Novos olhares sobre o mundo: Agricultura Sintrópica e Bioconstrução

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 19, 2022 – Luís Roberto Silva Cruz |  Novos olhares sobre o mundo: Agricultura Sintrópica e Bioconstrução


2021 está chegando ao fim, e a proximidade de um novo ano inevitavelmente nos faz pensar no futuro e em quais escolhas deveríamos tomar enquanto sociedade em relação aos desafios que invadem nossas vidas atualmente. O acirramento das crises ambientais, sanitárias e econômicas põe em xeque uma forma de ver o mundo que não tem dado conta de responder às expectativas da humanidade por mais igualdade entre todos. Assim, cremos ser necessário encarar as questões que nos cercam com a humildade de reconhecer que muitas das escolhas nossas e de nossos antepassados foram ruins, e que é momento de abrir a mente para outras perspectivas. 

Durante este ano, tivemos a oportunidade de conhecer algumas tecnologias que jamais imaginávamos existir. São elas a Agricultura Sintrópica e a Bioconstrução. A acurácia e simplicidade empregadas nas técnicas que aqui apresentamos, surpreenderam não apenas ao que vos escreve, mas também a diversas pessoas que tivemos a oportunidade de contar sobre tais questões. Assim, caso o leitor ache este conteúdo interessante, pedimos que também o compartilhe, de modo que mais pessoas possam tomar conhecimento das possibilidades trazidas por essas noções que têm ganhado cada vez mais adeptos. 

Agricultura Sintrópica

Começemos então, tratando dessa coisa de nome esquisito chamada Agricultura Sintróprica. Em suma, Sintropia é algo que se refere à organização de um sistema, ao passo que a Entropia,  termo que lhe é oposto, dá conta do grau de desordem e imprevisibilidade de um sistema. A natureza, de forma geral, tende a funcionar de um ponto de vista sintrópico, organizado, de forma a promover a vida que conhecemos através de ciclos compostos por diversos seres que se auxiliam e se desestabilizam de diferentes maneiras nos processos que envolvem o existir biológico. 

O homem, com sua engenhosidade, é uma espécie que há muito tem se especializado em influenciar nos vários ciclos naturais em prol dos objetivos traçados pelas mais diferentes sociedades. A agricultura sintrópica, assim, nos propõe uma reflexão a respeito de como participar dos ciclos da natureza de uma forma que a integração dos humanos nesses ciclos seja benéfica para todos os seres participantes. 

Dessa maneira, perguntamos ao leitor: em qual local da natureza encontramos hectares e hectares de uma “floresta” composta por uma única variedade de planta? Por exemplo, uma floresta de dezenas de hectares de bananas? Nesse caso, a única resposta possível é que sem a mão do ser humano não existiria tal fenômeno que, no caso, acontece em razão da necessidade de se produzir alimentos em larga escala. 

Todavia, poucas vezes nos perguntamos sobre os custos que incidem sobre a nossa saúde e a do meio ambiente em razão da produção que consumimos, oriunda de uma cadeia que abusa dos agrotóxicos e do desmatamento.  Infelizmente, o uso de “pesticidas” é uma ação necessária quando a intenção é obter uma quantidade massiva de um único produto agrícola. Uma imensa plantação de bananas, realmente, pode ser toda perdida se não “protegida” de doenças ou insetos. Contudo, a própria presença constante desses agentes biológicos é algo que acontece devido à monocultura mental que envolve os processos da agricultura tradicional, notadamente entrópicos. 

Se recordarmos o significado de entropia descrito alguns parágrafos acima, veremos que é um termo que se refere ao grau de desorganização de um sistema. A agricultura tradicional trabalha de uma maneira intrinsecamente entrópica, uma vez que se vale de mudar um ecossistema local para dar conta do plantio de uma única cultura, o que acaba expondo a lavoura a ameaças constantes. 

Com a agricultura sintrópica, entretanto, poderíamos ter uma possibilidade de integrar os humanos nos ciclos naturais de uma forma que traga benefícios ao meio ambiente, ao mesmo tempo que permita a possibilidade de tirarmos o nosso sustento através de uma agricultura saudável para todos, e também rentável para os pequenos, médios e grandes produtores.  

Henrique Sousa, que com sua família é proprietário da Fazenda Ouro Fino em Jaguaquara (BH), é um bom exemplo de produtor que trabalha com agricultura sintrópica em larga escala. Há mais de 25 anos a família Sousa vem colhendo bons frutos à frente da propriedade de 25 hectares de floresta produtiva, que já rendeu inúmeras safras de açaí, cacau, banana e diversos outros gêneros. A fazenda ainda lucra com o processamento da produção e com os cursos ofertados àqueles interessados em aprender as técnicas da agricultura sintrópica. 

Isso tudo é possível, pois, ao contrário das práticas tradicionais, o modelo sintrópico busca imitar a natureza no momento do plantio da lavoura. Assim, usando novamente o exemplo de uma plantação comum com vários hectares de banana, o que teríamos se pensássemos de uma maneira inspirada nos ciclos naturais, tal qual propõe Ernst Götsch, seria um cuidadoso manejo que realizaria o plantio não apenas da banana, mas de outras espécies ao redor que fossem benéficas ao seu crescimento. 

Ernst Götschm, um dos principais pesquisadores na área de agricultura sintrópica, vem trabalhando há mais de 40 anos em sua fazenda em Piraí do Norte, Bahia. Na floresta tem-se o plantio de castanha-do-brasil, açaí, marang, mangustão, achachairu e outras espécies. Fotografia retirada do livro Agricultura Sintrópica segundo Ernest Götsch.

Dessa maneira, ao invés de uma grande monocultura, o que teríamos seriam grandes áreas rematadas com diversas espécies consumíveis, com o solo e nascentes recuperados, sem agrotóxicos, e sem a existência de pragas, uma vez que na agricultura sintrópica este conceito deixa de existir, de maneira que agentes ‘inimigos”, como formigas ou doenças, passam a ser entendidos como indicadores naturais de que alguma ação é necessária para a reordenação do sistema, como, por exemplo, a necessidade da execução de podas com técnicas específicas para o melhor desenvolvimento das plantas. O que reforça ainda mais a ideia de ação conjunta à natureza, e não de uma disputa pelos recursos que da terra advém. 

Bioconstrução

Assim como na Agricultura Sintrópica, a Bioconstrução é um conceito de materialização de estruturas que busca uma integração harmoniosa dos humanos com o ambiente. Existem inúmeras técnicas que podem ser utilizadas para bioconstruir. Todavia, o que une a todas é a ideia de se usar na construção o máximo possível de materiais naturalmente disponíveis no terreno. Dessa forma, a própria terra, assim como pedras encontradas no solo, madeira, bambu e folhagens se encontram entre os materiais mais utilizados nas bioconstruções. 

Não é de hoje, porém, que se faz uso desses materiais para a confecção de residências.  Os povos indígenas de nosso continente, por exemplo, sempre deram primazia a esses elementos em suas construções. Esse quadro não muda durante os muitos anos de colonização, e mesmo no século XXI ainda pode-se ver nos sertões do Brasil, e também nas periferias das maiores cidades, famílias residindo em casas construídas com  técnicas como o pau a pique, que consiste no preenchimento com barro de paredes sustentadas por vigas de madeira postas de forma entrelaçada, e também encravadas no solo. 

Contudo, com o advento das redes sociais e a maior praticidade em difundir informações e conectar pessoas, pudemos notar que, em diversas plataformas, se consegue encontrar perfis dedicados a difundir as possibilidades da bioconstrução e também combater os mitos e rótulos impostos sobre as obras feitas com o uso de materiais como a terra e madeiras. 

Um desses perfis é o instagram @bioconstrucao, que conta com mais de 60K de seguidores, gerido pelo arquiteto Caio Martins, e que se dedica a compartilhar postagens com conteúdos ligados ao mundo dos bioconstrutores e seus simpatizantes. Dentre esses conteúdos, por exemplo,  encontramos uma série de posts dedicados a dar esclarecimentos sobre o mito do barbeiro, conhecido no senso comum como um dos grandes temores daqueles que residem em casas feitas a partir de técnicas como a do pau a pique, ou mesmo a taipa, que, utilizada junto com as armações de bambu, apresentou esse belo resultado que pode ser visto nas fotos a seguir no centro de pesquisas TERRE, na China. 

Centro de Pesquisas TERRE • Kunming, China • Área: 1.328 m² • Arquitetura: One University One Village Team • Ano: 2019 • Fotografias: Ce Wang. Instagram @bioconstrucao via ArchDaily.

No geral, entende-se que o conhecido inseto vetor da doença de chagas é atraído pela terra em si, que é o principal material do qual são feitas as paredes neste tipo de bioconstrução. Todavia, esse entendimento não se sustenta na realidade, uma vez que a real razão dos barbeiros ou quaisquer outros invasores que possam se espreitar por nossas residências é o fato de que, com o tempo, rachaduras vão se formando nas paredes de construções convencionais ou bioconstruídas, e são essas rachaduras o fator decisivo para a vinda desses visitantes indesejados. Os barbeiros se alocam nessas frestas que são lugares confortáveis para a sua morada e, por conta disso, não faz diferença se a casa é de barro ou alvenaria, o importante é o cuidado e a manutenção efetuados pelos proprietários em seus lares para se evitar tais rachaduras. 

O Youtube é outra plataforma que conta com diversos canais que trazem conteúdos sobre a bioconstrução; o simpático canal “Felipe & Eliane” é um deles. Nele, o casal compartilha com os mais de 1000 inscritos a rotina de quem escolheu construir a casa própria do 0 com o uso de técnicas como o hiperadobe, que nada mais é do que a edificação de sólidas paredes através de um simples, porém sistemático, processo de compactação de terra com o uso de sacos plásticos feitos de materiais semelhantes aos usados no comércio de legumes, como cebola e batata. 

Casal Felipe & Eliane trabalhando juntos na construção de sua casa em hiperadobe. Canal Felipe & Eliane.

O canal é interessante, pois mostra a construção em diversas fases, expondo pontos positivos e problemáticos que atravessam as experiências de pessoas comuns que escolhem bioconstruir, o que é ótimo para nos aproximar de uma visão de mundo que, em razão do desconhecimento, tende a parecer distante. Através dos conteúdos compartilhados pelo casal, pode-se perceber como as técnicas empregadas são simples, o que nos faz pensar em como poderiam ser úteis para tantas pessoas que hoje se encontram na luta pela casa própria. 

É claro que a presença de um arquiteto ou construtor experiente é essencial. Contudo, a possibilidade de se trabalhar com a própria família, ou em regimes de mutirão, ajuda a diminuir bastante o valor final da obra, além de acelerar o final da sua execução. Fora isso,  como destaca o construtor Marcello Martins, ainda podemos somar a economia com mão de obra aos valores que se deixa de gastar com insumos tradicionais como tijolos e grandes quantidades de cimento, tendo em vista que as paredes podem ser construídas apenas com a compactação da terra disponível no próprio terreno, a depender da técnica utilizada.

Os desafios para uma mudança de perspectivas. 

As consequências climáticas e sociais da cultura do consumo desmedido, que hoje permeia nossas relações, têm se tornado cada vez mais catastróficas em todas as partes do planeta. Nesse sentido nos perguntamos: por quais razões não investimos no desenvolvimento e difusão de tecnologias e ideias que tragam respostas para os problemas que atualmente enfrentamos como humanidade? 

A agricultura sintrópica, assim como os métodos que envolvem a bioconstrução que brevemente apresentamos, são claras alternativas para que possamos encontrar saídas para a situação em que estamos. Elas representam possibilidades comprovadamente efetivas tanto de promover o desenvolvimento social quanto gerar empregos em um país com um número elevadíssimo de desempregados. 

O fomento à agricultura familiar para a atuação no segmento dos orgânicos, a partir da perspectiva sintrópica, poderia ao mesmo tempo resolver diversos dos nossos problemas relacionados à luta pela terra, ao desmatamento, e ainda inserir o Brasil em um mercado internacional que cada vez mais demanda alimentos produzidos em cadeias que não geram degradação ambiental. Quantos postos de trabalho, por exemplo, poderiam ser gerados em uma região como a Zona da Mata que, historicamente, explora ao máximo seu povo e o meio ambiente, e que hoje vive uma crise que atinge frontalmente a sua população, e em especial o produtor rural?

Por sua vez, o emprego mais corrente de técnicas de bioconstrução, nas obras que realizamos, também poderia ser de grande valia para baratear de maneira geral os custos da construção civil para aqueles que batalham pela casa própria. Para além disso, a brutal diminuição nos rejeitos oriundos das obras é mais um atrativo dessa perspectiva de construção que é fundamental para solucionar problemas como a falta de aterros sanitários apropriados para o recebimento desse tipo de lixo que é diariamente gerado em grande quantidade.

Se as benesses são tantas, o que nos falta para ao menos experimentar mais intensamente novas formas de se pensar questões tão importantes quanto a habitação e a produção de alimentos? A esperança que fica é que possamos ter uma transformação que pouco a pouco parta das pessoas comuns que compõem a nossa sociedade. 

Contudo, para que tal transformação aconteça, cremos ser necessário que outras visões de mundo, além da hegemônica, possam ser apreciadas. Por essa razão escrevemos este texto com o simples objetivo de difundir novas possibilidades aos leitores e incentivar o debate a respeito dos referidos temas. Sendo este texto apenas introdutório, sugerimos uma maior imersão através das referências que aqui citamos. A agricultura sintrópica e a bioconstrução ainda são campos muito pouco explorados em nosso país, e sobretudo em nossa região, de forma que não há restrições entre aqueles que podem contribuir para o desenvolvimento dessas ideias. 


Referências bibliográficas:

SAKAMOTO, Daniela Ghiringhello. REBELLO, José Fernando dos Santos. Agricultura Sintrópica segundo Ernest Götsch. Editora Reviver 2021 (Ebook). 

CANAL Felipe e Eliane. Dia de Mutirão. Nossa Bioconstrução [S. l.], 11 mar. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wQbZNAjbJ8I. Acesso em: 14 dez. 2021.

MARTINS, Caio. Instagram @bioconstrucao via ArchDaily. Centro de Centro de Pesquisas TERRE • Kunming, China. [S. l.], 07 out. 2021. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CUuuM8nNdRN/. Acesso em: 14 dez. 2021.

MARTINS, Caio. Instagram @bioconstrucao. Quatro Mitos sobre a casa de terra. [S. l.], 20 nov. 2021. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CWgnDPSBuhZ/. Acesso em: 14 dez. 2021.

MARTINS, Caio. Instagram @bioconstrucao. Adeus Barbeiro! [S. l.], 09 dez. 2021. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CXPJsPZlrI6/. Acesso em: 14 dez. 2021.

FAZENDA Ouro Fino. O livro da Natureza. [S. l.], 05 mar. 2018. Disponível em: http://www.fazendaourofino.com.br/#olivrodanatureza. Acesso em: 14 dez. 2021.


Luís Roberto Silva Cruz

Históriador associado ao Labhoi/Afrikas UFJF e Produtor Cultural na Da Mata – Produções Culturais.