Silva. Como se deu tal reencontro? Fora fruto do acaso ou viabilizado por redes de relações e comunicações entre italianos no Rio de Janeiro? Segundo a história familiar oral, Antonio reencontrou fortuitamente Giuseppina  em um teatro na capital fluminense. Antonio economizara recursos que o permitiram trajar-se e ingressar no teatro, reencontrando Giuseppina, que acompanhava a moça de quem era dama de companhia. 

A jovem família não demorou a desembarcar da capital e das terras fluminenses; já em São Carlos, interior de São Paulo, batizaram, em 1894, seu filho Victorio. São Carlos, situada no oeste paulista, atraiu muitos italianos que, em sua maior parte, trabalhavam na lavoura do café. Por que Antonio e Giuseppina escolheram São Carlos? O casal trabalhou na lavoura? É sabido que São Carlos, em 1894, foi o quarto mais importante destino de italianos que chegavam à Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, passando para a primeira colocação em 1895. No entanto, o jovem casal não passou por hospedarias e, por conta própria, decidiu por São Carlos. Existiam redes de relações para migração interna dos italianos? Como  funcionavam tais redes?

É provável que Giuseppina e Antonio se comunicassem em vêneto, língua da região de origem de ambos. No entanto, não há registro do uso do vêneto pelo casal; o português e o italiano eram as línguas da família. Teriam aprendido o italiano antes do embarque para o Brasil? Não teriam origem humilde e possuiriam formação educacional? A narrativa, um tanto romântica, do reencontro do casal em um teatro, quando da apresentação de uma ópera italiana, contribui para a consolidação desta perspectiva, pois revelaria hábitos e necessidades culturais mais comuns aos grupos economicamente altos e medianos. 

Especialmente Antonio talvez tivesse origem em grupos economicamente medianos, pois há relatos de que não seria campesino na Itália, mas transportador, talvez barqueiro, que realizava a travessia do rio Pó. Esta narrativa pode ser corroborada por uma carta, recebida por Silvio Passarella, filho de Antonio, em 1953. A dita epístola possuía como remetente Mario Tomiati, sobrinho de Antonio e proprietário de um negócio de transportes marítimo. Sendo assim, Antonio não devia ter sido carroceiro, mas, quem sabe, comerciante de um segmento com o qual já possuía experiência em Contarina, o transporte. Esta narrativa guarda coerência com a atividade de comerciante, com a qual Antonio se notabilizou. No entanto, o uso do italiano, e não do vêneto, como língua familiar, pode revelar uma nova constituição identitária, a italiana. Os brasileiros não reconheciam polesineses, calabreses… Todos seriam italianos. Eram identificados como grupo homogêneo e se solidarizaram a partir desta nova identidade utilizando o italiano, o qual passaram a falar em território brasileiro. 

As redes de solidariedade eram comuns e muitas vezes se institucionalizavam formando associações, como a Sociedade Italiana de Beneficência e Mútuo Socorro Umberto I, criada em 1887 e da qual Antonio Passarella foi presidente de 1930 a 1942. Além da Umberto I, havia, em Juiz de Fora, a  Società Operaia Italiana di Mutuo Soccorso e di Mutua Istruzione (1878), preferida pelos comerciantes italianos; a Fanfarra Italiana (1900); a Sociedade Beneficente Príncipe de Piemonte (1900), formada por dissidentes da Umberto I; a União Italiana Benzo di Cavour (1902), formada por italianos próximos aos negócios da construção civil e que se converteu em Loja Maçônica em 1915; a Irmandade São Roque (1902); a Casa d’Itália (1939) que objetivava reunir todas as associações de italianos; e, a Sociedade Ítalo-Brasileira Anita Garibaldi (1946), que recebeu os bens da Umberto I, quando de sua dissolução. A profusão de associações permite compreender a pluralidade de identidades não étnicas entre os italianos, fazendo crer que, em Juiz de  Fora, vênetos, genoveses, toscanos… eram italianos. 

O evidente prestígio de Passarella na sociedade juiz-forana possuía um fundo econômico, afinal era um reconhecido comerciante e participava de outros negócios além daquele que titularizava, como a Companhia de Fiação e Tecelagem Moraes Sarmento, da qual era sócio minoritário. No entanto, desponta na trajetória de Passarella, além da habilidade comercial, o manejo do bom relacionamento com a comunidade italiana e juiz-forana em geral. Em 1912, em um cortejo fúnebre e enterro de uma jovem da  elite juiz-forana, a família Passarella se fez presente com Antônio e seu filho, Americo, mas não apenas as presenças físicas foram notadas. Dentre as nove coroas de flores que homenageavam a falecida, apenas duas se intitulavam família: os Passarella e os Guedes. (Correio da Manhã, 09 de abril de 1912)

Passarella não foi apenas um hábil comerciante. Aos 40 anos de idade, Antonio era o patriarca de uma respeitável família juiz-forana, construída sob sua batuta e pela forma inteligente com a qual utilizou as redes de relacionamento com brasileiros e italianos. Reconstituir estas redes que, mesmo após sua morte, produziram o sentimento necessário para homenageá-lo, batizando a rua na qual possuiu seu principal negócio com o seu nome, é o um dos principais objetivos de minha pesquisa. 


Referências bibliográficas:

GASPARETTO JÚNIOR, Antonio. Direitos Sociais em Perspectiva: seguridade, sociabilidade e identidade nas mutuais de imigrantes em Juiz de Fora (1872-1930). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da UFJF, Juiz de Fora, 2013.

PIRES, Anderson. Café, Finanças e Bancos: Uma Análise do Sistema Financeiro da zona da Mata de Minas Gerais: 1889/1930. Tese de doutorado apresentada à FFLCH (USP), 2004.  

TERRA, Paulo Cruz. Cidadania e trabalhadores: cocheiros e carroceiros no Rio de Janeiro (1870-1906). Tese (Doutorado em História). Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História, 2012.

TRENTO Angelo. Os italianos no Brasil, São Paulo: Prêmio Editorial, 2000.   

TRUZZI, Oswaldo. Café e Indústria: São Carlos 1850–1950. 2ª ed. São Carlos: Edufscar.


Renan Aguiar

É doutor em Direito pela Uff, mestre em Direito pela PUC-Rio, doutorando em História pela UNISINOS, bacharel em Direito pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e advogado. e-mail: renan.aguiar@aguiar.rio.br