Vozes brasileiras para ouvir em italiano: Renato Russo

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 19, 2022 – Luana Sofiati |  Vozes brasileiras para ouvir em italiano: Renato Russo


Ouvir música é uma das atividades mais acessíveis para quem busca contato com outras culturas, pois a variedade de gêneros musicais amplia a possibilidade de identificação com os artistas, e as canções oferecem um contato diversificado com a língua. Esse potencial de imersão se torna ainda maior quando as culturas envolvidas têm uma relação de troca tão frutífera como Itália e Brasil. 

Pensando nisso, decidi escrever sobre a conexão entre esses dois países, comentando a relação de quatro artistas brasileiros com o cenário musical italiano. Certamente, a seleção poderia ser maior, mas a ideia desse breve passeio é incentivar novas aproximações à língua italiana e, por consequência, à cultura. Um panorama mais amplo dessas colaborações musicais pode ser visto no artigo de Arthur Dapieve (2015), o qual contempla parcerias entre os anos 1960 e 2010.

O primeiro músico da breve seleção que proponho foi também o primeiro contato que eu tive com a língua italiana, aos 11 anos, por influência do meu pai: Renato Russo. O compositor e cantor que se tornou um ídolo dos jovens brasileiros nos anos 1980 com canções de rock demonstrou seu amor pela língua italiana através do disco Equilíbrio distante. Publicado em 1995, o álbum apresenta 13 faixas, das quais 12 são composições italianas e uma é tradução de canção brasileira.

Equilibrio Distante – capa do disco

Os temas das músicas interpretadas por Renato Russo são, como ele enfatizou em entrevista à Folha de São Paulo, semelhantes ao que seu grupo Legião Urbana cantava. Na época do lançamento, ao contar sobre seu encontro com as canções italianas, relembra:

Fui numa loja de CDs e vi a seção de música italiana. Tenho muita curiosidade por música pop de vários lugares. A esmo, peguei vários discos e me apaixonei perdidamente. Achei a temática das letras muito parecidas entre si e muito parecidas com a temática da Legião Urbana – o indivíduo frente à sociedade, a ética e canções de amor belíssimas (RUSSO…, 1995).

Apesar da convergência temática das canções e da presença marcante da música popular italiana com Fiorella Mannoia, Claudio Baglioni e Laura Pausini, notamos que a coletânea abarca também outras influências musicais, como o glam rock de Renato Zero, o rock progressivo da Premiata Forneria Marconi ou, ainda, a bossa nova de Tom Jobim com o pop brasileiro de Lulu Santos. 

A inclinação romântica marca tanto as músicas que aludem aos relacionamentos amorosos, como I venti del cuore, Strani amori e Scrivimi, quanto aquelas que tematizam as reflexões existenciais, como La forza della vita e La vita è adesso. Questionado sobre a possibilidade de seu disco ser rotulado como brega, o músico responde que o projeto já foi concebido com esse direcionamento e rebate o teor pejorativo atribuído à palavra expondo que o brega é “a canção extremamente popular e extremamente romântica” (RUSSO…, 1995), uma linguagem com a qual ele queria trabalhar.

Equilibrio distante – encarte

Uma informação curiosa para quem ouve o disco, e que eu só descobri anos depois de aprender as letras acompanhando o encarte e a voz dele, é que o cantor não sabia falar italiano. A fluência que ele demonstra nas canções, contudo, faz pensar na sua dedicação em cantar com precisão até as faixas com trechos desafiadores para um iniciante na língua, como alguns versos de Due.

Você pode encontrar as músicas em diferentes plataformas digitais e até cantá-las com apoio dos textos que também estão disponíveis. E se você não souber a língua ou ainda for iniciante, não se preocupe: os trechos mais acelerados ou desafiadores são exceção e a pronúncia acurada de Renato Russo serve como uma encorajadora aula. 

Em março, veremos mais uma voz brasileira que colaborou com artistas italianos ao longo de sua carreira. Semelhante a Renato Russo, ela cantou o amor e o desamor, mas o fez sobretudo através de versões em português de sucessos italianos.


Referências bibliográficas:

DAPIEVE, Arthur. Disco ‘Equilíbrio distante’, de Renato Russo, é viagem às raízes familiares. Portal Uai. 11 de out. 2015. Disponível em: https://www.uai.com.br/app/noticia/musica/2015/10/11/noticias-musica,172830/disco-equilibrio-distante-de-renato-russo-e-viagem-as-raizes-famil.shtml

FERREIRA, Mauro. DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Equilíbrio distante, Renato Russo, 1995. Portal G1. 06 ago. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2020/08/06/discos-para-descobrir-em-casa-equilibrio-distante-renato-russo-1995.ghtml

RUSSO deixa de ser eterno adolescente. Entrevista concedida a Fernanda da Escóssia. Folha de São Paulo. 18 dez. 1995. São Paulo, 1995. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/12/18/ilustrada/18.html

TORRESAN, Paolo. As canções italianas interpretadas por Renato Russo. Revista Italiano UERJ, v. 2, n. 1, p. 16, 2011. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistaitalianouerj/article/view/2120 


Luana Sofiati

É formada em Letras Português/Italiano pela UFJF e mestre em Letras pela mesma instituição. Entre 2016 e 2018, atuou como professora bolsista no Projeto de Universalização de Línguas Estrangeiras na UFJF. Enquanto professora de língua italiana, incentiva seus alunos a criarem um percurso de aprendizagem permeado pela cultura. Para ajudá-los, está sempre ampliando meu repertório de músicas, filmes, séries e outros produtos culturais.