“A Mão de Deus”, novo filme de Paolo Sorrentino

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 20, 2022 – Daniel Giotti |  “A Mão de Deus”, novo filme de Paolo Sorrentino


Paolo Sorrentino é desses raros diretores que conseguem agradar a adoradores de um cinema mais autoral e a alguns consumidores de um cinema mais hollywoodiano.

Seu segredo está em focar a lente de suas câmeras nos dramas humanos, sem tomar partido direto nas escolhas pessoais e nas posições ideológicas ou filosóficas de suas personagens, ao mesmo tempo que consegue direcionar seu olhar também para os ambientes onde ocorrem seus filmes.

Já fez isso em “A Grande Beleza”, com Roma; já fez isso, de certa forma, com o luxuoso hotel em meio a uma “montanha mágica”, no qual estão os personagens do seu filme “A juventude”.

Os enredos e as fotografias são sempre impecáveis, apesar de haver quem considere as obras de Sorrentino excessivamente autorais e, por isso, tendentes a uma incompreensão barroca.

Seja como for, em seu novo filme, “A mão de Deus”, não há apenas o característico toque autoral do diretor, mas também o autobiográfico, aproximando-o mais da realidade das pessoas.

Fabietto Schisa, numa interpretação primorosa do ator Filippo Scotti, representa o jovem Sorrentino numa Nápoles que não mais existe, a da década de 80, em polvorosa com a chegada de Maradona ao clube de futebol local.

Para quem não acompanha o esporte, mesmo assim fica claro o motivo para se cogitar uma Nápoles antes de Maradona e uma outra depois que ele por lá esteve.

Apesar do erro futebolístico de Sorrentino em achar Maradona maior jogador do que Pelé — e nem argentino Paolo é —, tudo se explica no filme, em que ele revela como o craque o salvou da morte e de uma tristeza profunda.

Como num romance de formação, durante a trama, Fabietto desenvolve seu amor pela sétima arte em vários momentos: quando acompanha a tentativa de seu irmão em ser figurante num filme de Fellini; quando vê sua mãe passando um trote para a vizinha, dizendo-se assistente de Zeffirelli e a convidando para ser protagonista de um filme sobre Callas; e, finalmente, quando acompanha o próprio jovem conhece o diretor Capuano.

Com este último, Fabietto tem um diálogo formidável sobre qual seria a utilidade do cinema, recordando-me do interessante livro do italiano Nuccio Ordine, “A utilidade do inútil: um manifesto”, em que, entre tantas citações, está a do dramaturgo Eugène Ionesco: “se não se compreende a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, não se compreende a arte”.

Paolo Sorrentino de novo rende graças ao cinema italiano das décadas de 1960 e 1970, mas o que mais importa é que este filme, como outros seus, são sobretudo bons de se assistir, sem deixar de colocar quem os vê para refletir sobre a vida, enquanto nos entretêm por minutos preciosos, tão preciosos que sonhamos se eternizarem.

E tanto queremos isso que, assim como fazemos com os filmes antigos, vamos revendo Sorrentino e em Sorretino vamos buscando mais referências de filmes clássicos italianos.

Afinal, Fellini teria dito: “cinema não serve para nada. Mas é uma distração”.

E como não nos distrairmos com os encontros animados, amorosos e tumultuados da família Schisa — nada mais italiano —, com a paixão platônica de Fabietto por Patrizia — nada tão italiano — e com as contradições de homens como Saviero Schisa, interpretado por Toni Servillo, que não compra uma TV por controle remoto, por se dizer comunista, enquanto trabalha num banco — nada além de italiano ou humano?

O título do filme, como se percebe à primeira vista, alude ao gol “milagroso” de Diego Maradona contra os ingleses na final da Copa do Mundo de 1986. Coisa de gênio, ato político, nas palavras do Tio Alfredo, interpretado pelo também diretor Renato Carpentieri.

Entretanto, como costuma ocorrer na obra de Sorrentino, o final de seu filme não é nada convencional e permite uma leitura de que realmente somos senhores dos nossos próprios destinos, depois que descobrimos que estamos sozinhos no mundo e todos precisamos de coragem para contar nossas histórias, reais ou inventadas. 


Daniel Giotti

É juiz-forano apaixonado, escritor, autor de versos e crônicas que estão nos livros “Inverso Direito” e “1981 Ficou marcado na história”. Também é jurista e professor de Direito com vários artigos e livros publicados na área. Escreveu, ainda, recentemente com Cleber Antunes o livro “Caridade e Firmeza: origem, rito e história”