Produção artística autoral em Juiz de Fora partindo da perspectiva de artista e estudante do IAD

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 20, 2022 – Laura Coury Bernardes | Produção artística autoral em Juiz de Fora partindo da perspectiva de artista e estudante do IAD


Ao receber o convite da Revista para falar sobre produção artística autoral, mais especificamente em Juiz de Fora, me deparei com o seguinte questionamento: o que significa, além do óbvio, ser uma artista autoral? É fato que tal produção se mostra presente na história desde que o mundo é mundo, mas, nos dias atuais, entre NFTs e feiras de rua, como e onde a gente se posiciona? 

Para dar início a esta resposta: o básico. Um artista autoral é aquele que produz conteúdos artísticos inéditos, sejam eles inspirados ou não em outros movimentos e pessoas. O difícil vem depois. O que isso traz consigo? Qual o custo e a carga de ser uma artista independente nesse Brasil caótico de hoje? 

Minha – ainda pequena – carreira como artista começou com pouca idade. Aos 12, usava a tela do computador de estêncil para produzir desenhos de rostos de famosos. Aos 17, criei minha primeira página no Instagram para divulgar alguns desenhos e pinturas descompromissadas. Foi só aos 20, a essa altura já cursando o Bacharelado Interdisciplinar em Artes e Design (o IAD na UFJF) e enfrentando uma pandemia global, que me vi na necessidade de uma produção maior. Mas, como nada na vida é tão simples assim, me deparei com algumas questões dificultadoras deste objetivo apressado. Falta de investimento, falta de interesse de parte do público geral, desvalorização de pequenos artistas – este último sendo o maior dos pontos. 

Falando em questão de poucos anos, do início de 2020 para os dias atuais, a vida tem parecido passar com muito mais rapidez. A popularização da entrega rápida de informação com as redes sociais, principalmente o TikTok, Twitter e Instagram, tem feito com que os prazos de validade das produções artísticas corram sem que percebamos. Um exemplo prático: a música. As músicas dos últimos tempos parecem ser feitas com o intuito de viralizar rapidamente com dancinhas e novas trends. Não que isto seja uma coisa ruim, mas o prazo de validade passa correndo quando uma nova dancinha surge com uma batida diferente. Isso vale para todas as expressões artísticas, as artes visuais, o cinema, a moda, o design e por aí vai. 

Sobre uma possível salvação

Somando esta pressa com os outros fatores citados, o resultado é a realidade da maioria dos artistas independentes nacionais. Uma válvula de escape para de fato alcançar o que buscamos, surpreendentemente, vem do governo. Em 1991 foi criada a Lei de Incentivo à Cultura, a famosa Lei Rouanet, que usa do sistema de incentivos fiscais e patrocinadores para a injeção de fundo monetário em projetos inscritos pelos artistas. Mesmo que de ampla concorrência e aceitação limitada, a lei vem, desde então, auxiliando uma vasta gama de produtores independentes de todo nível de fama e reconhecimento. 

Porém, repetindo a sentença de que nada nesta vida é tão simples assim, o (des)governo atual, fã da cultura nacional (lê-se ironicamente), promete alterar um pouco as coisas, reduzindo o teto dos investimentos em até 50% e alterando o cachê de artistas inscritos na Lei de R$45 mil para apenas R$3 mil, redução de aproximadamente 94%.  

Outro incentivo, este criado durante a pandemia em 2020, a Lei Aldir Blanc, tem seu funcionamento um pouco diferente. Por ter surgido em uma época onde todo o setor cultural estava inerte, a lei prometeu ser uma ajuda emergencial para artistas, coletivos e empresas. Foram distribuídos 50% dos recursos financeiros para os estados e o Distrito Federal, e a outra metade aos municípios, somando um total de R$3 bilhões de reais para todo o território nacional, cabendo a cada território alocar as quantias para a população local através de editais, bolsas e projetos desta natureza. 

Afunilando um pouco mais

Tocando agora em um ponto mais perto de casa, Juiz de Fora também conta com seus incentivos particulares à cultura local. Em conjunto com a Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage, a Lei Murilo Mendes foi criada na década de 1990, sendo iniciada em 1995. Foi a primeira lei cultural a ter um funcionamento diferente do resto do país, que até então trabalhava apenas com incentivos fiscais. O artista, ou coletivo, apresenta seu projeto e, se aprovado, a verba é direcionada para sua realização. 

E para quem pensa que as leis de incentivo à cultura são só para as artes físicas e visuais, não são! Só esta em específico já destinou verbas para artistas locais de teatro, literatura, dança, música, cinema, todo tipo de projeto diferente. Ainda sobre a Funalfa, a instituição lança para a população diversos editais e oportunidades de bolsa repetidas vezes ao ano, sendo algumas delas voltadas para parcelas selecionadas de artistas. O edital “Cultura da/na quebrada”, por exemplo, que promoveu protagonismo de artistas da periferia; o “Fernanda Müller de cultura trans”, para artistas da comunidade transgênera, travesti, não-binária, queer e agênero; e o “Quilombagens”, para a valorização da cultura negra e sua ancestralidade. 

Fora do âmbito legislativo, a cidade também conta com espaços dispostos à exposição de pequenos artistas e empreendedores, como as feiras públicas e privadas, de fácil acesso e alta frequência de ocorrência. Tais eventos juntam diversos tipos de produtores, de pintura, de moda, artistas manuais e digitais, músicos, produtores de comida, tudo em um ambiente só, para agradar todo tipo de consumidor. Eu, particularmente, participei de apenas uma, mas planejo voltar neste ano. Dentro da Universidade também se encontram estes espaços, tanto em muros e ambientes próprios do campus, quanto na Galeria do IAD, aberta a exposições de diversos meios de alunos. 

Para concluir, ser um artista independente no Brasil nunca será fácil, ainda mais com o descrédito de que artistas são automaticamente tachados de “menos” do que as outras profissões. Ter o apoio do governo, tanto nacional quanto municipal, facilita um pouco este meio entre “comecei agora, o que eu faço?” e ser um artista já formado, mas não exclui as outras dificuldades.  É um cargo cheio de pequenos trancos ao longo de sua trajetória, mas que vale a pena cada passo tomado. 

Olhar o mundo e absorver tudo o que acontece para depois transmitir em forma de arte, seja esta qual for, sempre valerá a pena. Mesmo que nem sempre financeiramente, o retorno de ter algo seu no mundo que alguém valorize, com que alguém se identifique, em que se inspire e que cause reações e emoções é transformador. Valorizem sempre aquele amigo que ainda não tem tanto reconhecimento, seja através de consumo, divulgação, indicação de oportunidades, o mesmo tanto que valoriza o artista gringo que já está em um patamar muito elevado.


Laura Coury Bernardes

Juiz-forana, artista intuitiva visual, criadora de conteúdo e em constante transformação. Estudante de Artes, idealizadora e gestora do Estúdio de Arte Ponto Três (@_pontotres), autodidata e colocando os primeiros pezinhos no mundo artístico digital.