O choque e a libertação de se encarar a Arte Brasileira

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 20, 2022 – Luana Lírio |  O choque e a libertação de se encarar a Arte Brasileira


A famosa e polêmica Semana de Arte Moderna aconteceu entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922 e tinha como principal objetivo propor uma nova visão de arte, de forma a abandonar modelos tradicionalistas e academistas, dando o nome e o reconhecimento que a “arte brasileira” merecia. Mas, afinal, o que seria a arte brasileira? Por qual motivo essa nova visão de arte foi tão criticada pela população da época? E, acima de tudo, qual a sua importância para a atualidade?

Sucessora de Romantismo, Realismo, Naturalismo e Parnasianismo, a arte modernista era nacionalista, irreverente, destruidora, anarquista e rica em liberdade de expressão, totalmente contrária aos valores estéticos antigos, com o qual o público estava acostumado. Artistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti e Anita Malfatti foram os organizadores desse movimento e trouxeram à tona quadros expressionistas, coloridos, com temáticas carnavalescas, poemas com linguagem coloquial, e obras críticas que rompiam os laços com Portugal e a Europa e aprofundavam as raízes do próprio Brasil. Diante de tantas inovações, o choque de se encarar a “arte brasileira” foi real, e o evento foi muito criticado pela população.

“Os Sapos”, poema de Manuel Bandeira, que criticava a estética parnasiana e foi extremamente vaiado pelo público durante o evento.

Meu nome é Luana Lírio, sou estudante de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora e sempre fui apaixonada por arte em sua imensidão, seja na música, na pintura, na dança, mas, principalmente, na escrita. Sou encantada pelo ato de ler e escrever desde pequena; comecei a escrever por conta própria aos oito anos de idade, inventando e criando histórias para personagens da minha cabeça, aos 14/15 me interessei por compor poemas e desde então nunca mais parei (apesar de alguns bloqueios criativos!). O mundo da literatura me cativou por completo e, ao receber o convite da Revista Casa D´ Itália para discorrer sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, aprofundei os estudos sobre o tema e, além de me encantar ainda mais, percebi o quão intensa é a ligação desse evento com a história da arte e o quanto isso reflete em artistas independentes, como eu. 

A partir do momento que foi exposta, a transformação do que se entendia por “fazer arte”, por tantos anos, repercute em artistas sucessores do movimento, de forma a nos tornar libertos para criar, para experimentar diversas estéticas diferentes, fazer arte por si próprio, da maneira como quiser e pelo motivo que quiser. As obras que criticavam as oligarquias cafeeiras de São Paulo refletiram em obras que criticariam as ditaduras militares de 1964 e continuam refletindo naquelas que criticam o atual governo no Brasil, assim como refletirá nas que criticarão muitos acontecimentos futuros. E não apenas críticas, como também exaltação de tantas e tantas outras temáticas, principalmente brasileiras, como propôs o movimento.

“Tropical”, quadro de Anita Malfatti, representa uma mulher carregando um cesto de frutas tropicais, a cara do Brasil na época. Há uma certa deformação da figura humana, já que Anita não se enquadrava aos padrões da estética acadêmica, além de apresentar variadas cores.

Ainda seguindo esse fluxo, o comentário negativo de Monteiro Lobato sobre a Semana e sobre as artes de Anita Malfatti, juntamente ao choque do público, são um dos tópicos que mais acho interessantes em relação ao evento. Di Cavalcanti pronunciou: “Seria uma semana de escândalos literários e artísticos, de meter os estribos na barriga da burguesiazinha paulista”, e não mentiu. Da mesma maneira que os artistas tinham a necessidade de criticar e exaltar temas nacionais da forma como queriam, o público também tinha total direito de se chocar e vaiar tais exposições, ainda mais por não estarem acostumados com aquilo. Isso retrata, mais uma vez, a liberdade de expressão. O que é arte para mim pode não ser arte para você ou para minha mãe, ou sua tia e seu tio. Trata-se de uma questão de costume, estudo e aprendizado, em que a beleza está na veracidade, na dúvida, no fascínio, no incômodo.

“Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas (..) A outra espécie é formada pelos que veem anormalmente a natureza e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (…) Embora eles se deem como novos, precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e com a mistificação(…) Essas considerações são provocadas pela exposição da senhora Malfatti onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia.”

Crítica de Monteiro Lobato sobre a Semana de Arte Moderna e sobre as artes de Malfatti. 

E foi desse modo que a Semana de Arte Moderna de 1922 se consagrou um dos marcos mais importantes na história cultural do Brasil. Inaugurada quando o país estava completando cem anos de sua independência, foi diante de tantas mudanças sociais, políticas e econômicas, pós-Primeira Guerra Mundial, que surgiu a urgência de uma nova estética, uma busca por inovações. E hoje, ano de 2022, exatos cem anos depois do evento, e após tantas outras mudanças sociais, políticas e econômicas, ele se mostra cada vez mais atual, apesar do passar de tantos anos. A integridade na relevância de se mostrar ao mundo a arte brasileira, de poder falar, poder respirar o que é o Brasil, desde a beleza do Nordeste ou do Rio de Janeiro até os mais diversos preconceitos e corrupções, de forma ousada, liberta, aclamadora ou protestante, foi o ponto de partida que inspirou e continua inspirando tantos artistas independentes herdeiros desse acontecimento. Além disso, tornou-se um tema que gera muitos debates interessantes devido às críticas da população da época sobre a ruptura com o tradicionalismo europeu e a experimentação de diferentes e novos modelos. Devido a todos esses fatores, acredito que, além de enaltecer o mérito da arte brasileira, o Modernismo se mostrou um movimento que veio para ficar, para quebrar paradigmas e gerar discussões, nos ensinando a nunca parar no mesmo lugar, a sempre seguir em frente, inovando e inventando novas técnicas, de geração em geração, seja para agradar ao público ou para chocar. Afinal, esse é o maior conceito da arte: revolucionar. 

Referências Bibliográficas:

https://www.todamateria.com.br/semana-de-arte-moderna/

https://laart.art.br/blog/semana-de-arte-moderna/

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/arte-anormal-a-dura-critica-de-monteiro-lobato-a-arte-de-anita-malfatti.phtml

https://www.culturagenial.com/poema-os-sapos-manuel-bandeira/

Materiais de estudo próprio adquiridos durante o Ensino Médio, como resumos e atividades feitos por professores, além do livro “Literatura: Tempos, Leitores e Leituras Parte III” Editora Moderna Plus (a partir da página 520).


Luana Lírio

Estudante de Letras Integral da Universidade Federal de Juiz de Fora. Artista independente que compõe suas próprias histórias em forma de contos, crônicas e, especialmente, poemas. Instagram pessoal @lrbssl e Instagram, que criou recentemente, para postar algumas poesias e outras aleatoriedades e belezas da vida @d3liri0s_